Capitulo 1
“A MORTE VESTE PRADA? JOVEM MODELO É MORTA EM ESTÚDIO!”
PASSARELA DE SANGUE? MAIS UMA GAROTA DA CAPA RUNWEY É ENCONTRADA SEM VIDA
“RUNWAY: QUANTAS GAROTAS MORRERÃO POR ESSE EMPREGO?”
Os periódicos encontravam-se expostos na sala de reuniões, instalada no 17° andar da editora Elias-Clarke, localizado na Sexta Avenida. Diante de Miranda Priestly e mais de dez editores, estavam Nigel Kipling, diretor de arte, e Emily Charlton. Após quase vinte anos de Runway, Emily não era mais a assistente número um, mas sim a responsável pela editoria de moda que, após um severo corte de verba, também abrangia a área de arte e cultura. O frio cortante daquele quase dezembro de NY chegava a ser aquecedor perto do clima, sem ironias, sepulcral instalado naquela sala.
Apesar dos casacos muito bem cortados, do cheiro predominante de perfumes importados — que deviam custar o ano todo de pagamento dos faxineiros daquele escritório — e do toque-toque dos Christian Louboutin, o clima de pânico era palpável. Até o gélido e cinzento olhar de Miranda havia ganho rajadas vermelhas após a editora global precisar, mais uma vez, dar esclarecimentos ao chefe do departamento de Homícidios de NY. Há dias ela não dormia tranquila, e nem suas bases ofensivamente caras conseguiam mais disfarçar as olheiras que denunciavam seu estado mental. Após a saída do delegado bigodudo e de dois investigadores, Miranda convocou uma reunião de contenção de danos. E mais do que sua própria imagem, ela lutava pela imagem da Runway.
Embora a chefe buscasse se manter em sua redoma de gelo, cobrando profissionalismo acima até do pânico, em seu discurso, Miranda usou palavras como "horrorizada", "inaceitável" e "terror". Era uma das poucas vezes que Emily a via utilizando tais léxicos sem ser para destruir o orgulho de algum costureiro que não escolhesse o modelo que a favorecia ou a autoestima de um infeliz fotógrafo que optasse pela iluminação errada para os layouts da revista.
Do jeito Miranda de ser, ela estava desesperada, pedindo ajuda. Nigel diria que era capaz até de ela querer um abraço se estivesse em um ambiente sem câmeras, celulares ou qualquer instrumento que pudesse registrar que a grande dama de ferro do mundo da moda também tinha seus dias de vulnerabilidade. A morte das jovens a acometeu violentamente, a ponto de lembrá-la de que poderia ser empática com a dor de alguém, o que era um verdadeiro motivo de pânico para Miranda. Além disso, seu olhar clínico captava o medo no olhar de cada um de seus funcionários e, para completar seu desastre, ainda era obrigada a dar satisfações a policiais que pareciam compartilhar o neurônio de uma porta e usavam roupas de loja de departamento. Uma crise completa!
— Quantas garotas serão mortas por esse emprego? — Conrad Smith, um senhor britânico que dirigia o setor de Jardinagem da Runway há anos, releu a capa do NY Times. Deu um gole em seu cappuccino após soprá-lo para desaquecer e também espantar o peso da manchete que acabara de ler. — Isso é péssimo para a revista, hein Miranda?
— Smith, não sei se é notável, mas eu sei ler! Você não é pago para ser medíocre, repetir o que está em letras garrafais bem na minha frente e reproduzir o óbvio — Miranda comentou sem alterar um décimo de seu tom de voz, o que, curiosamente, tornava a fala dez vezes ainda mais agressiva. — Nós precisamos tomar uma atitude!
Após a sentença de Miranda, um leve burburinho se instalou na sala com as sugestões do grupo corporativo. Sasha Miller, a garota morta da vez, era uma jovem de 19 anos. Ela havia cruzado a redação da Runway com seu 1m79 de altura e a timidez de uma recém-chegada a NY há pouco tempo. Estava radiante porque seria sua primeira capa. Emily havia opinado pessoalmente com Nigel sobre o suéter de tricô chumbo, de alta linha, e as botas Valentino que a garota exibiria no ensaio da edição de dezembro da Runway. Não deu tempo. No dia marcado para as primeiras fotos, Sasha foi encontrada morta, e seu corpo saiu do estúdio de fotografia marcado pela revista envolto em um saco preto e sob muito desespero por parte da equipe de fotografia que a encontrou sem vida.
Sasha foi a quarta de uma série em cadeia. O primeiro assassinato ocorreu em setembro: Michelle Perez, modelo que já havia trabalhado com a Runway, fotografaria novamente e foi encontrada sufocada por um lenço valiosíssimo da Hermès. Depois, mais dois casos parecidos: Stacy Anderson, do Texas, encontrada assassinada em um conjunto Schiaparelli que custava o valor de um estúdio em Manhattan; e Liz Clark, morta com um alfinete de ouro no pescoço. Todas eram mulheres com alguma ligação com a revista, encontradas mortas e, o mais bizarro de toda a situação, reproduzindo capas aclamadíssimas. Era claro que lidavam com um obcecado pela Runway.
— Tenho a impressão de que nossas cabeças serão servidas em uma baixela de prata ou ouro branco em praça pública — Nigel soprou no ouvido da ex-assistente número um enquanto mexia em seu celular. — Olha isso aqui...
O diretor de arte estendeu seu iPhone de última geração a Emily, que parou de descontar seu nervoso manipulando um grampeador sem grampos que alguém havia esquecido sobre a mesa. Leu a tela. Tratava-se de comentários de uma postagem de rede social que noticiava a morte de Sasha. Uma pessoa levantava a hipótese de o assassino estar dentro da equipe de funcionários da Runway, explicando a facilidade de acesso a peças tão caras. O comentário provocou uma discussão enorme, com algumas pessoas inclusive acusando Miranda explicitamente. Foi a vez de Nigel descontar sua tensão no grampeador sem grampos enquanto Charlton descia a barra de rolagem da tela.
A fama de Priestly não era exatamente de uma pessoa simpática, muito por conta do estado de saúde mental com que suas assistentes saíam da Runway, o que contribuía para o julgamento alheio. Apesar de não ser mais a assistente número um, a lealdade de Emily sempre falava mais alto.
— Eles nem conhecem a Miranda como nós conhecemos para falar desse jeito — Emily ajeitou sua correntinha de ouro com a inicial “J” que sempre trazia no pescoço. — Ela jamais faria isso...
— Evidente que não, mas parece que as pessoas só se sentem estimuladas a levantar da cama se for para crucificar alguém...
Emily acenou em acordo enquanto assistia a Nigel ainda manipular o grampeador.
— Miranda mataria alguém? Provavelmente se a obrigassem a usar roupas que vendem no Walmart, mas planejar uma morte para reproduzir uma capa? Isso é loucura! Estamos lidando com uma mente doentia... — Puxou de volta o grampeador de Nigel como se fossem duas crianças dividindo uma Barbie. — Minha vez de novo, estou nervosa.
— Nem foi a minha vez direito! — Ele reagiu, ajeitando os óculos. Emily apenas deu de ombros e Nigel se deu por vencido. — Emily?
A pergunta de Nigel não foi respondida por conta do aviso vibratório do celular da ruiva. Notificação de mensagem. Ao conferir, um aristocrático bico britânico se formou em seu rosto.
— Você fez exatamente a mesma cara que a Júlia fez quando você a proibiu de descolorir o cabelo para compor o cosplay daquele anime... Como é mesmo o nome?
— Naruto?
— Exato. A genética é fascinante, até arriepei. Parece que estou diante do nosso pretty little baby. — Emily sorriu com a menção de Júlia, que não era mais um bebê, para seu espanto. Com doze anos completos e muitos “por que eu não posso? Todo mundo faz, mãe!”, Júlia era oficialmente uma adolescente. Nigel, padrinho de sua “rebelde sem causa”, se recusava a chamá-la de outra coisa que não fosse pretty little baby. — O que houve?
Foi a vez de Emily estender o celular ao amigo.
— Sua queridinha está convocando a imprensa para uma noite de autógrafos... A eterna assistente dois está de volta a NY — Nigel teve a impressão de que Emily parecia acelerar os apertos ao pobre grampeador. — A Netflix vai adaptar um dos livrinhos dela...
— Sim, vai ser Névoa e Orquídeas. Eu, particularmente, achei esplendoroso... Lena Moralez vai fazer a Flora Mendez...
— Eu vi. Não lembro em qual parte do livro citam que a Flora tem todo aquele silicone horrendo... — Emily verificou suas unhas. — Também, apenas dei uma passada de olho rápida...
— Sei...
— Editora de Cultura, né? Ossos do ofício, tenho que observar o circo que as pessoas andam consumindo. Hoje em dia, só de você não produzir algo no ChatGPT já chamam de cultura.
Nigel esboçou um sorriso curto, como se guardasse um segredo, e leu a notícia enviada por uma representante de Andréa à editora de moda, arte e cultura da Runway. Já se faziam quinze anos que Andy havia jogado seu celular embaixo d'água, junto com a chance pela qual mil garotas se matariam para ocupar o lugar dela há vinte anos. Eles não tinham convívio com Andréa, mas sabiam de sua trajetória de sucesso.
Andrea havia se consolidado como repórter investigativa: desvendou esquemas de corrupção valiosíssimos, ajudou a polícia a desbaratar quadrilhas inteiras, viajou pela América Latina atrás de traficantes de drogas, cobriu casos de assassinatos forjados como suicídios e chegou ao patamar mais alto do jornalismo, sendo premiada com o Pulitzer por dois anos seguidos. Um fenômeno da área.
Além disso, tornou-se uma renomada escritora de romances policiais. Lançou alguns livros adultos e escreveu para o público infanto-juvenil, e deu certo. Tornou-se best-seller e agora a Netflix comprava os direitos para transformar sua trilogia de Névoa e Orquídeas em filme. E como Emily sabia disso? Porque sua “aborrecente” era uma grande fã de A. G. Sachs. Se Júlia soubesse da proximidade da mãe com Andy, com certeza inventaria uma gincana para conseguirem um autógrafo naquele bendito dia.
— Quem diria que você geraria a garota que se mataria pelo manuscrito inédito da 46 — Nigel soltou um leve ar próximo do riso e aproveitou para puxar o grampeador de volta para si. — E há quem duvide que a Terra é redonda e a vida é cíclica. — Emily revirou os olhos. — Vai levar nossa Baby?
— Nigel...
— E daí ela ser fã da Andy? Eu sei que você tem sua mágoa, mas ela estava fazendo o trabalho dela — Nigel disse. — E pelo menos não é uma transfóbica escrota como a criadora daquele brux...
Emily não teve tempo de interromper Nigel porque Miranda se antecipou.
— Espero que esse diálogo particular entre vocês resulte em alguma ideia que salve a reputação da Runway desse banho de sangue em que essa redação se transformou. Do contrário, eu mesma vou usar esse detestável grampeador em um atentado. — Os dois permaneceram mudos. Emily sentiu a saliva correr por sua garganta enquanto repetia mentalmente seu mantra: “eu amo meu trabalho, eu amo meu trabalho”. — Emily?
— É... Eu...
— Na verdade, estávamos discutindo que falta traquejo em todos nós para lidar com essa situação — Nigel se manifestou. — Talvez fosse o caso de contratar alguém que já tenha essa experiência com a polícia, com casos tão delicados como esses. Essa pessoa poderia nos ajudar a dialogar com eles e também com a imprensa, ao mesmo tempo que poderia auxiliar na investigação para protegermos futuras vítimas. Esse sujeito não parece disposto a parar se não for pego.
Miranda encarou os dois realmente surpresa. Acreditou que eles apenas fofocavam e a irritavam com o maldito grampeador.
— Parece que alguém resolveu trabalhar hoje. Mas não sei se enfiar alguém estranho aqui, com essa onda de crimes acontecendo, seja o mais recomendável. Ou vocês têm algum nome em mente?
Emily e Nigel se entreolharam de maneira tão profunda que Nigel conseguia enxergar o mapa das veias do rosto da britânica.
— Temos. Na verdade, Emily tem — Emily arregalou seus olhos azuis. — A. G. Sachs! — Em resposta, Nigel levou uma pisada de uma bota tratorada Valentino 2023. Os olhos de Miranda pareceram viajar em busca do nome. — Ela já trabalhou aqui... Foi para a semana de Paris...
— Esqueça, Miranda, foi uma ideia... — Emily se manifestou com um sorriso amarelo enquanto necrosava o dedinho do pé de Nigel com sua bota. — Mas já passou. Foi uma péssima ideia que tive!
— Foi uma das Emilys! — Nigel insistiu, o que parecia não surtir efeito na memória de Miranda. Emily intensificou o pisão. — A garota gorda e inteligente!
— Eu estava aqui? — Miranda fez um gesto negativo. — Emily tem razão... — Emily sorriu. — Foi mesmo uma péssima ideia colocar qualquer uma para trabalhar nesse ambiente. Parabéns por reconhecer sua estupidez.
Emily deu um sorriso e pressionou o mindinho de Nigel com toda sua força.
— Ela ganhou o Pulitzer em 2022 e 2023, desvendando o caso das falsas vacinas e do Senador Kingston. É uma repórter investigativa de notória competência e vai passar uma temporada em NY — Nigel deu um beliscão na perna de Emily que, em reflexo, levantou o pé e livrou seu dedinho. — Ela é autora de Névoa e Orquídeas.
Miranda, que já estava de costas, prestes a sair, parou. Todos na mesa se voltaram em direção a Nigel. O nome do livro surtiu o efeito que ele esperava.
— Meu Deus, eu adoro A. G. Sachs! — Conrad se manifestou. — Tenho todos os livros! Não sabia que foi uma das Emilys!
— Eu sou apaixonada pela Flora Mendez! — Donna Hudson, editora de Decoração, confessou. — Essa menina parece filha do Sidney Sheldon com a Agatha Christie.
— Ninguém de fora da América Latina retratou a América Latina com tanta verdade como a Sachs! E ela é ótima, se tem alguém que pode nos ajudar, é ela!
Mais uns três editores concordaram com gestos animados. Miranda já tinha lido Névoa e Orquídeas, uma sequência policial ambientada no México, Brasil e Argentina de tirar o fôlego. Nigel a presenteara com o exemplar da trilogia, e ela leu tudo em três semanas.
— Pulitzer por dois anos seguidos é... aceitável! — murmurou de modo avaliador. — Vocês têm o contato dessa Arthur Conan Doyle da atualidade? Sabem onde encontrá-la?
— Emily pode fazer a ponte — Nigel afirmou. Emily voltou a manipular o grampeador como se fosse um Yorkshire roendo um osso de plástico. — Hoje à noite, ela vai cobrir a noite de autógrafos da Andréa no The Plaza!
Emily repetia seu mantra, “eu amo meu trabalho”, mentalmente, mas estava a ponto de enfiar aquele grampeador goela abaixo de Nigel. Miranda mirou seu olhar em direção à editora de moda, arte e cultura.
— Quero Sachs na minha sala amanhã — aproximou-se de Emily de modo que conseguia ver a pulsação do batimento cardíaco da ruiva pela veia do pescoço. — Nove horas, sem atrasos!
— Mas... Eu não sei se ela estará disponível.
— Faça a mágica acontecer... — Tomou o grampeador das mãos de Emily e o jogou em sua pasta de couro. — That’s all!
Fim do capítulo
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