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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 3209
Acessos: 143   |  Postado em: 12/05/2026

Capitulo 27

 

O hospital cheirava a antisséptico e exaustão. Luzes claras demais, com corredores silenciosos e gente andando rápido. Amanda não saiu dali, nem por um minuto. Ela havia recebido o primeiro atendimento, limparam os cortes, suturaram o supercílio. Seus ferimentos eram superficiais — cortes, hematomas, dor espalhada pelo corpo — mas nada comparado ao que tinham levado Fernanda para o centro cirúrgico.

A bala tinha ficado alojada no ombro, por centímetros… não tinha sido pior.

E aqueles centímetros agora pesavam como horas.

Amanda não aguentou ficar deitada na cama em observação, estava sentada na cadeira ao lado de uma maca, os olhos fixos na porta fechada da cirurgia, como se pudesse atravessar a parede com a própria vontade.

O tempo ali não passava, ele se arrastava.

Até que a porta se abriu. Uma médica saiu de lá e tirou a máscara com calma.

Dra. Camila Arantes.

Alta, postura impecável. Pele negra que contrastava com o jaleco branco, olhos firmes e atentos — intensos o suficiente para prender qualquer atenção por alguns segundos a mais do que o necessário.

Amanda sustentou o olhar por um instante antes de responder.

— A senhora é familiar da Fernanda Vasconcellos?

— Sou. Amanda Bastos… namorada dela. — A resposta saiu mais ríspida do que pretendia, sem que ela entendesse exatamente o porquê.

A médica assentiu, profissional, mas acolhedora.

— A cirurgia foi um sucesso — disse, com segurança — a bala foi removida e não houve lesão em órgãos vitais. Ela vai sentir dor, mas está fora de risco.

Amanda soltou o ar como se estivesse prendendo desde o galpão.

— Posso vê-la?

Camila assentiu.

— Assim que ela for para o quarto.

Pausa.

— Você devia estar sendo atendida também.

Amanda quase sorriu.

— Depois, preciso ver ela primeiro.

Camila a observou por um segundo a mais, como se entendesse.

Fernanda acordou no dia seguinte. Devagar, como se estivesse voltando de um lugar distante.

A primeira coisa que sentiu foi o peso no ombro. Depois o cheiro do hospital. Depois… calor.

Virou levemente o rosto.

Amanda.

Dormindo sentada, a cabeça apoiada na lateral da cama, a mão ainda segurando a dela.

Como se tivesse medo de soltar. Fernanda observou por alguns segundos.

Silenciosa.

Então apertou levemente os dedos. Amanda acordou na mesma hora.

— Ei…

A voz saiu baixa. Aliviada demais.

— Oi… — respondeu Fernanda, com um meio sorriso — você tá com uma cara péssima.

Amanda riu, quase chorando ao mesmo tempo.

— E você levou um tiro!

— Detalhe.

— Fernanda…

A mão dela subiu até o rosto da investigadora, com cuidado. Como se ela pudesse quebrar.

— Eu não sabia se você estava bem… — murmurou Fernanda — e este reencontro demorou mais do que devia.

Amanda estreitou os olhos.

— Eu quase te perdi.

O silêncio que veio não foi pesado. Foi íntimo. Fernanda puxou levemente a mão dela.

— Não perdeu, eu estou aqui.

Pausa.

Amanda se inclinou, o beijo veio suave, lento. Com muito mais cuidado e alívio do que urgência e desejo.

E então...

— Acho que estou interrompendo.

As duas se afastaram no mesmo segundo. Dra. Camila parada na porta observando as duas.

Amanda limpou a garganta.

— Não... estávamos...

— Claro que não — disse Camila, com um leve sorriso profissional — só conferindo sinais vitais, imagino.

Fernanda segurou o riso.

Amanda… não.

— Como você está se sentindo? — perguntou a médica, se aproximando.

— Já estive pior — respondeu Fernanda.

— Acredito — disse Camila, avaliando o curativo com cuidado — mas vai precisar de repouso. E você — olhou para Amanda — também.

Amanda cruzou os braços.

— Eu estou bem.

— Está exausta — corrigiu Camila, com naturalidade demais — e deveria estar descansando, não fazendo plantão aqui.

Silêncio.

Amanda não gostou nada.

Fernanda percebeu.

E, claro…

— Doutora, ela não escuta ninguém — comentou, com um sorriso leve — mas pode tentar.

Camila ergueu uma sobrancelha.

— Eu sou insistente. — Falou piscando para Fernanda, mas em tom de brincadeira.

Amanda respirou fundo antes de responder, organizando mais do que palavras.
— Obrigada por cuidar dela — disse, com suavidade — eu realmente espero que continue assim.

O olhar voltou rapidamente para Fernanda, mais íntimo, mais verdadeiro.
— Eu volto depois.

E sem perder a postura, virou-se e saiu, antes que o resto aparecesse.

 

À noite, depois que o movimento do hospital diminuiu e o silêncio tomou conta do corredor, Amanda reapareceu no quarto com cuidado. Trazia nas mãos um pequeno potinho de sobremesa que tinha conseguido com uma enfermeira no jantar — nada sofisticado, mas escolhido com atenção.

— Trouxe algo doce… — disse, quase tímida, mas com um sorriso leve — achei que você merecia.

Fernanda ergueu uma sobrancelha, interessada.

— Isso é suborno?

— Talvez.

Amanda se aproximou da cama, sentando com cuidado ao lado dela. Pegou a colher e levou até a boca de Fernanda, com um cuidado que dizia mais do que o gesto em si.

— Abre.

Fernanda obedeceu sem discutir, um meio sorriso surgindo.

— Hm… — murmurou — agora sim eu vejo vantagem em quase morrer.

— Não brinca com isso — respondeu Amanda, mas sem dureza. Só preocupação.

O olhar entre elas sustentou por um instante. Íntimo. Calmo.

Foi quando a batida na porta quebrou o momento. Amanda suspirou baixo, levantando-se.

— Deve ser o Paulinho.

—  Então vou deixar vocês conversarem. —  Abriu a porta pra ele.

— Oi, entra.

— Boa noite garotas.

— Eu já volto. — Disse Amanda saindo do quarto.

Ele sentou em uma cadeira ao lado da cama.

— Eu interrompi algo ou isso aqui virou novela das nove?

Fernanda revirou os olhos.

— Fala logo.

Ele entrou ficou sério.

— Elias morto. Operação avançando. Nome grande caindo. Você… oficialmente fez um estrago bonito.

— Eu não fiz sozinha.

Paulinho lançou um olhar rápido ao redor, percebendo a ausência.

— Percebi.

Pausa.

— E vocês duas… — inclinou a cabeça — vão me contar ou eu finjo que não vi nada?

— Finge — respondeu Fernanda, sem hesitar.

Ele riu.

— Certo. Vou fingir mal.

A conversa seguiu por alguns minutos, mais técnica, mais direta. Atualizações, próximos passos, o peso real do que ainda estava em andamento. Quando Paulinho saiu, fechando a porta atrás de si, o quarto voltou ao silêncio, pelo menos até Amanda voltar pouco depois.

Amanda entrou de volta, agora de pijama, cabelo levemente úmido do banho, o rosto mais leve — mas os olhos ainda atentos. Mais presente.

— Já foi? — perguntou, em voz baixa.

Fernanda virou o rosto na direção dela, um sorriso surgindo sem esforço.

— Foi.

Amanda se aproximou devagar, como se retomasse algo que tinha sido apenas pausado.

— Então agora… — murmurou, parando ao lado da cama — eu posso continuar cuidando de você.

Fernanda sorriu.

— Isso parece uma ameaça.

Amanda subiu na cama com cuidado, se acomodando ao lado dela.

— Só se você não me abraçar e dormir.

Fernanda fechou os olhos.

E, pela primeira vez em dias…

dormiu de verdade.

 

No dia seguinte, Solange Vasconcellos entrou no quarto como quem sempre teve direito àquele espaço.

Elegante, postura firme, olhar atento.

— Minha filha…

Fernanda abriu os olhos.

— Mãe?

Amanda travou, por um segundo inteiro.

— Oi, querida — disse Solange, abraçando Fernanda com cuidado — você podia avisar que ia levar um tiro.

— Vou tentar na próxima.

Solange então olhou para Amanda analisando-a.

Sorriu.

— Você deve ser a Amanda.

Amanda piscou, pega de surpresa pela presença firme e pela forma direta.

— Eu… sou.

A mulher sorriu, gentil, mas com um olhar atento — daqueles que analisam sem parecer invasivo.

— Prazer. Eu já tinha ouvido falar de você.

Fernanda soltou um riso baixo, apoiando a cabeça no travesseiro.

— Claro que sabia.

Solange sorriu, calorosa.

— Eu vim pra cuidar dela por uns dias. Não ia conseguir ficar em casa sabendo disso tudo.

Pausa.

— Seu pai não pôde vir… sabe como o Jorge fica preocupado com sua avó sozinha, a dona Eloá só apronta. Você sabe como ela é — disse, voltando-se para Fernanda — noventa anos e mandando em todo mundo ainda.

Fernanda soltou um riso curto.

— Sim mãe, fico só imaginando aqueles dois sem você.

O ambiente começou a se ajustar, ficando mais leve… até a porta abrir novamente.

Dra. Camila entrou.

Postura impecável, jaleco alinhado, presença que preenchia o espaço sem esforço. O olhar foi direto para Fernanda, profissional, preciso.

— Bom dia meninas. — Falou cumprimentando de modo geral.

— Vamos dar uma olhada?

Ela se aproximou, avaliando o curativo com cuidado técnico, mas toque seguro. Retirou parcialmente a proteção, analisou o local da cirurgia, observando cada detalhe.

— A cicatrização está ótima — disse, objetiva — sem sinais de infecção, resposta muito boa ao procedimento.

Fernanda assentiu.

— Posso sair daqui?

Camila ergueu o olhar, um leve sorriso surgindo.

— Pode. Vou te dar alta hoje.

Amanda relaxou os ombros, mas só por um segundo.

— Só precisa manter repouso relativo, nada de esforço com esse braço — continuou a médica — e retornar ao meu consultório em três dias para reavaliação.

Ela escreveu algo rapidamente no prontuário e entregou.

— Qualquer dor fora do esperado ou alteração, me procura antes disso.

Amanda cruzou levemente os braços, observando.

— Pode deixar que eu a acompanho na reavaliação.

Camila olhou para ela por um instante a mais, avaliando.

— Eu imagino que sim.

A resposta foi profissional, mas o tom tinha uma leve camada a mais.

Amanda sustentou o olhar, um sorriso educado — controlado.

— Com certeza.

Fernanda percebeu. E, como de costume, não ajudou.

— Não se preocupe doutora, estou bem assistida, não acha?

Amanda lançou um olhar rápido para ela.

— Muito.

Camila apenas assentiu, encerrando.

— Então, está liberada.

Fernanda soltou o ar com alívio, quase como se só naquele momento tivesse percebido que ainda esperava por permissão para voltar a existir fora daquele quarto, fora dos cuidados médicos, fora do susto.

Amanda percebeu. E, sem dizer nada, apenas tocou de leve a mão dela.

Foi um gesto pequeno, mas Fernanda entendeu.

 

Alguns minutos depois, deixaram o hospital com orientações, recomendações e uma lista de cuidados que Amanda parecia determinada a seguir como se fosse uma prescrição sagrada.

Mais tarde, já fora do hospital, no caminho até o apartamento de Fernanda, o silêncio no carro não era desconfortável. Era ajuste. Reorganização.

Na casa de Fernanda, Boris fez questão de demonstrar indignação.

Ele ficou parado. Olhando. Sem se aproximar.

— Você tá de brincadeira comigo — disse Fernanda.

O gato piscou devagar, como se julgasse cada escolha dela nos últimos dias. Amanda segurou o riso.

— Acho que alguém sentiu sua falta.

Boris virou o rosto, ignorando completamente.

— Ah, agora você tem dignidade? — continuou Fernanda — porque comida não faltou, né?

O gato finalmente se moveu. Mas não foi até ela. Passou direto.

— Ingrato.

— Dramático — corrigiu Amanda, divertida.

Solange entrou logo atrás, observando a cena.

— Já vi de quem ela puxou isso aí.

Fernanda olhou para a mãe.

— Isso o quê?

— Esse jeito de achar que o mundo gira ao redor.

Amanda não conseguiu segurar o riso dessa vez, finalmente estavam juntas, em casa e em um ambiente que realmente parecia seguro.

Os dias seguintes foram leves. Solange assumiu a casa com naturalidade, organizando tudo ao seu jeito, enquanto preenchia os espaços com histórias — muitas delas constrangedoras demais para o gosto de Fernanda.

— Ela chorava porque o sanduíche não era simétrico.

— Mãe!

Amanda ria, genuína, enquanto tentava ajudar na cozinha. Sob o olhar atento de Solange, arriscava receitas, recebia instruções, corrigia erros no meio do caminho.

Aprendia. Errava. Tentava de novo. E, do outro lado, Fernanda assistia a tudo — entre um comentário irônico e outro — se permitindo relaxar, dia após dia.

 

O último dia de Amanda longe do trabalho passou rápido demais.

À noite, já no quarto, ela se preparava para dormir quando Fernanda saiu do banho, os cabelos ainda úmidos caindo sobre os ombros, vestindo apenas uma camiseta larga e calcinha. A cena, simples demais para ser inocente, fez Amanda esquecer por alguns segundos o que estava fazendo.

Fernanda passou por ela devagar, perto o bastante para que o cheiro de sabonete, pele quente e banho recém-tomado invadisse o ar entre as duas.

Amanda acompanhou cada movimento em silêncio.

Fernanda caminhou até a penteadeira, pegou um creme e virou o rosto na direção dela. O olhar pidão veio primeiro. Depois, o sorriso pequeno, quase cruel, de quem sabia exatamente o efeito que causava.

Estendeu o frasco para Amanda, virou de costas e deixou a camiseta escorregar um pouco pelo ombro.

— Passa em mim?

Amanda olhou para o creme, depois para a pele exposta de Fernanda. Por um instante, nenhuma resposta pareceu segura.

— Você sabe que a tua mãe está na sala, né? — murmurou, mas a voz saiu baixa demais para soar como uma reclamação.

Fernanda deu de ombros, sem a menor pressa.

— Sei.

Amanda tentou sustentar o olhar sério, mas falhou quando Fernanda se aproximou mais um passo.

— Mas, amor…

— O quê?

A pergunta veio mansa, quase inocente. Quase.

Fernanda encurtou a distância entre elas, tomou o creme da mão de Amanda e colocou de volta sobre a penteadeira. Depois, apoiou as mãos na cintura dela, deslizando os dedos com uma calma calculada.

— Eu quase morri.

Amanda prendeu a respiração quando Fernanda inclinou o rosto em direção ao seu pescoço.

— Isso não é argumento válido.

— Pra mim é.

A resposta veio junto com o primeiro beijo, lento, quente, depositado logo abaixo de sua orelha. Amanda fechou os olhos por um segundo, tentando reunir alguma resistência, mas Fernanda parecia conhecer todos os caminhos para desfazê-la.

— Fernanda… — sussurrou, em aviso.

— Amanda… — ela devolveu, no mesmo tom, roçando os lábios em sua pele.

Era para ser uma bronca. Era para ser prudência. Era para lembrar que havia alguém na sala, paredes finas demais e uma casa inteira entre a razão e o desejo.

 

Mas Fernanda beijou seu pescoço de novo, mais devagar, e Amanda soube que estava perdida muito antes de admitir.

— Você é impossível.

— E você gosta.

 Amanda cedeu, mas não de qualquer jeito.

O primeiro toque veio leve, quase cauteloso, como se ela pedisse permissão antes mesmo de encostar. Havia desejo em seus gestos, sim, mas também havia cuidado. Um cuidado atento, paciente, que respeitava o limite do ombro machucado de Fernanda sem transformar aquilo em distância.

Amanda assumiu o controle com delicadeza.

Guiava mais do que pressionava. Aproximava mais do que exigia. Suas mãos encontravam a pele de Fernanda como se a conhecessem de cor, mas ainda assim quisessem reaprendê-la naquele novo contexto, naquele corpo que agora pedia atenção em outros pontos, outros ritmos, outras pausas.

Fernanda ficou imóvel por um instante, não por resistência, mas pelo impacto. Pelo jeito como Amanda a tocava, como se cada gesto dissesse: eu quero você, mas não vou te machucar.

Amanda se inclinou devagar, e seus lábios encontraram a pele de Fernanda com uma suavidade quase cruel. Um beijo demorado, quente, depositado com intenção. Depois outro e mais um, descendo em um ritmo lento demais para ser inocente.

Cada movimento parecia escolhido com cuidado, como se Amanda soubesse exatamente onde queria chegar, mas fizesse questão de aproveitar o caminho.

Fernanda reagiu aos poucos. Primeiro, a respiração pareceu desacelerar, entregue à calma daquele toque. Depois, mudou de novo, ficando mais funda, mais instável, escapando em pequenos intervalos sempre que Amanda demorava um pouco mais em algum ponto sensível.

O corpo dela respondia não pela urgência, mas pela presença e pelo desejo que crescia justamente porque Amanda não tinha pressa nenhuma em satisfazê-lo.

Os dedos de Amanda deslizaram com leveza, contornando caminhos conhecidos, mas agora com uma intenção diferente. Mais consciente e provocante. O cuidado não diminuía o desejo — apenas o deixava mais denso, perigoso e difícil de ignorar.

O espaço entre elas foi desaparecendo naturalmente.

Pouco a pouco.

Pele, calor, respiração.

Fernanda soltou o ar devagar, os olhos já fechados, a cabeça inclinando levemente para o lado, oferecendo mais acesso, mais espaço, mais entrega. Amanda percebeu o gesto e sorriu de leve antes de beijá-la ali, exatamente onde Fernanda parecia pedir em silêncio.

— Eu podia me acostumar com isso… — murmurou Fernanda, a voz baixa, rouca, mais sentida do que provocativa.

Amanda sorriu contra a pele dela, sem interromper o ritmo.

— Não se acostuma.

Fernanda abriu os olhos devagar, ainda meio perdida no toque.

— Por quê?

Amanda aproximou os lábios do ouvido dela, e a resposta veio quase como um sussurro, quente o bastante para arrepiar.

— Porque eu pretendo variar.

Fernanda riu baixo, mas o som saiu falho, misturado à respiração. Dessa vez, não tentou conduzir. Não provocou. Não apressou. 

Apenas deixou acontecer.

Deixou que Amanda ditasse o ritmo. Que suas mãos decidissem o caminho. Que seus beijos desfizessem, pouco a pouco, qualquer tentativa de controle.

E, entre o cuidado e o desejo, Fernanda se deixou levar.

Pelo toque.

Pela calma.

 

Pela forma como Amanda parecia saber exatamente como tocá-la sem pressa — e ainda assim fazê-la perder completamente o chão.

A madrugada seguiu mais calma depois disso, com as duas encontrando, entre o cuidado e o desejo, um silêncio confortável o bastante para adormecerem juntas.

Na manhã seguinte Amanda se arrumava.

— Vou trabalhar.

— Traição — murmurou Fernanda.

— Drama.

Ela se inclinou.

Beijo rápido.

— E vê lá essa médica…

Fernanda abriu um sorriso.

— Ciúmes?

Amanda pegou a bolsa.

— Nenhum.

Pausa.

— Só não gostei dela.

— Claro.

 Depois que Amanda saiu, Fernanda levantou e foi até a cozinha tomar café com sua mãe, se arrumaram e foram direto para clínica, ela estava ansiosa para saber quando voltaria a trabalhar.

Dra. Camila, estava impecável como sempre.

— Recuperação excelente — disse, analisando — em uma semana você começa fisioterapia.

— Uma semana?

— Sim.

— Eu tenho trabalho.

Camila sustentou o olhar.

— E agora tem um ombro em tratamento.

Silêncio.

Fernanda suspirou.

— Tá bom.

Camila sorriu de leve.

— Boa decisão.

Fernanda levantou.
— Não se acostume.

— Eu nunca me acostumo com pacientes teimosas.

— Nem eu com médicas insistentes.

Camila assentiu, fazendo uma última anotação.
— Sete dias. Sem heroísmo até lá.

— Prometo tentar.

Fernanda saiu da sala e encontrou Solange no corredor, sentada, postura tranquila, mas o olhar atento de quem estava acompanhando tudo.

— E então? — perguntou a mãe, levantando-se.

— Liberada… com supervisão — respondeu Fernanda, fazendo uma careta leve.

— Ou seja, sob meu comando — devolveu Solange, já assumindo o controle com naturalidade.

Fernanda soltou um riso baixo.

— Eu devia ter ficado no hospital.

— Tarde demais pra arrependimento.

Solange já se posicionou ao lado dela, acompanhando seus passos com cuidado, mas sem alarde. As duas seguiram pelo corredor juntas, em um ritmo mais lento, até a saída. Do lado de fora, o ar parecia diferente — mais leve, apesar de tudo.

E, sem precisar dizer mais nada, foram para casa.

 

Fim do capítulo


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