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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1468
Acessos: 132   |  Postado em: 12/05/2026

Capitulo 26

 

O lugar não parecia um espaço, parecia uma intenção. Concreto quebrado, metal oxidado, som oco. Um tipo de abandono que não era acaso — era escolha. O ar era denso, carregado de umidade e ferrugem, como se o próprio ambiente tivesse memória do que já tinha acontecido ali.

Fernanda desligou o carro antes de chegar. O silêncio agora era estratégia.
Por um segundo, ficou imóvel dentro do veículo, sentindo o próprio pulso alto demais — não de medo, mas de foco absoluto.

Com a arma na mão, aquele objeto frio ancorava a realidade. A tensão subiu, controlada, canalizada. O perigo era real.

Ela entrou.

O som dos próprios passos parecia alto demais. Cada passo, um eco. Cada eco, uma denúncia.
O cheiro metálico no ar misturado com mofo. Espaço amplo. Colunas. Som que reverberava errado.

E então… o movimento.

Um vulto à esquerda. O primeiro bandido veio rápido, tentando surpreendê-la. Braço levantado, ataque direto.

Fernanda leu o movimento antes do impacto. Girou o corpo no reflexo. O golpe passou por onde ela estava um segundo antes. Ela respondeu sem pensar. Ainda de costas, o cotovelo subindo — o impacto foi direto no maxilar.

O som foi seco. Duro.

O homem cambaleou, cuspiu sangue, mas avançou de novo.

Este foi seu erro.

Fernanda entrou na guarda dele. Um soco curto no estômago, precisão cirúrgica. O corpo dele dobrou. E, antes que reagisse, um chute lateral no joelho.
O estalo da articulação ecoou no espaço vazio.

Ele caiu, sem nenhum tipo de controle ou elegância, se contorcendo de dor.

O segundo homem não deu espaço. Veio por trás, mais pesado, mais bruto. O braço travando o pescoço dela, muita força esmagando a traqueia. O ar faltou imediatamente. Fernanda tentou reagir, mas o homem era mais pesado do que esperava. O antebraço pressionava forte demais sua garganta. A visão oscilou por um segundo. Ela bateu o cotovelo para trás, nada, outro impacto, ainda mais forte, o braço apertou ainda mais, agora doí de verdade.

Fernanda sentiu o corpo perder força por um instante perigoso demais. O joelho quase tocou o chão e foi exatamente isso que a salvou.

Em vez de lutar contra o peso, ela cedeu. Levou o peso para frente. Deslocou o centro, pisou com força no pé dele — o impacto subiu pela perna do homem. Girou o quadril e puxou o agressor junto, os dois foram ao chão, mas ela caiu já virando o corpo, por cima, montando e mantendo o controle. Disparou um soco de direita, outro de esquerda, mais um e mais um. Até o rosto dele perder forma. Até o corpo parar de reagir.

Silêncio.

Respiração pesada. Sangue quente no ar.

E então… a voz.

— Impressionante investigadora.

Fernanda virou devagar.

Mais à frente, Elias estava parado, com a arma firme na mão apontada e Amanda à frente dele.

O contraste era brutal. Ela estava machucada, muito mais do que ela imaginava.

O rosto inchado de um lado, um corte aberto próximo à sobrancelha, sangue seco misturado com o mais recente. A respiração irregular, protegendo o abdômen sem perceber. Um dos braços ligeiramente rígido — dor.

Mas o olhar…

Vivo.

E quando encontrou o de Fernanda…

o mundo parou.

Ali não havia vítima, nem investigadora. Havia duas pessoas tentando não se perder e, por um segundo, tudo o resto desapareceu.

— Achei que você viria mais rápido — disse Elias, a voz calma, quase decepcionada.

Pausa.

— Ela vale isso tudo mesmo?

Fernanda não respondeu.

Mas o dedo no gatilho ajustou milimetricamente.

— Interessante… — continuou ele — você sempre foi tão controlada. Tão… técnica.

A arma pressionou levemente a lateral da cabeça de Amanda.

Ela não recuou.

— E agora olha você.

Pausa.

— Quebrando o protocolo. Totalmente sozinha… e previsível.

— Acabou, Elias — disse Fernanda, a voz baixa, mas firme.

Ele sorriu, perverso.

— Não.

Pausa.

— Você chegou atrasada, cansei de você interferindo. Vou acabar com Amanda e você será a próxima.

Fernanda manteve a arma firme.

— Onde está a Carla?

A pergunta atravessou o galpão de forma seca. Amanda ergueu o olhar imediatamente e Elias apenas sorriu.

Sem surpresa. Sem irritação. Só diversão.

— Ah… então vocês descobriram.

Pausa.

Ele inclinou levemente a cabeça, como alguém lembrando de algo irrelevante.

— Ela ficou nervosa demais depois da armadilha.

Fernanda sentiu o estômago endurecer.

— Onde ela está?

Elias deu um passo lento para o lado.

— Morta.

Silêncio.

Cru.
Pesado.

Amanda prendeu a respiração.

Mas Fernanda…
ficou imóvel demais. Porque não foi a resposta que assustou e sim a forma como ele disse. Totalmente sem culpa, hesitação ou humanidade. Como se estivesse falando sobre descartar um arquivo inútil.

Elias observou a reação dela com interesse.

— Você parece surpresa.

Pausa.

— Pessoas desesperadas se tornam um risco.

Fernanda finalmente entendeu.

Carla nunca foi parceira ou uma pessoa importante para ele, ela não foi nada além de ferramenta.

E aquilo…
aquilo era o mais perto de um psicopata que ela já tinha visto.

O tempo… se partiu. Amanda fechou os olhos por um segundo, não como rendição, aquilo era de escolha.

Quando abriu, olhou direto para Fernanda e o que havia ali não era desespero. Era medo, mas não por ela.

Por Fernanda.

“Não deixa ele te atingir.”

Fernanda entendeu.

E isso quase foi o problema. Porque hesitar ali… mataria as duas. Elias continuava falando, mas agora era ruído.

Fernanda analisava tudo. Distância. Ângulo. Respiração. E principalmente…

Amanda.

Mas então Amanda fez algo diferente. Ela mudou levemente o peso do corpo. Quase imperceptível, como se estivesse mais fraca do que realmente estava, como se estivesse cedendo.

Elias relaxou meio centímetro.

Suficiente.

Fernanda viu e entendeu.

Elias ajustou a postura. Mudou levemente o peso da perna. Olhar desviando por um microssegundo.

Pronto, aquele era o momento.

Fernanda moveu a cabeça, quase nada. Só Amanda veria.

Agora.

Amanda reagiu. Mesmo com dor e sem fôlego.

O cotovelo subiu com força — mais do que o corpo dela parecia capaz naquele estado — direto no abdômen de Elias.

O ar saiu dele em um som bruto. A arma falhou um centímetro. e isso foi o suficiente.

Amanda se soltou — mas não só correu, ela se jogou para o lado oposto, abrindo completamente a linha de tiro.

E, naquele exato instante…

Fernanda puxou o gatilho.

O disparo cortou o silêncio. O projétil atingiu o peito de Elias, o corpo dele recuou. Surpresa atravessando o olhar. Mão no peito. Expressão de dor, mas ele ainda era perigoso.

E mesmo caindo…

atirou.

O impacto veio quente no ombro de Fernanda. Como fogo entrando na carne, o corpo dela girou, a visão falhou por um segundo. O som abafou, mas ela não caiu.

Já Elias sim e dessa vez…

era definitivo.

Silêncio.

O som voltou primeiro. Distante, primeiro foram sirenes, depois passos, correria e vozes. Luzes invadiram o galpão. Azul. Vermelho. Branco. A polícia chegava e junto com uma ambulância.

Fernanda respirava curto, controlando a dor, mantendo-se consciente pela força da vontade. Amanda chegou até ela rápido, mais rápido do que deveria conseguir naquele estado.

As mãos tremiam, mas eram firmes.

— Você foi atingida!

O sangue começou a atravessar os dedos dela quase imediatamente e aquilo apavorou Amanda de um jeito que nenhuma ameaça naquela noite tinha conseguido.

Ela não queria perder ninguém, muito menos ela.

Fernanda soltou um riso fraco.

— Já estive pior.

Amanda não achou graça, mas segurou o rosto dela, testa encostando na dela.

— Não faz isso comigo…

A voz quebrou.

— Eu achei que…

Não terminou.

Fernanda fechou os olhos por um instante ao sentir o toque.

— Eu estou aqui… — disse mais baixo, mais presente — estou bem.

Pausa.

— Estou com você.

O polegar dela tocou de leve o rosto de Amanda, mesmo com a dor atravessando o braço.

— E eu sempre vou estar.

Amanda respirou fundo, mas o ar saiu tremido. A mão dela desceu até o ombro ferido de Fernanda — parando antes de tocar, ela tinha medo de machucar mais.

Fernanda percebeu.

E, mesmo com dor, guiou a mão dela até onde podia.

— Pode encostar…

Amanda o fez com cuidado. Como se aquilo fosse… precioso demais.

— Eu achei que ia te perder — disse, baixo.

Fernanda abriu os olhos.

Mesmo com dor.

Mesmo exausta.

— Não hoje.

Pausa.

O polegar dela tocou de leve o rosto de Amanda, limpando uma linha de sangue seco.

— Você foi incrível lá dentro.

Amanda soltou um riso pequeno. Sem força.

— Eu tive uma boa professora…

Fernanda sorriu, fraco, mas real. E então… cedeu um pouco do peso. Amanda segurou, sem pensar.

E ali, no meio do caos, das sirenes e da queda de tudo ao redor…

elas ficaram.

Uma sustentando a outra, como se nada mais importasse naquele instante.

 

Fim do capítulo


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