Capitulo 26
O lugar não parecia um espaço, parecia uma intenção. Concreto quebrado, metal oxidado, som oco. Um tipo de abandono que não era acaso — era escolha. O ar era denso, carregado de umidade e ferrugem, como se o próprio ambiente tivesse memória do que já tinha acontecido ali.
Fernanda desligou o carro antes de chegar. O silêncio agora era estratégia.
Por um segundo, ficou imóvel dentro do veículo, sentindo o próprio pulso alto demais — não de medo, mas de foco absoluto.
Com a arma na mão, aquele objeto frio ancorava a realidade. A tensão subiu, controlada, canalizada. O perigo era real.
Ela entrou.
O som dos próprios passos parecia alto demais. Cada passo, um eco. Cada eco, uma denúncia.
O cheiro metálico no ar misturado com mofo. Espaço amplo. Colunas. Som que reverberava errado.
E então… o movimento.
Um vulto à esquerda. O primeiro bandido veio rápido, tentando surpreendê-la. Braço levantado, ataque direto.
Fernanda leu o movimento antes do impacto. Girou o corpo no reflexo. O golpe passou por onde ela estava um segundo antes. Ela respondeu sem pensar. Ainda de costas, o cotovelo subindo — o impacto foi direto no maxilar.
O som foi seco. Duro.
O homem cambaleou, cuspiu sangue, mas avançou de novo.
Este foi seu erro.
Fernanda entrou na guarda dele. Um soco curto no estômago, precisão cirúrgica. O corpo dele dobrou. E, antes que reagisse, um chute lateral no joelho.
O estalo da articulação ecoou no espaço vazio.
Ele caiu, sem nenhum tipo de controle ou elegância, se contorcendo de dor.
O segundo homem não deu espaço. Veio por trás, mais pesado, mais bruto. O braço travando o pescoço dela, muita força esmagando a traqueia. O ar faltou imediatamente. Fernanda tentou reagir, mas o homem era mais pesado do que esperava. O antebraço pressionava forte demais sua garganta. A visão oscilou por um segundo. Ela bateu o cotovelo para trás, nada, outro impacto, ainda mais forte, o braço apertou ainda mais, agora doí de verdade.
Fernanda sentiu o corpo perder força por um instante perigoso demais. O joelho quase tocou o chão e foi exatamente isso que a salvou.
Em vez de lutar contra o peso, ela cedeu. Levou o peso para frente. Deslocou o centro, pisou com força no pé dele — o impacto subiu pela perna do homem. Girou o quadril e puxou o agressor junto, os dois foram ao chão, mas ela caiu já virando o corpo, por cima, montando e mantendo o controle. Disparou um soco de direita, outro de esquerda, mais um e mais um. Até o rosto dele perder forma. Até o corpo parar de reagir.
Silêncio.
Respiração pesada. Sangue quente no ar.
E então… a voz.
— Impressionante investigadora.
Fernanda virou devagar.
Mais à frente, Elias estava parado, com a arma firme na mão apontada e Amanda à frente dele.
O contraste era brutal. Ela estava machucada, muito mais do que ela imaginava.
O rosto inchado de um lado, um corte aberto próximo à sobrancelha, sangue seco misturado com o mais recente. A respiração irregular, protegendo o abdômen sem perceber. Um dos braços ligeiramente rígido — dor.
Mas o olhar…
Vivo.
E quando encontrou o de Fernanda…
o mundo parou.
Ali não havia vítima, nem investigadora. Havia duas pessoas tentando não se perder e, por um segundo, tudo o resto desapareceu.
— Achei que você viria mais rápido — disse Elias, a voz calma, quase decepcionada.
Pausa.
— Ela vale isso tudo mesmo?
Fernanda não respondeu.
Mas o dedo no gatilho ajustou milimetricamente.
— Interessante… — continuou ele — você sempre foi tão controlada. Tão… técnica.
A arma pressionou levemente a lateral da cabeça de Amanda.
Ela não recuou.
— E agora olha você.
Pausa.
— Quebrando o protocolo. Totalmente sozinha… e previsível.
— Acabou, Elias — disse Fernanda, a voz baixa, mas firme.
Ele sorriu, perverso.
— Não.
Pausa.
— Você chegou atrasada, cansei de você interferindo. Vou acabar com Amanda e você será a próxima.
Fernanda manteve a arma firme.
— Onde está a Carla?
A pergunta atravessou o galpão de forma seca. Amanda ergueu o olhar imediatamente e Elias apenas sorriu.
Sem surpresa. Sem irritação. Só diversão.
— Ah… então vocês descobriram.
Pausa.
Ele inclinou levemente a cabeça, como alguém lembrando de algo irrelevante.
— Ela ficou nervosa demais depois da armadilha.
Fernanda sentiu o estômago endurecer.
— Onde ela está?
Elias deu um passo lento para o lado.
— Morta.
Silêncio.
Cru.
Pesado.
Amanda prendeu a respiração.
Mas Fernanda…
ficou imóvel demais. Porque não foi a resposta que assustou e sim a forma como ele disse. Totalmente sem culpa, hesitação ou humanidade. Como se estivesse falando sobre descartar um arquivo inútil.
Elias observou a reação dela com interesse.
— Você parece surpresa.
Pausa.
— Pessoas desesperadas se tornam um risco.
Fernanda finalmente entendeu.
Carla nunca foi parceira ou uma pessoa importante para ele, ela não foi nada além de ferramenta.
E aquilo…
aquilo era o mais perto de um psicopata que ela já tinha visto.
O tempo… se partiu. Amanda fechou os olhos por um segundo, não como rendição, aquilo era de escolha.
Quando abriu, olhou direto para Fernanda e o que havia ali não era desespero. Era medo, mas não por ela.
Por Fernanda.
“Não deixa ele te atingir.”
Fernanda entendeu.
E isso quase foi o problema. Porque hesitar ali… mataria as duas. Elias continuava falando, mas agora era ruído.
Fernanda analisava tudo. Distância. Ângulo. Respiração. E principalmente…
Amanda.
Mas então Amanda fez algo diferente. Ela mudou levemente o peso do corpo. Quase imperceptível, como se estivesse mais fraca do que realmente estava, como se estivesse cedendo.
Elias relaxou meio centímetro.
Suficiente.
Fernanda viu e entendeu.
Elias ajustou a postura. Mudou levemente o peso da perna. Olhar desviando por um microssegundo.
Pronto, aquele era o momento.
Fernanda moveu a cabeça, quase nada. Só Amanda veria.
Agora.
Amanda reagiu. Mesmo com dor e sem fôlego.
O cotovelo subiu com força — mais do que o corpo dela parecia capaz naquele estado — direto no abdômen de Elias.
O ar saiu dele em um som bruto. A arma falhou um centímetro. e isso foi o suficiente.
Amanda se soltou — mas não só correu, ela se jogou para o lado oposto, abrindo completamente a linha de tiro.
E, naquele exato instante…
Fernanda puxou o gatilho.
O disparo cortou o silêncio. O projétil atingiu o peito de Elias, o corpo dele recuou. Surpresa atravessando o olhar. Mão no peito. Expressão de dor, mas ele ainda era perigoso.
E mesmo caindo…
atirou.
O impacto veio quente no ombro de Fernanda. Como fogo entrando na carne, o corpo dela girou, a visão falhou por um segundo. O som abafou, mas ela não caiu.
Já Elias sim e dessa vez…
era definitivo.
Silêncio.
O som voltou primeiro. Distante, primeiro foram sirenes, depois passos, correria e vozes. Luzes invadiram o galpão. Azul. Vermelho. Branco. A polícia chegava e junto com uma ambulância.
Fernanda respirava curto, controlando a dor, mantendo-se consciente pela força da vontade. Amanda chegou até ela rápido, mais rápido do que deveria conseguir naquele estado.
As mãos tremiam, mas eram firmes.
— Você foi atingida!
O sangue começou a atravessar os dedos dela quase imediatamente e aquilo apavorou Amanda de um jeito que nenhuma ameaça naquela noite tinha conseguido.
Ela não queria perder ninguém, muito menos ela.
Fernanda soltou um riso fraco.
— Já estive pior.
Amanda não achou graça, mas segurou o rosto dela, testa encostando na dela.
— Não faz isso comigo…
A voz quebrou.
— Eu achei que…
Não terminou.
Fernanda fechou os olhos por um instante ao sentir o toque.
— Eu estou aqui… — disse mais baixo, mais presente — estou bem.
Pausa.
— Estou com você.
O polegar dela tocou de leve o rosto de Amanda, mesmo com a dor atravessando o braço.
— E eu sempre vou estar.
Amanda respirou fundo, mas o ar saiu tremido. A mão dela desceu até o ombro ferido de Fernanda — parando antes de tocar, ela tinha medo de machucar mais.
Fernanda percebeu.
E, mesmo com dor, guiou a mão dela até onde podia.
— Pode encostar…
Amanda o fez com cuidado. Como se aquilo fosse… precioso demais.
— Eu achei que ia te perder — disse, baixo.
Fernanda abriu os olhos.
Mesmo com dor.
Mesmo exausta.
— Não hoje.
Pausa.
O polegar dela tocou de leve o rosto de Amanda, limpando uma linha de sangue seco.
— Você foi incrível lá dentro.
Amanda soltou um riso pequeno. Sem força.
— Eu tive uma boa professora…
Fernanda sorriu, fraco, mas real. E então… cedeu um pouco do peso. Amanda segurou, sem pensar.
E ali, no meio do caos, das sirenes e da queda de tudo ao redor…
elas ficaram.
Uma sustentando a outra, como se nada mais importasse naquele instante.
Fim do capítulo
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