Capitulo 25
A noite já havia caído quando Fernanda chegou à Casa de Vidro. O portão se abriu lentamente, o som metálico ecoando mais alto do que o normal naquele silêncio.
Ela estacionou em frente à casa e saiu do carro já olhando ao redor. Havia algo estranho. Não visível, mas perceptível. A casa estava iluminada, mas vazia de presença. Amanda sempre deixava algum som ligado quando estava esperando alguém. Uma playlist baixa. O ruído da televisão. Qualquer coisa.
Mas naquela noite… havia apenas silêncio.
E Fernanda odiava silêncio.
Entrou.
— Amanda?
Nada.
Nenhuma resposta. Nenhum som, passos ou música baixa. Nem o ruído leve de alguém se movendo pela casa.
Silêncio demais.
Arminda apareceu na sala, enxugando as mãos no avental, mas o olhar denunciava inquietação.
— Boa noite, dona Fernanda.
Fernanda franziu levemente a testa, já sentindo o desconforto crescer.
— A Amanda não chegou?
Arminda hesitou por um segundo a mais do que deveria.
— Não… não chegou ainda.
Silêncio.
Aquilo não era normal. Fernanda deu mais alguns passos para dentro da sala, o olhar percorrendo o ambiente como se procurasse alguma quebra, algum detalhe fora do lugar.
— Ela saiu da empresa?
— Saiu sim… — respondeu Arminda, agora claramente apreensiva — mais cedo me mandou mensagem avisando que já estava saindo da empresa e que era para fazer algo leve pra vocês comerem…
Aquilo travou algo dentro de Fernanda.
“Pra vocês.”
O corpo dela reagiu antes mesmo da mente terminar de organizar. Ela puxou o celular do bolso, já andando. Nada de mensagens ou ligações.
Nada.
Agora não era mais sensação, era certeza. Algo estava errado, muito errado.
— Arminda — disse, já mudando completamente o tom — Ligue para os seguranças, avise para ficarem em alerta e qualquer ligação… qualquer coisa… me chama na hora.
— Sim… — respondeu saindo para fazer a ligação.
Fernanda já não estava mais ali. Ligou para Amanda.
O telefone chamou uma vez.
Duas.
Três.
Cada segundo esticando a tensão como um fio prestes a arrebentar.
E então… atendeu.
— Alô?
Silêncio.
Do outro lado, Fernanda congelou, não pela palavra, mas pela voz. Não era Amanda e naquele instante… tudo mudou. Mas não por fora, foi por dentro dela. A reação não veio em pânico, ela veio em foco, frio, preciso e calculista.
— Quem é? — a voz dela saiu controlada demais para alguém naquela situação.
Do outro lado, um breve silêncio. Como se ele estivesse avaliando.
— Interessante investigadora… — disse Elias.
— Você parece menos controlada quando está emocionalmente envolvida.
Agora não havia mais dúvida. Fernanda fechou os olhos por um segundo. O suficiente para organizar tudo e quando abriu… já não era mais só a mulher que sentia falta de Amanda, ela tinha vestido a armadura de investigadora.
— Se você encostar nela… — começou, mas parou.
Ameaça não funcionava ali. Ela mudou de estratégia no meio da frase.
— Você não pensou nisso até o fim.
Pausa.
Elias sorriu do outro lado, mesmo sem ser visto.
— Pelo contrário. Eu pensei melhor do que todo mundo.
Fernanda andava pela sala enquanto falava, já pegando outro aparelho, abrindo contato, digitando com rapidez.
— Então você sabe que isso não termina bem pra você.
— Termina exatamente como eu preciso.
Silêncio.
Fernanda ouviu.
Não a voz, o fundo. Era um som metálico, com eco, vento entrando por alguma fresta, como se fosse um espaço aberto, seria algo industrial? Ela ainda não tinha certeza, parou de andar e gravou aquilo.
— Onde você está, Elias?
Ele soltou um riso baixo.
— Pergunta errada.
E desligou.
O som da chamada encerrada pareceu alto demais. Fernanda ficou imóvel por meio segundo.
Depois… discou novamente.
Chamou. Na terceira, ele atendeu.
— Você é insistente — disse Elias, com um leve divertimento na voz.
Fernanda ignorou.
— Eu quero falar com ela.
Silêncio curto.
— Você não está em posição de pedir nada.
— Não é um pedido.
Pausa.
— É uma escolha inteligente — completou Fernanda, baixa — porque se você quer que eu vá até você… vai precisar que ela esteja viva quando eu chegar.
Silêncio.
Mais longo, pesado. Elias respirou pelo nariz, como se estivesse avaliando.
Então…
— Trinta segundos.
Um ruído. Movimento.
No galpão, Amanda foi puxada pelo braço sem cuidado. O corpo respondeu na hora.
— Anda.
Ela reprimiu o som da dor.
O celular foi colocado próximo ao rosto dela.
— Fala.
A respiração de Amanda falhou antes da voz sair.
— Fê…?
Rouca. Baixa. Fraca demais.
Fernanda fechou os olhos por um segundo.
Aquilo foi pior do que ver.
— Eu estou aqui — respondeu imediatamente, controlando a própria voz — você está bem?
Amanda tentou puxar ar devagar. O corpo inteiro protestava. O gosto metálico continuava na boca.
Mesmo assim… ela pensava.
— Já estive melhor… — murmurou, deixando escapar um pequeno ruído de dor ao tentar se mover no chão.
Fernanda ouviu.
Elias também.
— Não faz gracinha — ele avisou, frio.
Amanda fechou os olhos por um instante, como se estivesse apenas tentando suportar.
— Tá frio aqui… — disse baixo, quase sem força.
Fernanda franziu a testa imediatamente.
Amanda gostava do frio.
Nunca reclamava dele sem motivo.
— Você bateu a cabeça? — Fernanda perguntou, entrando no jogo.
— Acho que sim… — Amanda respirou com dificuldade. — Tem um barulho metálico irritante toda hora.
Elias permaneceu imóvel, para ele, aquilo parecia apenas alguém desorientada tentando falar.
Mas Fernanda percebeu a escolha das palavras.
Metálico.
Eco.
Amanda continuou:
— E esse lugar cheira horrível…
Uma pausa curta.
— Ferrugem… talvez.
Fernanda parou de andar, agora tinha certeza.
Zona industrial.
Galpão.
Amanda tossiu de leve depois de falar, como se o esforço estivesse cobrando caro demais.
E então, mais baixo:
— Desculpa… acho que caí em alguma coisa aqui no chão.
Aquilo foi para Fernanda, não para Elias.
Ferro espalhado.
Lugar abandonado.
Amanda estava desenhando o ambiente sem nunca descrever diretamente.
Elias observava tudo em silêncio.
Mas Amanda já tinha conseguido o que precisava.
Silêncio.
Fernanda entendeu.
— Eu vou te tirar daí.
Direto. Sem variação.
Amanda fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
Elias puxou o celular de volta.
— O tempo acabou pra você.
— Espera, Elias, aonde você está?
— Ora, ora, você não é uma investigadora? — Disse com ironia. — Procure, você tem no máximo 30 minutos para chegar aqui.
E desligou.
O som da chamada encerrada pareceu alto demais, mas Fernanda já estava em movimento antes mesmo da tela apagar.
— Arminda! — chamou, firme.
A senhora apareceu assustada.
— Eu preciso que a senhora fique aqui. Tranque tudo. Não abra pra ninguém.
— E Amanda?
— Eu vou trazer ela de volta!
Sem hesitar, sem margem para hesitação. Fernanda já estava saindo em direção ao carro enquanto discava.
— Paulinho, escuta com atenção — disse assim que ele atendeu — temos um sequestro em andamento.
Do outro lado, silêncio imediato.
— Quem?
— Amanda.
Pausa.
— Eu preciso de rastreio do último sinal do celular dela, câmeras da saída da empresa do Grupo Bastos e qualquer movimentação nas últimas duas horas.
— Já estou puxando.
Fernanda entrou no carro, ligando o motor com um movimento seco.
— Ele atendeu o telefone.
Silêncio do outro lado, agora Paulinho entendeu o nível.
— Quem?
— Elias.
O nome caiu como uma peça pesada encaixando no lugar certo.
— Certo… então a gente não tem muito tempo.
— Não temos nenhum.
Fernanda acelerou. A mente já cruzando tudo. Tentativa de sequestro anterior, ameaças, depoimento dúbio e por último a pressa em querer resolver tudo antes que a bomba explodisse.
Este foi o seu erro. Eles estavam se sentindo pressionados e gente pressionada, erra.
— Me dá câmeras da zona industrial num raio de vinte minutos da empresa — continuou ela — rota mais rápida, sem pedágio, sem exposição.
— Já estou abrindo.
— E puxa o carro dela e qualquer veículo que tenha saído junto com ela.
Pausa curta.
— Fernanda… — a voz de Paulinho veio mais baixa — você vai esperar apoio, né?
Ela virou o volante com força, entrando rápido demais na avenida.
— Não.
Silêncio.
— Eu vou chegar primeiro.
E desligou.
Enquanto isso, no galpão…
Amanda mantinha a respiração controlada com esforço, cada movimento que fazia, doía, mas sua mente… estava ativa. Observando, contando, mapeando.
Elias caminhava de um lado para o outro, tranquilo demais para alguém naquela situação e isso dizia mais do que qualquer coisa.
— Ela vai vir — disse Amanda, a voz baixa, mas firme.
Elias parou.
Olhou para ela, um sorriso lento.
— Eu sei.
Pausa.
— É exatamente isso que eu quero.
O ar pareceu ficar mais pesado. Amanda entendeu, aquilo não era só um sequestro, ele armou uma armadilha pra elas.
E, uma ponta de medo real atravessou o controle dela.
Enquanto isso, Fernanda dirigia rápido demais, mas não era imprudência, era cálculo no limite, ela precisava salvar Amanda.
O celular no painel, voz de Paulinho atualizando em tempo real.
— Peguei o carro dela saindo da empresa, foi abandonado algumas ruas depois, entraram em outro veículo — disse ele — placa parcialmente visível… cruzando com outra câmera agora…
Pausa.
— Zona Leste. Área industrial.
Fernanda não respondeu, só acelerou mais.
— Tem um galpão abandonado naquela região — continuou ele — histórico de movimentação irregular…
— Manda a localização.
O ponto apareceu na tela, ela nem hesitou, virou o volante e seguiu direto até o local. São Paulo virou um borrão, com luzes líquidas, sons distorcidos, o tempo sendo comprimido. A mão firme no volante, mas o maxilar travado, respiração curta.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, a situação não era só sobre o caso… era sobre chegar a tempo e salvar Amanda.
Fim do capítulo
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