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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 1835
Acessos: 148   |  Postado em: 12/05/2026

Capitulo 28

 

Nos primeiros dias após a operação e o sequestro, o Grupo Bastos virou notícia constante, mas não como antes, agora era exposição crua. Contratos eram cancelados, investidores recuando e parceiros fingindo que nunca estiveram ali.

Dentro da empresa o clima era outro, gente sendo afastada devido ao envolvimento, auditorias sendo abertas, salas vazias e mesas abandonadas. Era como caminhar por uma cidade depois de uma tempestade, tudo ainda estava de pé, mas não tinha nada intacto.

Depois de alguns dias afastada, Amanda retornou à presidência da empresa, o caos tomava conta e ela estava no centro de tudo, mas, pela primeira vez desde que pisou em São Paulo, ela não era uma espectadora que só assistia, agora ela decidia, tomava decisões e organizava a casa. Ela não tentou salvar o que não tinha conserto, não romantizou o passado, não passou pano no que estava errado, ela foi precisa, ela cortou o mal.

— Essa bagunça encerra hoje. — Disse já na primeira reunião com os diretores que sobraram.
— Essa empresa será reestruturada.
— Esses nomes que estamos vendo nos noticiários… não entram mais aqui.

Frio? Talvez, mas necessário.
E, ao mesmo tempo… transparente.

Coletivas abertas, relatórios divulgados, parcerias revistas. No começo, chamaram de loucura.

— Ela vai afundar o que sobrou.

Mas Amanda não estava tentando manter a aparência. Ela estava reconstruindo a essência do grupo e isso… demora.

A virada veio um mês depois. Primeiro, com uma decisão silenciosa, mas estratégica: diversificar. Amanda entendeu que, no cenário atual, reputação e dados caminhavam juntos — e que empresas que se posicionavam publicamente, especialmente nas redes, eram também as mais expostas.

Sem alarde, ela começou a estruturar um braço de cibersegurança dentro do grupo.

Não era algo improvisado. Amanda reuniu pessoas experientes — profissionais que entendiam como ataques digitais funcionavam, como dados eram expostos e, principalmente, como evitar que isso acontecesse. Investiu em sistemas capazes de identificar comportamentos suspeitos, prevenir vazamentos e monitorar tudo o que pudesse afetar a imagem da empresa no ambiente online.

Mas o diferencial não estava só na proteção técnica.

Amanda percebeu algo que poucas empresas estavam olhando com atenção: hoje, proteger dados também era proteger reputação.

Criou então um serviço voltado para empresas com forte presença digital — especialmente marcas que trabalhavam com influenciadores — oferecendo desde análises de segurança em contas e campanhas, até planos de ação rápidos para situações críticas, como invasões, vazamentos ou ataques coordenados nas redes sociais.

Era mais do que tecnologia. Era estratégia.

Na prática, ela estava ajudando empresas a não só se protegerem, mas a saberem reagir quando algo desse errado.

E então, veio a reunião.

Do outro lado da mesa, uma gigante do setor de beleza. O contato tinha vindo por indicação de uma antiga empresa de marketing onde Amanda havia trabalhado — um vínculo antigo que agora fazia sentido.

A marca era conhecida não só pelos produtos, mas pela forma como se posicionava: campanhas com influenciadoras reais, diversidade como premissa e não como discurso. Mulheres negras, mulheres LGBTQIA+, corpos fora do padrão — não como exceção, mas como centro.

E justamente por isso, eram alvo constante e Amanda sabia.

Não vendeu números. Não levou apresentações infladas nem projeções otimistas demais. Foi direta.

Falou sobre exposição de dados de influenciadores, sobre ataques coordenados em redes sociais, sobre sequestro de contas, vazamento de campanhas antes do lançamento, uso indevido de imagem e até engenharia social direcionada a equipes de marketing.

Mostrou como tudo isso não era “risco hipotético” — era rotina.

E, mais importante, mostrou como proteger.

Sem prometer invulnerabilidade — mas oferecendo controle, resposta e inteligência.

Pela primeira vez em muito tempo, Amanda não estava tentando convencer.

Ela estava pronta.

Dessa vez não era discurso, era verdade e isso foi o que fechou o contrato. Parceria nacional. Este seria um novo começo, estratégico, não perfeito, mas real e pela primeira vez em meses o nome do Grupo Bastos voltou a ser dito sem desconfiança imediata e sim com respeito sendo construído e não herdado.

Mas, fora das salas de reunião e das decisões calculadas, havia algo que Amanda não conseguia tratar com a mesma frieza.

Enquanto na empresa ela vencia desafios, era em Fernanda que sua atenção realmente permanecia. O ombro de Fernanda ainda doía. Não como no primeiro dia — aquele tinha sido bruto, incapacitante — mas uma dor persistente, funda, que lembrava a cada movimento que o corpo tinha limite.

Nos primeiros dias em casa, Solange assumiu o controle com uma naturalidade impressionante. Remédios nos horários certos, comida leve, repouso forçado.

Amanda ajudava sempre que estava ali — e fazia questão.

Às vezes era algo simples, como ajustar a tipoia com mais cuidado do que o necessário.

Outras vezes… mais íntimo. Como na madrugada em que Fernanda acordou com dor, não era intensa, mas incômoda o suficiente para não conseguir voltar a dormir.

Amanda percebeu.

— Está doendo?

Fernanda tentou negar por reflexo. Falhou no meio do caminho.

Amanda não falou mais nada. Só levantou, pegou o remédio, trouxe água, ajeitou o travesseiro atrás dela com cuidado quase excessivo.

Ficou ali.

Até a respiração de Fernanda desacelerar de novo.

Nem todos os dias eram assim — e Solange garantia que não precisassem ser — mas, quando aconteciam, havia algo silencioso sendo construído entre elas.

Alguns dias depois, à tarde, Solange estava na sala com o celular apoiado na mesa.

— Vem cá, Fernanda — chamou.

A tela já mostrava o rosto de Jorge, ao lado da avó Eloá, curiosa como sempre.

— Olha quem resolveu dar as caras — disse o pai, sorrindo.

Fernanda sentou ao lado da mãe, apoiando o braço com cuidado.

— Estou viva, viu?

— Ainda bem — respondeu Eloá, ajustando os óculos — porque eu já estava achando que você tinha arrumado confusão grande dessa vez.

Amanda apareceu ao fundo, meio sem saber se entrava na conversa.

— Ah! — Eloá apontou para a tela — é essa aí!

Amanda travou por meio segundo.

— Oi, dona Eloá…

— Demorou pra aparecer — respondeu a avó, direta — agora quero conhecer direito.

Fernanda soltou um riso baixo.

— Ela tá sendo convocada oficialmente?

— E você também — emendou Jorge — faz tempo que não vem aqui.

Silêncio curto.

Fernanda assentiu.

— Eu vou. Prometo.

E, dessa vez… parecia real.

A chamada terminou, mas a sensação ficou. Um compromisso silencioso, desses que não se adiam mais.

Nos dias que se seguiram, a rotina começou a se reorganizar — não totalmente, mas o suficiente para que o corpo de Fernanda começasse a cobrar o próprio tempo.

O ombro de Fernanda ainda doía, alguns dias mais que outros. Ela precisava fazer fisioterapia todos os dias e seu fisioterapeuta Fábio era insistente, repetitivo, quase irritante.

— Você precisa respeitar o tempo do corpo — disse o profissional.

Fernanda revirou os olhos.

— Meu corpo que lute.

Fábio a conhecia há pouco tempo, mas já entendia bem o jeito dela.
— Calma, Fernanda. As coisas são demoradas mesmo, mas logo você vai estar correndo atrás de bandido novamente.

— Ok, se você diz… — respondeu ela, impaciente — vou esperar ficar boa. Mas vamos de uma vez, que eu tenho pressa.

Ele deu uma risada e seguiu com os movimentos.

Fernanda até tentou respeitar, pelo menos por alguns dias. Mas ficar parada não combinava com ela — nunca tinha combinado. E, mesmo com o ombro ainda reclamando a cada movimento mais brusco, a sensação de estar fora do jogo começou a incomodar mais do que a própria dor.

Então, antes mesmo de qualquer liberação oficial, ela tomou a decisão.

Precisava ir até lá.

Na delegacia, o clima era outro.

Paulinho encostado na mesa, café na mão, sorriso atravessado.
— Olha só quem voltou?!

— Não começa.

— Eu avisei que um dia você ia cair.

Fernanda franziu a testa.

— Cair?

— De amor.

Silêncio.

— Pelo visto sentiu a minha falta, você tá impossível!

— Eu? — ele riu — impossível é você, toda molenga agora.

— Eu não estou toda molenga.

— Tá sim.

Pausa.

— “Amanda isso… Amanda aquilo…”

Fernanda cruzou os braços e franziu a testa.

— Quer continuar vivendo?

Paulinho levantou as mãos em sinal de rendição.

— Só estou dizendo… nunca imaginei.

Pausa.

— A durona da delegacia… laçada.

Fernanda tentou sustentar a postura. Falhou terrivelmente.

Um pequeno sorriso escapou.

— Fica na tua, Paulinho.

— Tá bom, mas quando vier o casamento, eu quero convite.

Fernanda não respondeu. Mas o olhar entregou. Planos estavam sendo articulados.

— Certo, mas agora me atualiza das coisas, não aguento mais ficar de fora.

Mesmo ela ainda estando afastada, com o conhecimento que tinha sobre toda a operação, Paulinho acabou cedendo e contou como ficou o desfecho de tudo.

— Depois que o Elias caiu… a coisa desandou rápido — começou ele, apoiando o copo na mesa. — Nome grande de partido começou a aparecer. Gente que ninguém imaginava.

Fernanda ficou em silêncio, absorvendo.

— Mandados foram expedidos, contas bloqueadas, gente tentando sair do país… — ele deu de ombros — alguns conseguiram, outros não.

— Jadir? — perguntou ela, direta.

Paulinho soltou o ar pelo nariz.

— Tá tentando se segurar com o que sobrou de influência. Pedindo anistia, negando tudo, claro. Mas a casa caiu feio pra ele.

Pausa.

— Não vai sair limpo disso.

Fernanda assentiu, devagar.

— E o Eduardo?

Silêncio curto.

— Confirmaram tudo — disse Paulinho, mais sério agora — ele não era só peça. Ele participava. Sabia mais do que a gente achava.

Fernanda desviou o olhar por um segundo. Não era surpresa. Mas ainda assim… incomodava.

— Mas também não era o topo — completou ele — tinha gente acima, gente articulando há muito mais tempo.

Fernanda voltou a encará-lo.

— Sempre tem.

Pausa.

— E agora?

Paulinho deu um meio sorriso.

— Agora… a gente continua. Porque isso aqui não acaba com uma operação só.

Silêncio.

Fernanda encostou levemente na mesa, sentindo o ombro reclamar. Ignorou.

— Eu volto logo pra ativa.

— Eu sei — respondeu ele, simples — por isso já deixei trabalho acumulando pra você.

Ela revirou os olhos.

— Você é insuportável.

— E você sente falta disso.

Fernanda não respondeu.

Mas dessa vez… não negou.

Mais tarde, quando saiu da delegacia, o céu já começava a escurecer. O movimento da cidade seguia normal, como se nada tivesse acontecido. Como se tudo aquilo… não tivesse mudado nada. Mas tinha.

Ela entrou no carro com calma, apoiando o braço com cuidado. Antes de ligar, pegou o celular.

Uma mensagem.

Amanda.

“Terminando aqui. Você vem consegue ir lá pra casa?”

Fernanda leu.

E, pela primeira vez no dia… relaxou.

Digitou de volta:

“Já estou indo.”

Amanda respondeu.

“Oba... não esquece a sobremesa.”

A resposta veio quase imediata:

“Exigente.”

Fernanda sorriu. Ligou o carro e seguiu.

Porque, no meio de tudo — investigação, política, violência, decisões — havia algo que finalmente não parecia incerto e não era o caso, era onde ela escolhia voltar.

 

Fim do capítulo


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