Capitulo 29
Alguns dias depois, o apartamento já estava mais silencioso.
Solange tinha voltado para casa, não sem antes deixar instruções suficientes para manter Fernanda “sob controle” por pelo menos mais duas semanas.
— Nada de heroísmo — disse ela na despedida.
— Eu nunca faço isso — respondeu Fernanda, séria demais para ser convincente.
Solange apenas olhou.
— Fernanda, você ouviu, né?
— Ouvi mãe. — respondeu, sem esconder o sorriso.
O apartamento ficou diferente sem ela, mais vazio… e, ao mesmo tempo, mais delas.
Foi numa dessas tardes, sem muita pressa — o que já era raro — que Fernanda parou em um shopping no caminho de volta da fisioterapia.
Não era exatamente o tipo de lugar que ela frequentava por vontade própria. Mas, naquele dia… havia um motivo.
Entrou na joalheria com a mesma postura que usava em interrogatórios: direta, avaliando tudo, como se estivesse analisando evidências.
— Posso ajudar? — perguntou a vendedora, com um sorriso treinado.
— Pode — respondeu Fernanda, olhando a vitrine — mas sem pressão.
A mulher riu de leve. Fernanda observou as alianças. Simples. Trabalhadas. Com pedra. Sem pedra. Grossas demais. Finas demais.
— Isso aqui parece algema de luxo — murmurou, pegando uma mais larga.
A vendedora tentou não rir.
— Essa é mais tradicional.
— Tradicional demais.
Pegou outra.
— Essa aqui… parece que vai quebrar se eu respirar perto.
Pausa.
Ela não estava nervosa. Mas estava… criteriosa demais. O que, no caso dela, era praticamente a mesma coisa.
— É pra casamento? — perguntou a vendedora, com cuidado.
Fernanda hesitou por meio segundo.
— É.
A palavra saiu mais baixa do que o esperado.
Voltou a olhar.
E então… parou.
Uma aliança simples com algumas pedras brilhantes.
Sem exagero. Sem detalhe desnecessário. Elegante na medida certa. Sólida e discreta, mas impossível de ignorar.
Fernanda pegou. Girou entre os dedos. Sentiu o peso.
E, pela primeira vez desde que entrou ali… não analisou.
Só soube.
— É essa.
A vendedora sorriu, agora de verdade.
Naquela noite, Fernanda estava encostada na bancada da cozinha, celular na mão, encarando a tela como se fosse um interrogatório.
Amanda estava trabalhando até mais tarde. Claro que estava.
Fernanda digitou.
Apagou.
Digitou de novo.
Apagou.
— Ridículo — murmurou pra si mesma.
Bóris apareceu na cozinha com aquele ar de superioridade habitual, caminhando devagar demais para alguém que claramente estava indo julgar. Deu um pulo no banquinho e ficou ali, observando.
Em silêncio.
Julgando.
Fernanda levantou os olhos.
— Pode parar de me olhar com essa cara.
Bóris piscou lentamente… e, como se tivesse entendido que o assunto era sério demais até para ele, virou o rosto e simplesmente desceu, indo embora com a dignidade intacta.
Fernanda soltou o ar.
— Muito obrigado.
Respirou fundo.
Digitou.
Fernanda:
A gente precisa sair.
Pausa.
A resposta veio rápido.
Amanda:
Aconteceu alguma coisa?
Fernanda revirou os olhos.
Fernanda:
Sim.
A gente nunca teve um date decente.
Demorou alguns segundos.
Amanda:
Você está reclamando do assassinato do Eduardo e do meu sequestro?
Fernanda soltou uma risada baixa.
Fernanda:
Estou dizendo que o timing foi péssimo.
Pausa.
Fernanda:
Recém viúva, empresa colapsando, tentativa de homicídio…
fica difícil competir com isso.
A resposta veio quase imediata:
Amanda:
Você é impossível.
Fernanda:
Mas você gosta.
Silêncio curto.
Amanda:
Onde?
Fernanda sorriu de canto.
Fernanda:
Surpresa.
Amanda:
Perigoso isso vindo de você.
Fernanda:
Confia.
Houve uma pausa do outro lado.
Curta, mas para o bastante para Fernanda se arrepender por meio segundo de ter escrito aquilo com tanta naturalidade.
Então a resposta apareceu.
Amanda:
Confio.
Fernanda ficou imóvel ao ler.
Não foi uma reação grande. Não sorriu de imediato, não respondeu na mesma hora, não fez piada para disfarçar. Apenas encarou a palavra por alguns segundos a mais do que deveria.
Confio.
Vinda de Amanda, aquela palavra não era pequena.
Era entrega, permissão e uma porta que ela não costumava abrir para qualquer pessoa.
Fernanda passou os dedos pelos cabelos, respirou fundo e só então digitou:
Fernanda:
Amanhã. 20h. Depois te mando o endereço.
Sem desculpas.
Amanda:
Sim, senhora.
Fernanda riu sozinha, balançando a cabeça, mas o sorriso permaneceu mesmo depois que a tela apagou.
Na noite seguinte, Amanda chegou no horário combinado.
O endereço enviado por Fernanda a levou a uma rua mais reservada, daquelas em que São Paulo parecia diminuir o volume por alguns metros. Do lado de fora, a fachada do restaurante era elegante sem ostentação: portas escuras, iluminação quente e uma discrição proposital, quase como se o lugar existisse para ser encontrado apenas por quem realmente deveria estar ali.
Amanda parou por um instante antes de entrar.
Não por hesitação, mas por expectativa.
Ao atravessar a porta, foi recebida por um ambiente que parecia ter sido pensado para conversas baixas e olhares demorados. O restaurante não era apenas caro; era discreto, romântico e intimista. As luzes baixas suavizavam os contornos do salão, as mesas afastadas ofereciam privacidade, e uma música leve preenchia o espaço sem invadir.
São Paulo, lá fora, seguia caótica — buzinas, pressa, faróis, gente correndo atrás de alguma coisa.
Mas ali dentro o tempo parecia obedecer a outra regra.
Desacelerava.
Como se soubesse que aquela noite precisava acontecer devagar. Ela chegou primeiro. Vestia um vestido vermelho elegante, de corte simples, que abraçava seu corpo com naturalidade. O decote, discreto, sugeria mais do que mostrava, valorizando suas formas sem esforço, como se não precisasse provar nada a ninguém — e talvez não precisasse mesmo. Os cabelos estavam presos em um coque levemente desalinhado, proposital, deixando alguns fios soltos contornarem seu rosto. A maquiagem era leve, realçando seus traços com suavidade, enquanto o perfume — marcante, envolvente — deixava sua presença no ar antes mesmo de qualquer palavra. Ela não chamava atenção, ela capturava.
Fernanda chegou poucos minutos depois. Vestia uma calça social preta de corte impecável e uma camisa azul-escura, levemente ajustada ao corpo, com alguns botões abertos na medida exata entre o despretensioso e o calculado. O tecido acompanhava seus movimentos com elegância, revelando a postura firme de quem está acostumada a ocupar espaço sem pedir licença. Os cabelos loiros, ondulados, caíam soltos sobre os ombros, com aquele desalinho natural que nela parecia sempre intencional. A maquiagem era discreta, quase imperceptível — suficiente apenas para destacar o verde atento dos olhos, que naquela noite carregavam algo diferente.
O olhar seguia firme, seguro, mas, por dentro havia um leve descompasso. Uma tensão sutil, quase imperceptível para qualquer outra pessoa, mas não para quem já sabia exatamente onde procurar.
— Você está linda — disse Amanda, com um sorriso leve.
— Eu podia dizer o mesmo…, mas seria redundante.
Riram. Fernanda se aproximou e deu um selinho em Amanda. Sentaram e o garçom veio.
— Vamos de peixe? — sugeriu Amanda.
— Confio em você.
Escolheram um robalo grelhado. Delicado. Com risoto leve de limão siciliano e para acompanhar um bom vinho branco.
A conversa veio fácil e leve… era como se o mundo, pela primeira vez, tivesse decidido não pesar sobre elas.
Relembraram tudo, o caos, o medo que sentiram, as noites em que não sabiam se chegariam ao dia seguinte e ainda assim o amor que sentiam uma pela outra.
— A gente passou por coisa demais, né? — disse Amanda, girando delicadamente a taça de vinho, o olhar perdido por um segundo.
— Passou.
Pausa.
Fernanda sustentou o olhar nela, mais suave do que de costume.
— E mesmo assim… você ficou.
Amanda ergueu os olhos.
— Eu nunca quis sair… — disse baixo — nem por um segundo.
O silêncio que veio não era vazio, ele era cheio de tudo que elas tinham construído, de tudo que tinham sobrevivido e o mais importante de tudo que ainda queriam viver.
Fernanda respirou fundo. O coração estava acelerado, as mãos levemente suadas e sua perna inquieta sob a mesa denunciando o que ela tentava controlar, porque, pela primeira vez em muito tempo, Fernanda estava diante de algo que nenhuma arma, investigação ou treinamento ensinava a controlar.
O medo.
Não o medo da morte, muito menos de errar, aquilo era o medo de perder alguém que tinha se tornado essencial.
Fernanda olhou para Amanda do outro lado da mesa. Ela ria baixo de alguma coisa banal, dessas que nem deveriam ter importância, mas que, naquele instante, parecia grande demais. Viva demais. Linda demais.
E aquilo quase desmontou Fernanda outra vez.
Porque, por dias, ela tinha revivido o mesmo pensamento, como uma cena que se repetia sem pedir permissão:
E se eu tivesse chegado tarde?
A pergunta tinha virado prova, testemunha e sentença dentro dela.
Fernanda, que sempre soube investigar qualquer pista, qualquer mentira, qualquer silêncio mal colocado, se viu completamente perdida diante do único problema que não queria resolver.
Amanda.
— Eu quase perdi você.
Amanda ficou imóvel. O sorriso desapareceu devagar, não por frieza, mas porque entendeu que aquilo não era uma frase solta. Era confissão.
Fernanda respirou fundo, desviando o olhar por um segundo antes de continuar.
— E eu descobri uma coisa muito irritante com isso.
Amanda sorriu pequeno, já emocionada.
— O quê?
Fernanda soltou um riso curto, nervoso, quase sem humor.
— Que eu passei tempo demais tentando investigar você como se fosse um caso, Amanda.
Ela voltou os olhos para ela.
— Como se você fosse uma pergunta difícil. Um enigma. Um problema que eu precisava entender.
Amanda não disse nada.
Fernanda engoliu em seco.
— Mas eu acho que o problema nunca foi você.
O silêncio entre elas ficou mais denso.
— O problema é que eu não sei mais existir num mundo onde você não esteja presente.
Amanda piscou devagar, como se aquela frase tivesse encostado nela antes mesmo que pudesse reagir.
Fernanda respirou, a voz mais baixa quando completou:
— E isso é assustador pra caralh*.
Agora os olhos de Amanda já estavam cheios.
— Porque eu passei a vida inteira achando que conseguia sobreviver sozinha.
Pausa.
— Até você aparecer.
Ela tomou coragem. Olhou nos olhos de Amanda e puxou uma pequena caixa, abriu. O anel de ouro brilhou sob a luz suave do restaurante. Delicado e elegante. Pequenos brilhantes capturando a luz… como se guardassem cada momento que as trouxe até ali. Fernanda tentou falar, mas sua voz falhou. Um pequeno sorriso nervoso escapou. Ela pegou a água, tomou um gole e respirou de novo.
— Eu não sou muito boa com discurso…
Pausa.
O olhar nunca deixando Amanda.
— Mas eu sei de uma coisa com toda certeza do mundo…
A voz ainda carregava emoção, mas agora era firme.
— Eu não quero viver mais nada dessa vida sem você.
Os olhos de Amanda já estavam marejados.
— Nem os dias difíceis… nem os bons… nem os completamente caóticos.
Um sorriso leve surgiu no canto dos lábios de Fernanda.
— Principalmente os caóticos.
Pausa.
Mais um suspiro.
— Você virou meu lugar seguro… no meio de tudo.
A voz suavizou.
— E eu quero continuar escolhendo você… todos os dias.
Um segundo, dois, ela estava muito apreensiva com a pergunta que precisava fazer.
— Casa comigo?
O mundo pareceu parar. De verdade.
Amanda riu, mas era um riso emocionado, quase sem ar. Os olhos brilhando.
— Você… — ela balançou a cabeça, incrédula e encantada — você preparou tudo isso…
Pausa.
— Para me pedir em noivado?
Fernanda deu de ombros, com aquele humor leve que só aparecia com ela.
— Planejamento estratégico de longo prazo.
Amanda levou a mão à boca por um instante. Respirou fundo e não conseguiu controlar, chorou de verdade agora.
As lágrimas vieram enquanto ela olhava para Fernanda diante dela… vulnerável de um jeito que quase ninguém no mundo tinha visto.
E aquilo tocou em um lugar profundo.
Porque durante muito tempo Amanda acreditou que amor vinha acompanhado de controle, aparência, silêncio e solidão.
Mas Fernanda…
Fernanda tinha chegado como caos e, ainda assim…
Se tornou o lugar mais seguro que ela já encontrou.
Amanda segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Sim.
A voz falhou.
Ela sorriu chorando.
— Mil vezes sim.
Fernanda não conseguiu ficar sentada. Levantou-se devagar, como se cada movimento precisasse acompanhar a intensidade daquele momento. Os olhos presos nos de Amanda. As mãos ainda levemente trêmulas…, mas firmes no que sentiam. Ela contornou a mesa e parou diante dela.
Por um segundo, nenhuma das duas falou, não era necessário. Fernanda pegou a mão de Amanda com cuidado, quase reverência, era como quem entende o valor exato do que está tocando.
Deslizou o anel em seu dedo, devagar. Sentindo. Vivendo. O encaixe foi perfeito, era como se sempre tivesse pertencido ali.
Amanda soltou um riso baixo, emocionado, enquanto as lágrimas escapavam sem pedir permissão.
— Você é impossível… — sussurrou, com a voz embargada.
— E você disse sim… — respondeu Fernanda, com um sorriso que misturava alívio, amor e um pouco de incredulidade. E então, não houve mais espaço para distância.
Amanda puxou Fernanda pela camisa e o beijo veio sem hesitação. Profundo. Intenso. Cheio de tudo que foi guardado, negado, adiado… e finalmente vivido. As mãos se encontraram. Os corpos se aproximaram. O mundo ao redor dissolveu. Não havia restaurante, pessoas ou olhares, apenas elas e aquele beijo que não era só desejo, era escolha, reencontro e promessa. Fernanda segurou o rosto de Amanda com cuidado, como se quisesse gravar aquele momento na memória para sempre. Amanda respondeu com a mesma entrega, os dedos se perdendo entre os cabelos dela, como se nunca mais quisesse soltar.
Quando se afastaram, ainda estavam próximas, respirações misturadas, testas encostadas, sorrisos impossíveis de conter.
E, naquele instante… não havia passado. Não havia dor. Não havia medo. Apenas elas e um futuro inteiro, que agora não estava mais esperando, mas começando...
Ali.
Do lado de fora, São Paulo continuava acesa. Barulhenta. Imensa. Indiferente.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Amanda não sentia que precisava sobreviver à cidade.
Porque agora… tinha alguém para voltar. Fernanda segurou sua mão, dedos entrelaçando naturalmente os dela.
E Amanda olhou para a aliança brilhando sob a luz baixa do restaurante. Não como promessa de perfeição, mas como escolha. Aquela escolha diária, mesmo depois do caos, da dor e de todo o resto e talvez, fosse exatamente isso que transformava aquilo em amor.
Fim do capítulo
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