Capitulo 69
Ana saiu do laboratório como se estivesse em outra dimensão — o que, sinceramente, não estava muito longe da realidade.
Não literalmente — embora, pela expressão abobalhada no rosto, desse perfeitamente pra considerar a possibilidade.
Ela caminhava pelo corredor com um sorriso tão grande que parecia ter ganhado na loteria, tropeçando nas próprias pernas enquanto tentava digitar alguma coisa no celular.
“Bia. Emergência.”
Bianca respondeu quase instantaneamente:
“Você tá presa?”
“PIOR.”
“VOCÊ MATOU ALGUÉM?”
Ana parou dramaticamente no meio do corredor, incapaz de conter a felicidade.
“EU BEIJEI A PROFESSORA.”
Do outro lado da tela, Bianca demorou alguns segundos.
“Você tá zoando.”
“EU JURO PELA MINHA AIRFRYER.”
Bianca apareceu no corredor menos de dois minutos depois, ofegante, segurando o caderno contra o peito.
— ANA! — arregalou os olhos. — Você tá falando sério?! Foi consensual? Não me diz que você…
Ana colocou a mão no coração, teatral.
— A mulher me agarrou no laboratório igual protagonista de novela das nove. Nesse momento eu posso até estar grávida, Bia. Acho que a gente devia comprar uns testes de farmácia.
Bianca travou.
— Você NÃO pode estar grávida.
— Você não sabe disso.
— Eu sei sim.
— Não sabe não.
— ANA, PELO AMOR DE DEUS—
Ana suspirou, completamente séria:
— Já posso sentir o bebê se mexendo. Mamãe já ama.
Bianca perdeu o resto da sanidade ali.
— Ana… você é realmente louca. E só pra constar: isso não engravida. Você não tá grávida, sua doente.
Ela respirou fundo, ainda rindo.
— E… meu Deus, nem acredito que vou dizer isso… boa, meu padawan. Parece que foi ontem que você tava colando post-it na sala dela e mandando cesta de legumes.
Ana apontou pra si mesma, convencida.
— Isso porque foi ontem. Eu sempre tive plena consciência de que sou irresistível. E confio nas minhas técnicas de sedução. Nada que uma cantada fofa e boa comida não resolvam… principalmente com essa skin premium aqui.
Bianca passou a mão no rosto.
— Tá. Agora explica direito. O que aconteceu?
Ana ajeitou o cabelo, como se fosse dar entrevista.
— Eu provoquei. Ela não aguentou. Me beijou. Fim.
— Isso é literalmente tudo que você faz na vida.
— Obrigada.
— NÃO FOI ELOGIO!
Ana riu alto.
— Você é problemática! E ela também deve ser. Isso aí é síndrome de Estocolmo.
— Bia… a gente vai ser cunhadas!
— Eu não acredito que você transformou isso em família em menos de cinco minutos.
— A gente já tá emocionalmente casada, Bia.
— VOCÊS SE BEIJARAM HÁ QUINZE MINUTOS.
Ana deu de ombros.
— Bem...Foi de lingua, então podemos chamar isso de "Evolução relâmpago".
Bianca riu de novo.
— Você é um problema ambulante.
Ana sorriu, orgulhosa.
— Em poucos meses a gente se forma e, além do diploma dessa joça, ainda leva as gostosonas de brinde. Seremos lendas.
— ANA! Tenha respeito. É gostosa, mas é minha.
Elas caminharam pelo corredor.
— Tá… mas como aconteceu? Me conta tudo.
— Linda… eu EXISTO pra provocar aquela mulher.
Bianca cobriu o rosto.
— Nisso eu acredito.
— E teremos filhos lindos e inteligentes que vão brincar com os seus — continuou Ana, dramática — que vão ser lindos e malvados.
Bianca riu.
— Você tá narrando sua própria fanfic.
Ana engrossou a voz:
— “E então a professora encurrala sua presa no habitat natural: o laboratório…”
Bianca perdeu totalmente o controle e riu alto.
Alguns metros atrás, Mariana saía do laboratório tentando recuperar o mínimo de dignidade.
Cabelo levemente bagunçado.
Boca ainda marcada.
Coração fora do eixo.
— Ótimo… — murmurou. — Agora virei personagem de Comédia romântica adolecente.
Ela caminhava rápido até ver Luísa.
Luísa ergueu a sobrancelha imediatamente.
— Ué… por que será que você tá com cara de quem fez arte?
Mariana travou.
— Nada.
— Hmmm… e por que sua boca tá inchada?
— CALOR.
— Mariana.
— ESTRESSE… alergia?
Luísa ficou em silêncio por dois segundos.
Então sorriu.
— Você beijou a Ana.
— Fala baixo!
Luísa quase gritou de felicidade.
— EU SABIA! A Bia me deve cinquentinha!
— Você apostou isso?!
— Ué. Refresco no cu dos outros é refresco, né?
Mariana passou a mão no rosto, derrotada.
— Ela é maluca… e eu tô ficando maluca também… maluca por ela.
O sorriso de Luísa suavizou.
— Relaxa. Você só tá apaixonada.
— NÃO ESTOU.
Silêncio.
— Tá… talvez um pouquinho.
— Eu vou chorar. Minhas meninas cresceram.
— Para de agir como mãe de pet!
As duas riram, até Luísa olhar ao longe.
Marcela.
Parada.
Observando.
Séria.
O sorriso dela sumiu aos poucos.
Mariana percebeu.
— O que foi?
— Nada.
Mas não era nada.
Marcela continuava ali.
Quietíssima.
Atenta demais.
E, pela primeira vez, entendendo demais.
Fim do capítulo
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