Oi gurias!!!
Segue mais alguns capítulos, espero que gostem...
Beijos
Capitulo 15
Jadir Bonoro não era um homem que reagia, ele era homem que antecipava ou ao menos ele acreditava nisso. O gabinete estava fechado, sem assessores, a televisão ligada em volume baixo, mas ele já sabia.
Sabia antes mesmo da ligação.
— Foram presos? — perguntou, sem tirar os olhos da janela.
— Sim.
Silêncio.
O maxilar travou por um segundo, não pelos homens presos. Homens eram substituíveis. O problema era outro. Alguém tinha reagido e ainda sobrevivido e, pior... alguém estava começando a acreditar que podia enfrentá-lo.
— E falaram?
— Ainda não sabemos se foi o suficiente.
Jadir apoiou as mãos na mesa, pensando, calculando.
— Então descubram. Ajustem a estratégia — disse ao telefone novamente. — Chega de abordagem direta.
Pausa.
— Sem tiros. Sem rua. Sem erro.
Pausa.
— Quero medo. Quero dúvida. Quero que elas comecem a desconfiar de tudo... e de todos.
Desligou. Caminhou até a janela, a cidade parecia controlável, mas havia uma variável fora do padrão. Amanda Bastos, e outra pedra no sapato que estava se tornando ainda pior, a investigadora Fernanda.
Ele pegou um pequeno arquivo sobre a mesa, uma foto. Fernanda Vasconcellos.
— Delegada em formação... disciplinada... difícil de comprar.
Um meio sorriso surgiu, mas não havia humor nele.
— Você está começando a me irritar.
Nos dias seguintes, Fernanda começou a conviver com uma sensação que, por experiência, respeitava. Ela se sentia estar sendo observada.
Não havia carros suspeitos, nem rostos repetidos demais. Nada concreto. Era pior do que isso.
Conversas que pareciam chegar em pessoas erradas rápido demais. Movimentos estratégicos que, poucas horas depois, pareciam já não surpreender ninguém do outro lado. Como se cada passo dela estivesse chegando a alguém antes mesmo de ser concluído. No início, tentou racionalizar. Excesso de trabalho, poucas horas de sono. Paranoia profissional. Até que, numa quarta-feira de manhã, tudo mudou.
Fernanda acabava de chegar na delegacia quando Paulinho surgiu no corredor com um semblante diferente. Mais fechado.
— Precisamos conversar.
Ela entendeu na hora que não era coisa boa. Entraram em uma sala vazia. Paulinho fechou a porta.
— Um dos caras que prendemos… morreu durante a madrugada.
Silêncio.
Fernanda sustentou o olhar dele por alguns segundos.
— Como?
Paulinho respirou fundo.
— Relatório preliminar diz overdose.
Fernanda não reagiu, mas seus olhos endureceram.
— Ele usava?
— Não.
Pausa.
— Pelo menos… não no histórico.
Silêncio.
Fernanda se afastou alguns passos, organizando os pensamentos. O criminoso tinha começado a falar. Tinha citado Jadir e, menos de quarenta e oito horas depois... estava morto.
Coincidência.
Não.
Aquilo não existia mais naquele caso.
— Quem teve acesso à transferência dele? — perguntou Fernanda, agora mais fria.
Paulinho cruzou os braços.
— Muita gente.
— Gente demais... — murmurou.
Naquele instante, algo se encaixou. Não era só Jadir apagando rastros, alguém dentro da polícia estava entregando movimento.
Fernanda levantou os olhos para Paulinho.
— A partir de agora, ninguém sabe de nada.
Pausa.
— Só você... e o delegado.
Paulinho assentiu sem questionar.
Naquela mesma noite, sem registrar nada em sistema, Fernanda apresentou ao delegado um pedido complementar de escutas, quebra de sigilo e monitoramento.
Tudo em sigilo absoluto. Sem protocolo eletrônico, sem circular interna. Sem chance de alguém antecipar seus próximos passos.
No dia seguinte, quando entrou na sala de Amanda, havia algo diferente no olhar dela.
— Conseguimos.
Amanda ergueu o olhar.
— O quê?
— O mandado.
Pausa.
— Grampos, quebra de sigilo… tudo autorizado.
Amanda respirou fundo.
— Então acabou?
Fernanda negou levemente.
— Ainda não, agora a gente precisa de tempo.
— Pra quê?
— Pra eles se comprometerem sozinhos.
Silêncio.
— Pra juntar prova suficiente pra não deixar ele escapar. Ele não articula sozinho... e agora eu sei que isso vai além da empresa.
Amanda percebeu algo diferente nela.
— O que aconteceu?
Fernanda hesitou por um segundo.
— Eu acho que tem gente de dentro ajudando ele.
O silêncio ficou mais pesado. Amanda sustentou o olhar dela.
— Da polícia?
Fernanda assentiu uma única vez.
Amanda soltou o ar devagar.
— Então a gente espera?
Fernanda a encarou por um segundo.
— Não. A gente… usa o tempo.
— Usa como? — perguntou Amanda, desconfiada.
Fernanda cruzou os braços, pensando em uma ideia que há dias queria colocar em prática.
— Você precisa sair daqui.
Amanda não respondeu de imediato. Havia uma linha ali — entre estratégia e escolha pessoal — que ela reconhecia bem demais.
Mas, dessa vez… não parecia um erro atravessá-la.
— De novo isso?
— Agora é estratégia.
Amanda estreitou os olhos.
— Estratégia… ou convite?
Fernanda deu um meio sorriso.
— Os dois.
— E o que está pensando?
— Se estivesse mais quente, litoral, mas com este friozinho, não sei ainda.
Pausa.
Antes que Fernanda completasse, Amanda pareceu pensar em algo.
— Talvez eu tenha um lugar.
Fernanda arqueou a sobrancelha.
— Ah é, aonde?
Amanda apoiou o queixo na mão.
— Campos do Jordão.
Pausa.
— O Eduardo tinha uma casa lá. Na verdade... agora é minha.
Fernanda ficou em silêncio.
Amanda continuou:
— Condomínio fechado. Segurança privada. Controle de acesso. Ninguém entra sem autorização.
Pausa.
— E, honestamente… ninguém vai pensar em me procurar lá.
Fernanda deu um meio sorriso.
— Agora sim… isso parece uma boa estratégia.
Amanda sorriu de volta.
— Você está me chamando pra viajar enquanto investiga um político poderoso... usando a casa herdada do meu ex-marido assassinado?
Fernanda deu de ombros.
— Tecnicamente… sim.
Amanda sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois sorriu.
— Hum... eu gosto da sua forma de trabalhar.
O destino acabou sendo Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. Longe do ritmo de São Paulo, cercado por montanhas cobertas de verde e pelo silêncio elegante que só lugares realmente exclusivos conseguiam oferecer. A propriedade ficava dentro de um condomínio fechado, com segurança vinte e quatro horas, acesso rigorosamente controlado e poucas residências espalhadas entre pinheiros altos, jardins bem cuidados e trilhas de pedra que desapareciam em meio à névoa da serra.
Mesmo durante o dia, o ar carregava aquele frio característico da montanha. O vento passava entre as árvores trazendo o cheiro de terra úmida, madeira e lareira acesa em algum lugar próximo. À distância, as luzes discretas das outras casas quase se confundiam com a paisagem, como se o lugar tivesse sido construído justamente para quem queria desaparecer sem abrir mão do conforto.
A casa herdada de Eduardo não era grande, mas era impecável.
Luxuosa sem excessos. Sofisticada na medida certa. Madeira nobre, vidro, pedra e iluminação quente criavam uma sensação acolhedora, completamente diferente da imponência fria da Casa de Vidro. A sala principal tinha janelas amplas, do chão ao teto, revelando a vista das montanhas cobertas por uma névoa baixa que tornava tudo ainda mais cinematográfico.
Na área externa, em vez de piscina, tinha um deck de madeira com uma banheira de hidromassagem aquecida, parcialmente cercada por vegetação natural, além de um ofurô em pedra vulcânica, de onde era possível observar o céu limpo da serra enquanto o vapor da água quente subia lentamente no ar gelado.
O quarto parecia ter sido feito para desacelerar o tempo. Uma cama ampla, roupas de cama claras e macias, iluminação indireta, mantas espalhadas de forma quase casual e uma lareira de pedra que aquecia o ambiente com um estalo baixo e constante.
Do lado de fora, o frio da serra.
Do lado de dentro...
nenhuma urgência.
— Isso é definitivamente melhor do que interrogatório — comentou Amanda, jogando a bolsa de lado.
Fernanda observou o ambiente.
— Olha, depende do interrogatório.
Amanda riu.
— Você é impossível.
— E você veio mesmo assim.
Amanda se aproximou, abraçando-a e ali ficaram, olhando a vista da janela.
Mais tarde, decidiram sair para caminhar. Para Amanda, o Horto Florestal de Campos do Jordão parecia ainda mais bonito com a presença de Fernanda ao seu lado. As trilhas de pedra estavam cobertas por folhas secas em tons de cobre, dourado e vinho, enquanto os pinheiros altos balançavam suavemente com o vento frio da serra. A névoa começava a descer entre as árvores, criando uma paisagem quase cinematográfica, silenciosa o suficiente para que o mundo lá fora parecesse distante.
Caminharam sem pressa.
As mãos se encontraram naturalmente, como se aquilo já tivesse virado hábito antes mesmo de ser combinado. Os ombros se tocavam de vez em quando. Os olhares demoravam mais do que precisavam. Os risos vinham leves e, entre uma conversa e outra, os silêncios já não pediam explicação.
Trazia paz.
Amanda respirou fundo, observando a fumaça branca da própria respiração desaparecer no ar frio.
— Eu não lembrava como era estar em um lugar assim… sem precisar resolver nada.
Fernanda lançou um olhar breve para ela.
— Então aproveita.
Amanda entrelaçou os dedos nos dela com um pequeno sorriso.
— Estou tentando.
No final da tarde, com o frio ficando mais intenso e o céu assumindo tons alaranjados entre as montanhas, decidiram voltar para a casa.
A noite seria ali.
Sem restaurante. Sem exposição. Sem ninguém por perto.
Amanda preparou tudo na sala principal, perto da lareira acesa. A luz baixa, refletindo na madeira e no vidro das janelas, deixava a casa ainda mais acolhedora. Do lado de fora, a névoa começava a tomar conta da paisagem. Do lado de dentro… só calor.
A mesa de centro foi improvisada com uma tábua de frios impecável — queijos maturados, presunto parma, castanhas, frutas frescas, geleias artesanais e pães rústicos ainda mornos. Ao lado, uma panela de fondue de queijo soltava um vapor suave, perfumando o ambiente, enquanto uma garrafa de vinho tinto descansava aberta.
Amanda serviu as taças.
Fernanda observava mais Amanda do que qualquer outra coisa.
Amanda levou um pedaço de pão ao fondue, provou e fechou os olhos por um segundo.
— Isso devia ser ilegal de tão bom… — murmurou.
Fernanda soltou uma risada baixa.
— A comida?
Amanda ergueu uma sobrancelha.
— Você está se achando demais.
Fernanda aceitou a provocação sem recuar.
— E estou errada?
Amanda sustentou o olhar por alguns segundos antes de levar a taça aos lábios.
— Ainda estou analisando.
Entre uma taça e outra de vinho, os olhares demoravam mais que o necessário. Os sorrisos surgiam sem esforço. O frio lá fora só parecia tornar tudo mais íntimo.
— Eu podia me acostumar com isso — disse Fernanda, mais baixo.
Amanda inclinou levemente a cabeça, divertida.
— Com a comida… ou comigo?
Fernanda sustentou o olhar.
— Com tudo.
E, naquele momento tudo parecia exatamente no lugar certo.
Cansadas da viagem, do frio e da intensidade silenciosa que existia entre elas, decidiram subir cedo. No dia seguinte, queriam aproveitar com calma tudo o que Campos do Jordão ainda tinha para mostrar.
Fim do capítulo
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