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Investigando o meu Problema por Gabi Reis

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Palavras: 2620
Acessos: 285   |  Postado em: 05/05/2026

Capitulo 14

 

O ambiente era fechado demais para o silêncio que carregava.

Um espaço amplo, mas sufocante. Luz baixa. Cortinas pesadas bloqueando qualquer contato com o exterior. Sobre a mesa, um aparelho de telefone em modo viva-voz — estático, imóvel, mas dominando o ambiente como se tivesse presença própria. Ninguém se sentava. Ninguém relaxava.

Dois homens permaneciam de pé, espalhados pelo cômodo, evitando se olhar diretamente. A tensão não vinha de um confronto entre eles...

vinha da espera.

Do outro lado da linha.

Nas últimas semanas, depois da tentativa frustrada de tirar Amanda de circulação, o silêncio do outro lado parecia, a princípio, um alívio, mas não era. Aquilo era tempo.

Tempo para observarem.

Tempo para corrigirem.

Tempo para entenderem por que Amanda ainda estava viva... e por que, desde então, Fernanda Vasconcellos havia se tornado um problema ainda maior.

E agora, depois de dias sem qualquer contato...

a cobrança finalmente tinha chegado.

O pequeno ruído estático do viva-voz pareceu alto demais naquele silêncio contido.

O som da conexão estabilizando cortou o ar.

E, com ele, veio a voz.

— Eu dei tempo pra vocês resolverem — disse, fria, controlada. — E, ainda assim... nada.

O efeito foi imediato. Os homens trocaram olhares rápidos, quase involuntários. Ninguém queria ser o primeiro a responder. Porque eles sabiam:

aquilo não era uma conversa.

Era um julgamento.

— Bem... tudo ficou mais sensível desde a falha — arriscou um dos homens.

— Sensível? — a palavra veio carregada de desprezo — Vocês chamam incompetência de sensibilidade agora?

Pausa.

— A polícia está mais presente. A mulher não anda mais sozinha, aquela investigadora parece um cão de guarda, sempre junto dela.

O homem do outro lado não respondeu de imediato. Mas, diferente de antes… havia tensão no agora.

— Vocês falharam mais de uma vez — continuou ele — e agora ela está viva… atenta… e falando.

Pausa.

— Ou vocês esqueceram o que está em jogo?

Ninguém respondeu.

— Se isso explode… não é só a operação que vai junto.

A respiração do outro lado da ligação ficou mais curta.

— Eu viro o centro disso e quando eu viro o centro… aquela base eleitoral inteira começa a fazer perguntas que não deveriam existir.

— Isso não estava nos planos. — Um dos homens se arriscou em falar.

Outro silêncio.

Mais pesado.

— E tem mais… — o homem hesitou por um segundo, mas falou — a polícia conseguiu recuperar parte dos dados que podem nos incriminar.

— Que dados?

— Um backup… não completo, mas suficiente para levantar conexões. Já está com eles.

Dessa vez, o silêncio não foi estratégico.

Foi perigoso.

— Como… isso aconteceu?

Ninguém respondeu.

— Os outros já sabem? — perguntou, mais baixo.

— Estão começando a pressionar.

— Começando? — ele soltou um riso curto, sem humor — Eles não pressionam. Eles cobram.

Pausa.

— E quando cobram… alguém paga.

O recado não precisava ser explicado. Do outro lado, a respiração ficou mais curta.

— Nós podemos tentar novamente — disse um deles, rápido demais — ajustar a abordagem, ser mais—

— Não.

A interrupção veio seca. Imediata.

— Vocês já chamaram atenção demais.

Disse tentando calcular o próximo passo.

— Isso saiu do controle silencioso — murmurou — agora é contenção de dano.

Pausa.

— E contenção… exige precisão.

O tom mudou. Mais frio e decidido.

— Se ela continuar falando… se essa investigadora continuar avançando…

Pausa.

— Não vai ser só um problema.

Outra pausa.

— Vai ser o fim de todo mundo que está envolvido.

Silêncio absoluto.

— Então escutem bem — finalizou — não existe mais margem pra erro.

Pausa.

— Tenho uma informante dentro da empresa, ela vai avisar quando for a hora.

— Dessa vez… a gente resolve.

E a ligação caiu.

Mas, diferente das outras vezes, não deixou sensação de controle. Deixou urgência e a certeza de que o próximo movimento… não seria discreto.

 

Naquela tarde, Amanda e Fernanda deixaram a empresa pouco depois das dezesseis horas.

Amanda havia dispensado o motorista, pois estava com Fernanda. Dirigia em silêncio, enquanto Fernanda analisava mais uma vez as poucas informações que tinham reunido até ali.

— Tem certeza de que ainda existe alguma coisa lá? — perguntou Fernanda, olhando para ela.

Amanda assentiu, mantendo os olhos na rua.

— Quando a empresa mudou para a sede nova, Eduardo insistiu em manter parte dos backups na estrutura antiga. Contratos antigos, trilhas de auditoria, registros financeiros... tudo que ele considerava sensível demais para depender só da rede.

Pausa.

— Se alguém adulterou os sistemas atuais... lá talvez seja o único lugar onde ainda exista alguma coisa intacta.

Fernanda cruzou os braços, pensativa.

— Então, se você estiver certa...

— A gente pode estar preste a encontrar o motivo real da morte dele.

O silêncio que veio depois foi pesado. Porque, pela primeira vez...

aquilo parecia real demais.

 

Na empresa, Carla permaneceu alguns segundos em silêncio, observando pela janela da própria sala. Do estacionamento da empresa, viu Amanda entrar no carro de Fernanda sem hesitar. As duas saíram juntas, em direção oposta à Casa de Vidro.

Ela pegou o celular devagar.

Digitou.

Carla: Elas saíram juntas. Foram para a sede antiga.

A resposta não demorou.

Desconhecido: Sozinhas?

Carla continuou observando até o carro desaparecer.

Carla: Sim. É o momento de agir.

Dessa vez, a demora na resposta foi um pouco maior.

Desconhecido: O que elas podem encontrar lá?

Carla estreitou os olhos.

Por um segundo, pensou em Eduardo. Nas vezes em que ele desaparecia por horas, trancado em salas que ninguém podia acessar. Nas ligações interrompidas. Nos contratos que ele nunca deixava circular pelos setores comuns.

Ela digitou:

Carla: Não tenho certeza. Eduardo nunca dizia o que escondia.

Silêncio.

Então a nova mensagem apareceu.

Desconhecido: Então elas não podem sair de lá vivas.

Carla leu.

A tela marcou:

Visualizado.

Nada mais.

Mas Carla sabia…

do outro lado, aquilo já era suficiente.

 

A antiga sede da empresa parecia esquecida no tempo. Corredores silenciosos. Luzes de emergência. O cheiro de poeira misturado com equipamento antigo. Fernanda caminhava na frente, arma velada sob a jaqueta, enquanto Amanda digitava os códigos de acesso. A porta metálica abriu com um estalo seco.

O servidor ainda estava lá. Desligado da rede. Intocado.

— Pelo menos alguém não chegou aqui antes da gente — murmurou Fernanda.

Amanda conectou o sistema local e começou a navegar pelos arquivos.

Minutos depois...

as duas já não falavam.

Só observavam. Contratos alterados, aditivos com reajustes injustificáveis. Nomes de empresas de fachada.

Transferências fragmentadas com valores milionários.

Amanda abriu outro arquivo.

E outro.

E outro.

O sangue pareceu sumir do seu rosto.

— Meu Deus...

Fernanda se aproximou.

Na tela, nomes conhecidos começaram a surgir.

Empresários. Intermediários. Assessores públicos. Políticos. Gente grande demais.

— Então era isso... — murmurou Fernanda.

Amanda continuou analisando.

— Existe fraude. Sem dúvida.

Pausa.

— Dinheiro está sendo drenado há anos.

Ela abriu mais um registro.

O maxilar travou.

— Mas quem está comandando isso...

Pausa.

— Ainda não aparece.

Fernanda observou a tela.

— Laranjas.

Amanda assentiu.

— Todos os pagamentos terminam em empresas fantasmas.

Silêncio.

— Eduardo descobriu isso — disse Fernanda.

Amanda respirou fundo.

— E morreu antes de conseguir provar.

As duas trocaram um olhar. Não precisavam falar mais nada. Fernanda fechou o notebook.

— Então já temos o suficiente por hoje. Assim que conseguir, analiso melhor na delegacia.

Amanda concordou.

— Vamos sair daqui.

O estacionamento externo estava silencioso demais. Amanda destravou o carro, mas, antes mesmo de abrir a porta, Fernanda parou. O olhar foi direto para o retrovisor de um veículo estacionado do outro lado da rua.

Imóvel.

Escuro.

Vidros fechados.

Fernanda estreitou os olhos.

— Você percebeu? — disse, mais baixa agora.

Amanda sentiu o corpo enrijecer.

— O quê?

Fernanda não tirou os olhos da rua.

— A gente não está mais sozinha.

A história do “backup completo” se espalhou mais rápido do que Fernanda esperava — e exatamente como ela queria. Quem precisava ouvir, ouviu e entrou em movimento como ela tinha arquitetado.

Amanda manteve a calma.

— Carro preto, vidros fumês?

— Sim. Entra no carro.

Amanda fez o que ela disse.

Fernanda deu partida no carro, inicialmente não arrancou, não correu, só manteve o ritmo, depois que virou uma esquina, ela acelerou e o carro também, confirmado o que ela suspeitava.

— Funcionou… — murmurou Fernanda, quase para si mesma.

— A sua história?

— Sim, eles acreditaram.

Pausa.

— E estão com medo.

— Segura — disse, já mudando o tom e acelerando ainda mais. A perseguição começou sem aviso, curvas fechadas, semáforos ignorados. Os motores dos carros forçados ao limite e mesmo assim eles não recuavam.

— Eles não estão tentando assustar — disse Fernanda, focada.

Amanda segurou firme.

— Confio em você.

Fernanda respondeu acelerando ainda mais. O motor gritou alto demais para o silêncio da rua. Virou brusco em uma lateral, o pneu cantando no asfalto, depois outra, depois mais uma — uma sequência irregular, quase caótica, impossível de prever.

O carro atrás não recuou, pelo contrário ele veio junto e então… o primeiro disparo.

O estampido cortou o ar seco. O vidro traseiro estilhaçou em mil fragmentos que explodiram para dentro do carro. Amanda instintivamente se abaixou, protegendo o rosto com os braços.

— Fica abaixada! — a voz de Fernanda veio mais alta agora, carregada de tensão real.

Outro tiro. Dessa vez mais perto.

O som ricocheteou nas paredes estreitas da rua, amplificando o caos. Fernanda puxou o volante com força, desviando de um carro estacionado por centímetros. O retrovisor arrancou ao raspar em um poste.

O coração de Amanda disparou.

— Fernanda…

— Eu estou vendo! — respondeu ela, já calculando a próxima curva.

Virou de novo. Seco. Rápido. O carro deslizou levemente antes de ganhar tração.

Mais um disparo.

O para-brisa trincou no canto superior, uma teia se formando, mas sem ceder.

Fernanda respirava curto agora. Foco total, mas havia algo diferente na situação, ela não estava só fugindo, ela tentava proteger Amanda.

— Confia em mim — disse, sem olhar.

Amanda assentiu, mesmo sabendo que ela não estava vendo.

Fernanda virou bruscamente em um acesso estreito e subiu uma rampa, o carro quase raspando na lateral. O perseguidor hesitou por um segundo — o espaço era apertado demais.

Tempo suficiente.

Ela desceu por uma saída secundária, surgindo em outra via já em alta velocidade. Misturou-se ao fluxo, mudou o ritmo, apagou o rastro.

E então… sumiu.

Silêncio.

Só o som do motor ainda alto, vibrando.

Amanda soltou o ar de uma vez, como se estivesse segurando desde o primeiro tiro, o corpo ainda tenso, mãos tremendo levemente. Fernanda manteve o volante firme por mais alguns segundos antes de diminuir.

— Você tá bem? — perguntou, finalmente olhando de lado.

— Então… isso faz parte do seu “plano inteligente”?

Fernanda soltou um leve sorriso, ainda atenta.

— Eu chamo de validação de hipótese.

Amanda virou o rosto, encarando-a.

— Prefiro quando a sua hipótese não tenta me matar.

— Anotado.

E ali… pela primeira vez desde que tudo começou… o medo não era por ela, era por Amanda.

 

Devido aos seus treinamentos e o posicionamento do carro que estava por uma boa parte da perseguição na cola delas, Fernanda conseguiu memorizar a placa do veículo e se eles não tivessem sido espertos, ela não era fria.

Deixou Amanda na casa de vidro em segurança e seguiu para a delegacia e foi como ela imaginou, horas depois, no sistema da polícia, as linhas se conectando e o resultado final. O carro estava ligado a uma empresa de fachada, está empresa, levava a outra e outra, até parar em um nome que não deveria aparecer ali. Já ouvido antes, nos noticiários, mas com outro contexto.

Jadir Bonoro.

O nome não era desconhecido.
Fernanda já o tinha visto antes — não em inquéritos pequenos, mas em operações que nunca chegaram ao fim. Licitações públicas. Obras interrompidas. Dinheiro desaparecendo sem deixar vestígios.
Sempre havia rumores. Sempre havia denúncias.
E, curiosamente... nunca havia prisão.

Fernanda travou por um segundo ao encarar a tela.

— Então… você entrou no jogo.

Com a placa, através do sistema de trânsito da cidade, ela conseguiu rastrear o carro encontrando o seu endereço e em consequência, os homens que participaram deste susto que elas tinham levado. Chamou Paulinho, montou uma pequena equipe para reforço e saiu em direção ao endereço. A prisão foi rápida, sem espetáculo. Fernanda sabia que estava pegando peixe pequeno e precisava reunir mais provas e aproveitou o interrogatório para poder consegui-las.

Fernanda entrou na sala de interrogatório, sem pressa, era um ambiente fechado, sem janelas, com uma mesa e algumas cadeiras no centro, sem ventilação, uma luz fria e um vidro espelhado que dava para outra sala. Se sentou na frente de um dos criminosos e com aquele tipo de presença que pressionava mais do que qualquer grito e sem elevar a voz, disse:

— Quem mandou?

Silêncio.

— Vocês se movimentaram depois que a informação vazou.

Pausa.

— Coincidência?

Ele desviou o olhar.

— Vocês falharam uma vez — continuou ela — e ainda assim foram enviados novamente.

Se inclinou levemente.

— Isso não é tentativa é desespero.

Silêncio.

— A gente… só seguiu ordens — disse por fim.

— De quem?

Pausa.

— Você acha mesmo que vai ser protegido? Seu amigo está lá na outra sala com o meu colega e ele já falou que você que o contratou para este serviço.

Ele acabou cedendo.

— A gente não sabia quem ela era…

Fernanda se aproximou.

— Agora já sabe.

— Foi ordem de cima.

— Qual o nome?

Pausa longa.

E então…

— Eu preciso de proteção

— Me diz o que você sabe que eu vejo o que consigo.

— Jadir… Jadir Bonoro.

Fernanda não reagiu, pelo menos externamente, mas por dentro, tudo se reorganizou. A mentira tinha funcionado, mas a confissão trouxe algo pior do que uma resposta.
Trouxe contexto.

Eles não estavam tentando intimidar Amanda. Não estavam tentando ganhar tempo. Eles tinham ordem para eliminar qualquer ponta solta.

E, naquele momento, Fernanda entendeu uma coisa com clareza brutal:
Amanda não estava mais perto do caso. Amanda estava dentro dele e correndo riscos.

E agora o jogo tinha mudado de nível. Fernanda não sentiu apenas o peso do que viria, havia algo diferente.

Não era alívio. Ainda não, era a percepção de que, no meio de toda aquela tensão, alguma coisa inesperada havia surgido — e não podia mais ser ignorada.

Antes de sair da delegacia, Fernanda parou no estacionamento por alguns segundos. O ar da madrugada estava frio, mas não foi isso que a fez hesitar, era aquela sensação de novo. A mesma que aprendera a respeitar anos antes.
A de estar sendo observada.

O estacionamento parecia vazio, silencioso demais. Mesmo assim, sua mão foi instintivamente até a arma na cintura. Ela girou o olhar pelo local uma última vez... e entrou no carro sem abaixar a guarda.

Quando Fernanda voltou para a Casa de Vidro de madrugada, o cansaço era visível, mas havia algo a mais no olhar dela. Algo resolvido.

— A gente avançou — disse, direta quando entrou no quarto e viu que Amanda não dormia.

Amanda assentiu, mas não respondeu de imediato. Observou Fernanda por um segundo a mais do que o necessário.

— E agora? — perguntou.

Fernanda hesitou. Não por dúvida estratégica, mas por escolha.

— Agora a gente precisa sair do padrão.

Amanda estreitou levemente os olhos.

— Isso é sobre o caso… ou sobre a gente?

Um pequeno silêncio se formou.

Fernanda deu um meio sorriso.

— Os dois.

E, pela primeira vez, nenhuma das duas recuou da ideia.

 

Fim do capítulo


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