Capitulo 37
-Exagerada, nem é tão tarde assim...-Sabrina observava o dia lá fora pela enorme janela do apartamento antigo de Fedra.
-Ah, mas se eu não exagero, estaríamos naquela cama até agora...e não me olha assim...
Gargalhadas.
-Não tenho nada contra camas...o dia todo...- Provocou Sabrina encarando-a com olhos languidos.
-Pega casaco e cachecol...ah e guarda-chuva...aqui em Bruxelas nunca se sabe...
Sabrina puxou-a para si e beijou-lhe a boca com vontade. Abraçaram-se entre risinhos.
-Adoro essa tua capacidade de mudar de assunto tão subtilmente que nos confunde...
-Confunde quem? Tu sempre percebes tudo...sabes que se começarmos a falar de cama...
Gargalhadas altas.
-Sai, criatura. Estou com fome e com necessidade de respirar ar fresco...
-Hum-hum...eu também...vou poder ver onde trabalhas? É perto daqui, não é?
-É sim, mas há um contraste enorme, entre esses arredores e a zona europeia, que se tem a impressão de estarmos em mundos diferentes. Onde trabalho, impera vidros e aço, edifícios monumentais, gente a correr de um lado para o outro e aqui...
-Essa casa tão acolhedora...fiquei apaixonada pela escada de madeira em forma de caracol...
-Vou mostrar-te a Bruxelas onde eu vivo o meu dia-a-dia, não a cidade turística.
-Sabes que eu adoro ver o mundo pelos os teus olhos...
Quando finalmente saíram, era pouco depois do meio-dia. Desceram a pé e sem pressa pelas ruas calmas de Etterbeek. Fedra cumprimentava discretamente pessoas pelo caminho: o dono da mercearia italiana, a senhora da floricultura, o homem do quiosque onde sempre comprava queijos, frios e pães.
Passaram pelo Parc Leopold antes de atravessarem a zona europeia. Durante a semana aquele lugar fervilhava de assessores, diplomatas, gente de crachá ao pescoço e a correr com cafés nas mãos. Mas era sábado e tudo respirava melhor.
-Ali passo metade da minha vida em reuniões. -Apontou para um edifício moderno e todo envidraçado.
-E adoras que eu sei. - Brincou Sabrina.
Ela pensou um pouco antes de responder.
-Gosto da ideia de construir coisas maiores do que nós, mas não posso dizer que gosto sempre da forma como isso acontece.
A conversa seguiu num tom adulto e calmo, sem necessidade de impressionar.
Foram almoçar em Le Grand Central, perto de Brussels-Luxembourg railway station. Um lugar elegante sem ostentação, frequentado por jornalistas, funcionários europeus e moradores da zona. Luz quente, mesas de madeira, música baixa.
O restaurante tinha exatamente o tipo de atmosfera que elas apreciavam: silêncio suficiente para conversar, mesas espaçadas, luz natural, empregados discretos.
Sentaram-se perto das janelas altas viradas para o verde. O almoço prolongou-se sem culpa. Partilharam pão ainda quente, salmão fumado, uma salada morna com queijo de cabra, vinho branco leve. Ela falava da sua nova cidade como quem fala de uma pessoa complicada de quem gosta muito.
-Bruxelas demora a revelar-se. Ao início parece cinzenta, depois percebes que é só reservada.
-Pareces bastante integrada aqui...gosto de conhecer a cidade pelos teus olhos e acertaste em cheio ao escolher um roteiro humano...- Sabrina piscou.
-Conheço a minha mulher e não faria diferente...a menos que quisesse irritá-la.
Risos soltos.
-Adoro o teu humor...- Os olhos de Sabrina brilhavam.
-E eu estou feliz que estejas aqui...
Entrelaçaram as mãos sobre a mesa enquanto o empregado de mesa servia-lhes mais vinho.
Lá fora começava a chuviscar, mas em Bruxelas ninguém altera planos por causa da chuva.
Abriram os guarda-chuvas e seguiram a pé em direção a Bois de la Cambre. O percurso fazia parte da experiência e Bruxelas ia-se revelando, não em monumentos isolados, mas na transição entre bairros: fachadas art nouveau discretas, bicicletas encostadas, cafés pequenos cheios de gente a ler sozinha, livrarias escondidas, árvores enormes surgindo entre avenidas.
Fedra caminhava devagar, como quem finalmente tem companhia para um percurso que antes fazia sozinha.
No parque, o lago refletia o céu cinzento-prateado típico da Bélgica. Corredores passavam em silêncio, casais empurravam carrinhos de bebé. Alguns estudantes bebiam vinho sentados na relva húmida apesar do frio.
Elas andaram um bocado, sem destino exato, até que decidiram sentar um bocado num banco.
-Quando cheguei a Bruxelas vinha muito aqui ao fim do dia - contou ela. - Era a maneira de não enlouquecer dentro do apartamento.
Sabrina ouvi-a sem interromper.
-Foi difícil...tive que vencer alguns fantasmas que nem sabia que me assombravam...às vezes a saudade da minha vida antiga me estrangulava...
-Pois...saudades...de coisas simples como esse passeio...nosso almoço, poder conversar ou apenas caminhar pelas ruas lado a lado...
Suspiraram e trocaram sorrisos cúmplices.
-Escolhas, meu amor...
-E suas consequências...
-Sim...mas tendo prazo de validade, tudo acaba se ajeitando...
-Ah, na próxima semana vou ao Japão...
-Sabrina...-Fedra arregalou os olhos.
-Calma...apenas uma semana, mas eu já havia dito que essa possibilidade poderia materializar-se...
-Não inventes de a seguir a Glasgow, rumar ao Japão. -Na face mantinha uma expressão que mesclava seriedade e um risinho de canto de boca.
-É sério...Japão é longe demais...
-Mesmo se estivermos juntas?
-Então já é uma certeza? - Fedra agora estava brava.
-Estou a brincar...sua bravinha. -Riram. -Eu jamais decidiria algo assim sozinha...jamais.
Continuaram a conversar sobre amenidades enquanto observavam a vida passar sem pressa.
Ao fim da tarde refugiaram-se no Café Belga, em Place Flagey. O café estava cheio de gente típica da cidade: artistas, funcionários europeus, jornalistas, professores universitários, casais tranquilos, pessoas sozinhas perfeitamente confortáveis na própria companhia.
Sentaram-se junto às janelas embaciadas e pediram café forte e tarte de maçã.
Sabrina observava as mãos dela frias em volta da chávena, enquanto falava do quotidiano: o mercado onde sempre comprava flores, os trajetos que fazia a pé quando precisava pensar, os dias em que Bruxelas lhe parecia demasiado burocrática e os outros em que lhe parecia profundamente humana.
O jantar ficou para Le Chou de Bruxelles, num ambiente acolhedor, madeira escura, pouca luz e mesas ocupadas por gente que parecia frequentar o lugar há anos. Comeram devagar e Sabrina fez questão de provar mexilhões com batatas fritas, tudo acompanhado com vinho tinto.
Depois do jantar, em vez de regressarem logo a casa, Fedra insistiu num último desvio.
Entraram na Flagey para um concerto pequeno de jazz contemporâneo, daqueles em que metade da sala parece composta por habituais silenciosos. Sentaram-se lado a lado, próximas o suficiente para partilharem calor sem precisar falar. Não demorou muito para entrelaçarem mãos. Perto do final do concerto, Fedra encostou a cabeça ao ombro dela por alguns minutos, como quem finalmente abranda.
Quando saíram já passava das onze. Bruxelas estava húmida, fria e quase vazia.
-Vamos para casa a pé? - perguntou Fedra sorrindo.
-Vamos!
Começaram a subir lentamente pelas ruas tranquilas de Ixelles em direção a Etterbeek. Os elétricos passavam ao longe com aquele som metálico suave que parece fazer parte da respiração da cidade.
Não demorou para Sabrina entrelaçar o seu braço no de Fedra por baixo do casaco.
Passaram por pequenos restaurantes ainda abertos, bicicletas molhadas pela chuva, mesas vazias no exterior cobertas por aquecedores vermelhos. Bruxelas e seu charme específico...
Ao atravessarem novamente a zona europeia, agora quase deserta, os edifícios de vidro refletiam as luzes da rua. Durante o dia tudo ali parecia institucional e apressado. À noite, ficava estranhamente melancólico.
-Sabes o que é estranho? - disse Fedra baixinho. - Eu fiz este caminho tantas vezes sozinha que ainda me custa um pouco acreditar que agora estás aqui.
Sabrina interrompeu o passo e puxou-a delicadamente para mais perto. Olharam-se durante alguns segundos, completamente despidas de qualquer defesa ou medo. Beijaram-se lentamente no meio da rua vazia, sob uma luz amarela refletida no chão molhado.
***
Quando chegaram ao prédio, Fedra demorou alguns segundos à porta, procurando as chaves dentro da bolsa enquanto era observada em silêncio. A luz do corredor acendeu automaticamente atrás do vidro da entrada.
Subiram lentamente as escadas em forma de caracol porque o elevador antigo estava novamente avariado.
Dentro do apartamento, o aquecimento fazia aquele ruído metálico discreto dos prédios europeus antigos. Fedra pousou a bolsa numa cadeira, descalçou as botas no corredor e ficou alguns segundos parada, olhando para Sabrina como se ainda estivesse a habituar-se à ideia de não estar sozinha ali.
A cidade via-se pelas janelas grandes da sala: telhados húmidos, algumas luzes acesas, o reflexo distante dos elétricos.
Sabrina aproximou-se devagar.
-Então... esta é a tua vida em Bruxelas.
Fedra assentiu com um leve sorriso nos lábios. Não havia necessidade de fingir perfeição. O apartamento ainda tinha alguns livros empilhados no chão, chávenas esquecidas na bancada da cozinha, um laptop cheio de documentos da Comissão Europeia aberto sobre a mesa. Era uma vida real, a sua vida exigente e que construía com esforço.
Lá fora, Bruxelas continuava húmida, fria, discreta. Lá dentro, as duas tinham finalmente chegado ao mesmo lugar.
***
A madrugada já estava nas suas primeiras horas, quando Fedra saiu do banheiro depois de um longo banho quente e notou que Sabrina tinha adormecido enquanto a esperava. Sorriu feliz e rapidamente arrumou-se para dormir. Queria aproveitar cada segundo daquela visita. Depois de passar os cremes faciais, desligou a luz principal, acendeu o abajur de luz amarelada e acomodou-se debaixo das cobertas gem*ndo de prazer ao encostar-se no corpo quente de Sabrina. Beijou-lhe as costas, ombros e aconchegou-se ainda mais.
-Quase entrei ali para ver se estavas viva...- a voz de Sabrina soava rouca.
Fedra riu e beijou-lhe as costas ainda com mais vontade.
-Estás acordada, minha bravinha? Desculpa...precisei relaxar os músculos depois dessa maratona de hoje por Bruxelas.
-Inventas moda e depois eu que pago as favas. - Sabrina virou-se e encarou-a sorrindo.
Riram juntas e trocaram beijinhos.
-Sabrina, falamos tanto da minha vida aqui e de outras coisas triviais, mas não me disseste se está tudo bem contigo. - O tom de Fedra era tão baixo que lembrava uma caricia.
-Estou bem...está tudo bem...
-Glasgow tem sido amorosa contigo?
-Hum-hum...gosto de viver ali, apesar do frio excessivo... o trabalho, já sabes...desafiador, mas eu consigo...
-Eu não tenho dúvidas em relação ao teu desempenho profissional...nada de Japão.
Risos na madrugada.
-Meu bem...
-Hmmm...
-Eu sei que o assunto é delicado, mas...agora que vives na europa, não pensas tentar uma reaproximação com o teu pai?
Os olhos de Sabrina escureceram e ela instintivamente mordeu o canto da boca.
-Desculpa...não quis ser invasiva...apenas pensei que...
-Preciso mesmo falar contigo sobre isso...antes que enlouqueça...
Fedra ficou alerta e soergueu um pouco o corpo. Sabrina também pareceu mais desperta.
-A mulher do meu pai tem mantido algum contato...
-Sim? Desde quando?
-Ainda estava em Cabo Verde quando ela ligou pela primeira vez...meu pai tem tido algumas questões de saúde e ela achou por bem me comunicar...nunca fomos próximas - riu nervosa - mas se não sou próxima do meu pai...
-E? queres falar sobre isso?
-Quero...preciso. Ainda não sei muito bem lidar com essa aproximação da Martina...já abordei na terapia...sinto-me confusa, com medo de...
-Medo de quê, meu amor?
-Sei lá...de estar a confundir as coisas...às vezes ela parece tão acolhedora e nunca foi assim...ela me liga sempre e nem sempre para conversar sobre o meu pai...
-Aproveita o afeto, meu bem...tu tens maturidade emocional suficiente para entender as nuances de cada relação...- Fedra acariciou-lhe a face com carinho.
-Ah, combinaste esse discurso com a Dra. Teresa? - sorriu - ela me diz a mesma coisa na terapia...mas sei lá...tenho medo de confundir...
-Tu não confundes nada, ninguém percebe melhor do que tu e mais ainda, tens o dom de deixar tudo claro para a outra parte...- os olhos de Fedra brilhavam de admiração.
-Não entendi...
-Eu me apaixonei por ti de forma avassaladora, tive um medo quase paralisante que foi imediatamente dissipado diante das tuas atitudes...tu és transparente, no amor e na dor e eu te amo por isso e por outras tantas razões...
Lágrimas brotaram em simultâneo.
-Já falei de ti para ela, da minha namorada que mora em Bruxelas e do quão apaixonada eu sou...também não sei porque eu contei...
-Porque tu és transparente...- Beijou-lhe a boca rapidamente.
-Meu pai nunca se interessou pela minha vida, com quem me relaciono...e ela tem perguntado por ti, por nós...- o choro veio sem pedir licença.
-Meu amor...-Fedra beijava-lhe as lágrimas. - Eu te amo...tanto...tanto...
-Vamos dançar? - Pediu Sabrina num rompante.
-Agora? -Fedra franziu a testa.
- É proibido?
-Não, claro que não...a menos que queiras montar uma discoteca nesse quarto.
Risos abafados.
Sabrina pegou o seu telefone e escolheu rapidamente uma música. Os primeiros acordes ecoaram e Fedra riu alto.
-Porque será que eu já sabia que seria essa?
-Porque é a minha favorita quando estou emocionada e tu sabes disso desde que me conheceste há milhões de anos...
Risos com beijos.
-Sei...mas como se dança com essa música e ainda mais em cima de uma cama?
-Teu colchão é duro e resistente...vem cá antes que a música acabe. -Puxou-a pela mão e ficaram em pé sobre o colchão.
-Como se já não estivesse no repeat...
Gargalhadas com muitos beijos e quase caíram da cama abraçadas.
-E tu com essa mania de achar que a versão do Sam Smith é melhor...sacrilégio.
Gargalhadas.
-Meu amor, Cindy é PERFEITA! Essa música é a trilha sonora da minha vida...- Sabrina ergueu os braços e Fedra enlaçou-a com força pela cintura.
-Esforça-te só mais um pouco que consegues me convencer que a da Cindy é melhor...- Desafiou Fedra num tom provocativo.
-Eu sei de uma forma de te convencer...- A voz rouca de Sabrina já era o prelúdio do que respondia à ânsia de Fedra.
-Mostra-me...
Fim do capítulo
Voltei e com direito a overdose de Depois eu te conto rsrsrs...
Segundo capítulo do dia...
Abraço a quem ainda estiver por aqui.
Nadine
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NovaAqui
Em: 03/05/2026
Abraço recebido
Amei a overdose! Delícia esse city tour por Bruxelas rsrs
Martina trazendo notícias do pai. Será que haverá uma reaproximação?
Adorei demais esses dois capítulos cheios de amor e turismo
Boa semana nessa sua terra linda
Sinta-se abraçada
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