Capitulo 36
Sabrina olhava a paisagem da rua pela janela do seu escritório e sorria ao se dar conta, mais uma vez, que a vida nunca seguia como um script perfeito. Pelo menos, não a sua. As célebres reviravoltas ou cambalhotas como sempre se referia não cansavam de a surpreender. A mudança para Glasgow sofreu uma alteração de datas e com isso, teve de permanecer mais tempo na Praia.
Agora que finalmente podia seguir viagem para sua nova vida, Fedra estava em viagem de trabalho pela Escandinávia e não poderiam se encontrar tão depressa como era desejado. Já não se viam há quase três meses e por mais que o contato fosse diário pelas vias possíveis, a saudade do toque, de ouvir a risada, partilhar o mesmo espaço físico, já começava a pesar.
- Para com isso, Sabrina...desde quando és sentimental? Piegas? - riu abanando a cabeça - Preciso ser forte e coerente...
Suspirou olhando para a sua mesa quase vazia e a nostalgia foi imediatamente substituída pelo afã do novo. Vida nova em Glasgow, novos desafios, cidade que não conhecia, gente nova e...apenas duas horas de voo de Fedra, essa era sem dúvida a melhor parte, sorriu animada.
***
Uma semana em Glasgow e o tempo tinha voado na velocidade de um raio. Sabrina oscilava entre a emoção do novo e uma ligeira estranheza, sensação de estar fora do lugar. Claro que geograficamente tinha feito uma grande mudança, mas muitas vezes sentia-se quase noutra pele. O frio marcante exigia que ela estivesse sempre alerta e isso às vezes provocava uma inquietude que ela ainda não conseguia definir claramente.
Em meio ao trabalho novo, céu cinzento da cidade, novo quotidiano, e uma respiração profunda e outra, ela pensava que o amor não tinha ficado para trás. Talvez fosse testado e sentia-se pronta para ultrapassar qualquer desafio.
***
As semanas passaram numa velocidade particular. Entre demandas profissionais de um lado e do outro, o tão sonhado reencontro foi adiado várias vezes. O que poderia rapidamente transformar-se numa questão, elas conseguiram contornar da forma que era possível.
As novas vidas já não eram novidade e elas se adaptaram ao que era possível no momento. A relação, de certa forma, mudou de ritmo. Nem sempre havia disposição para longas conversas ao final de um dia exaustivo de trabalho, mas sempre havia cuidado e presença. Nunca faltava "já comeste?" ou ainda "vou entrar em reunião, mas depois quero falar contigo". Nova dinâmica, mas sempre com presença.
Mas o ritmo nem sempre era linear. As fissuras ameaçavam em dias em que Sabrina queria conversar e Fedra estava muito cansada e mal reagia ou, quando Fedra queria partilhar algo trivial do quotidiano e Sabrina não tinha tempo por estar em maratona de reuniões. Pequenos desalinhamentos que poderiam ser facilmente contornados, mas que se não sanados, poderiam transformar-se em algo menos funcional.
***
Fedra mal cabia em si de ansiedade para partilhar com Sabrina que, finalmente, conseguiria voar até Glasgow. Um ajuste aqui, outro ali, e finalmente tinha conseguido 3 dias inteiros para estar com sua mulher. Com o coração batendo em ritmo acelerado, enviou uma mensagem curta:
"Consigo voar amanhã."
Esperou ansiosa a reposta ou até uma ligação imediata de uma Sabrina aos pulos de alegria. Nada. A mensagem entregue e nenhuma reação. A sensação de desconforto ganhou proporções ainda mais angustiantes quando ela percebeu que Sabrina visualizara e o silêncio cortante permaneceu. O cenário de catástrofe rapidamente instalou-se na mente agitada de Fedra. Pensamentos como, ela não quer que eu vá...ou, conheceu outra pessoa...estou dependente demais, chata...o amor era só meu...tantos cenários dramáticos e igualmente sufocantes.
Duas longas horas se passaram até que a resposta de Sabrina veio: "Desculpa! Estava numa reunião longa. Amanhã não consigo, tenho entrega importante sábado cedo."
Fedra leu e releu vezes sem conta, tentando adaptar aquele conteúdo seco e prático à voz doce de Sabrina. Respirou fundo e teve a sensação que um deserto enorme preenchia sua garganta e descia pelo coração. Precisava reagir como adulta, mas isso significava exatamente o quê?
"Ok, sem problemas!"
Enviou sem pensar para imediatamente se arrepender. Não era esse o tom que queria, mas também não sabia ao certo o que escrever sem parecer carente demais ou desligada. Que grande confusão. Não estava acostumada com essas nuances emocionais e muito menos com relações à distância...
-Como não, Fedra? Viveste mais de um ano uma relação com altos e baixos, mas muito boa com ela em Mindelo e tu na Praia...
A verdade era que algo estava muito diferente...o deserto do coração subiu para a cabeça e de repente uma névoa densa pareceu cobrir todo o ambiente.
O telefone tocou e Fedra sobressaltou-se a ponto de deixá-lo cair ao chão. Era Sabrina. Respirou fundo, e com o dedo hesitante, premiu a tecla.
-Fedra...
O tom de voz doce que sempre a acalmava. Silencio curto.
-Posso adivinhar? Já fizeste um filme inteiro aí nessa cabecinha prodigiosa. - Sabrina riu cansada.
-Um bocadinho...- Fedra suspirou sentindo-se inadequada.
-Meu amor, eu queria muito que tu viesses. Eu só não consigo esta semana. O trabalho é mais exigente do que eu imaginava e não posso e nem quero defraudar as expectativas em mim depositadas. É a minha primeira entrega grande, já deves imaginar como estou...não tenho cabeça para mais nada e seria péssima companhia, sem contar que tenho morado no escritório...quero e preciso estar inteira para ti, para nós...
Pequena pausa e respirações ritmadas.
- Só não consigo agora, e tu não tens que adivinhar. Tens que perguntar.
Fedra respirou fundo e fechou os olhos. Aprendeu a lição, mais uma...
-Eu sinto falta de te ver. - Declarou Fedra sem qualquer pudor.
-Eu também...nem imaginas o quanto...- A voz de Sabrina ficou um pouco mais quente.
-Então marcamos outra data. - A célebre praticidade voltou a reinar.
-Marcamos!
Desfeito o equívoco, a conversa fluiu como sempre, regada a risadas, presença e mais certezas do que dúvidas.
***
Tarde da noite e ainda sem conseguir dormir, Fedra olhou as horas e decidiu que ainda podia ligar para Glória em Cabo Verde. Estava mais calma, mas ainda permanecia uma sensação de desconforto no peito e talvez a espontaneidade de Glória ajudasse a amenizar.
-Acordei-te?
-Não...ainda é cedo, estava a ler...mas para a senhora já se faz tarde. Tudo bem?
Em poucas palavras relatou os últimos acontecimentos e não foi difícil Glória entender as nuances, uma vez que a conhecia muito bem e estava a par de todo o contexto.
-Tenho me sentido tão...às vezes não me reconheço nessa mulher carente, dependente...sei lá...- desabafou sem medir as palavras.
-Fedra...
-Mas é assim que me sinto, uma chata, carente...Glória, eu tenho 50 anos, se até hoje não aprendi a me relacionar...
-Ah e se eu te dissesse que estás a viver algo novo e que coisas novas levam o seu tempo...
-Como assim? Referes ao fato de me relacionar com uma mulher? Mas...
-Não...nada a ver, podes ser carente e chata com homem, mulher, até com um gato de estimação.
Gargalhadas.
-Só tu, mulher...doida, mas explica-me melhor...
-Amor, vamos ser francas aqui, até porque nesse horário já não me resta filtro algum. Fedra, ao longo da tua vida tens mantido relações muito superficiais, isso quando...ah amiga, tu ou relacionas com figuras como o José Carlos que, emocionalmente não exigem nada de ti, ou quando mais nova, eras quase sempre amante de alguém...acho que estás a aprender a viver com alguém que tem disponibilidade para ti e é provável que te percas pelo meio...até encontrar o tom certo.
Silêncio.
-Passei do ponto? Desculpa, mas pediste sinceridade...
-Não...foste cirúrgica. É isso mesmo, não sei lidar com quem está disponível para mim, mas que também tem mais o que fazer.
Riram juntas.
-Durante muito tempo, vivi relações blasé, ou como disseste e bem, relações em que eu me encaixava no tempo que sobrava...agora meto os pés pelas mãos com uma mulher que está inteira para mim, mas que não depende emocionalmente de mim...como eu amo essa mulher...Glória, a Sabrina é a pessoa que quero que esteja ao meu lado enquanto o amor durar...
Glória sorriu.
-Vocês vão encontrar o tom certo...e não fiques triste com a minha amiga que é viciada em trabalho e em ser muito boa no que faz...até porque, a senhora não é muito diferente.
Gargalhadas.
-Quem sabe uma terapia...a Sabrina melhorou muito depois que começou a levar as sessões a sério.
-Já tinha pensado nisso, até comentei com a minha filha...faço qualquer coisa para melhorar essa minha ansiedade...e a senhora que está tão centrada?
Risos.
-Ah, amiga, em algum momento eu precisaria me acalmar...estou fazendo umas práticas zen e tentando melhorar...daqui a pouco minha filha fica adolescente e uma mãe doida e intensa não vai conseguir ajudá-la...
-Tenho saudades tuas...não imaginava que fosse sentir tanta saudade de casa...
-Logo tu que sempre foste tão "do mundo" ...
-Pois é...tanta novidade por aqui...
-Por cá, estão todos bem...dona Gracelina cada dia mais jovial, a Malia correndo atrás dos sonhos...tenho estado com o Djaiss de vez em quando...está tudo bem...
-Que bom! Fico mais aliviada...a vida segue tranquila por lá e eu preciso me sintonizar nessa mesma frequência por aqui...
-Vocês vão conseguir...o mais importante, transborda. A Sabrina te ama muito...isso é tão bonito e eu me sinto parte dessa história...impulsionadora, sei lá...
Gargalhadas.
-Peça fundamental...sem tua insistência, poderíamos nunca mais ter cruzado caminho...
-Faça o favor de ser feliz, dona Fedra!
-Prometo!
***
Depois de alguns ajustes, finalmente conseguiram organizar a viagem do reencontro depois de mais de 4 meses distantes. Sabrina conseguiu uma folga de três dias e embarcou para Bruxelas. Sentia-se exausta física e mentalmente e definitivamente precisava do suporte emocional de Fedra. Sorriu ao ver uma mensagem dela mal pisou no aeroporto, avisando que estaria mais ou menos meia hora atrasada. Na mesma mensagem vinha todas as coordenadas de como ela deveria agir e que faria de tudo para não se atrasar mais do que os tais 30 minutos.
Sabrina entrou num carro e seguiu para o endereço que Fedra indicara. Era um bar muito charmoso que ficava entre o escritório e seu apartamento, mas muito mais perto do apartamento. O lugar era perfeito para o estado de espírito de Sabrina que não estava com a menor paciência para barulho de música ou de muita gente à conversa. Era final de tarde e já muitas pessoas aproveitavam o happy hour, mas sem algazarra. Depois de acomodada e já sem o casaco pesado de frio, ficou alguns minutos de olhos fechados tentando se orientar no novo espaço e ao mesmo tempo, tentando apaziguar o coração, que esse sim, fazia um barulho considerável que lhe atingia os ouvidos. Ainda de olhos fechados, levou as mãos ao peito e sorriu se achando doida.
Mais calma e com fome, pediu uma dose das célebres batatas fritas belgas com uma porção de croquete de camarão. Enquanto aguardava, bebia uma cerveja e observava as pessoas. Outra língua, outro lugar, outro mundo...o novo mundo de Fedra. Sorriu mais uma vez imaginando o que ela sentiria quando fosse visitá-la em Glasgow. Mais um gole na cerveja gelada e muito boa e o telefone vibrou sobre a mesa. Pegou-o rapidamente acreditando que fosse Fedra, mas não era. Era Martina. O coração vibrou num ritmo bem diferente. Respirou fundo e atendeu num tom afetuoso.
***
Fedra entrou no bar, sacudindo o casaco que tinha pingos de chuva, enquanto seu olhar percorria o espaço com urgência. Viu Sabrina sentada de costas para a porta e sorriu, mas sem conseguir sair do lugar. Levou algum tempo a literalmente namorar a figura dela que parecia estar em outra galáxia. Seu peito contraiu e se expandiu numa velocidade tal que sentiu as pernas querendo falhar. Repreendeu-se de tamanho exagero e respirando fundo, dirigiu-se para junto dela.
-Ei...
Sabrina virou-se e o sorriso que lançou poderia facilmente iluminar todo o bar que estava quase na penumbra.
-Meu amor, desculpa não te esperar, mas estava faminta...
Riram ao mesmo tempo que Sabrina se erguia e se fundiam num abraço apertado. Ficaram se apertando, rindo, sorrindo, gem*ndo de satisfação.
-Estás mesmo aqui...-Suspirou Fedra, apertando Sabrina ainda mais contra si.
-Estou! Bruxelas parecia estar à distância de Marte...
Riram e Fedra cheirou o pescoço de Sabrina deixando-a toda arrepiada.
-Desculpa o atraso, mas nem sempre as coisas correm como o planeado e hoje tudo parecia estar contra mim...
Sentaram.
-Exagerada! Só esperei 40 minutos...totalmente insignificante, quando penso que não te vejo há meses...-Sabrina sorriu com ternura, apertando a ponta do nariz de Fedra.
-Queria ter ido ao aeroporto...queria poder ser uma cicerone à tua altura...a cidade é bonita e tu mereces o melhor...
-Meu bem, calma...respira...- Sabrina pousou uma mão na perna de Fedra.
-Queria que fosse marcante...só isso...
-Está sendo e sei que vai melhorar muito mais...estás estranha, ou melhor, agindo como seu eu fosse uma quase estranha...
-Estou?
-Hum-hum...
-Ah, desculpa...acho que estou ansiosa e é tão ridículo...
Sabrina riu alto apertando o antebraço de Fedra sobre a mesa.
-Eu preciso contar-te tantas coisas e agora que estás aqui, sinto que preciso correr para não esquecer nada...
-Meu bem...temos tempo, vou ficar 3 dias...-Sabrina acariciava-lhe o rosto com a costa dos dedos.
-Ufaaa, Sabrina...eu não sabia que podia sentir tanta falta de alguém...já foi bem mais difícil, mas agora que estás tão perto, parece que a sensação de vazio volta com força total - arregalou os olhos - Eu sei...eu sei, não faço o menor sentido e deves estar a perguntar que mulher é essa?
Sabrina riu se aninhando nela e abraçando-a da forma que era possível naquele momento.
-Não estou a pensar nada...e se estou mais calada é porque o cansaço me consome...o projeto de Glasgow tem sido desafiador e sabes como sou...
-Hum-hum...perfecionista e maníaca por trabalho.
Risos.
-Como se fosses exatamente o oposto. - Ironizou arrancando uma risada de Fedra.
Depois de alguns minutos no bar, saíram e Fedra sugeriu que fizessem um passeio antes de irem ao seu apartamento. Percebendo a sua vontade em lhe mostrar alguns pontos da cidade, Sabrina aceitou.
-Parou de chover, vamos aproveitar.
-Vamos!
***
Pelo apartamento ouvia-se a música de uma playlist chill, barulho de água a correr no chuveiro e sons de utensílios na cozinha. Fedra tentava prestar atenção ao ponto certo do molho que borbulhava na frigideira, ao mesmo tempo que lutava para afastar do peito uma sensação de que alguma coisa já não estava exatamente no lugar certo. Sabrina nunca fora a pessoa mais expansiva do universo e muito menos a mais falante, mas agora estava mais introspetiva do que nunca, beirando o desinteresse.
-Ai porr*, queimei a mão...- assoprou a lateral da mão direita ao mesmo tempo que tentava respirar fundo e não se perder em dramas antecipados.
Ainda imersa na sua aventura culinária, Fedra tentava entender sinais, sem se perder na ansiedade que já antevia um caos emocional que poderia ser em vão.
-Eu não sei em que momento da vida eu me tornei essa criatura tão carente...e pensar que já quase paguei para ficar sozinha no meu canto...-Riu de si mesma, servindo-se de mais uma taça de vinho.
-Que cheiro delicioso...
Fedra foi surpreendida pela presença de Sabrina e por pouco não deixou a colher cair ao chão.
-Desculpa...eu te assustei?
-É o hábito de sempre estar sozinha...e a senhora anda como uma pluma...
-Estou descalça...e com fome...-Sorriu.
Sabrina aproximou-se e abraçou Fedra por trás como quase sempre fazia quando ela comandava as panelas.
-Não senhora...sai daqui ou perco o ponto do molho...- Fedra tentou empurrá-la para longe enquanto ria.
-Tens certeza? Não toco nas tuas mãos e só precisas delas para mexer a colher...-Provocou Sabrina estreitando ainda mais o contato.
-Sai daqui...eu perco a concentração e não quero saber de ninguém reclamando que a comida não está boa...
-Ok...ok, mas pelo menos vou garantir o vinho. - Pegou a garrafa de vinho e saiu do alcance de Fedra arrancando uma gargalhada dela.
-Gosto do apartamento...- Disse Sabrina andando pela sala. - do chão de madeira...
-Mas falta alguma coisa...não achas?
-Talvez um toque teu...mas no geral, é funcional. - Fedra observava os detalhes dos quadros.
-E o teu apartamento em Glasgow?
- O quê?
-Ele tem a tua cara?
-Hmmm...acho que não, mas eu paro tão pouco em casa que toque pessoal torna-se quase supérfluo...posso colocar os pratos na mesa?
-A casa é tua, Sabrina. Não tem as louças bonitas da minha casa na Praia, mas eu sei que consegues fazer milagres com peças triviais.
Riram juntas.
Não demorou muito para estarem sentadas uma em frente à outra, saboreando uma refeição deliciosa.
-Acertei no ponto? - Perguntou Fedra com os olhos brilhando.
-E ainda perguntas? -Sabrina apontou-lhe o prato vazio. - E servi-me duas vezes...maravilhoso.
-Pelo menos isso...- Fedra arrependeu-se imediatamente da frase dita, mas já era tarde.
Sabrina pousou os talheres e encarou-a com uma expressão no olhar que a deixou ainda mais desconfortável.
-É que...ah Sabrina, parece que tudo é indiferente...eu queria tanto que viesses, queria te mostrar as coisas bonitas desse lugar, queria ver o entusiasmo nos teus olhos quando achas alguma coisa interessante...o olhar lindo para o novo pelo qual sou completamente apaixonada...mas parece que...- soltou o ar com força.
-Eu não vim para fazer turismo. Vim para estar contigo...porque estava com saudades sufocantes...de nós...não vim antes porque o trabalho é mais exigente do que eu poderia imaginar...não tem sido fácil e eu quero que dê certo...eu preciso que dê certo...se queres saber, esses quatro meses longe de ti têm sido meu calvário...mas nós escolhemos isso, não foi?
-Sim...
-E de forma consciente...então temos que fazer valer a pena. Estás feliz?
-No trabalho? Sim, claro. Eu adoro o meu trabalho e ao contrário de ti, não me exige muito. Tem as viagens de rotina, mas é tudo aqui pela europa e...sim, estou feliz. Era isso que eu queria, mas sinto a tua falta...da minha família...
-Tenho falado sempre com a Glória...ela liga em horários nada ortodoxos, mas nada supera a falta de noção da Catarina - riu alto - essa me liga de madrugada e sempre alega esquecimento do fuso horário.
Fedra notou uma mudança sutil de assunto, mas desconsiderou a fagulha que acendeu no seu cérebro.
-Ela e a minha filha seguem trabalhando juntas e ao que parece, muito entrosadas.
-Sim...encontro que deu muito certo. A Malia coloca a Catarina nos trilhos e ela dá um pouco mais de fervor à vida da tua filha.
Gargalhadas.
-A senhora não se importa se eu for tomar banho? Estou cheirando a temperos...
Risos.
-Desde que não demores muito...
-A minha meia hora de sempre...
Gargalhadas.
Sozinha, Sabrina levantou a mesa e aproveitou para deixar tudo em ordem na cozinha. Com cada coisa no seu lugar e nenhum sinal de Fedra, deixou a sala com uma luz acolhedora, colocou uma música suave para tocar e refastelou-se no sofá, suspirando de prazer.
De volta ao ambiente, Fedra foi beber água e o fato de tudo estar organizado chamou-lhe a atenção. Sabrina tinha a mania da ordem, mas tudo se escalava quando algo lhe perturbava. Alguma coisa lhe dizia que não eram apenas questões de trabalho, mas de repente, tinha medo de ser invasiva. Tinha a sensação que a qualquer momento, ouviria algo que viraria seu mundo do avesso...
-Não estou preparada para isso, mas era um risco que sabia que existia...-Sussurrou para os seus botões caminhando em direção ao sofá.
Observou Sabrina de olhos fechados, aparentemente dormindo placidamente e uma sensação que beirava à angústia fez contrair sua garganta. Não estava preparada para viver sem aquela mulher e não abriria mão de nada, a menos que não tivesse outra alternativa. Sentou-se na beirada e acariciou-lhe o braço desnudo. Sabrina abriu os olhos devagar e puxou-a para si.
-Demoraste...-Apertou-lhe contra o corpo, cheirando-lhe a pele.
Fedra não conseguiu dizer uma palavra. Sentir aquela pele contra a sua, os corpos colados, o coração de Sabrina batendo contra os seus ouvidos enquanto sua cabeça descansava no seu peito, era a expressão máxima da felicidade. Sensação de familiaridade, aconchego...sua vida fazendo sentido.
-Esse sofá é uma delícia...eu poderia dormir aqui...
-Ah, mas dizes isso porque ainda não viste a minha cama...
-Boa?
-Deliciosa...
-Imagino...-Suspirou, entrelaçando uma perna nas pernas de Fedra. - De repente ficou quente...
-Aquecimento central...
-Hmmm...mas ele sempre esteve ligado...não?
Fedra riu entendo o jogo de palavras de Sabrina. Seu coração acelerou e o corpo ficou alerta.
-Eu estava com medo de não nos reconhecermos mais...assim... - Confessou olhando nos olhos de Sabrina.
-Fedra...-Puxou-a para mais perto. -Isso não existe...não existe...
-Não existe...- Concordou Fedra tocando-lhe os lábios com a ponta do dedo.
Num movimento sexy e que exigia muita mobilidade, Sabrina deslizou o corpo, colando a boca no ouvido de Fedra.
-Estou curiosa para saber se a cama ganha do sofá...
-Não estavas cansada? - Provocou Fedra sentindo seu corpo sendo invadido por labaredas.
-E conheces lugar melhor para se descansar? - Sorriu mordendo os lábios.
-Não vale nada essa mulher...e eu caio sempre na lábia dela...
Fedra viu-se de pé tão rápido que precisou segurar-se com força nos braços de Sabrina para não cambalear. Aos risos e tropeços, alcançaram a porta do quarto. Sem cerimónia, Sabrina pulou no colchão arrancando uma risada de Fedra.
-Então? Aprovada? - Brincou Fedra com os olhos brilhando de desejo.
-Deliciosa, mas com certeza, melhor contigo. - Puxou-a para a cama com as pernas.
Fedra deixou-se cair sobre ela e mais uma vez, seus corpos se reconheceram nas minúcias. Abraçaram-se. Permaneceram quietas por alguns instantes até que Sabrina, fazendo jus à sua habilidade quase contorcionista, moveu-se de tal forma a ficar sentada, com as pernas de Fedra sobre as suas. Num movimento lento e calculado, tirou-lhe a calça do pijama, acariciando-lhe toda a extensão das pernas num vaivém de mãos que provocava a sensação de fogo ardente nas peles de ambas. Seguiu-se uma sessão de massagem com toques ora suaves, ora intensos, o que aumentou ainda mais a temperatura corporal de Fedra, fazendo com que ela se livrasse da camisa do pijama, pouco se importando com o destino dos botões. Sabrina sorriu, mordendo a boca, enquanto as mãos hábeis, quentes e provocantes, deslizavam pelo corpo de sua mulher. Fedra gemia num misto de relaxamento e excitação e ainda que tentasse erguer as mãos para tocar Sabrina, era completamente em vão. Entregou-se sem ressalvas ao desejo e maestria dos toques cada vez mais ousados de Sabrina. O corpo todo ardia e se arqueava ansiando por mais, quando sentiu a firmeza das mãos dela segurando suas coxas e puxando mais para si. O que veio a seguir fê-la gritar loucamente, mordendo as próprias mãos, batendo a cabeça de um lado para o outro à medida que a intensidade do carinho aumentava e a respiração alterada de Sabrina virava trilha sonora afrodisíaca. Deixou-se ir na onda de prazer jamais experimentada, num delírio lascivo onde não existiam travas. O ápice veio numa onda que lhe atingiu corpo e alma numa simbiose perfeita. Soube-se desejada sem pudor, amada com ardor. Desfalecida e entregue, sentiu lágrimas quentes rolarem por sua face. Não tinha força para limpá-las e nem motivo para esconder qualquer emoção. O choro explícito saltou-lhe da garganta quando sentiu dedos suaves circundando seu seio com cicatriz. Logo vieram beijos com lábios quentes de um seio ao outro, passando pelo colo, pescoço, até ter a sua boca preenchida com volúpia. Forçou-se a abrir os olhos e encontrou Sabrina completamente nua e com a alma escancarada no olhar. Agarrou-lhe o corpo com as pernas e mais uma vez encontraram-se nos recantos de encaixe perfeito. O prazer veio instantâneo e avassalador. Gem*ram a uma só voz, colando os corpos de tal forma que um coração batia alucinadamente contra o outro.
***
Sabrina abriu os olhos ainda sonolentos e encontrou um par de olhos inebriados de amor. Sorriu experimentando uma ardência deliciosa no peito. Voltou a fechar os olhos e depois de uma longa respiração, estendeu um braço para tocar a face de Fedra.
-Bom dia...já é dia?
Fedra riu completamente relaxada.
-Hora do almoço...talvez um pouco mais tarde...
-Hmmm...e temos planos? - Voltou a fechar os olhos, acariciando a face de Fedra com a ponta dos dedos.
-Acho que depois de tanto esforço físico, nossos corpos necessitam de uma refeição farta.
Risos.
-Estou cansada...-Gem*u Sabrina virando de costas e colando o seu corpo ao de Fedra que a envolveu num abraço de braços e perna.
-Estou...extasiada...que delícia, meu bem...que delícia...sempre fomos boas nisso, mas que reencontro especial...
Sabrina virou-se abruptamente agarrando a face de Fedra com as duas mãos.
-Tu és deliciosa demais, Fedra...eu estava com vontade de fazer amor desde a hora que te vi no bar...ao mesmo tempo com receio de já não nos conectarmos tão bem...
-E isso existe? -Brincou Fedra, beijando-lhe a boca. - Tu com receio de já não haver conexão e eu acreditando que a qualquer momento, me dirias que já não querias mais viver assim...
-Não existe idade para parar de ter medos inconscientes...
-E inconsistentes...
Riram com as bocas coladas. Sabrina esqueceu o cansaço e iniciou uma incursão pelo corpo de Fedra, beijando-lhe ombros, seios, barriga...
-Hmmm...eu não consigo resistir e muito menos reagir...- Suspirou Fedra.
Gargalhadas com beijos e afagos.
-Amor, vamos sair dessa cama e comer...quero-te reativa...sem resistir, mas reativa...quero mais de ontem...muito...muito...
-Para, Sabrina...assim vamos morrer de fome e de amor...
Entre risos, Fedra empurrou-a para fora da cama e em seguida, entraram juntas no banheiro.
Fim do capítulo
Voltei...
Abraço a quem ainda estiver por aqui...
Nadine
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NovaAqui
Em: 03/05/2026
O encontro finalmente aconteceu e que encontro delicioso! Você caprichou...
Hoje pensei: "Será que nossa Musa se mudou? Será que correu tudo bem?" E cá está você!
Espero que tudo tenha corrido bem por aí
Boa semana nessa sua terra linda
Nadine Helgenberger
Em: 03/05/2026
Autora da história
Hello :)
A musa não se mudou, a vida deu uma cambalhota (à la Sabrina) mas sobrevivi, com arranhões, mas sobrevivi rsrsrsrs
Depois de quase um mês sem a menor condição para escrever, esse fim de semana eu me alinhei com o que faz o meu coração pulsar e a inspiração resolveu cooperar e voilá...dois capítulos que adorei ter escrito.
O encontro aconteceu e é desenvolvido com detalhes no 37...aguardando o teu feedback kkkkk
Abraço e boa semana
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