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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

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Palavras: 3586
Acessos: 389   |  Postado em: 05/04/2026

Capitulo 35

 

O tempo voou e entre ajustes burocráticos, algum stress e despedidas pontuais, chegou o dia em que Fedra seguiria para o novo desafio em Bruxelas. A mãe, seguindo a sua tradição, não a acompanhou ao aeroporto, alegando como sempre que detestava despedidas. Fedra, já antevendo esse desfecho, fez questão de estar com ela além do habitual. Sua mãe era forte, e apesar de todo o esforço em disfarçar, não conseguia esconder alguma fragilidade por se ver sem seu arrimo emocional. Esse era um dos pontos que estivera na balança por algum tempo até finalmente se decidir pela ida a Bruxelas. Tudo parecia mais claro na sua cabeça até finalmente se ver às portas de uma mudança radical. A ausência dos seus definitivamente seria um desafio enorme a ser vencido.

Malia, fez questão de acompanha-las ao aeroporto, mas despediu-se um pouco antes da última chamada, alegando compromissos. Fedra entendeu a atitude da filha no momento em que a abraçou.

            -Vá lá e brilhe, dona Fedra. Que orgulho, mãe! E não te preocupes com a avó, eu vou grudar nela.

Fedra suspirou e deixou-se ficar alguns minutos no abraço da filha. Precisava daquele amparo bem mais do que imaginava.

            -Preciso ir, mãe. Compromissos de trabalho e prometi à avó que almoçava com ela...Sabrina, mime bastante essa mulher e não permita que ela desmorone...- Malia sorriu com lágrimas nos olhos.

Mais um abraço, dessa vez a três e depois de um longo beijo na face da mãe, ela foi embora.

Ao ouvir mais um aviso da chamada para o seu voo, Fedra apertou ainda mais a mão de Sabrina que lhe servia de suporte. Queria desabar e aquela sensação a confundia a ponto de não conseguir mover as pernas. Tinham decidido juntas, ela queria muito aquela experiência, então qual a razão daquele desespero? Controlou-se, ou pelo menos tentou...

            -Avisa assim que aterrares...- Sabrina sorriu com olhos húmidos.

            -Farei uma chamada de vídeo...aliás, não me chames de desesperada se eu resolver morar em chamadas de vídeo. -  desabafou Fedra.

Sabrina sorriu enquanto alinhava o casaco dela.

            -Minha mulher vai brilhar em Bruxelas. - Sorriu orgulhosa.

            -E vai morrer de saudades tuas a cada minuto...será?

            -Não...sem dúvidas. O tempo passa a voar a não te esqueças que vou estar em Glasgow...menos de duas horas de voo, lembras?

Fedra abraçou-a e suspirou enquanto tentava ter a firmeza de Sabrina. Encostaram as testas com a respiração sincronizada com algumas lágrimas que teimavam em vencer o controle.

Última chamada. Sem se importar com o espaço público e com possíveis olhares curiosos ou de reprovação, Fedra beijou a boca de Sabrina. Perderam-se naquela troca intensa e que as deixava na mesma sintonia. Sabiam-se conectadas num sentimento que já provara ser forte o suficiente para superar barreiras...aquela seria apenas mais uma.

            -Vá lá conquistar a Europa, meu amor. - Sabrina empurrou Fedra carinhosamente em direção à porta de embarque.

            -Vou...e te espero por lá para conquistarmos juntas o que é nosso por direito.

Mais um abraço e Fedra dirigiu-se com passos firmes para seu novo destino. Olhou para trás e a expressão amorosa de Sabrina deu-lhe ainda mais certeza de que aquela separação momentânea não causaria dano algum na relação construída sobre fortes alicerces.

 

***

Em Bruxelas, Fedra encontrou exatamente o que esperava: organização, funcionalidade, respeito, reconhecimento. Tudo funcionava com a precisão de um cronómetro bem calibrado. Reuniões bem-sucedidas, planos aprovados, espaço físico melhor do que alguma vez sonhara. Já nas primeiras reuniões ouviu rasgados elogios ao seu trabalho e houve quem mencionasse que ela era exatamente o que precisavam.  A satisfação era inequívoca. Tudo funcionava muito bem, era para isso que tinha batalhado a vida toda.

Se não podia reclamar dos dias, o mesmo não se aplicava às noites. Sempre que entrava no seu apartamento minimalista e funcional, o silêncio parecia querer engoli-la. Não era mais o silêncio confortável que partilhava com Sabrina, era frio, quase cortante...

Mais um final de dia de silêncio gélido. Fedra andava pelo apartamento como quem busca algo e não sabe exatamente o quê, abrindo e fechando gavetas, passando as mãos pelos móveis como quem anseia por alguma familiaridade. Abriu um vinho bom e no segundo gole, deixou a taça na mesa do escritório. Da janela, via Bruxelas linda, iluminada, carros indo e vindo, movimento. Dentro do seu apartamento, nada...ou quase isso. O telefone tocou algures e ela correu seguindo o som. Era uma mensagem de Sabrina.

"Já jantaste?"

O sorriso formou-se nos seus lábios automaticamente.

"Ainda não. Dia intenso."

Iniciou a escrita de mais qualquer coisa, mas desistiu pelo caminho. O coração batia de uma forma estranha que causava algum desconforto.

"E tu?" - Finalmente conseguiu completar uma frase e enviá-la.

Não houve resposta imediata como era habitual. Fedra soltou o ar com força. De repente, se via quase sempre à espera. Logo ela que nunca esperava nada, já que sempre estivera no controlo das coisas. Essa constatação a deixava incomodada.

            -Eu acho que estou sendo ridícula...- Sorri nervosa. - Ainda é mais cedo em Cabo Verde e ela deve estar no trabalho e eu...- Não concluiu a frase sentindo-se ainda mais ridícula.

Abriu e fechou o frigorifico sem pegar nada. O telefone vibrou-lhe nas mãos e o coração mais uma vez disparou.

"Ainda não...vou sair agora do trabalho, dar um beijo na tua mãe e depois casa, comida requentada e mais trabalho noite adentro. Estou cansada, mas bem."

Fedra se viu tentando entender o tom da mensagem. Ultimamente dera para isso...nunca nada lhe parecia muito claro.

"Eu também estou bem" - Respondeu, mas sem muita convicção.

E não era de todo verdade...

 

***

Tarde da noite, na cama e sem sono, Fedra tentava organizar suas ideias para o dia seguinte, quando o telefone vibrou debaixo do seu braço. Riu ao se lembrar das brigas com a filha na adolescência por não largar o telefone, chegando ao absurdo de dormir com o aparelho nas mãos.

            -Não estou muito diferente e já passei da adolescência há algumas boas décadas. Sorriu ao ver que era Sabrina do outro lado numa videochamada.

Conversaram por algum tempo, mas Sabrina teve o bom senso de interromper a chamada por já ser muito tarde para Fedra. Assim que a ligação terminou, mais uma vez, a sensação de alguma coisa fora do lugar invadiu o peito de Fedra. Num rompante, saiu da cama e foi servir-se de um copo de água. Sabrina, não obstante o relato do seu dia, alguma animação na voz, parecia-lhe distante...ou talvez, ela esperasse algo diferente. Ela sempre queria conversar mais um pouco, sempre tinha algo novo a partilhar, mas ficava a impressão de pressa...

            -Ai, que eu estou doida. Desde quando és essa pessoa tão apegada? Desde quando crias cenários dramáticos? - perguntou ao seu reflexo no espelho, rindo em seguida.

A verdade era que sempre esperava mais...queria que Sabrina falasse mais de saudades, que fosse mais explicita nas suas emoções, mas parecia que para ela estava tudo bem. Tudo bem que ela era tarada por trabalho e muitas vezes esquecia da vida, mas também tinha conhecido uma outra versão dela, completamente apaixonada. Soltou o ar com o corpo ardendo de saudades.

De repente, Fedra se via quase impulsiva, uma necessidade de contar seus dias em detalhes e quase sempre se frustrava com o que recebia de volta.

            -Será que isto vale a pena?

Andou de um lado para o outro pelo apartamento como se as paredes pudessem responder com coerência. Nada. O silêncio de sempre que lhe causava um desconforto abissal.

            -Claro que vale a pena, foi o que sempre quis e lutei para conseguir.

Não se entendia naquele registo inseguro, com excesso de apego e de certa forma, perdida. A verdade era que a ausência das pessoas que amava, começava a pesar toneladas...

Pensou em Sabrina, no riso fácil, na presença leve que preenchia tudo sem o menor esforço, seu coração apertou.

            -Eu sinto falta dela...mais do que qualquer coisa, eu sinto falta dela...

Percebe que não é apenas uma saudade romântica, Sabrina lhe dá estrutura, assenta-lhe os pés no chão e essa clareza de ideias causa algum desconforto.

            -Não sou essa pessoa...nunca fui...mas nunca me relacionei com ninguém parecido com ela...

Deixou-se cair no sofá, sentindo exposta e ainda mais confusa.

 

***

Sabrina entrou no café com passos apressados e percorrendo o local com olhos ansiosos, quase certa de que Glória estaria possessa. Ficara presa no trabalho, atrasando em mais de meia hora o encontro para um lanche de fim de dia. Nem sinal dela, pelo menos não no salão principal. Passou a mão pelos cabelos, tentando dar à sua figura cansada um ar mais apresentável e foi nesse instante que uma garçonete lhe apontou para o espaço no exterior.

            -Meu bem...- Disse mal viu Glória.

            -Ainda bem que eu fumo para passar o tempo...e olha que estou a tentar parar, mas com amigas atrasadas como as que eu invento...

Risos.

            -Não inventes desculpas para fumar...desculpa, me excedi no trabalho. Muita coisa para fechar e ao mesmo tempo, já estou a inteirar-me do meu próximo desafio...

            -Como diria minha amiga Fedra, que por sinal é tua mulher, sua tarada por trabalho.

Gargalhadas.

            -Estou com fome!

            -Eu também, mas não quis comer sem ti.

Depois de comerem umas tostas deliciosas com chá, Glória observava Sabrina que respondia a uma mensagem no telefone.

            -Desculpa...coisa de trabalho e teu amigo Djaiss também não mede esforços para ter tudo controlado.

            -Ai vocês...o Djaiss é tão viciado em trabalho que me sinto até fora do eixo quando penso em convidá-lo para alguma coisa. Tenho sempre a sensação que estou a tirar-lhe o foco...

            -Que exagero! Sabes que ele não é muito de falar da vida pessoal, mas sinto que gosta da tua companhia...

            -Sim? Eu gosto dele...como amigo, alguém para conversar...minha filha gostou dos filhos dele...

            -Já teve esse encontro? Dos filhos?

            -Sim...mas eu estou com os pés no chão...até porque convenhamos, com ele, não dá para voar...

Risos.

            -E tu? - Gloria observava Sabrina.

            -Eu? O quê?

            -Estás tranquila demais...e isso está a irritar-me. Tua calma sempre me irritou, mas dessa vez...

-Qual é a novidade? - Sabrina riu de lado.

-Porque a tua mulher foi para Bruxelas, tu ficaste aqui, e estás com cara de quem fez uma caminhada e bebeu chá calmante.

Sabrina riu alto apontando para a chávena de chá.

-Queres que eu esteja em posição fetal no chão? - Colocou a costa da mão na testa em gesto teatral.

-Quero coerência emocional. Vocês são o casal mais coeso que eu conheço...ou pelo menos era o que parecia...

Sabrina baixou o olhar por um instante e sem rodeio, disse:

            -Eu sinto falta dela. - Soltou o ar.

O olhar de Glória amoleceu e instintivamente segurou a mão da amiga sobre a mesa.

            -Eu sei que sim, mas tu disfarças tão bem que às vezes me causa um pequeno pânico...sei lá, tu sempre foste muito desapegada...

            -A vida me levou para esse caminho, mas não é o caso da minha relação com a Fedra...não me sinto à deriva com ela...

Sabrina brincou um pouco com a borda da chávena enquanto parecia concatenar as ideias.

            -Eu não posso transformar a ausência num campo de batalha.

- Explica melhor. - Glória inclinou-se.

Sabrina respirou fundo como quem busca as melhores palavras.

-Se eu começo a dramatizar... a exigir mais do que a realidade permite... isto degrada rápido. Vira um emaranhado de cobrança, frustração...torna-se algo pesado e não é isso que ela precisa...nem eu...

Fez uma pausa ainda encarando a amiga.

            -E eu não quero que o que nós temos termine assim.

Glória manteve o silêncio.

Sabrina continuou, num tom mais baixo:

-Eu prefiro sentir falta com dignidade do que destruir o que é bom por excesso de ansiedade.

Glória pareceu absorver aquela frase, mas rapidamente argumentou:

            -E tu? Onde é que tu entras nisso? Porque isso está muito bonito, muito adulto... mas também parece um bocadinho autocontrolo demais.

Sabrina sorriu.

-Eu estou a aprender a não me abandonar enquanto amo alguém.

Glória encostou-se na cadeira.

-Ok... agora estás perigosa. Se já eras maravilhosa com toda aquela fragilidade que às vezes tentavas camuflar sem muito sucesso, agora com esse autocontrolo...quem resiste?

Sabrina sorriu com as loucuras da amiga, mas seus olhos não escondiam a falta que sentia de Fedra. Doía muito, mas ela não permitiria que transbordasse.

***

 

Numa viagem rápida por motivos profissionais a Mindelo, Sabrina marcou uma sessão pessoalmente com a sua terapeuta. Desde que se mudara para a Praia, mantinha suas sessões em dia, na modalidade online, mas estando em Mindelo, optou pela proximidade.

Fim de tarde, e a sala mantinha a mesma atmosfera. Sabrina sentou na poltrona sentindo-se mais relaxada que nas sessões online. Seu corpo ocupava uma posição diferente, estava mais presente.

A terapeuta observava sem dizer nada. No rosto, tinha um leve sorriso de canto de boca.

            -É diferente estar aqui...já não me lembrava como é bom ver minha interlocutora sem uma tela a nos separar...- Sabrina sorriu.

            -Vamos continuar de onde paramos da última vez? - o tom da terapeuta era tão calmo que Sabrina sentiu seu corpo ainda mais relaxado.

            -Continuo sentindo muita falta dela... - Esfregou uma mão na outra sem dizer mais nada. Não precisava se defender de deus pensamentos, não ali. -Eu achei que ia ser mais fácil gerir...- Respirou fundo. - Porque eu sou boa a gerir, ou aprendi muito bem...

Soltou um meio sorriso quase irónico.

-Mas há momentos...

Fez uma pausa, procurando as palavras certas.

-Há momentos em que eu chego a casa... e está tudo no lugar... e mesmo assim parece que falta estrutura.

A terapeuta moveu-se ligeiramente.

-Estrutura emocional?

Sabrina assentiu.

-Sim. Não é carência. É... presença.

Silêncio.

-E isso surpreendeu-me.

A sessão seguiu com Sabrina cada vez mais solta.

-Há dias em que eu me sinto muito sozinha. - Disse sem vergonha ou qualquer tom dramático. - E eu não gosto disso.

A terapeuta perguntou, com cuidado:

-O que é que te incomoda na solidão?

Sabrina respondeu rápido demais:

-Perder o controlo! - agitou-se no sofá, mas logo percebeu e abrandou o tom.

-Eu sempre precisei manter as coisas mais ou menos organizadas dentro de mim, e isso inclui sentimentos

Fez uma pequena pausa.

-Porque quando eu não faço isso... eu sinto que posso ser demais para os outros.

A frase ficou no ar com o peso do antigo padrão. A terapeuta pegou aquele ponto para trabalhar:

            -Demais... como?

Sabrina riu, mas já não havia leveza.

-Intensa... carente. Exigente. - Olhou para o lado.  - Um peso.

Silêncio.

-Eu passei muito tempo a tentar não ser isso.

            -E hoje? Ainda és isso? - Perguntou a terapeuta.

Sabrina levou algum tempo a pensar e respondeu com honestidade:

            -Não da mesma forma...- Parou um pouco. - Mas o medo de ser...ainda aparece.

Sabrina endireitou-se ligeiramente no sofá.

            -Por isso é que eu estou a ser cuidadosa com a distância.

A terapeuta observou.

-Cuidadosa... ou contida?

            -Boa pergunta. - Sabrina sorriu e pareceu pensar um pouco. - Um pouco dos dois.

Respirou profundamente.

-Eu não quero transformar a ausência numa pressão constante sobre ela.

Mais uma pausa.

-Ela lutou para chegar onde está. Eu não quero que ela associe isso a sofrimento.

Silêncio.

-Mas também não quero desaparecer de mim para facilitar as coisas.

A terapeuta assentiu.

-E estás a conseguir equilibrar isso?

Sabrina respondeu, sem romantizar:

-Nem sempre. Há dias em que eu queria ligar e dizer: isto está a custar-me mais do que eu esperava.

Mais uma pausa e Sabrina esfregando o polegar no meio da outra mão.

-Mas eu não digo...

            -E porquê? - Perguntou a terapeuta

Sabrina respondeu, agora mais consciente:

-Porque eu ainda estou a aprender a diferenciar partilha de descarga.

Silêncio.

-Eu não quero descarregar em cima dela uma angústia que eu ainda nem processei.

A terapeuta anotou alguma coisa no seu bloco de notas.

            -Ainda bem que eu tenho trabalho. - Sorriu. -Porque ele exige muito e ocupa espaço.

A terapeuta levantou uma sobrancelha.

-Ocupa ou distrai?

Sabrina riu antes de responder:

-Os dois.

Mais uma pausa.

            -Mas desta vez não é fuga completa. Eu sei o que estou a sentir...

A terapeuta mudou ligeiramente o tom:

-O que é que mudou em ti para conseguires fazer isso agora?

Sabrina não respondeu de imediato. Fixou o olhar na janela enquanto parecia pensar.

-Eu sei que sou suficiente.

Silêncio.

-E mesmo se isto não resultar...

A terapeuta manteve o olhar fixo nela.

-Mas eu quero que resulte. Muito! - continuou Sabrina.

Silêncio.

-Mas eu não preciso que resulte para continuar inteira.

            -Isso não te torna distante. Torna-te estável. - Validou a terapeuta.

Sabrina absorveu em silêncio.

-Eu tinha medo que, se eu não me agarrasse... eu pudesse perder.

Silêncio.

-Agora eu percebo que agarrar demais também afasta.

Silêncio.

-Então eu estou a aprender a... ficar.

            -Ficar não é ser passivo. - A terapeuta sorriu.

            -É escolha. - Sabrina assentiu.

Fim de sessão. Sabrina levantou mais leve. Despediu-se da terapeuta e antes de sair da sala, disse:

            -Eu acho que nós vamos conseguir.

            -Porquê? - Perguntou a terapeuta.

Sabrina respondeu, sem hesitar:

-Porque não estamos a tentar salvar nada. Estamos a construir.

***

Sabrina tentava fechar um relatório urgente, quando o telefone vibrou. Num primeiro instante, nem olhou para o aparelho. Qualquer desvio de atenção resultaria em mais algumas horas de trabalho e tempo era tudo que não tinha. Contudo, o telefone não parava, tirando-a do foco.

            -Que merd*! Preciso me concentrar...também quem manda não desligar essa porcaria? Deve ser porque o amor da tua vida mora em outro país, princesa. - Riu de si mesma enquanto tentava encontrar o telefone em meio aos projetos sobre a mesa.

Era Fedra. Suspirou num misto de ansiedade e cansaço. A diferença de fuso causava alguns contratempos. Para Fedra, já era noite avançada, mas para ela ainda era tempo útil de trabalho. Pensou em não atender, ou enviar uma mensagem rápida mostrando que estava ocupada. Fedra não entenderia e ela percebeu-se com vontade de ao menos ouvir a sua voz doce e sempre entusiasmada.

            -Oi, meu bem...

            -Estás ocupada?

            -Um pouco... estou a fechar um relatório.

Do outro lado, Fedra hesitou um pouco.

            -Ok...eu ligo depois...

A tentativa era de um tom neutro, mas Sabrina rapidamente percebeu que não era bem isso.

-Fedra, fala. O que foi?

Fedra respirou fundo.

-Nada. Só queria falar um bocado...

Sabrina olhou para o computador e sem pensar muito, fechou-o.

-Pronto, podemos conversar.

Fedra ficou em silêncio por alguns segundos.

-Não, não precisa. Vai lá terminar o teu trabalho.

Sabrina sorriu, já conhecia aquela saída clássica de Fedra.

-Ah, ótimo! Estamos nesse jogo.

Fedra riu sem querer.

-Que jogo?

-O jogo do ‘não é nada' que claramente é alguma coisa.

Fez-se um silêncio curto.

-Eu só... hoje foi um dia longo. E eu queria... sei lá... estar contigo. - Desabafou Fedra.

Sabrina suavizou imediatamente.

-Estou aqui, meu bem.

            -Mas tu estás sempre tão... funcional. Parece que está tudo fácil para ti. - Fedra arrependeu-se da frase carregada de carência que havia dito, mas já era tarde demais.

Sabrina encostou-se na cadeira e soltou o ar lentamente.

            -Não está fácil...eu só não quero tornar ainda mais difícil para nós.

Silêncio. Do outro lado, Fedra processava o impacto daquela frase.

-Se eu desabar cada vez que sinto falta, tu vais começar a associar a tua conquista a sofrimento. E eu não quero isso. - Continuou Sabrina num tom calmo e muito intimo.

Fedra fechou os olhos por um momento.

-Eu achei que... estavas melhor do que eu.

Sabrina riu, mais leve.

-Eu estou só a disfarçar melhor.

Fedra finalmente riu de verdade, sentindo a tensão dissipar-se no tom leve de Sabrina.

-Mas olha... se quiseres, posso começar a fazer cenas dramáticas. -Provocou Sabrina.

-Tipo? - Fedra entrou no jogo.

-Fedra! Bruxelas está a roubar-te de mim! Eu não aguento mais esta distância continental! - encenou Sabrina com gestos exagerados que Fedra não conseguia ver, mas podia imaginar.

            -Para. Por favor. - Fedra ria sem parar.

-Posso incluir lágrimas falsas.

-Eu desligo.

-Ok, retiro o pacote dramático.

Risos e a leveza restaurada.

            -Meu amor, me desculpe...eu sei que estou chata, insuportável mesmo. Deves pensar, quem é essa dramática com quem me envolvi...

Sabrina sorria feliz do outro lado. Ela conseguia entender Fedra muito mais do que ela poderia imaginar...

            -Eu pensei que seria mais fácil...pelos meus padrões antigos, eu deslizaria por essa experiência com os pés nas costas...mas não é bem assim...não me entendas mal, estou feliz, me sentindo muito realizada...mas...às vezes tudo o que eu queria era chegar em casa e ficar em silêncio...contigo...

            -Ah, nem me fales em nossos silêncios...tenho driblado minha saudade com essa loucura que tem sido a preparação para Glasgow, ao mesmo tempo que fecho o projeto de cá...

            -Ah sim, o trabalho sempre ajuda...vou para Zurique na quarta e fico uma semana por lá...

            -Quando eu estiver a residir em Glasgow, faremos com que as coisas fiquem um pouco mais fáceis...já faltou mais...

Risos felizes.

Passaram o resto do tempo a conversar sobre amenidades, desafios, quotidiano de cada uma no seu respetivo país, família, saudade e os planos para seguirem juntas.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Feliz Páscoa!

 

Escrito na correria e sem revisar, mas ou era isso ou mais uma semana sem atualizar.

Abraço

NH


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Comentários para 35 - Capitulo 35:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 05/04/2026

Feliz Páscoa!

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