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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1635
Acessos: 87   |  Postado em: 27/04/2026

Capitulo 38 - Em casa

Capítulo 38 – Em casa. 
 
A clínica já estava vazia quando a porta do descanso abriu de repente. 
Luma entrou quase correndo. 
Uma caixinha na mão. 
— Não entra em pânico. 
Rebeca piscou. 
— Eu já estava em pânico. 
— Ótimo. Então não vai notar isso. 
Ela colocou a caixa na mesa. 
Abriu. 
Esmaltes. 
Lixas. 
Algodão. 
Removedor. 
Rebeca olhou para as próprias mãos. 
O esmalte antigo realmente já estava lascado. 
— Vamos retocar suas unhas. 
— Agora? 
— Principalmente agora. 
Luma puxou uma cadeira. 
— Senta. 
Rebeca sentou sem discutir. 
Luma começou a tirar o esmalte antigo com velocidade impressionante. 
— Eu trouxe um que você vai gostar. 
Ergueu o frasco. 
Azul profundo. 
Com glitter discreto. 
Rebeca arregalou os olhos. 
— É perfeito. 
— Eu sei. 
Luma sorriu de lado. 
— Tenho dons. 
Começou a pintar. 
Mão firme. 
Concentração total. 
Como se o destino da manhã dependesse daquilo. 
Foi quando Miriam apareceu na porta. 
Observou a cena inteira por dois segundos. 
— Luma. 
— Só faltam dois dedos. 
Miriam olhou o relógio. 
Depois para Rebeca. 
Depois para o esmalte. 
— Ainda temos tempo. 
Luma voltou ao trabalho como uma profissional sob pressão. 
Terminou. 
Assoprou as unhas de Rebeca dramaticamente. 
— Isso nunca funciona, mas a intenção é linda. 
Rebeca riu. 
O nervosismo tinha recuado alguns passos. 
Luma pegou a bolsa dela antes que pudesse protestar. 
— Eu levo isso. 
Acompanhou as duas até o carro. 
Abriu a porta. 
Esperou Rebeca entrar. 
Puxou o cinto e encaixou por ela. 
Depois se abaixou na janela. 
— Boa sorte, garota. 
Rebeca olhou para as próprias unhas brilhando no colo. 
Respirou fundo. 
— Obrigada. 
Luma bateu de leve no teto do carro. 
— Você vai arrasar. 
*** 
A escola apareceu antes do portão. 
Grande demais. 
Prédios altos. 
Quadras. 
Um ginásio inteiro. 
Blocos ligados por passarelas. 
Gente entrando e saindo pelas catracas como se soubessem exatamente para onde iam. 
Rebeca parou sem perceber. 
O corpo foi ficando para trás enquanto os olhos tentavam alcançar tudo ao mesmo tempo. 
Placas indicando laboratórios. Jardins. Piscina. 
Ela travou na piscina. 
— Eu vou ter que nadar? 
Miriam olhou para onde ela olhava. 
— Uma coisa de cada vez. 
Pausa. 
— Primeiro a gente precisa falar com a coordenadora do ensino médio. 
— Tá. 
Mas o “tá” saiu pequeno. 
Inseguro. 
Rebeca aproximou a mão da dela devagar. 
Segurou. 
Miriam apertou de volta. 
Sem piada. 
Sem comentário. 
Só firme. 
— Vem. 
No prédio da coordenação, quem as recebeu foi a professora Márcia. 
Sorriso aberto. 
Postura tranquila. 
Uma mulher negra de voz quente e olhar atento. 
Do tipo que parecia enxergar mais do que perguntava. 
— Então você é a Rebeca. 
A menina assentiu. 
— Seja bem-vinda. 
Não houve excesso. 
Nem pena. 
Só acolhimento. 
O bastante. 
Rebeca respirou melhor. 
Márcia abriu uma pasta. 
— Vou te explicar como vamos fazer as coisas, certo? 
Rebeca assentiu. 
— Primeiro: você vai conhecer a escola. 
Pausa. 
— Depois, vamos fazer uma sondagem. Uma avaliação simples para entender em que ponto você está. 
Rebeca ouviu em silêncio. 
— Se ainda não for o momento de entrar direto na turma, você terá aulas de nivelamento. 
Miriam observava quieta. 
Márcia continuou: 
— Quando os professores perceberem que você está pronta, entra na sala com os outros alunos. 
Silêncio curto. 
— Entendeu? 
Rebeca assentiu. 
— Entendi. 
Márcia sorriu. 
— O que acha de fazermos essa prova na segunda-feira? 
Rebeca pensou só um segundo. 
— O que eu tenho que estudar? 
Márcia sorriu de verdade agora. 
Puxou uma folha. 
Entregou para ela. 
Depois puxou outra. 
Um mapa da escola. 
— Aqui está o que você precisa. 
Apontou um círculo marcado em caneta azul. 
— Se precisar das aulas de nivelamento, elas vão acontecer em um dos salões da biblioteca. 
Pausa. 
— Então esse é o primeiro lugar que vamos conhecer. 
Rebeca olhou para o mapa. 
Depois para a professora. 
Depois para Miriam. 
Pela primeira vez desde que entrou… 
aquilo parecia um lugar onde talvez desse para aprender a respirar. 
Rebeca continuava grudada na mão de Miriam enquanto andavam pelo corredor. 
Márcia ia falando. 
Horários. 
Blocos. 
Salas. 
Regras. 
Quando virou a esquina e viu a placa— 
BIBLIOTECA 
Rebeca soltou a mão da Miriam na mesma hora. 
Sem perceber. 
Entrou alguns passos à frente. 
Olhando para todos os lados. 
As estantes altas. 
As prateleiras intermináveis. 
O cheiro de papel. 
O silêncio bonito. 
Márcia continuava explicando alguma coisa. 
Miriam inclinou a cabeça. 
— Márcia… sem querer ofender. 
A coordenadora parou. 
— Sim? 
— Ela parou de te ouvir. 
Márcia olhou para frente. 
Rebeca estava em outro universo. 
Miriam sorriu de canto. 
— É uma coisa difícil de administrar. 
Pausa. 
— Mas tem seu charme. 
— Nossa biblioteca tem dois pavilhões — disse Márcia. — Gostaria de conhecer o outro? 
Rebeca virou na hora. 
— Sim. 
E foi. 
Sem esperar ninguém. 
Miriam ficou para trás. 
— Ela sempre foi assim? — perguntou Márcia. 
— Acho que não. 
Pausa. 
— Isso parece ser novo. 
Depois vieram corredores. 
Laboratórios. 
Salas. 
Escadas. 
Até que Márcia parou diante de uma porta. 
— E por fim… 
Abriu. 
— A sala de música. 
Rebeca congelou. 
— Tem uma sala de música aqui? 
— Tem. 
Márcia sorriu. 
— E acho que você vai gostar da professora. 
Dentro, Helba ergueu os olhos. 
— Você não sabe bater? 
Márcia perdeu metade da postura. 
— Eu… desculpa, eu só— 
Helba calou com um gesto. 
Olhou para Rebeca. 
Depois para o piano branco. 
Depois de novo para Rebeca. 
— Ei, menina. 
Apontou. 
— Vem cá. 
Rebeca já estava indo antes da frase terminar. 
Nem olhou para Helba. 
Largou a bolsa no chão. 
Sentou no banco. 
E tocou. 
As primeiras notas de Duas Horas saíram limpas. 
Naturais. 
Como se o piano estivesse esperando por ela. 
Helba virou lentamente para Márcia. 
— Quem é essa menina? 
— Sobrinha da doutora Miriam. 
Helba olhou para Miriam. 
— Hum. 
Pausa. 
— A mãe do engraçadinho. 
Miriam tentou não sorrir. 
Falhou. 
Helba cruzou os braços. 
— Eu quero essa menina pra mim. 
Márcia abriu a pasta. 
— Nós ainda precisamos seguir o protocolo... 
— Não estou interessada nas suas burocracias inúteis. 
Pausa. 
— Semana que vem ela vai começar a Mentoria comigo. 
Rebeca continuava tocando. 
Como se não existisse mais nada no mundo além dela e do piano. 
*** 
Miriam abriu a porta e deu passagem para Rebeca. 
A menina entrou torta sob uma pilha absurda de livros. 
Livros nos braços. 
Livros apoiados no queixo. 
Mais livros equilibrados contra o peito. 
A bolsa pendurada de qualquer jeito. 
— Quer ajuda? 
— Não. 
A resposta saiu abafada entre duas lombadas. 
— Tem certeza? 
— Absoluta. 
Ela deu dois passos. 
Quase perdeu tudo. 
Recuperou. 
— Vou levar tudo para o meu quarto. — anunciou para a tia. 
E começou a subir as escadas. 
Miriam observou por dois segundos. 
Depois foi para a cozinha. 
Precisava adiantar o jantar. 
E uma sobremesa especial, para aliviar a tensão do dia. 
O telefone tocou. 
Miriam atendeu ainda mexendo uma panela. 
— Então, minha querida… como estão minhas meninas? 
— Qual delas? 
Silêncio curto. 
Depois Augusto riu. 
— Já entendi. Ela continua te surpreendendo. 
Miriam soltou o ar. 
— Eu realmente achei que, tirando ela daquele ambiente, tudo ia ficar simples. 
Mexeu a colher. 
— Mas não ficou. 
Pausa. 
— Às vezes ela se fecha. Às vezes testa limite. Quer negociar tudo. 
Olhou para o teto. 
— Ao mesmo tempo que pede colo… é arisca como uma jaguatirica. 
Do outro lado, ele riu baixo. 
— Não ri. Estou falando sério. 
— Eu também. 
Pausa. 
— Acho que sei o que está te incomodando. 
Miriam estreitou os olhos. 
— Ah, sabe? 
— Sei. 
Silêncio dramático. 
— Ela é parecida com você. 
Miriam ficou parada. 
— Você quer repetir isso devagar pra eu ter certeza? 
— Rebeca não abaixa a cabeça por qualquer coisa. 
Pausa. 
— Quando se sente pressionada, endurece. Quando está com medo, vira teimosa. Quando ama… ama por inteiro. 
Miriam cruzou os braços. 
Mesmo sabendo que ele não podia ver. 
— Se isso não te lembra ninguém… amanhã cedo passa no espelho. 
— Você gosta de viver perigosamente. 
— E casado há tempo suficiente pra reconhecer outra cabeça dura de longe. 
Ela tentou segurar. 
Falhou. 
Riu pelo nariz. 
— Então o problema sou eu? 
— Não. 
Pausa. 
— O problema é que vocês duas são mais parecidas do que gostariam de admitir. 
Miriam olhou na direção da escada. 
Ficou em silêncio por um instante. 
— …Apesar de tudo… ela foi muito bem na escola hoje. 
— Viu só? 
Augusto sorriu do outro lado da linha. 
— Começou reclamando e terminou falando dela com voz de mãe. 
Miriam sorriu sozinha. 
— E como estão as coisas por aí? 
— Ainda não fomos expulsos do hotel, se é com isso que está preocupada. 
Ela riu. 
— E o Júnior? 
— Quer mesmo que eu responda? 
Miriam balançou a cabeça. 
— Coloque o garoto na linha. 
Barulho. 
Correria. 
Algo caindo. 
Depois: 
— BOAAAA NOITEEE MINHA RAINHA! 
— Bela tentativa. 
Silêncio. 
— Eu esbarrei com a Helba hoje. 
— Aquela mulher é muito rancorosa. 
— Hum. 
Pausa. 
— E como estão seus trabalhos? Não quero que use a atual situação como desculpa para não dar o melhor de si. 
— É óbvio que eu jamais faria uma coisa dessas. Só tenho um jeito diferente de organizar meus compromissos. 
— Deixando tudo pra última hora? 
— Eu preciso da adrenalina, mulher. 
Miriam fechou os olhos. 
— Entendi. 
Passos pesados começaram a descer a escada. 
— Depois falamos. 
— Boa noite, mãe. 
— Boa noite, menino. 
Ela desligou. 
Rebeca surgiu, com a mesma energia de sempre. 
No jantar, a menina comeu melhor do que no café da manhã. 
Ainda inquieta. 
Mas mais leve. 
Conversaram pouco. 
Miriam deixou. 
Depois de alguns minutos, Rebeca olhou para a geladeira. 
Pensou. 
Levantou. 
— Posso pegar um pouco de molho? 
Miriam ergueu os olhos do prato. 
— Pode. 
Rebeca abriu a geladeira. 
E desapareceu dentro dela por alguns segundos. 
Quando voltou, trazia quatro frascos nos braços. 
Um de cada vez, abriu. 
Provou. 
Fez careta para o primeiro. 
Voltou para a geladeira. 
Provou o segundo. 
Pensou. 
Deixou na mesa. 
O terceiro. 
Aprovado. 
O quarto. 
Reprovado imediatamente. 
Miriam observava em silêncio. 
Rebeca então pegou os dois aprovados. 
Provou de novo. 
Comparou. 
Franziu a testa. 
Fez uma análise que só existia na cabeça dela. 
Por fim, escolheu um. 
Guardou o outro. 
Sentou de novo. 
Passou o molho no prato com absoluta seriedade. 
Experimentou. 
Assentiu para si mesma. 
Decisão correta. 
Miriam apenas balançou a cabeça. 
Sem forças para comentar. 
Rebeca ergueu os olhos. 
— O quê? 
— Nada. 
Pausa. 
— É a primeira vez que assisto um concurso de Miss Ketch*p. E estou bastante impressionada. 
Rebeca tentou não rir. 
Falhou. 
Mais tarde, a casa finalmente ficou quieta. 
Louça lavada. 
Livros empilhados no quarto. 
Roupas separadas para o dia seguinte. 
O relógio já avançando para uma hora em que pessoas responsáveis estariam indo dormir. 
Rebeca apareceu na sala com um livro nas mãos. 
— Eu tenho que estudar. 
Miriam já estava no sofá, enrolada em uma manta leve. 
Controle remoto na mão. 
— Tem mesmo. 
Rebeca ficou parada. 
Esperando o complemento. 
Miriam bateu no espaço ao lado dela. 
— Mas vamos ser rebeldes hoje. 
— Rebeldes? 
— Sim. 
Ligou a televisão. 
— Vamos assistir alguma coisa inútil e ignorar nossas responsabilidades por duas horas. 
Rebeca tentou parecer séria. 
Não conseguiu. 
Sentou. 
No começo, manteve postura correta. 
Distância respeitosa. 
Mãos no colo. 
Assistiu dez minutos sem realmente assistir. 
Depois se mexeu. 
Ajustou a posição. 
Mais um pouco. 
Mais. 
Até que, sem aviso, deitou a cabeça no colo de Miriam. 
Como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. 
Miriam congelou por meio segundo. 
Olhou para baixo. 
Rebeca já prestava atenção na tela. 
Como se nada extraordinário tivesse acontecido. 
Miriam passou a mão nos cabelos dela quase sem pensar. 
Devagar. 
Automático. 
E então sentiu uma surpresa mansa. 
Daquelas pequenas coisas que talvez só uma mãe entendesse. 
O primeiro chute de um bebê ainda escondido. 
Os dedos minúsculos tocando a pele pela primeira vez. 
Gestos simples. 
Quase nada para quem olha de fora. 
Mas capazes de criar um vínculo inteiro. 
Rebeca continuava deitada no colo dela, distraída com a televisão. 
Como se aquilo fosse natural. 
Como se sempre tivesse pertencido ali. 
E foi então que Miriam percebeu. 
Talvez Rebeca precisasse dela. 
Mas ela também precisava da Rebeca. 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Oi, meninas 

Queria conversar um pouquinho com vocês sobre essa nova fase da história de Rebeca e Janis.

Sinto que chegamos em um momento diferente da trama. Depois de tanta tensão, dor e caminhos difíceis, agora a história entrou em um lugar que tem sido muito gostoso de escrever. Existe carinho, reconstrução, respiros, descobertas e aquele tipo de afeto que aquece enquanto a gente acompanha.

Tenho escrito essa fase com muito amor, e queria saber de vocês: estão gostando desse novo momento? Como têm se sentido lendo? Existe alguma expectativa, cena ou desenvolvimento que vocês gostariam de ver daqui pra frente?

Adoro ler o que vocês sentem e imaginam, porque de certa forma vocês caminham comigo nessa jornada.

Obrigada por estarem aqui, acompanhando Rebeca e Janis com tanto carinho. 

Com amor,
Elin Varen


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