Capitulo 37 - Você mesma
Capítulo 37 – Você mesma.
Rebeca quase não dormiu.
Virou de um lado.
Depois do outro.
Olhou o relógio mais vezes do que seria razoável.
Quando finalmente amanheceu, já estava acordada.
O quarto parecia pequeno demais para tanta expectativa.
Abriu o guarda-roupa.
Separou uma roupa.
Vestiu.
Tirou.
Outra.
Vestiu.
Tirou também.
Uma pilha começou a crescer na cama.
Ela olhou para o telefone.
Pensou.
Ligou.
— Alguém morreu?
A voz de Janis saiu rouca de sono.
— Para de brincar. Eu preciso da sua ajuda.
Silêncio.
Depois o colchão rangendo do outro lado.
— O que aconteceu?
— Eu não sei que roupa usar.
Silêncio maior.
— Explica.
— Eu quero causar boa impressão.
— Na escola?
— Sim.
— Rebeca… você desaprendeu tudo que eu ensinei?
— Janis!
— Na escola a gente não tenta causar boa impressão. A gente tenta não dormir na aula.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Rebeca fez um muxoxo audível.
Janis suspirou.
— Tá. Que impressão você quer causar?
Rebeca olhou para a própria imagem no espelho.
Pensou.
— Inteligente. Educada. Obediente.
— Então se fantasia de freira.
— JANIS!
— O quê? Resolve os três.
Rebeca cruzou os braços.
— Eu não sou nada disso. – Janis confessou.
— Isso eu sei.
— Então como eu poderia te ajudar?
Rebeca sorriu sem querer.
— Na verdade… você já ajudou bastante.
— Como assim?
— É só usar um tipo de roupa que você jamais usaria.
Silêncio.
— Eu vou fingir que você não me acordou cedo pra me insultar.
Rebeca riu.
— Rebeca…
— O quê?
— Estou com saudades.
Silêncio curto.
Do outro lado, Janis ficou acordada de vez.
— Eu também.
A resposta saiu baixa.
Honesta.
Rebeca sorriu sem querer.
— Eu preciso ir.
— Eu sei.
Pausa.
— A gente se fala mais tarde.
— Tá.
Ela desligou.
E ficou olhando a tela por um segundo a mais do que precisava.
Abriu o guarda-roupa outra vez.
Dessa vez decidiu.
Uma blusa social preta, de botões.
Manga comprida.
Ainda precisava esconder os braços.
Calça jeans sem rasgos, sem manchas, sem nenhuma informação suspeita.
Um dos sapatos sociais.
A bolsa carteiro de sempre.
Headphone.
Leitor digital.
Celular.
E toda a vida adolescente dela enfiada lá dentro.
Pegou o kit de maquiagem.
Respirou fundo.
E desceu correndo.
— REBECA!
A voz veio da cozinha.
— Eu já cansei de falar. Vou comprar uma placa de limite de velocidade e instalar nessa escada.
Rebeca fingiu não ouvir.
Entrou correndo na cozinha.
— Tiaaaaa…
O mesmo tom arrastado e meloso de antes.
Miriam nem se virou de imediato.
— O que você quer?
Rebeca estendeu o kit de maquiagem.
— Me ajuda?
Miriam finalmente olhou.
Primeiro para a roupa.
Depois para o kit.
Depois de volta para ela.
— Você se saiu muito bem sozinha ontem.
Rebeca cruzou os braços.
— Ontem eu não precisava estar perfeita.
— E hoje precisa?
— Preciso.
Miriam arqueou a sobrancelha.
— Tem um encontro com Jesus e eu não estou sabendo?
Rebeca quase engasgou.
— Tia!
— O quê?
— Isso é pecado!
Miriam pegou o kit.
— Então começamos nosso dia bem.
Rebeca riu.
A tensão caiu só um pouco.
O suficiente.
Miriam olhou para Rebeca por um segundo mais longo.
A roupa escolhida com cuidado demais.
O cabelo já arrumado.
A respiração curta.
Os dedos inquietos segurando a alça da bolsa.
Entendeu.
— Senta.
Rebeca obedeceu sem discutir.
Sentou na cadeira da cozinha.
Miriam puxou outra cadeira para perto.
Abriu o kit.
Separou os pincéis.
Tudo devagar.
Sem pressa de propósito.
— Fecha os olhos.
Rebeca fechou.
As mãos de Miriam eram seguras.
Leves.
A voz também.
— Você vai gostar de lá.
— E se não gostarem de mim?
Miriam continuou espalhando a base.
— A pergunta certa é se você vai gostar deles.
Rebeca respirou melhor.
— E se eu travar?
— Acontece.
— E se eu parecer estranha?
Miriam inclinou o rosto dela com delicadeza.
— Meu amor…
Pausa.
— Todo mundo é estranho.
Rebeca abriu um olho.
— Tia!
— No melhor sentido.
Ela sorriu.
E Rebeca também.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
Miriam voltou ao trabalho.
— Hoje você não precisa ser perfeita.
Passou o pincel nas pálpebras dela.
— Só precisa relaxar.
Os ombros de Rebeca cederam um pouco.
Como se finalmente alguém tivesse tirado um peso que ela nem sabia nomear.
Quando terminou, Miriam inclinou o rosto dela para a luz da janela.
Observou.
— Pronto.
Rebeca abriu os olhos devagar.
Olhou o próprio reflexo no vidro escuro do armário.
Mais calma.
Mais arrumada.
Mais preparada.
Ou pelo menos parecendo.
— Obrigada.
Miriam guardou os pincéis.
— Vai comer.
Na mesa, Rebeca mexia no pão mais do que comia.
Partia um pedaço.
Depois outro.
Mas quase nada chegava à boca.
Miriam percebeu.
Não comentou.
Só empurrou a manteiga para mais perto.
Depois olhou para o violão encostado na cadeira.
— Vai levar seu novo amigo?
Rebeca ergueu os olhos.
— Ele não é meu amigo.
Pausa.
— É meu filho. Meu caçula.
Miriam sorriu.
— Perdão.
Rebeca olhou para o violão por um instante.
— Hoje ele vai ficar.
— Mudou de ideia?
Ela baixou os olhos.
Mexeu no pão outra vez.
— Eu não sei se vou conseguir tocar.
Miriam esperou um instante.
Sem corrigir.
Sem pressionar.
— Tudo bem.
Depois olhou para o violão encostado na cadeira.
— Seu filho caçula vai sentir saudades.
Pausa.
— Mas acho que ele suporta um dia inteiro longe de você.
Rebeca tentou sustentar a cara séria.
Não conseguiu.
O sorriso veio pequeno.
Mas veio.
— Boba.
Miriam pegou a própria xícara.
— Come mais um pedaço.
***
Quando entraram na clínica, Miriam não foi direto para o consultório.
Levou Rebeca até a pequena área de descanso.
O teclado já estava ali.
Encostado perto da tomada.
Esperando.
Miriam apontou.
— Aquele também é seu filho?
Rebeca olhou.
— O Júnior vai tocar nele?
— Não.
Pausa.
— O Júnior toca. Mas não teclado.
Rebeca assentiu.
— Então esse é meu filho do meio.
Miriam riu.
Serviu café.
Estendeu uma xícara.
Rebeca negou com a cabeça.
Começou a andar de um lado para o outro.
Um percurso curto.
Janela.
Mesa.
Janela de novo.
Miriam observou em silêncio.
— Tenta relaxar com seu segundo filho. Talvez ajude.
— Talvez.
Mas não parou de andar.
Miriam pegou a própria xícara.
— Eu vou trabalhar.
— Tá.
Ela deixou Rebeca ali.
Alguns minutos depois, Luma apareceu na porta.
Parou.
Observou a movimentação inquieta.
— Tá tudo bem?
Rebeca soltou um ar.
— Eu sempre estudei na mesma escola.
Luma assentiu.
— Deve ser difícil.
Pausa.
Depois sorriu.
— Mas pensa pelo lado bom.
Rebeca ergueu os olhos.
— Qual?
— Eles não te conhecem lá.
Silêncio.
— Então você pode ser a mesma pessoa que era na escola antiga…
Pausa.
— Ou alguém completamente diferente.
Rebeca parou de andar.
De verdade.
Luma percebeu.
Sorriu de canto.
— Vou voltar pra recepção antes que sua tia ache que eu vim trabalhar pouco.
Saiu.
E deixou para trás uma cabeça cheia demais de ideias.
Rebeca ligou o teclado.
Tocou.
Primeiro sem pensar.
Depois pensando demais.
Depois só deixando os dedos resolverem o que a mente não conseguia.
Ainda era cedo.
E ela queria fazer outra coisa antes de sair.
Pegou o celular.
Esperou a respiração baixar.
Ligou para Débora.
A mãe atendeu no segundo toque.
— Oi, meu amor.
Só a voz já melhorou metade do mundo.
— Oi, mãe.
Conversaram pouco no começo.
Coisas pequenas.
O café.
A roupa.
A hora.
Depois Débora ficou em silêncio por um instante.
— Eu estou orgulhosa de você.
Rebeca fechou os olhos.
Apertou o telefone com mais força.
— Liga mais tarde e me conta como foi.
— Tá.
Pausa.
— Mãe?
— Oi?
— Você acha que eu devo ser a mesma pessoa que eu era na antiga escola…
Ela respirou.
— Ou uma pessoa nova?
Débora não precisou pensar.
— Você deveria ser a pessoa que não conseguiu ser até agora.
Silêncio.
Depois completou:
— Você mesma.
Rebeca não respondeu de imediato.
Porque, pela primeira vez…
aquilo parecia possível.
Fim do capítulo
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