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Entre nos - Sussurros de magia por anifahell e Yennxplict

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Palavras: 5293
Acessos: 28   |  Postado em: 24/04/2026

Rotina, Ruína e Desejo

A sexta-feira de Ariel começou com um gosto amargo de realidade. Voltar ao trabalho depois das férias já era ruim o suficiente, pior ainda era ter que fazer isso em plena sexta-feira. Não por não gostar de trabalhar ou do que fazia, embora o trabalho fosse bastante corrido e burocrático, mas por ter se acostumado ao tempo ocioso, onde podia aproveitar para dar um pouco de atenção exclusiva ao próprio caos. No entanto, após acordar, fez o que precisava e saiu a tempo de chegar pontualmente à sede da Wicca Enterprise.

Ao chegar, Ariel seguiu diretamente para o sétimo andar, onde fica a sua sala e a de Elisa. Assim que atravessou a porta, percebeu de imediato uma presença nova. Uma jovem de cabelos acobreados ocupava o espaço que antes pertencia à antiga assistente de Elisa. 

Estava próxima à mesa, o olhar concentrado na tela de um tablet que manuseava com familiaridade, o dedo deslizando com precisão enquanto a outra mão sustentava o aparelho. 

Quando Ariel se aproximou, a jovem ergueu os olhos, como se já esperasse por ela. O sorriso veio fácil, gentil, e o tablet foi deixado sobre a mesa com cuidado.

— Bom dia, tudo bem? Você deve ser a Ariel, certo? — perguntou Siena, estendendo a mão.

Ariel correspondeu ao gesto com um aperto firme, porém cordial, e um sorriso que suavizava qualquer formalidade.

— Bom dia! Sou eu mesma. E você deve ser a Siena, né? É um prazer te conhecer. Como estão sendo os primeiros dias? Tá conseguindo se adaptar?

A pergunta veio carregada de curiosidade. Ariel sabia bem como era desafiador trabalhar ao lado de Elisa e queria saber como a novata estava lidando com isso. 

— Imagina, o prazer é meu. — respondeu Siena, com uma leve hesitação que denunciava timidez. — Bom… Tem sido desafiador, mas também muito enriquecedor. Às vezes a pressão é grande, principalmente nas reuniões. Mas estou pegando o ritmo na prática. Pelo menos… acho que estou. — Havia modéstia no tom de Siena, mas também um esforço silencioso para se afirmar.

Ariel soltou um leve sorriso de canto, quase cúmplice.

— Se você ainda tem dúvida, pode esquecer. Pra estar aqui, você já chegou mostrando que sabia exatamente o que estava fazendo e a Elisa não erra nessas escolhas. Fora que está praticamente tudo adiantado, organizado e bem feito. Eu tive que produzir um panorama geral dos relatórios criados, decisões tomadas e outras coisas dos últimos dias pra me reintroduzir e vi que você está fazendo um ótimo trabalho. De verdade.

Siena pareceu absorver aquelas palavras com cuidado, como quem não estava acostumada a esse tipo de validação e aquilo não passou despercebido por Ariel.

— Obrigada, tenho tentado dar o meu melhor. O importante é que ela me aceitou. — disse, sorrindo de volta. — Agora é continuar provando que foi uma boa decisão, né?

— Tenho certeza que não vai ser difícil pra você.

— Que os deuses te escutem. — Siena falou sorrindo. 

Houve um breve silêncio confortável entre as duas, quebrado logo depois pelo som dos saltos de Elisa ecoando pelo ambiente. 

Quando a nefilim surgiu no campo de visão delas, caminhando com calma e segurando dois cafés, que estavam em um suporte de papelão que comportava os dois copos com a bebida. A atenção das duas foi imediatamente puxada para ela.

Siena ajeitou algumas mechas do cabelo, mesmo já estando milimetricamente no lugar. Elisa, por sua vez, lançou um olhar breve entre as duas antes de se aproximar.

— Bom dia, meninas. Que bom que já se conheceram.

— Bom dia! Já nos conhecemos, sim. Inclusive, eu estava aqui elogiando ela. — Ariel comentou, com um sorriso leve. — Ela está dando conta de tudo muito bem, mesmo com tão pouco tempo de casa.

— Sim, ela é muito competente — respondeu Elisa, olhando diretamente para Siena, depois de volta para Ariel. 

— Imagina… ainda tenho muita coisa pra aprender. — disse Siena. E, pelo pouco que Ariel já conseguia ler dela, aquilo parecia mais timidez do que modéstia, o que era compreensível. Ser reconhecida pela própria chefe tinha um peso diferente, principalmente para ela que era novata. 

A CEO deu um sorriso sem mostrar os dentes, enquanto Ariel observava a interação. 

— Então… Eu trouxe café pra vocês. — Elisa falou de forma súbita, aproximando os copos para que pudessem pegar. 

As duas olharam o gesto, claramente surpresas. 

— Nossa! Obrigada, Elisa! Eu estava precisando mesmo. — Ariel pegou o café e deu um gole, satisfeita.

Siena aceitou o dela logo em seguida, um pouco sem jeito. Não era comum ver esse tipo de gesto vindo de Elisa, e Ariel não deixou de se perguntar, por um instante, o que tinha mudado naquela manhã. Ainda assim, agradeceu internamente pelo bom humor da chefe.

—Voltar de férias não é fácil. — comentou Ariel, mais descontraída. — Acordar cedo então… pior ainda. A gente se acostuma rápido demais com a vida de sofá e cama, né?

— Obrigada, Dra. Elisa. — murmurou Siena, após pegar o dela. Manteve os olhos no copo, como se a embalagem que comportava o líquido quente fosse subitamente muito interessante.

— Não é nada. Espero que gostem do café nesse ponto. — disse Elisa. — E eu sei bem como é, Ariel. Se precisar, você pode tirar mais alguns dias. 

— O quê? Não! Obrigada, mas é melhor voltar antes de perder totalmente a vontade de trabalhar.

— Então que você tenha uma boa volta. — respondeu Elisa, com um sorriso contido. — Ah, e Siena, preciso falar com você. Quando terminar com a Ariel, passe na minha sala, por favor.

Siena assentiu, e Elisa seguiu direto para sua sala.

Ariel acompanhou o movimento dela por alguns segundos e percebeu que Siena fez o mesmo.

— Bom, eu estava mesmo precisando de um café. — comentou Ariel, quebrando o pequeno silêncio.

— Pra sua sorte, ela adivinhou. — disse Siena, sorrindo. — Ah, mudando completamente de assunto… a Marcela, sua assistente, está ausente hoje. Se precisar de qualquer ajuda, pode contar comigo. Acho que a Dra. Elisa não vai se incomodar de me dividir um pouco.

Ariel soltou uma risada baixa, divertida pela inocência sutil no comentário.

— Obrigada, de verdade, mas fica tranquila. Eu sei como a sua agenda deve estar cheia, e não quero ser responsável por te tirar do eixo logo cedo. Acabei de voltar de férias, preciso fazer meu cérebro lembrar como funciona. Vou começar terminando esse café bem forte e ver no que dá.

— Justo. — Siena respondeu, assentindo. — Bom retorno pra você.

— Valeu. E bom trabalho, Siena. Qualquer coisa, é só falar.

Após deixar alguns pertences na própria sala, Ariel desceu alguns andares. Decidiu passar por setores onde costumava ter mais contato, tanto por demanda quanto pelas pessoas. No caminho, foi interceptada por cumprimentos, sorrisos, comentários sobre sua ausência e pequenas atualizações.

E, enquanto respondia aqui e ali, Ariel teve aquela sensação familiar de retorno. A sensação de que apesar do tempo fora, ainda havia um lugar muito claro esperando por ela ali dentro e isso era bom, pois a afastava um pouco do caos que se tornou sua vida desde que ganhou os ‘poderes’. 

Após voltar à sala, Ariel acomodou-se na cadeira, ligou o notebook e mergulhou no trabalho. Continuou a leitura do panorama, respondeu alguns e-mails, conferiu as agendas que tinha a revisar, tomou decisões pendentes, fez tudo que exigia atenção imediata.

O ritmo acelerado a envolveu por completo, como se cada tarefa funcionasse como uma âncora, afastando pensamentos que não pertenciam àquele ambiente. Durante horas, Ariel existiu apenas ali, entre planilhas, compromissos e responsabilidades.

Saiu apenas no horário do almoço para um lanche rápido, retornando em seguida sem se permitir pausas maiores. Havia algo quase reconfortante em se perder naquilo tudo. O silêncio interno que o trabalho proporcionava era um alívio raro e por algumas horas, esqueceu do cansaço, da preguiça e do próprio corpo como uma ameaça iminente.

Ela agradeceu também ao destino por Elisa não exigir sua presença no evento noturno que aconteceria naquela noite, um alívio que ela saboreou com um suspiro sincero assim que deixou o prédio da Wicca Enterprise no fim do dia, indo em direção ao seu apartamento. 

****

Em casa, a rotina foi reconfortante. Um banho quente, comida em excesso e um cigarro de maconha aceso com preguiça e prazer. Estava deitada no sofá, com os pés sobre o braço do móvel, a camiseta larga revelando uma alça do sutiã, o olhar vagando entre pensamentos e devaneios, quando a lembrança lhe atravessou feito um susto: Eduarda.


A mulher, ex-amante, ex-inferno, ex-quase tudo, ainda estava ali, minúscula, inconsciente e guardada como um segredo estranho. Ariel se levantou, o coração apertado de ansiedade, e foi até a prateleira onde mantinha Eduarda. Quando se aproximou, notou um leve movimento, pequeno, mas inequívoco, e percebeu que ela estava se mexendo.


Num impulso nervoso, Ariel cobriu Eduarda e sua mini cama com um copo de vidro grosso. Pegou o celular com as mãos trêmulas e ligou para quem vinha sendo seu apoio silencioso durante todo aquele tempo.


— Oi, Ísis, você tá ocupada? — perguntou, tentando soar calma, mas o tom de voz nervoso a denunciava. 

— Oi, Ariel! Não tô não, pode falar… aconteceu alguma coisa? — A voz de Ísis era firme, quase preocupada. 

— Acho que a Eduarda tá acordando… não sei o que fazer. — Falou baixo, como se fosse um segredo. 

Houve um silêncio breve do outro lado da linha. 

— Ok. Me espera, tá bem? Já estou indo praí. — Ísis respondeu, desligando a chamada em seguida. 


Exatamente dez minutos depois, a campainha tocou. Ariel abriu a porta com rapidez. Estava com um coque torto no alto da cabeça, olhos baixos e vermelhos, short jeans velho e uma blusa larga demais. Ísis entrou antes mesmo de Ariel falar algo, atravessando o corredor com intimidade. A bruxa estava com os cabelos pretos azulados soltos, ainda molhados, a pele úmida no colarinho da camisa preta e o cheiro de loção de banho exalando de forma suave. Ariel sentiu o corpo reagir ao observar e sentir os detalhes. 


— Então… ela realmente acordou? — Ísis perguntou. 

— Não exatamente. Ela se mexeu. Quer dizer, acho que vi ela se mexer. — Ariel respondeu, andando até a prateleira e deixando espaço ao lado, para que Ísis se aproximasse. — Não sei se foi coisa da minha cabeça. 


As duas observaram a mulher em miniatura por um momento, até que Ísis soltou um suspiro, que fez a mais nova olhá-la quase de imediato. 

— O que foi, Ísis? 

— Acho que eu não tenho mais o que fazer por ela, Ariel. Ela precisa de ajuda profissional. — Ísis falou, direta. — Meu poder está instável no momento por conta da minha condição, não vou conseguir oferecer a cura e a ajuda que ela precisa depois do que fiz com ela. Além disso, se eu tivesse, o que faríamos depois? 

— Eu não sei, Ísis. Eu realmente não sei. — Ariel passou as mãos pelos cabelos. — Ela não deveria ter vindo aqui naquele dia tentar me assaltar. Nada disso teria acontecido, eu não deveria ter que pensar no que fazer com a Eduarda. Além disso, ela não tem ninguém. Nenhuma família. — Ariel respondeu, o rosto franzido de incômodo.

— Eu sei que você não deveria, meu bem e é exatamente o que estou tentando dizer. A Eduarda não tem que ser um problema seu. A Wicca tem um setor de pesquisa e suporte a pessoas em situação de vulnerabilidade, não tem? Você agora é a diretora, consegue encaixá-la lá.

— É verdade, eu não tinha pensado nisso. — Ela ficou pensativa. — É, pode ser. Talvez eu consiga. Não me acostumei ainda com os privilégios do meu cargo. Amanhã vejo isso sem falta. 

— Ok. — Ísis assentiu. — E você vai trabalhar amanhã? Vocês trabalham aos sábados agora? — Ísis perguntou.

— Não, é uma situação atípica. Temos que apresentar uma proposta de medicamento para o Reino Unido é só conseguimos essa data. 

— Certo. Então está resolvido. Amanhã a gente leva ela e a responsabilidade passa para os técnicos da Wicca. No fim, vai ser bom pra ela. Ela terá um direcionamento, e quem sabe não se encontra na vida. Só vamos ter que pensar mais um pouco na história que vamos contar e depois esquecemos esse assunto. 

— Obrigada, Ísis… Mesmo. E me desculpa, olha a confusão que eu arrumei pra você. 

— A culpa não foi sua, tá legal? E você sabe que pode contar comigo.

— Sei que posso, sim. — Um sorriso bobo surgiu nos lábios de Ariel. — Inclusive, às vezes eu fico insegura com ela aqui. Parece que vai crescer de novo, me engolir, destruir tudo... Você me ajudaria com um feitiço?

— Claro, dentro do que eu conseguir fazer. Onde quer deixá-la?

— No meu quarto. Em uma gaveta.


Ísis não julgou. Apenas seguiu Ariel até o cômodo, traçando símbolos com a mão, murmurando palavras em aramaico antigo. Selou o espaço ao redor da gaveta com uma camada invisível de proteção mágica.

Quando voltaram para a sala, depois de terminarem o que precisavam, Ísis lançou um olhar ao redor, como se procurasse por mais alguém.

— Você está sozinha?

— Sim. A Ana saiu com a Zina e a Lara. — Ariel respondeu, dando de ombros.

— Entendi… — Ísis pigarreou, com um sorriso de canto. — Elas voltaram? 

Ariel bufou.

— Duvido muito. A Ana deve ter caído na lábia delas novamente e eu tenho quase certeza que isso vai dar merd* pra ela. 

— Ela é jovem, mas é adulta. Deve saber o que está fazendo ou quais consequências podem resultar disso. E quem nunca se envolveu romanticamente a ponto de fazer merd*? — Ísis lançou um olhar cúmplice.

— Quem nunca, não é? — Ariel desviou o olhar, sem jeito. Sabia bem como alguém apaixonado podia fazer loucuras. 

— Pois é… — Ísis fez uma pausa. — Enfim, você precisa de mim pra mais alguma coisa?

Ariel hesitou por um instante.

— Hm… Bom… quer fumar comigo? Eu adoraria que ficasse um pouco mais. Aquela plantinha élfica que você me deu já floresceu. 

— Claro! Como eu poderia negar? — Ísis respondeu, sorrindo.

Ariel foi até a mesa de centro, onde mantinha um case grande com tudo que precisava. Se sentou no sofá, acompanhada por Ísis e começou a preparar o cigarro com naturalidade, como se fosse um gesto corriqueiro, quase automático.

Enquanto isso, Ísis observava. As curvas dos ossos das mãos, as veias discretas marcando o pulso, as unhas curtas com um brilho leve. Os dedos, longos e firmes que se moviam com uma precisão tranquila. Havia algo hipnotizante naquilo, e Ísis não fez questão de disfarçar o olhar. Quando Ariel passou a ponta da língua na seda, num gesto rápido, quase distraído, Ísis sentiu um leve arrepio na nuca.

Quando terminou, Ariel acendeu a ponta com o maçarico, puxou a fumaça com calma e, em seguida, estendeu o cigarro para Ísis, que aceitou.

Enquanto Ísis tragava, Ariel também a observava, sem muita tentativa de esconder. O cabelo ainda úmido deixava no ar um perfume que ela conhecia bem demais. Familiar o suficiente pra mexer com todo o seu interior.

Ísis ergueu os olhos, encontrando os dela e Ariel não desviou.

Sustentou o olhar intenso da bruxa, que a fazia se sentir insegura como uma adolescente. 

— Por que você tá me olhando assim? — Ísis perguntou de forma doce, com um sorriso leve, se inclinando sutilmente na direção dela, enquanto segurava o cigarro entre os dedos.

Ariel não saberia responder. Não com palavras.

Então, apenas se aproximou o suficiente para que os lábios se encontrassem, puxando devagar o lábio inferior de Ísis antes de aprofundar o beijo, pedindo passagem com a língua.

Ísis retribuiu sem hesitar, intensificando o contato, puxando Ariel para o próprio colo. As mãos subiram por baixo da blusa dela, encontrando a pele quente, enquanto o beijo ganhava urgência.

Ariel sentiu o corpo responder antes mesmo de conseguir pensar. Levou as mãos ao rosto de Ísis, como se precisasse mantê-la ali, e um gemido baixo escapou, abafado entre os lábios das duas. 

Mas o som da porta da sala abrindo e de chaves tilintando as fez travar. O susto quebrou o ritmo e Ariel se desequilibrou, caindo de lado no sofá, se segurando em Ísis e derrubando o cinzeiro. O baseado, já apagado que estava com Ísis, rolou até o tapete.

Por um segundo, houve um silêncio.

Então as duas riram, ainda meio desarmadas.

— Ana? — chamou Ariel, virando o rosto a tempo de ver a amiga subir as escadas apressada. Ariel franziu o cenho, estranhando a cena, e se levantou, dando alguns passos em direção à escada. No sofá, Ísis permaneceu tentando se recompor. 

— Ei, Ana! Você tá bem? — insistiu, elevando um pouco a voz.

— Não… mas vou ficar. Só preciso de um tempo sozinha — respondeu Ana, sem diminuir o ritmo nem olhar para trás.

Ariel parou no pé da escada, observando enquanto ela desaparecia no andar de cima. Ela respirou fundo, engolindo a inquietação ao ver a amiga naquele estado. Sabia que Lara e Zina podiam ter algo a ver com aquilo, mas não era o momento. Falaria com Ana depois.


— Acho que ela não está muito bem. — comentou Ariel, ao voltar para perto de Ísis. — Ela quer ficar sozinha um pouco. 

— Entendi… — Ísis assentiu, ainda sentada no sofá, os olhos fixos nela. — Espero que ela fique bem. Nesse caso… você quer ir pra minha casa?

— Quero. — respondeu Ariel, quase sem pensar, como se a decisão já estivesse tomada antes mesmo da pergunta.

Ísis se levantou em seguida.

— Então eu abro um portal e a gente vai agora. Quer pegar alguma coisa antes de ir?

Ariel assentiu e apenas se virou e recolheu o celular e o case e olhou para o portal que já se abria no centro da sala, pulsando com a magia de Ísis.

Sem hesitar, atravessou ao lado dela.


Ariel percebeu que estava descalça no exato momento em que seus pés tocaram o frio do chão da casa de Ísis.

Em poucos segundos, já estavam na sala da bruxa. 

— É sempre muito estranho passar por um portal. — comentou Ariel, ainda se ajustando à sensação. — Demora muito para se acostumar?

— Um pouco, pra ser sincera. — respondeu Ísis. — Mas você já está bem perto de isso deixar de ser um problema.

— Espero. Prefiro viajar de moto. — disse Ariel, apoiando o celular e o case sobre a mesa de centro. — Saí tão corrida que nem calcei um sapato.

Ísis abaixou o olhar para os pés da mais nova, em contato direto com o porcelanato, e sorriu de leve.

— Culpa minha, né? Eu que te apressei. Não se preocupe, eu te arranjo uma sandália lá no quarto. Mas antes… quer beber alguma coisa?

Ariel contraiu os dedos dos pés, e soltou um pequeno riso.

— Eu aceito a sandália e aceito algo para beber também. Você tem cerveja?

— Tenho. Vem, vou pegar pra você. — disse Ísis, segurando a mão dela e a conduzindo até a cozinha.

Abriu a geladeira, pegou uma long neck e tirou a tampa com facilidade. Em seguida, estendeu a garrafa para Ariel.

Ariel aceitou e deu um gole generoso, enquanto sentia o olhar atento de Ísis sobre si. 


— Cadê o Enzo? — Perguntou, após afastar a garrafa dos lábios. 

— Com a Alex. Enquanto eu… me recomponho. — Ísis respondeu com um sorriso enviesado. — Não é bom pra ele ficar por perto quando não estou estável.

— Eu entendo… Sinto muito que esteja instável. Nossos problemas são bem diferentes, mas sei como é não conseguir controlar algo. 

— Meio que já faz parte da minha vida, mas é difícil se acostumar ou acostumar os outros… Porém, não se preocupe, sigo atrás de uma forma de melhorar isso. Por ele, principalmente. Mas não é algo fácil. Os remédios vão perdendo o efeito com o tempo e preciso sempre buscar novas fórmulas, que supram o efeito perdido. 

— Espero que você consiga uma cura e que, um dia, possa ser a única comandante do seu corpo. 

Ísis sorriu de lado. Achava que isso talvez nunca fosse possível, mas não iria tirar as esperanças da mais nova. 

— Obrigada, meu bem. Veremos o que nos espera lá na frente. Vem, vou te arrumar o que você precisa. 

Ariel a seguiu, subindo as escadas que levavam até o segundo andar, onde ficavam os quartos. Ísis abriu uma porta que ficava quase ao fundo do corredor largo por onde seguiam e o cheiro do perfume da bruxa foi a primeira coisa que Ariel sentiu quando entrou. 

— Tenho esse de borracha, nem me lembro quando comprei ou se foi eu quem comprei. Pode ficar pra você. — Ísis falou enquanto entregava uma havaiana branca, que tirou de dentro de um enorme closet. 


Ariel se aproximou e pegou os chinelos nas mãos, ainda absorvendo o perfume do quarto. 


— Muito obrigada. Mas eu vou devolver sua havaiana, sim. — Ela calçou os chinelos e olhou em volta, aproveitando pra analisar o quarto da mais velha. Viu numa mesa de cabeceira um porta retrato de madeira, onde estava ela e o Enzo abraçados, sorridentes, em meio a um jardim. 

— Que linda essa foto.  — Ariel elogiou, se aproximando pra observar melhor. 

— Obrigada. Foi no dia do aniversário de 2 anos dele. — Disse Ísis, pegando o retrato nas mãos e observando por um tempo. — Ele cresceu tão rápido. 

— Cresceu mesmo, em dois anos ele esticou bastante. Ele é um garoto lindo. — Ariel sentou na ponta da cama. 

— Obrigada. — Ísis respondeu com um sorriso gentil, devolveu o retrato à mesa de cabeceira e sentou também na ponta da cama, ao lado dela.

Ariel lembrou da cerveja que segurava e deu um gole. Ísis acompanhou o movimento. 

— Quer um pouco? — Ofereceu a garrafa a mais velha, que recusou com um balançar suave de cabeça, então, apoiou a garrafa no chão ao lado da cama. 

— Tô tentando evitar álcool no momento. Você quer que eu pegue alguma outra coisa pra você? — Ísis fez menção de levantar, mas Ariel a impediu colocando a mão em sua coxa. 

— Não… Não precisa. Só queria ficar aqui, com você. — Deslizou alguns dedos pela lateral do braço da mais velha, que arrepiou em resposta. 

— Nós ficamos. — Ísis sussurrou, sentindo o toque cheio de intenção percorrer a linha do seu braço. 

Os olhos de Ísis estavam fixos nos de Ariel. O mesmo desejo de minutos atrás, agora de volta, mais denso e mais difícil de ignorar, tomava forma e ocupava espaço dentro e entre elas. 

Antes que Ariel conseguisse tomar uma atitude, Ísis se inclinou lentamente e começou a beijar o pescoço da mais nova. As mãos esgueiraram-se até o cós do short, depois por baixo da blusa. Ariel respondeu com um gemido baixo ao sentir os dedos apertarem de leve sua pele. Ísis subiu com a boca pela linha do pescoço, beijando com paciência a lateral da face, antes de alcançar os lábios úmidos e entreabertos que esperava pelo contato dela.  

Num movimento rápido, Ísis puxou Ariel pela cintura e endireitou seu corpo na cama. Tirou cada peça de roupa com delicadeza, se ajoelhou, encaixou o corpo entre as pernas de Ariel, e passou a beijar sua pele com calma calculada, como se soubesse exatamente o efeito de cada toque. 

Desceu aos poucos explorando cada reação da mais nova, que parecia estar sensível, pois estremecia enquanto a língua de Ísis contornava os seios eriçados, percorria o caminho do ventre sem pressa e abria caminho entre os lábios da intimidade já encharcada.

Quando a ponta da língua tocou no ponto mais sensível, Ariel deixou escapar mais um gemido, dessa vez mais alto, rasgando a garganta, enquanto se curvava para trás, agarrando os cabelos úmidos da outra. 

Ísis manteve o ritmo, com os olhos fixos em Ariel, explorando com a língua cada dobra de prazer e sugando cada gota da excitação que escorria da mais nova até sentir o corpo de Ariel estremecer e se contorcer com as contrações do orgasmo que explodiu, sem controle. 


Ariel puxou Ísis para um beijo molhado e quente, gem*ndo enquanto sentia seu próprio gosto na boca da outra. Os corpos se encaixando com perfeição. 


— Quero você dentro de mim. — A voz de Ariel saiu rouca, quebrada pelo desejo. Ísis sorriu maliciosa ao ouvir o pedido. 


A bruxa tirou a roupa que usava num movimento lento e voltou a beijá-la, enquanto sua mão esquerda seguia o caminho até o meio das pernas de Ariel. Deslizou os dedos para espalhar a umidade e a penetrou com dois, em movimentos firmes e ritmados, enquanto seus lábios exploravam a boca, os seios e toda parte da pele que conseguia alcançar. Ariel explodiu em outro orgasmo, tremendo abaixo dela, as contrações apertando os dedos de Ísis. 


A partir dali, passaram a noite inteira juntas, grudadas, se descobrindo sem pressa. Em meio aos momentos guiados por Ísis, Ariel também tentou assumir o controle, mas Ísis estava mais dominante e Ariel estava amando aquilo. 


Quando o dia já raiava lá fora, no quarto, Ariel vivia um frenesi. O prazer que sentia por Isis parecia insaciável e a bruxa parecia compartilhar do mesmo sentimento. Horas depois, ainda estavam se entregando como no início. Estava montada em Ísis, rebol*ndo com intensidade, gem*ndo contra a boca da outra, como se nada mais existisse além das duas, até que seu celular tocou. O despertador marcando 6:10 da manhã a trouxe de volta como um balde de água fria.


Ela parou, ofegante. Se apoiando com as mãos espalmadas nos seios da mais velha. 

— Merda… esqueci completamente da reunião de hoje. — falou, ainda montada em Ísis, que usava uma strapon reluzente com a excitação de Ariel.

— Não pode faltar? — Ísis perguntou, ofegante, cravando os dedos na bunda desnuda sobre seu colo. 

— Não dá. — Ariel resmungou. — É uma reunião importante. Se não eu ficava.

— Então vai pro banho, eu arrumo uma roupa pra você, preparo algo pra comer e te levo com um portal, assim você pode se arrumar com calma. 

— Não é justo ter que sair de cima de você…

— Não, não é. — Ísis sorriu de lado, afastando uma mecha de cabelo do rosto de Ariel antes de envolver sua cintura e puxá-la de volta para mais perto. — Mas você pode voltar, se quiser… e a gente continua. 

— Eu definitivamente vou querer voltar. — Ariel a beijou antes de se desvencilhar, gem*ndo ao sentir o dildo lentamente deixar de preenchê-la e observando o objeto cair pesado no abdômen firme e delineado da bruxa. 


Ao levantar da cama, ela foi direto para a suíte do quarto e tomou um banho quente. Ísis deixou roupas e um sapato que julgava que poderiam ser usados no ambiente de trabalho de Ariel para que ela vestisse ao final do banho. Ao descer, já arrumada, comeu pães com geleia, queijos, frutas e ovos mexidos que Ísis deixou preparado sobre a mesa. Fez bastante comida, pois conhecia o apetite grandioso que a mais nova tinha e, sabia, que nesse momento, provavelmente deveria ser o dobro. 

Antes de se preparar pra ir, Ariel lembrou de Eduarda e que precisava pôr um fim naquela história. 

— Ísis, sobre a Eduarda. Como vamos fazer? 

— Posso dizer que a encontrei assim. Quando percebi que era alguém com poderes e que estava ferida, achei melhor levá-la para um lugar especializado. Como ela está minúscula e já se recuperando, tenho certeza de que vão focar no poder dela e tentar entender como trazê-la de volta ao normal. Você cuida da papelada na Wicca? Posso levar ela pra você. 

— Você faria isso?

— Claro que sim! 

— Você não acha que ela vai contar o que realmente aconteceu quando acordar?

— É uma possibilidade. Mas como ela explicaria o que foi fazer na sua casa e o motivo que levou a tudo isso? Duvido que ela entre nesses detalhes. Além disso, não tem como provar nada.

Ariel assimilou a situação por um momento, depois suspirou. 

— Obrigada! Nem sei como agradecer. — Ariel a beijou e entregou as chaves de casa, que por sorte, tinha trazido dentro do bolso do short. — Pode passar lá pra buscar ela. Qualquer coisa é só me avisar. Assim que tudo estiver pronto, te mando mensagem para que possa levá-la até a Wicca. 

— Combinado. Te vejo depois? 

— Com toda certeza. — Ariel deu mais alguns beijos em Ísis, pegou o case, o celular, respirou fundo e passou pelo portal aberto no meio da sala a caminho da sua sala pessoal na Wicca. 


****

Horas depois, já de banho tomado e arrumada, Ísis foi até o apartamento de Ariel para buscar Eduarda. Bateu à porta umas duas vezes antes de entrar, mas não houve resposta. 


Subiu as escadas em direção ao quarto de Ariel quando, no meio do caminho, deu de cara com Ana, saindo do banheiro social, enrolada em uma toalha.


— Oi, Ana! Desculpa, não queria parecer que estou invadindo. A Ariel me deu a chave para buscar a Eduarda. Eu bati na porta, mas como ninguém veio, entrei pois achei que não tinha ninguém. — explicou Ísis, um pouco sem jeito.

— Sem problema, Ísis. Pode ficar à vontade. — respondeu Ana, evitando contato visual. Os olhos estavam vermelhos e inchados, e ela rapidamente desviou o olhar para o chão.

Ísis percebeu na hora.

— Você não parece muito bem.

Ana soltou um suspiro curto.

— Ressaca moral… mas vai passar.

Ísis hesitou por um instante, ponderando se deveria insistir, mas acabou cedendo à própria preocupação.

— Se precisar de alguma coisa, pode me chamar. Você tem meu número, né?

Ana fez uma pequena careta, quase sem graça.

— Na verdade… não.

— Então espera. — disse Ísis, já pegando o celular. — Vou te mandar uma mensagem. A Ariel me passou seu contato, caso eu precisasse falar com você.

Digitou rapidamente e aguardou a confirmação.

— Pronto. Assim você salva.

Ana assentiu.

— Obrigada por isso… de verdade.

— Imagina. Fica bem, Ana. Vou só pegar a Eduarda no quarto da Ariel e já vou embora, tá?

— Fica à vontade. Vou me vestir. Qualquer coisa, estou no quarto.

— Tá bom. Prometo ser rápida. A gente se vê depois.


Depois de retirar Eduarda da gaveta, Ísis a acomodou em um recipiente mais adequado para o transporte e seguiu em direção à Wicca. Ao chegar, foi recebida como visitante na recepção e encaminhada ao setor responsável. Preencheu os formulários com precisão, omitindo informações, mentindo outras, e em seguida, entregou Eduarda, ainda desacordada, mas em segurança, e deixou o local sem olhar para trás, agarrando-se à ideia de que aquela decisão permitiria a Eduarda que ela seguisse o próprio caminho e deixasse Ariel em paz. 


Por um instante, considerou passar pelo andar de Ariel. Mas não queria interferir, e, no fundo, nem saberia explicar o impulso de vê-la outra vez, com tão pouco tempo de separadas, então, seguiu para o trabalho no Coven Astraea, tentando se refugiar na rotina. 

 

Tentar manter a mente ocupada parecia a melhor alternativa, embora, naquele momento, fosse quase inútil. Entre as outras personalidades disputando espaço dentro de si, Ariel surgia com uma força inesperada, ocupando um lugar muito maior do que Ísis gostaria de admitir.

Fim do capítulo


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