Antes de tudo, quero pedir desculpas pela demora para trazer este capítulo.
As últimas semanas foram um pouco mais corridas do que eu esperava, e algumas demandas pessoais acabaram consumindo boa parte do meu tempo e energia. Por isso, não consegui manter a frequência de postagem que gostaria.
Mesmo assim, nunca deixei de pensar nessa história e nessas personagens. Cada capítulo é escrito com muito carinho.
Espero conseguir retomar as postagens semanais a partir de agora e voltar ao ritmo que tínhamos antes.
Espero que goste do capítulo de hoje. ??’?
Tardes de Sol e Tempestades Internas
O sol filtrava-se pelas janelas com delicadeza naquela manhã de sábado, e o aroma de café fresco tomava o ambiente da casa de Lia. Ela já havia feito o ritual de purificação da casa e reforçado os feitiços de proteção, para tentar evitar novas visitas indesejáveis da Calíope. Esperava que dessa vez, sua magia não lhe traísse.
Quando terminou, estava com um olhar cansado, mas com um brilho sereno. Usava uma calça de moletom cinza surrada, uma camiseta larga com o símbolo da Liga da Justiça e mantinha os pés descalços no tapete da sala. Os cabelos úmidos denunciavam o banho recém-tomado, e a caneca de café estava quente entre suas mãos. No colo, uma edição encadernada de "A Morte do Superman".
Quando Elisa acordou, encontrou a cama vazia, mas o cheiro do café a guiou até a porta do quarto, parou alguns segundos no batente, observando a cena. A forma como Lia se mantinha ali, calma, absorta entre páginas e goles, era um lembrete vivo de que, apesar de tudo, elas estavam tentando manter a normalidade.
— Você prefere DC ou Marvel? — a pergunta surgiu quase como um sussurro, com um leve sorriso curioso nos lábios de Elisa, que se aproximou.
Lia ergueu o olhar sem pressa, um pouco surpresa com a pergunta, piscando preguiçosamente.
— Depende… HQs DC, filmes Marvel, jogos DC e animações DC de novo. — respondeu com um sorriso torto.
— Três a um para DC, então. — Elisa murmurou, absorvendo a resposta para a pergunta que Siena fez anteriormente e se inclinou para deixar um beijo demorado na testa da fênix antes de seguir para o banho.
****
A manhã na Wicca Enterprise corria em um ritmo silencioso, quase tenso. Ariel chegou cedo, transportada por um portal conjurado por Ísis. Estava determinada a manter tudo nos trilhos naquela reunião importante, e organizou com agilidade os arquivos e apresentações no painel da sala de reuniões principal. Vestia-se com sobriedade, a roupa que foi emprestada por Isis, um blazer de alfaiataria azul-marinho por cima de uma camiseta branca e jeans escuros.
Elisa chegou minutos depois, com passos firmes e silenciosos. Seus cumprimentos eram concisos, e mesmo ao saudar Siena com o tradicional aceno de cabeça, parecia que a temperatura da sala havia caído um grau. Siena, como sempre, manteve a compostura, mas sentiu algo de diferente na frieza de Elisa naquela manhã, um distanciamento quase pessoal.
Pouco antes da reunião, Siena foi até a sala da chefe com uma pasta sob o braço e o tablet em mãos.
— Doutora Elisa, bom dia. A Ariel pediu para incluir algumas informações na parte de comparativos clínicos. Estão aqui. — disse ela, aproximando-se da mesa.
— Que tipo de informações? — Elisa nem levantou os olhos dos papéis à sua frente.
— Bom, dados estatísticos sobre a taxa de eficácia em gestantes com histórico de baixa imunidade, além das observações sobre absorção em organismos mágicos híbridos. Ela achou que isso poderia impressionar os britânicos.
— Achou? — Elisa ergueu o olhar, cortante. — Esses dados não deveriam ser incluídos com base em "achismos", Siena. Tudo o que entra em uma apresentação clínica precisa ser validado pelo setor responsável e revisado por mim. E pela última vez, não interfira diretamente no conteúdo técnico sem que eu peça.
Siena respirou fundo, mantendo a postura, mas intimamente irritada com a grosseria sem motivo.
— Eu só trouxe a sugestão da Ariel, que inclusive achei muito válida. Não editei nada sem aprovação. Além disso, a parte em que falo que ela achou, foi a de impressionar os britânicos com as informações, não sobre os dados. Estamos falando de estatísticas, então, obviamente eles foram validados. Você só precisa revisar, Doutora Elisa.
Elisa fixou o olhar nela por um segundo longo.
— Faça o upload no sistema e me avise assim que terminar. — cortou, seca, desviando o olhar. — Pode sair.
Siena assentiu com um leve movimento de cabeça e saiu da sala, em silêncio. Tentou racionalizar a atitude tosca da chefe. Talvez fosse só estresse. Suspirou fundo e seguiu para a própria mesa afim de se distrair com o trabalho.
****
A reunião com os representantes da Medicines and Healthcare products Regulatory Agency correu de maneira quase impecável. Elisa conduziu a apresentação com elegância cirúrgica, Ariel assumiu os momentos de interação com leveza e diplomacia, e até mesmo Marcela e Siena, que operavam nos bastidores, garantiram que todos os arquivos, gráficos e documentos fluíssem sem erros.
Ao fim da manhã, o contrato foi verbalmente aceito, com ajustes pontuais a serem realizados antes da assinatura. A equipe da Wicca estava visivelmente satisfeita, mas ainda assim, Elisa manteve a compostura profissional até o último segundo.
— Agradeço a todos pela dedicação. — disse ela quando restavam apenas os membros internos na sala. — Estão liberados para aproveitar o restante do sábado.
Fez menção de virar-se, mas voltou-se a Siena com um olhar direto.
— Na verdade, Siena, vou precisar que você retorne após o almoço para me ajudar na edição das cláusulas contratuais conforme os ajustes acordados. É prioridade. Tudo bem para você?
— Claro, sem problemas. — respondeu a assistente, dando de ombros.
Marcela lançou um olhar enviesado para Elisa, de forma discreta, mas não disse nada. Ela e Siena tinham combinado de fazer compras juntas no sábado a tarde, mas Elisa parecia ter outros planos.
— Marcela, vamos marcar para outro dia, né? — Siena perguntou, se aproximando da colega, enquanto fingia não perceber Elisa mexendo no celular com atenção.
— Claro, não se preocupe. Marcamos sim. — Marcela respondeu em um tom baixo. Queria comentar outras coisas sobre a chefe também, mas ela no mesmo ambiente impedia que acontecesse.
— Ei, combinei de almoçar com a Lia aqui perto, por que não vamos todas? — Falou Ariel de forma súbita, com o corpo relaxado e um sorriso que parecia fora de lugar naquele ambiente.
O silêncio que seguiu foi breve, mas tenso. Elisa fuzilou Ariel com o olhar. Siena imediatamente entendeu o que acontecia, e preferiu intervir, antes que alguém aceitasse por ela.
— Na verdade, eu e a Marcela já temos planos para o almoço, mas obrigada, Ariel.
— É… Nós já temos. — Marcela repetiu, um pouco contrariada ao perceber o incomodo de Elisa, mas aliviando a tensão.
— Ah, que pena! — Ariel falou, olhando diretamente para Elisa. — Fica para uma próxima então.
— Claro, fica, sim! — Siena sorriu, contida.
Ao saírem, Elisa se aproximou de Ariel e parou diante dela. O movimento chamou a atenção da mais nova, que se virou para encará-la.
— O que foi? — Ariel perguntou, confusa.
— Você precisa aprender a separar sua vida pessoal da profissional. — disse Elisa, em tom contido, mas não o bastante para ocultar a irritação em sua voz.
— Eu não vejo problema em almoçar com as pessoas que passam o dia comigo. — Ariel respondeu com a calma típica de quem já esperava esse tipo de censura.
— Pois deveria ver. A Marcela com certeza ia notar a gravidez da Lia. Fora que você acabou de escancarar que ainda temos esse tipo de relação. — Elisa falou, frustrada.
— Meu Deus, Elisa. Todo mundo já sabe. Tá, não sobre a gravidez. Mas vocês duas? Só é segredo na sua cabeça.
— Eu não preciso de fofoca interna enquanto tento fechar o maior contrato da empresa este semestre.
— E eu não vou mudar minha personalidade só por causa de um cargo, Elisa. Ou por você achar que eu devo. Eu não sou assim.
— Tudo bem, Ariel. Mas da próxima vez exponha só a você. Não me inclua nessas situações.
— Eu não te expus! — Ariel falou, tentando manter o tom cordial.
— Você sabia que provavelmente eu almoçaria com a Lia também. Poderia ter exposto, se elas tivessem aceitado.
— Ok. Não vai acontecer de novo. — Ariel respondeu, se dando por vencida, não querendo prolongar o estresse que se formava.
— Ótimo.
— Eu sinceramente não achei que fosse ter DR’s com você. — Ariel disse, mordendo um sorriso. — Vou fumar antes de ir, me espera?
— Não. Te encontro no restaurante.
****
Em outra parte da cidade, Lia recebia uma mensagem de Cristinne:
“Ei, bom dia. Os berços que te falei acabaram de chegar e o montador vem daqui a pouco. Quer ver? Vai que você quer comprar igual.”
“Claro, quero sim. Chego aí em 30 minutos.” — respondeu Lia sem pensar muito.
Ao chegar na casa de Cristinne, foi recebida com um abraço leve e logo estavam sentadas no sofá da sala, falando sobre gravidez, medos e desejos de grávida.
— Jura que você sentiu vontade de beber isso? Acho que é o desejo de gávida mais estranho que já ouvi.
— Juro. As vezes ainda sinto. Não posso ver uma garrafa de desinfetante de lavanda que minha boca enche de água. — Cristine falava sério e isso fez Lia cair numa gargalhada.
— Meu deus, nunca deixe essa vontade falar mais alto!
— Não vou deixar! — Cristine sorriu junto. — Você fica ai rindo de mim, mas quando chegar a sua vez de ter esse tipo de desejo estranho, quero mesmo ver o que vai ser.
— Espero que se acontecer, seja algo que eu possa consumir. — Lia pontuou.
— Também espero. Esse montador tá demorando, né?
Assim que pegou o celular para ver se tinha mensagens dele, a mensagem do montador chegou fazendo o aparelho vibrar de leve.
— Poxa, ele mandou mensagem dizendo que só vai poder vir na terça-feira. — Cristinne informou, dando de ombros.
Ao ouvir aquilo, Lia apenas se levantou.
— Cris, eu posso montar pra você.
— Como assim? — Cristinne perguntou rindo, ainda sem entender. — Você sabe?
— Só preciso do manual. — Lia disse, com segurança.
— Ok… O manual tá lá no quarto dos bebês. — Falou indo até o comodo com a bruxa a acompanhando. Pegou o papel com as informações que estavam sobre as peças e entregou para Lia.
E então, em poucos segundos, como se estivesse seguindo uma receita, as peças começaram a flutuar. Tábuas encaixavam-se no ar, parafusos giravam sozinhos, e tudo se unia perfeitamente em um balé mágico silencioso. Cristinne apenas observava, boquiaberta.
— Uau… se eu soubesse que você podia fazer isso, teria dispensado esse homem antes. — disse ela, com um sorriso largo e olhar surpreso.
— Ele ia cobrar varios dinheiros pra fazer isso em três horas. Eu montei em cinco minutos e nem te pedi um suco. — Lia brincou.
— Realmente, com você eu sai no lucro! Mas eu gostaria de te recompensar de alguma forma. Quer almoçar comigo?
— Adoraria almoçar com você, porém também combinei de almoçar com minha amiga e Elisa hoje, em um restaurante perto da orla. Quer vir almoçar com a gente? Vai ser ótimo se vier.
— Ah, não sei… Não quero atrapalhar vocês. — Cristine parecia sem jeito, mas tentada.
— Que isso! Você não atrapalha! Vem, assim você também já conhece a Ariel e a Elisa e elas conhecem você. Que acha? — Lia a olhava com espectativa.
— Tá bem, tá bem! Eu aceito. — Cristinne aceitou o convite para o almoço com um sorriso animado.
****
No restaurante, Elisa já esperava sentada em uma mesa externa, com uma taça de água com gás à frente. Estava mais calma, embora o semblante ainda fosse uma carranca fechada.
— Oi amor. — Lia disse, se aproximando e dando um beijo casto nos lábios de Elisa, que teve uma mudança positiva na expresão com o contato. — Essa é a Cristinne. Do curso para mães. — Lia disse com carinho, ao se aproximar.
— É um prazer te conhecer, Cristinne. A Lia fala bastante de você. — Elisa respondeu cordialmente, com um leve aceno.
— O prazer é meu. Posso dizer o mesmo de você. — Cristinne ofereceu um sorriso, enquanto puxava uma cadeira para sentar.
— Bom, a Ariel deve estar a caminho. — Elisa comentou, após puxar uma cadeira para Lia sentar, ao seu lado.
— Porque vocês não vieram juntas? — Lia perguntou curiosa.
— Tivemos nossa primeira "discussão". — Elisa respondeu pragmática
— A venda do medicamento não deu certo?
— Deu sim. Inclusive vou ter que voltar pra empresa agora à tarde para finalizar o contrato. A discussão foi por outro motivo. Mas já está tudo bem.
Lia olhou desconfiada, mas preferiu deixar passar naquele momento as perguntas que faria.
Minutos depois, Ariel apareceu, de óculos escuros e um sorrisinho preguiçoso no rosto.
— Olha quem chegou!
— Oi, galera, boa tarde! — Ariel saudou de forma animada, e percebeu Cristinne que devolvia o boa tarde.
— Ah, Ariel essa é a Cristinne e Cristinne, essa é Ariel.
— Oi, Cristinne! — A mais nova falou com um sorriso enquanto estendia a mão para Cristinne apertar. — Finalmente conhecendo você!
— Sim!! Demorou um pouco, né? Mas muito bom finalmente conhecer vocês.
— Pois é, a Lia fica querendo guardar as amigas legais dela só pra ela. Espero que esteja mais com a gente a partir de agora. — Ariel sentou ao lado de Lia, com um sorriso acolhedor no rosto.
— Por mim ela vai estar. — Lia comentou e Cristinne sorriu sem jeito.
Nesse momento, o garçon chegou a mesa oferecendo um cardapio que Elisa pegou para dar uma olhada no que iria pedir, enquanto Cristinne pedia um suco de abacaxi com hortelã.
Lia por sua vez, encarava a Ariel, como se a analisasse.
— Você parece ótima. Dormiu bem? — Lia perguntou com malícia.
— Na verdade, não. Passei a noite em claro… mas por um bom motivo. Foi uma noite ótima. Depois te conto a fofoca toda. — respondeu divertida.
A conversa fluiu com leveza. Cristinne e Elisa engataram num papo sério sobre o Departamento Extraordinário de Policia, inclusive sobre uma parceria que quase ocorreu entre eles e a Wicca anos atrás.
Antes da sobremesa, Elisa consultou o relógio e se ajeitou na cadeira, como se estivesse se preparando para levantar.
— Preciso voltar. O contrato me espera. — anunciou com um beijo rápido na bochecha de Lia. — Foi um prazer conhecer você, Cristinne, espero que num outro momento possamos conversar mais.
— Claro, também espero! Bom trabalho pra você.
— Eu também vou. Preciso dormir umas oito horas em duas. — Ariel brincou, levantando-se. — Tchau, Cristinne! Foi ótimo te conhecer.
— Igualmente, Ariel! Até depois.
Cristinne e Lia permaneceram.
— Elas vão perder a sobremesa. — comentou Cristinne, vendo o garçon deixar os doces sobre a mesa.
— Elas foram bobas, mas a gente aproveita. — Lia respondeu sorrindo.
Ficaram por ali, rindo, falando sobre gostos gastronômicos, tentando adivinhar os ingredientes da sobremesa e fazendo planos sobre decoração dos quartos dos bebês.
— Sabe que esse foi meu primeiro sábado livre em muito tempo? — Cristinne disse, levando uma colherada do tiramisù à boca. — Eu sempre inventava alguma coisa. Arrumar a casa, resolver coisas do pré-natal, preparar planilhas… E hoje? Tô só existindo.
— É bom só existir às vezes. — Lia respondeu, apoiando o queixo na mão. — Eu demorei anos pra entender isso. Sempre achei que precisava estar fazendo alguma coisa o tempo todo, se não eu desmoronava.
— Eu também. — Cristinne confessou. — Às vezes ainda acho.
As duas se entreolharam, sentindo um reconhecimento sutil.
— Mas hoje você parece bem. — Lia disse, sincera. — Tem um brilho no seu olho que eu não tinha visto antes.
— É o poder da sobremesa. — Cristinne brincou, desviando os olhos por um segundo. — Ou talvez seja você. Sempre que a gente conversa, eu saio me sentindo um pouco mais leve.
Lia sorriu com suavidade. Não havia segundas intenções ali, pelo menos era o que achava. Apenas verdade.
— O bom é que sua gestação está sendo tranquila, nè? — A bruxa comentou, com interesse.
— Sim. Bem tranquila, na medida do possível. Os bebês parecem estar bem. Mas e você? Como tá se sentindo?
Lia olhou para o a colher que segurava e ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Hoje eu tô bem. Tô aprendendo a não deixar o medo ocupar todos os espaços. Mas além da gravidez, Cris, como você está?
— Hoje eu também tô bem. — Cristinne respondeu, olhando em volta e sentindo a brisa salgada que vinha do mar a alguns metros dali. — Sabe… quando eu decidi ter um bebê, eu tinha medo de tudo. Medo de errar, de ser mãe solo, de me arrepender… Mas agora eu sinto que eles me ensinam a existir diferente. Com mais calma.
Lia assentiu, tocada com a sinceridade da fala.
— Eu sei bem como é isso. O meu ainda nem nasceu, mas já me mudou inteira.
— Que bom que a gente tem esses pequenos magos crescendo dentro da gente, né? — Cristinne brincou, pousando uma das mãos na própria barriga. — Eles já até sabem feitiço de transformação.
Enquanto riam, o garçom apareceu para recolher os pratos vazios e elas aproveitaram para pedir a conta e pagar.
— Minha vizinha acabou de mandar mensagem. Parece que deixaram uma encomenda minha na casa dela e ela tá indo viajar agora. Vou ter que passar lá rapidinho. — Cris falou após dar uma olhada no celular.
— Quer carona?
— Não, não precisa, vou pedir um carro por aplicativo. Você vai pra casa agora?
— Ainda não sei. Talvez passe na floricultura antes. Minha macieira tá exigente esses dias.
— Você é tão específica. — Cristinne disse rindo, mas com carinho.
— Eu levo isso como elogio.
— E deveria. — Cristinne respondeu. — Obrigada por hoje, Lia. Foi muito bom estar com você.
— Também achei. Me manda mensagem depois?
— Pode deixar.
Lia a observou partir, depois pegou a bolsa e saiu caminhando devagar. Naquele sábado, as coisas até pareciam normais.
****
O prédio da Wicca Enterprise parecia mais silencioso do que o habitual naquele sábado à tarde. A recepção estava vazia, os corredores ecoavam os passos e os elevadores demoravam mais do que o comum a chegar. Era como se o próprio ambiente respeitasse o dia de descanso dos demais, menos o delas.
Siena chegou primeiro. Trazia consigo a pasta com anotações da reunião, tablet carregado e o mesmo olhar atento de sempre. Seus cabelos estavam presos em um coque baixo e o colar que herdara da mãe, o amuleto que Elisa ainda não conseguia ignorar, reluzia discretamente sob a luz branca dos painéis do teto. Por fora, ela era toda foco. Por dentro, tentava decifrar a distância glacial com que vinha sendo tratada desde aquela manhã.
Elisa chegou logo depois. Vestia um blazer preto com gola estruturada por cima de uma blusa cinza escura, calça social e salto baixo. Carregava uma pasta sob o braço, a outra mão segurando a mesma garrafa térmica prateada que sempre trazia de casa. Sua postura era impecável. O rosto, indecifrável.
Entraram na sala de reuniões em silêncio.
Elisa depositou a pasta sobre a mesa e se sentou na cabeceira. Siena acomodou-se do outro lado, mantendo uma distância cuidadosa, medida não só em metros, mas em silêncios.
— Vamos revisar o que ficou acordado. — Elisa começou, já abrindo o notebook. — Preciso que você atualize o texto base do contrato com as cláusulas que envolvem a entrega escalonada do lote europeu, conforme a revisão da MHRA.
— Está tudo aqui. — Siena respondeu, deslizando o tablet na direção de Elisa. — Adicionei os trechos com destaque, e inseri comentários nas cláusulas em aberto.
Elisa não respondeu de imediato. Passou os olhos pela tela com a atenção meticulosa. Por alguns segundos, o único som na sala era o do teclado e o leve clique das páginas digitais.
— Os termos de responsabilidade compartilhada precisam de reformulação. — disse Elisa, sem levantar os olhos. — A maneira como estão redigidos sugere que a Wicca assume riscos que não lhe cabem.
— Posso reescrever. Quer que use a fórmula da cláusula americana como base?
— Não. Escreva do zero. Mas mantenha o espírito do modelo britânico. — respondeu com secura.
O silêncio voltou, e Siena aproveitou para soltar uma pergunta, tentando suavizar o ambiente.
— A Ariel mencionou que houve alguma tensão com você. Espero que não tenha sido por minha causa.
Elisa digitava e continuou por mais três segundos antes de responder.
— Não teve nada a ver com você. — disse enfim, com uma voz tão neutra que parecia ensaiada.
Siena hesitou.
— Se fiz algo inadequado, prefiro saber.
Foi quando Elisa finalmente olhou para ela. Os olhos estavam firmes, mas havia algo mais profundo ali. Uma hesitação velada e um conflito silêncioso que não tinha nome, mas já se impunha.
— Não fez. — disse, firme e engoliu em seco. — Mas eu gostaria que mantivéssemos essa relação dentro do campo estritamente profissional. Sempre.
Siena assentiu, engolindo o peso do subentendido.
— Entendido.
— Ótimo. — Elisa voltou os olhos à tela. — Quero que a gente termine tudo até o fim da tarde.
****
O tempo passou sem interrupções. Siena redigia com precisão, enviando trechos para aprovação à medida que reformulava. Elisa, por sua vez, lia e revisava com o olhar clínico. Depois, continuava a redigir a parte dela do documento.
Porém, mesmo em meio a tanto trabalho, a tensão se acumulava como eletricidade estática.
Elisa sabia que estava sendo mais fria do que o necessário. Mas não conseguia agir diferente. Lembrou-se do momento no estacionamento com Siena na noite anterior. Da aproximação involuntária, do fato de que Siena a fazia sorrir sem querer. Tudo isso a incomodava mais do que gostaria de admitir.
Ela não podia se permitir desejar outra mulher enquanto Lia esperava um filho dela. Muito menos uma funcionária. Muito menos alguém que estava todos os dias ali, a poucos metros de distância, com inteligência afiada e aquele colar irritante que lhe impedia de decifrar qualquer coisa além das palavras.
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Quando a última cláusula foi revisada, o relógio já marcava quase cinco da tarde.
— Então é isso. O documento está pronto. — Siena anunciou, erguendo o olhar.
— Sim, está. Envie para o jurídico e para os representantes do Reino Unido. Peça que confirmem até terça as 14h. — Elisa respondeu com um aceno leve de cabeça.
Siena se levantou, organizando os papéis. Parou no meio do que estava fazendo, e os olhos desviaram para a nefilim.
— Doutora Elisa… — começou, mas hesitou. — Obrigada pela confiança. Sei que poderia ter chamado qualquer outra pessoa para essa parte.
Elisa a fitou, analisando-a. O olhar endurecido, mas os ombros tensos.
— Eu a chamei porque é competente. — disse por fim. — Apenas por isso.
Siena assentiu, fingindo engolir as palavras da chefe. Esforçou-se ao máximo para blindar a expressão e manter o rosto neutro enquanto deixava a sala. No entanto, assim que a porta se fechou, sentiu a garganta dar um nó, sufocada por um misto amargo de frustração e raiva.
Assim que a porta se fechou, Elisa deixou escapar um suspiro que não percebeu estar prendendo. Levantou-se devagar, caminhou até a janela de vidro que dava vista para a cidade. Lá fora, a tarde caía em tons alaranjados, e tudo parecia normal.
Mas dentro dela, o que começava a se formar era tudo, menos normal.
Ela levou a mão ao rosto e, por um instante, pressionou os dedos contra o centro da testa. Como se tentasse apagar dali a lembrança de um toque que nunca chegou a acontecer.
Fim do capítulo
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