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Palavras: 3371
Acessos: 28   |  Postado em: 05/07/2026

Entre Recuos e Vontades - Parte I

O som da torneira da cozinha pingando era o único ruído que cortava o silêncio da casa naquela manhã. Elisa já estava de pé há quase uma hora, ainda de pijama, andando de um lado para o outro, com uma caneca de chá morno nas mãos e o cenho franzido. Lia continuava sentada no chão da sala, encostada no tronco da macieira, respirando lentamente de olhos fechados.


— Tá diminuindo? — perguntou Elisa com cuidado, abaixando-se para ficar ao lado da Fênix e apoiando a caneca de chá no chão. 

— Um pouco. Acho que foi só o cheiro da comida que me deu enjoo... — Lia abriu os olhos devagar. A pele estava pálida, e a testa, levemente suada. — Não imaginei que os sintomas mais básicos da gravidez fossem me atingir tão facilmente.

— Você ainda tem sua parte humana, não tem?

— Infelizmente, sim. — Lia passou as mãos pelos cabelos.

— Eu deveria ficar com você. 

— Eu adoraria, mas não precisa. É só um sintoma já esperado, um pouco mais intenso, mas ainda sim, tá tudo sob controle. Eu tô melhor. — Lia argumentou, com um tom calmo. 

— Tá mesmo? 

— Bem melhor agora. — Lia sorriu de canto. — Com sorte, minha parte bruxa é a dominante.

Elisa retribuiu o sorriso, mas estreitou os olhos ao observar a noiva. Não estava convencida. A noite havia sido tranquila, porém, desde que Lia acordara naquela manhã, o enjoo parecia mais persistente do que nos dias anteriores. O chá de hortelã com gengibre não surtira efeito, e os biscoitos de água e sal haviam voltado para a pia poucos minutos depois. Lia parecia mais sensível, mais cansada.

— Acho que você devia falar com a médica, mesmo assim. — Elisa acariciou de leve os cabelos de Lia, que fechou os olhos diante do gesto. — Só pra garantir que está tudo dentro do esperado.

— Não quero causar alarme... É só enjoo. Já vi casos piores em outras grávidas.

— A questão é que você é a minha grávida, e eu não quero que isso piore pra você, tudo bem? — Elisa respondeu, sustentando o olhar de Lia. Estavam tão próximas que ela sentia a respiração da bruxa aquecer seu rosto.

— Tudo bem. — Lia suspirou, relaxando sem desviar os olhos.

Elisa encurtou a pequena distância que ainda havia entre elas e depositou um beijo carinhoso em seus lábios, enquanto deslizava a mão até a nuca dela, acariciando-a com delicadeza.

— Vê quando ela pode te atender e me avisa. Eu passo pra te buscar e te levo.

— Vejo, sim. — Lia concordou com uma obediência quase automática.

No instante seguinte, seu rosto se contraiu numa leve careta, e ela levou a mão ao estômago.

— Mais enjoo?

— Hum-rum. — murmurou, controlando a respiração enquanto via o semblante de Elisa se encher de preocupação. — Foi um dos pequenos. Eu vou sobreviver. Só fica aqui comigo... um pouquinho.

— Claro. Fico, sim.

Elisa se aproximou ainda mais, oferecendo o ombro para que Lia apoiasse a cabeça. A posição, no entanto, durou pouco. Conforme as ondas de enjoo aumentavam e diminuíam, Lia mudava de postura em busca de algum alívio.

Elisa permaneceu ali por um longo tempo, observando Lia recostar a cabeça na parede e inspirar profundamente entre um mal-estar e outro. Ficou sentada ao seu lado, tentando esconder a apreensão que crescia a cada minuto. Quando o relógio marcou nove e dez, finalmente se vestiu e saiu de casa, levando consigo a inquietação deixada por aquela manhã lenta e sensível.

                                                

**** 

Na Wicca Enterprise, o ambiente era outra realidade.

Siena percebeu o atraso de Elisa assim que notou a sala da CEO ainda fechada quando chegou à empresa. Tentou afastar a inquietação revisando relatórios e organizando pastas no sistema, mas seu olhar voltava, inevitavelmente, para a porta fechada.

Às dez e sete, Elisa finalmente chegou.

O som dos saltos ecoou pelo porcelanato branco com uma firmeza incomum.

Siena ergueu a cabeça, olhando na direção dela, que avançava com uma firmeza quase intimidadora. 

— Bom dia, doutora Elisa... — disse, num tom mais cauteloso do que pretendia. — Tá tudo bem?

Elisa passou por ela sem diminuir o passo. O semblante estava fechado, o olhar, glacial.

— Bom dia. — Respondeu no automático, de forma fria, sem parar sequer para olhá-la. 

As palavras, secas e cortantes, e a forma que ela ignorou sua pergunta, fizeram Siena sentir o ambiente esfriar. Por um instante, teve a impressão de ter cometido algum erro. Observou Elisa desaparecer pelo corredor interno, enquanto o som dos saltos era engolido pelo silêncio.

Menos de dez minutos depois, o telefone sobre sua mesa tocou. 

— Siena, venha até minha sala.


Ela engoliu em seco antes de se levantar. 

A porta estava entreaberta. Após entrar, viu que Elisa permanecia de pé, ao lado da estante, os braços cruzados e o maxilar tenso. Siena respirou fundo, preparando-se para mais uma demonstração de frieza. No entanto, assim que a CEO levantou os olhos, ela conseguiu enxergar algo novo, um tipo de olhar que ainda não tinha visto na mais velha. Era culpa? 

— Me desculpa. — Elisa foi direta. — Fui e tenho sido ríspida com você sem motivo. — Elisa limpou a garganta, antes de prosseguir. — Por isso, gostaria de me redimir... almoçando com você.

A fala pegou Siena de surpresa. Ela piscou algumas vezes, ainda em choque com a mudança inesperada. No fundo, queria acreditar que era sincero. 


— Eu só perguntei se estava tudo bem porque me preocupei com você. — Siena respondeu procurando se justificar, a voz mais baixa. Não sabia ao certo o que falar. — Fiquei com medo de ter acontecido algo. Desculpe se fui invasiva. 

— Não foi. Obrigada por ter perguntado… Aconteceu sim. — Elisa caminhou lentamente até sua cadeira. — Lia passou mal hoje cedo e eu fiquei com ela.


Siena assentiu franzindo as sobrancelhas, sentindo um peso doce na forma como Elisa falava o nome da noiva.


— Ela já está melhor? — A preocupação era genuína. 

— Um pouco, mas me deixou alerta. — Elisa sentou, subitamente nervosa com o olhar da mais nova vidrado nela e procurou algo para desviar o assunto. — Sabe, me lembrei da pergunta que você me fez sexta, no carro.


Siena arqueou uma sobrancelha, tentando resgatar todas as perguntas que poderia ter feito.


— Qual delas?

— DC ou Marvel.


Siena pensou um pouco, até que lembrou da pergunta, sobre a preferência de Lia e sorriu, contida. 

 

— Ah. Claro! Então você tem uma resposta?

— A resposta é DC. Dois a um. — Elisa se permitiu um leve sorriso. — Ela prefere as HQ’s da DC, os filmes da Marvel e as animações da DC.


Siena soltou uma risada leve e sincera. Percebeu que era difícil resistir àquelas raras faíscas de humanidade que escapavam de Elisa quando ela relaxava.


— É bom saber. — Siena ajeitou a postura, ainda em pé, de frente para a mesa da CEO. — Doutora, posso perguntar uma coisa?


Elisa a olhou, atenta e assentiu positivamente.


— Você quer mesmo me chamar pra almoçar ou isso foi só por culpa? Se foi por culpa não precisa se preocupar. 


Elisa sorriu de canto.


— Quero, sim, mas também não deixa de ser um pedido de desculpas. Você não quer? — Perguntou, olhando-a nos olhos. — Tudo bem se não quiser. 

— Eu quero, sim. — Siena não tinha certeza se deveria. Uma parte dela considerava que aquilo não era exatamente ético de forma geral, mas a vontade de ter mais uma oportunidade de ficar a sós com Elisa falava mais alto, mesmo depois da forma que vinha sendo tratada. Além disso, era a primeira vez que Elisa diminuía as barreiras entre as duas. Ela não conseguia ignorar. 

— Ok. Na hora do almoço, te encontro na sua mesa e vamos juntas. —  Elisa informou, séria, mas com um tom mais suave do que o habitual.

— Combinado. Precisa de mais alguma coisa, Doutora Elisa? —  Siena tinha um olhar curioso, quase eufórico.  

— Não. Bom trabalho, Siena. 

— Obrigada.

Siena deu as costas, sentindo o olhar da CEO acompanhá-la até a porta. Só soltou o ar quando a fechou atrás de si. Então olhou ao redor, tentando se situar outra vez. Era como se seu mundo tivesse acabado de levar uma leve chacoalhada.


                                                           ****

O restaurante escolhido ficava a apenas dois quarteirões da empresa. O ambiente era discreto, elegante e moderno, assim que chegaram, foram conduzidas à mesa e se sentaram uma de frente para a outra.

Elisa parecia tranquila. A expressão já não carregava a rigidez que marcara o início daquela manhã. As duas analisaram o cardápio por alguns instantes antes de fazerem seus pedidos.

O garçom anotou os pedidos assim que elas decidiram o que comeriam. Elisa optou por algo leve, enquanto Siena escolheu um prato mais elaborado. Assim que ele se afastou, deixando-as novamente a sós, a atmosfera entre as duas pareceu se tornar mais íntima.

— Eu realmente estou um pouco surpresa com você. — Siena comentou, buscando o olhar da mais velha. Elisa parou os olhos no rosto de Siena, e ficou alguns segundos em silêncio. 

— Algum motivo em específico?—  Perguntou a nefilim, com um sorriso quase cínico. 

— Devido a forma como vinha me tratando, achei que a última coisa no mundo que você iria querer era almoçar comigo. 

— Não queria ter causado essa impressão. 

— Mas causou. — Siena pontuou. — Não vejo você tratando outras pessoas tão mal. Às vezes parece que é pessoal.

Siena tinha um ponto e Elisa se sentiu rapidamente colocada contra a parede, o que a fez se organizar na cadeira e umedecer os lábios. Todos os movimentos dela também estavam sendo gravados pelos olhos da mais nova. 

— Às vezes tenho estado de mau humor e isso logo se transforma em grosseria gratuita. — Elisa desconversou sobre o real motivo e deu de ombros ao ver Siena com as sobrancelhas franzidas, provavelmente a julgando. — É algo que venho tentando mudar. Você não merece que isso respingue em você. 

— Ninguém merece, né? Poderia chamar a Ariel ou a Marcela pra um almoço, também. — Siena comentava, com um sorriso cínico nos lábios. 

Elisa sorriu com a ousadia, mas ela não estava errada. 

— No momento, o almoço é para a mais lesada da situação. Você. 

Siena sentiu o rosto corar, com a forma que Elisa a encarava. Ficou em silêncio pensando em uma resposta rápida, mas antes que pudesse responder, o garçom chegou trazendo os pratos e pondo na mesa. Agradeceu, aproveitando para experimentar a comida e ganhar mais alguns segundos em silêncio. 

— Espero que goste da comida. É um dos meus lugares favoritos para vir durante a semana. 

— Está ótimo. Você tem bom gosto…— Siena respondeu após a segunda garfada.

A conversa seguiu de forma despretensiosa, guiada por Elisa para caminhos mais seguros e casuais. Começaram a falar sobre o trabalho, comentaram o movimento da cidade, sobre o clima e sobre a comida que haviam pedido. O diálogo fluía com naturalidade, sem pressa, como se ambas estivessem aproveitando aquele raro momento longe do trabalho.

Mas, à medida que os assuntos superficiais se esgotavam, surgiam pequenas pausas entre uma fala e outra. E foi nelas que voltaram a aparecer as perguntas que realmente queriam fazer.

— Você e a Lia estão há quanto tempo juntas? — Siena perguntou, com a voz curiosa.

— Agora, ou antes, da primeira separação? — Elisa ergueu a taça de água com gás e deu um gole. — É uma longa história e já faz um certo tempo. 

— E vocês já se separaram muitas vezes? 

— Algumas. 

— Que bom que voltaram, de qualquer forma. — Siena falou, e por mais que soasse estranho, ela estava sendo sincera. 

— Sim. Acho que toda relação tem seus altos e baixos, não é? 

— É verdade... — Siena percebeu que ela fugiu um pouco da resposta e  a observou por alguns segundos. — Vocês se conheceram trabalhando na Wicca? Tipo uma história de amor chefe e funcionária? 

Elisa pensou um pouco antes de responder. 

— Eu nunca me envolvi com nenhum funcionário Siena, e a gente não se conheceu na Wicca, a Lia veio para Wicca através de uma necessidade específica da época e de um projeto que ela estava desenvolvendo de forma independente. — Novamente Elisa respondeu desviando da resposta que Siena esperava receber. 

— Então vocês já se conheciam antes da Wicca e você convidou ela pra empresa por amizade? — Siena continuava curiosa. 

Siena começava a levar o assunto para um caminho pessoal. 

— Sim, a gente se conhecia antes, mas eu não convidei ela por amizade, convidei pela oportunidade comercial mesmo, a Lia tem doutorado em bioquímica e desenvolveu muitos produtos rentáveis aqui na Wicca quando começamos, foi assim que ela virou sócia.

— Entendi... — Ela absorveu a resposta por alguns segundos e depois inclinou o corpo mais para frente, mantendo o contato visual. — Posso te fazer uma pergunta um pouco mais... íntima?


Elisa assentiu, erguendo uma sobrancelha.


— Como é estar com outra mulher? — A pergunta era capciosa de propósito e a nefilim conseguia perceber isso, ao ver os olhos da mais nova brilhando ao esperar a resposta. 

Elisa não sorriu, mas também não se esquivou do caminho que a conversa seguia. Olhou direto nos olhos de Siena e respondeu com voz firme.


— É intenso, sensível, preciso. Parece que existe mais espaço para observar, para descobrir o tempo da outra pessoa, sem tanta pressa, ao mesmo tempo que pode ser um furacão na sua vida que devasta tudo. Sempre tem uma troca que vai além da atração, na maioria das vezes.  


Siena mordeu o lábio inferior por um instante, disfarçando um arrepio que subia pela espinha ao ouvir a mais velha terminar de falar. Ela estava conhecendo bem a parte do furacão que ameaçava devastar tudo. 


— Parece algo intenso. Meus relacionamentos sempre foram sem graça, decepcionantes. Às vezes penso que eu poderia gostar de ter algo mais emocionante.


Elisa não respondeu de imediato. Seus olhos desceram pelo rosto de Siena, seguindo o contorno dos lábios, o pescoço, o decote discreto. 


— Talvez você gostasse mesmo. É difícil não gostar.

 

— É. Quem sabe numa próxima vida? Nessa eu nasci hétero. — Respondeu com um sorriso largo. 


Elisa cerrou os olhos enquanto a olhava, analisando tudo que ela dizia. Sentiu muita vontade de invadir os pensamentos de Siena, se não fosse o colar verde no pescoço protegendo tudo, ela teria uma luta árdua contra a sua ética de não ler mentes sem autorização ou necessidade. 

— Nunca uma mulher fez você duvidar disso? — Elisa parecia curiosa além da conta. Observava cada reação de Siena com atenção, enquanto o rubor que lhe tomava o rosto despertava ainda mais perguntas. Ela se perguntou por que aquilo a deixava tão corada.


Siena permaneceu em silêncio por alguns instantes, ponderando até onde podia se expor. Dizer que Elisa era justamente a mulher que colocava todas as suas certezas em xeque talvez fosse um passo grande demais. Ainda assim, temia que sua expressão já tivesse revelado mais do que gostaria.

— Na verdade... eu sou muito hétero. — respondeu por fim, numa mentira descarada.

Elisa abriu um sorriso amplo, claramente entretida com a situação. Não era capaz de ler os pensamentos da mais nova, mas acreditava conhecer bem os sinais que ela deixava escapar, ou, pelo menos, gostava de pensar que sim. A ideia, porém, não deveria agradá-la tanto quanto agradava.

Ela pigarreou discretamente, soltou um suspiro quase imperceptível e recostou-se na cadeira.

— Bem... acho que já está quase na hora de voltarmos. Quer pedir uma sobremesa?

Siena assentiu, contendo um sorriso de canto.

— Claro. Um docinho depois do almoço é indispensável.


****

A tarde no escritório prosseguia silenciosa e meticulosa como Elisa gostava. Ela já havia terminado as reuniões do dia, mas uma última pendência ainda precisava de sua atenção, revisar a documentação da patente de uma nova vacina desenvolvida pelo laboratório de pesquisas da Wicca Enterprise.


Ela respirou fundo diante do extenso relatório, sentindo o cansaço se acumular nos ombros. Antes de começar, pegou o celular e ligou para Lia. Esperou apenas dois toques até ouvir a voz rouca e tranquila do outro lado.


— Oi, meu bem. — disse Elisa, com um tom mais suave que o habitual. — Como você está?


— Estou bem. Consegui comer um pouco agora à tarde. Tô aqui no sofá, tentando não pensar demais nas coisas… — Lia respondeu com um suspiro leve.


— Fico mais tranquila em saber. Eu... almocei com a Siena hoje. Achei que devia compensar pelos dias em que fui grossa com ela. — Elisa confessou, como se precisasse.


Lia hesitou por um segundo. O nome de Siena despertava algo incômodo que ela não queria admitir nem para si mesma. Mesmo assim, sua voz manteve o tom sereno.


— Entendi. Foi gentil da sua parte.

— Posso tentar sair mais cedo, se você quiser companhia. — Elisa ofereceu, em um gesto que quebrava um pouco a muralha que vinha tentando erguer entre si e seus próprios desejos.


— Não precisa, Lili. Se eu sentir alguma coisa, te ligo. Termina aí com calma. — Lia sorriu com ternura e respondeu.

— Tá bem. Se cuida, amor.

— Você também.


Elisa desligou, mas ficou olhando para a tela apagada do celular por alguns segundos antes de voltar sua atenção aos papéis.


— Siena! — chamou após algum tempo, através do interfone, com a voz firme. — Preciso da sua ajuda aqui.

— Claro, doutora. — A resposta veio quase de imediato e a assistente logo surgiu à porta com um tablet nas mãos e olhos atentos.


As duas passaram a trabalhar juntas por quase uma hora, alternando termos técnicos, verificações de cláusulas e notas de revisão. Elisa mantinha a postura fria e concentrada, mas em algum momento notou o olhar de Siena distraído e uma tensão mal disfarçada em seu maxilar.

— Siena, está tudo bem?


A jovem hesitou antes de responder, baixando os olhos.


— Amanhã é o julgamento do meu pai. Eu sabia que ia acontecer, mas... me ligaram dizendo que o promotor vai pedir a pena máxima. Eu não fazia ideia que ele podia pegar mais de trinta anos, Elisa… Ele vai passar o resto da vida na cadeia. — ela deu uma risada nervosa, os olhos começando a marejar. — Eu tô tentando manter o foco, mas tá difícil. 


Elisa se levantou, deixando o relatório de lado. Foi até Siena e a encarou em silêncio por um momento antes de, com certa delicadeza, tocá-la no ombro.


— Eu sinto muito. — Fez um carinho leve no ombro, antes de retirar a mão. — Você não precisa fingir que está bem o tempo todo. 


O gesto pegou Siena desprevenida, e o olhar dela tremeu ao encontrar o de Elisa, tão próximo. Sem pensar muito, se permitiu um abraço. Elisa, hesitante por um breve segundo, correspondeu com um toque firme, mas acolhedor. 


— Vai dar certo, Siena. Seja como for, você não está sozinha.


****

Enquanto isso, do outro lado do prédio da Wicca Enterprise, Marcela tomava café ao lado de Ariel e lançava olhares curiosos entre um gole e outro.


— Você viu que a doutora Elisa levou a Siena pra almoçar hoje? — comentou em tom casual. 


Ariel ergueu uma sobrancelha, desconfiada.


— Não... não vi. Por quê? 

— Ah, nada demais, só achei curioso. Ela sempre almoça sozinha ou com a Lia. E agora que falam por aí que as duas não estão mais juntas… sei lá. Achei estranho. — Marcela parecia maldar a situação. 


Ariel desviou o olhar para a janela, incomodada. Ela não queria alimentar especulações, mas o desconforto lhe queimava as entranhas.


— Marcela, elas estão juntas, sim. — revelou, como quem confessa um segredo — E mesmo que não estivessem... a Elisa não se envolveria com alguém do trabalho. O almoço com certeza tem um motivo profissional. 

 

Marcela apenas deu de ombros, com um sorrisinho cético, antes de mudar de assunto.

Fim do capítulo


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