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Palavras: 2359
Acessos: 32   |  Postado em: 05/07/2026

Entre Recuos e Vontades - Parte II

No fim do expediente, Elisa recolheu seus pertences e passou pela recepção. Ao cruzar o estacionamento, avistou Siena ao lado do próprio carro, a porta do motorista aberta e uma expressão frustrada. 

— Problemas? — perguntou quando chegou perto, embora já desconfiasse da resposta.

Siena voltou-se para ela e soltou um suspiro.

— Ele não pega. Acho que a bateria morreu. E agora... só amanhã para conseguir um mecânico.

— Tranca o carro e vem comigo. Eu te dou uma carona.

O convite escapou antes que Elisa pudesse refletir. Por um breve instante, ela mesma pareceu surpresa com a rapidez da própria decisão.


— Tem certeza? Eu posso ir de Uber. — Siena tinha dúvidas se deveria aceitar, mas como sempre, já sabia que aceitaria se ela insistisse.

— Tenho certeza, sim. Eu posso te levar. Vamos? 


Siena assentiu, obedecendo sem contestar e logo estavam no carro, os vidros fechados e a trilha sonora baixa preenchendo o espaço. Por alguns minutos, o silêncio foi confortável, até Siena se virar para ela com cuidado.


— Doutora... posso perguntar uma coisa?

— Depende. — respondeu Elisa, mantendo os olhos na estrada.

— Você disse, no restaurante... que nunca tinha se envolvido com uma funcionária. Mas você e a Lia nunca tiveram nada no trabalho?


Elisa soltou um suspiro baixo, quase um riso contido.

— Havia tensão, sim. Muita. Mas quando ficamos… De verdade, ela já era sócia. Já não respondia a mim. E... aconteceu fora do ambiente da empresa. O que aconteceu entre nós… aconteceu fora da empresa. E demorou, até. A gente se evitou bastante.


— Mas não deixou de ser difícil, né? — Siena disse com suavidade. — Digo… segurar esse tipo de coisa, quando existe… química. Desejo.


Elisa apertou o volante por um instante. Não era comum falar sobre aquilo com ninguém que não fosse a própria Lia. Mas Siena não estava usando aquilo contra ela, estava apenas tentando entender. Ou talvez, só tentando se entender.


— Não sei se essa é a palavra certa. Incomodava. Assustava. Mas... sim, era difícil. — Elisa sorriu, quase sem mostrar os dentes. — Mas eu sou muito boa em colocar barreiras.

— Isso dá pra perceber. — Siena respondeu, com uma leveza fingida. — Você ergue muralhas com um olhar, mas às vezes... eu sinto que você também queria que alguém escalasse.  — Ela hesitou. — Às vezes eu gostaria de escalar. 


Elisa virou-se para ela por um segundo mais longo do que devia. Siena estava sorrindo, mas havia um cansaço em seus olhos, talvez não fosse nem mais uma provocação, apenas uma constatação.


— Você deveria tomar cuidado com o que deseja. — A voz de Elisa saiu baixa, arrastada. — Às vezes, o que existe do outro lado não é o que parece.

E, nesse instante, Siena reconheceu a velha Elisa. Aquela que, ao menor sinal de vulnerabilidade, erguia as muralhas ainda mais alto.

Siena ficou em silêncio por um tempo. O rádio tocava algo instrumental e quase etéreo. A tensão entre elas se acumulava como eletricidade no ar. Mas dessa vez, Siena não avançou. Respirou fundo e, num gesto contido, olhou pela janela.

— Mesmo que não seja o que parece. Eu só tô tentando entender onde eu piso. Até onde eu posso ir. Eu queria entender você... 


A honestidade dela desarmou Elisa. A armadura que usava com tanta facilidade para afasta-la já vinha se rachando há um tempo. E agora, sozinhas, na penumbra do carro, havia algo na vulnerabilidade de Siena que a tocava num lugar ainda sensível e inquietante. 


Elisa demorou alguns segundos para responder.


— Você já entendeu mais do que imagina. — Ela respirou fundo e corrigiu o próprio tom. — Não acho que seja uma boa ideia ir além disso. 

 — Eu já acho uma ótima ideia. — Siena contestou. — Você é incrível e deve ter muita coisa interessante pra descobrir sobre você.


Elisa sorriu de lado, sem perceber. Havia algo na expressão dela naquele instante, uma mistura de respeito, admiração e desejo cuidadosamente contido. 


Siena não se atreveu a mais um comentário naquele momento. Mas o olhar dela, carregava algo que ardia discretamente.


— Obrigada pela carona. — disse quando chegaram à porta do prédio. — E... por hoje. Por me ouvir.


— Cuide-se amanhã, tente ficar firme. — respondeu Elisa. — E se precisar, pode me mandar mensagem. Fora do horário de trabalho, se precisar.


— Tá bem, obrigada! Bom descanso. — Siena sorriu, acenando antes de descer.


Elisa a observou entrar no edifício, depois recostou-se no banco por um instante. O carro ficou em silêncio, mas sua mente não.


Ela não permitiria que aquilo crescesse, mas já não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.


****

O relógio no painel do carro marcava 20h42 quando Elisa estacionou na garagem do sobrado. O caminho até em casa tinha sido silencioso, mas seus pensamentos não. Ainda sentia o gosto das palavras ditas por Siena no carro, sua postura confiante, as perguntas não feitas, as sugestões sutis. Tudo isso misturava-se com a lembrança do toque leve e do cheiro da Lia, o lar que a esperava.


Assim que abriu a porta, foi recebida por um aroma agridoce que imediatamente confundiu seus sentidos. A luz da cozinha estava acesa, e ali estava Lia, de pé em frente ao balcão, vestindo apenas uma camiseta larga com estampa do Batman, equilibrando um prato na mão e regando com leite condensado uma carne grelhada.


Elisa parou na porta e franziu o cenho, descrente.


— Eu ia perguntar se você está bem, mas isso aí que você tá comendo não é coisa de quem tá bem não. — disse com a voz carregada de sarcasmo e afeto.


Lia ergueu os olhos e sorriu.


— É muito mais gostoso do que parece, você deveria experimentar. — ofereceu o prato com naturalidade, como se fosse uma iguaria.

— Credo, Lia. — Elisa riu, caminhando até ela e beijando sua têmpora. — Eu vim pra casa pensando no que ia preparar pra você ter uma refeição leve, mas já que você tá se deliciando com essa… iguaria, vou tomar um banho primeiro.


Lia franziu o nariz ao olhar de novo para o prato.


— De repente não está mais tão gostoso assim. — disse, enjoada, empurrando o prato para o lado.

— Posso descartar o restante? — Elisa ofereceu, pegando o prato. Lia apenas assentiu com a cabeça, fazendo uma careta.


Elisa levou o prato até a lixeira, despejou o conteúdo sem cerimônia e o colocou na lava-louças.


— Fiz janta pra você também. — Lia disse com um sorriso.

— Espero que sem leite condensado, por favor. — brincou Elisa, usando aquela voz mais leve e carinhosa que só saía com Lia.

— Com certeza, fiz risoto com queijo e brócolis e carne grelhada, sem açúcar. — respondeu com orgulho.

— Perfeito. Muito obrigada! Vou tomar um banho e já venho comer. — Elisa falou, inclinando-se para um beijinho rápido.


Subiu as escadas, tirando os sapatos pelo caminho. O banho foi breve, mas trouxe alívio. Vestiu uma camiseta preta lisa, uma calça moletom cinza e desceu. Lia estava sentada à mesa, com um copo de água nas mãos, observando os movimentos da noiva com um sorriso manso.


— Como foi no trabalho? — perguntou, despretensiosa. 

— Cansativo. A vacina nova finalmente ficou pronta, mas estamos com dificuldades para reivindicar a patente.

— O importante é que vai dar tudo certo, essa vacina vai salvar vidas e você vai continuar fazendo muito dinheiro pra gente. — Lia brincou, piscando.

— Era mais fácil quando você também estava lá. A Ariel tem sido uma boa substituta, mas…

— Deixa de coisa. Sem mim lá não tem ninguém pra te contrariar. Você deve estar nas nuvens! — Lia soltou uma risada leve, provocativa.

— Na verdade, tem, sim, a Siena. E… estou cogitando desligar ela ou transferir para outro setor. Seria muito "carrasco" da minha parte? — Elisa perguntou com aspas nos dedos, tentando parecer casual, mas com a cabeça dando um nó de culpa e receio.


Lia engoliu o riso, mas seu olhar ficou mais analítico.


— Mas ela te contraria como?


— Não é exatamente isso… mas ela é cheia de opiniões e palpites, às vezes. — Procurava motivos para justificar. 


Lia apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se um pouco à frente, olhos fixos nos de Elisa.


— Ok. Então você só precisa responder algumas perguntas pra decidir. Um, as sugestões dela ferem sua integridade ou a da empresa? Dois, ela passa por cima do que você pede? Três isso atrapalha o trabalho? Ou quatro… ela é só uma mulher jovem, que está adquirindo experiência, aprendendo, e você está sem paciência pra lidar com isso, e se sente ameaçada por ouvir sugestões que fazem sentido de uma garota de vinte e poucos anos?


Elisa ficou em silêncio por um momento, encarando a parceira.


— Nossa, são muitos pontos. — ironizou, cruzando os braços.

— Acho que você já sabe a resposta, de qualquer forma… — Lia mordeu o lábio e inclinou a cabeça — Mas sua atitude parece… contraditória. Ontem você elogiou ela. Hoje levou a menina pra almoçar, o que já é raro vindo de você, e agora quer afastar ela, a ponto de demiti-la? Tá acontecendo alguma coisa aqui que eu não percebi?


O ciúme era perspicaz. Sutil, mas presente. Elisa não deixou de perceber. 


— Concordo, ela é uma ótima assistente. Tem me ajudado muito. Mas você sabe como eu sou no trabalho. Gosto de formalidade, distância. Ela é o oposto. — Fez uma pausa, respirando. — E sobre o almoço, ‘mocinha’… — disse com ênfase na palavra — ...eu só levei porque percebi que tenho sido muito fria e dura com ela. Ela tá passando por um momento tenso com o pai, e aparentemente, também com a mãe. E eu não tinha levado isso em consideração, até agora. 

— Hm. Tá sabendo bastante da vida pessoal dela, né? — Lia alfinetou, mas o tom era calmo.

— Ela fala bastante, Lia.

— Inclusive, vi no jornal sobre o pai dela. Se condenado, pode pegar até 36 anos.

— Pois é… ela comentou. Infelizmente, ações têm consequências. Essas são as dele. — Elisa respondeu com firmeza.


Lia olhou o celular e riu de uma mensagem. Elisa observou, atenta.


— Era a Cristinne. Me mandou uma figurinha engraçada.

— Interessante como você acabou de conhecer essa mulher e vocês já estão tão próximas assim. — Elisa comentou, recolhendo seu prato e levando até a pia.

— Né?! A gente se conectou rápido. Parece que nos conhecemos há anos.


Elisa voltou para a mesa e se sentou novamente, séria.


— Está acontecendo algo além de amizade entre vocês? Algo que eu deva me preocupar?


Lia arregalou levemente os olhos, surpresa.


— O quê? Não. É só que… é mais fácil conversar com a Cristinne…

— Mais fácil do que conversar comigo? — Elisa cortou, com a voz mais baixa.

— Não, Elisa. Mais fácil porque ela já passou pelo que eu tô passando. E em breve, eu vou passar pelo que ela está passando agora. É mais fácil falar com alguém que também está grávida. Eu não preciso explicar tudo. Entende?


Elisa suspirou e assentiu, percebendo que estava passando do ponto. 


— Entendo, sim… mas às vezes eu sinto ciúmes de você. — falou, fazendo bico como uma criança contrariada.

— Eu também sinto ciúmes de você. Mas somos adultas. E, até onde eu sei, fiéis nessa relação monogâmica. — Lia respondeu com firmeza e um sorriso debochado.

— Até onde você sabe, é? Engraçadinha… — Elisa replicou.

Lia riu, mas logo Elisa se recompôs.


— Lia, quero falar sério agora. Você não acha que já adiamos demais a ultrassom pra saber o sex* do bebê?

— Sim… Eu ia falar com você sobre isso mesmo.

— Amanhã eu posso deixar a manhã livre. Vamos?

— Combinado. — Lia sorriu, pensativa. — E… você prefere menino ou menina?

— Não tenho preferência. O que vier será bem-vindo. Você tem preferência?

— Ah, claro. Você tem uma genética excelente pra meninos, mas eu queria uma menina.

— Tenho mesmo, né? — Elisa falou, convencida. — Mas, de qualquer forma… espero que venha parecido com você.


Lia sorriu.


— Inclusive… é até bom a gente saber logo. Sexta agendei uma consultoria com uma arquiteta. Fica mais fácil pra escolhermos a paleta de cores.

— Na sexta? Espero estar livre.

— Você vai estar. Eu verifiquei sua agenda. Tem três horas livres à tarde. Já marquei como compromisso pessoal importante, das 14h às 15h30. Sua assistente deve te notificar amanhã.


Elisa a encarou, surpresa.


— Você ainda lembra como é trabalhar comigo.

— Lembro. Mas agora tenho outro foco.

Ela levou a mão até a barriga, acariciando com carinho. Elisa se inclinou e beijou ali, demoradamente.


A noite seguiu tranquila, conversaram, riram, Lia explicou com entusiasmo a nova saga de quadrinhos que estava lendo, contou sobre os action figures raros que comprou e defendeu com paixão porque aquilo não eram “só bonecos”. Elisa escutava, encantada com o brilho no olhar da companheira.


Mais tarde, na penumbra do quarto, as palavras cessaram. Beijos demorados tomaram o espaço da fala. Elisa percorreu o corpo de Lia com familiaridade e desejo, como se quisesse memorizar cada curva alterada pela gravidez. As mãos passeavam com cuidado e firmeza, enquanto os suspiros se misturavam aos lençois. Lia a puxou para mais perto, o calor de seus corpos fundindo-se na intimidade compartilhada.


Fizeram amor devagar, com entrega, silêncio e intensidade. Os olhos se encontravam entre os toques, promessas mudas sendo feitas com a ponta dos dedos, com a boca úmida, com os quadris que se ajustavam em harmonia.


Quando a exaustão enfim venceu o ímpeto dos corpos, nenhuma das duas fez menção de se afastar. Elisa repousou o rosto na curva do pescoço de Lia. Lia encontrou a mão dela sob o lençol e entrelaçou seus dedos, como se aquele gesto simples bastasse para mantê-las ancoradas uma à outra.

 

Adormeceram assim, deixando que o sono adiasse todas as perguntas e preocupações que os dias seguintes inevitavelmente trariam.

Fim do capítulo


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