Laços Não Rompidos
Na manhã de terça-feira, o despertador tocou no horário de sempre, mas especialmente aquele dia, aquilo havia feito com que Ariel acordasse com um humor ranzinza. Ela amava o seu trabalho, mas aquele dia era diferente. O desejo de ficar em casa era enorme, enraizado na falta de descanso, nas conversas não ditas que perturbavam sua mente e nos sentimentos mal resolvidos que pairavam sobre sua cabeça.
Apesar de o som do despertador ser irritante, Ariel tentou se permitir um momento a mais sob os lençóis enquanto ignorava o despertador que tocava insistentemente. Mas não demorou muito para que ela se obrigasse a sair da cama, tendo em mente que a rotina não a perdoaria. Na noite anterior, Ana havia saído, e Ariel sabia que ela estava, provavelmente, com a Lara e a Zina, principalmente devido à mensagem que havia enviado na noite anterior, com uma pontinha de esperança: "Oi, Ana, você volta hoje? Queria falar com você." Mas a resposta nunca veio. Isso a incomodava mais do que ela gostaria de admitir.
Além disso, havia Ísis. Desde a sexta-feira, quando passaram a noite juntas, se entregando uma à outra de de todas as formas, Ísis parecia estar distante, atolada em compromissos com o Coven Astraea. Sempre ocupada. Ariel sentia falta de suas conversas, da proximidade, da sensação de segurança que a presença de Ísis lhe proporcionava. Mas naquela terça-feira, parecia que as duas estavam em mundos separados. O peso emocional era ainda mais forte devido à insônia de Ariel. As noites haviam sido agitadas, e vez ou outra ela acordava assustada, com a sensação de que Eduarda ainda estava em alguma das gavetas do seu apartamento, assombrando seu espaço, sua mente.
O humor de Ariel estava tão baixo naquela manhã que ela nem sequer se deu ao trabalho de fazer seu tradicional baseado matinal. Em vez disso, ela se levantou da cama com o corpo pesado, pegou a primeira calça jeans que encontrou e uma camisa xadrez de mangas longas, o que não era exatamente sua escolha ideal, mas o suficiente para enfrentar mais um dia de trabalho.
Ao chegar na Wicca Enterprise, o ambiente branco e impecável parecia mais opressor do que nunca. Ela cumprimentou Marcela com um sorriso contido e, seguiu para a própria sala e ao entrar, permaneceu alguns segundos parada, observando a própria mesa, antes de seguir e fazer o que precisava. Verificou a agenda e viu que estaria livre no primeiro horário e isso lhe fez soltar um longo suspiro de satisfação.
Aproveitando o tempo livre, decidiu buscar um café. Caminhou lentamente pelo corredor até chegar a maquina de café, e ficou segurando o copo descartável enquanto a máquina despejava o líquido quente. O aroma intenso normalmente lhe trazia algum conforto, mas naquele dia parecia incapaz de amenizar a inquietação que carregava desde cedo. Encostou-se ao balcão e, quase por impulso, pegou o celular.
Sem conseguir conter a vontade, aproveitou o momento para dar uma olhada nas redes sociais de Zina e de Lara. Abriu primeiro o perfil de Zina. Percorreu cada publicação recente, ampliou fotografias, analisou comentários e assistiu a todos os vídeos temporários, procurando ao fundo um rosto conhecido, uma sombra, um reflexo, qualquer detalhe que denunciasse a presença de Ana.
Quando não encontrou nada, passou para o perfil de Lara e repetiu o mesmo ritual. Quanto mais stalkeava, maior era a sensação de vazio e frustração.
Guardou o celular no bolso da calça com certa impaciência, terminou o café já um pouco morno e voltou para sua sala. Não podia desperdiçar tempo sofrendo por alguem que não se importava com ela, mas se sentia trouxa pois não conseguia deixar de se importar. Tentou jogar os pensamentos pra um lugar afastado da mente e focou no que precisava fazer. Iria encontrar Elisa para alinhar os detalhes das atividades do dia e manter tudo funcionando como se nada estivesse acontecendo.
Assim que chegou em frente ao escritório de Elisa, percebeu que Siena estava sentada na cadeira da própria mesa, os cabelos ruivos caindo em mexas sobre o rosto, com uma expressão visivelmente pensativa, organizando lápis, empilhando papéis e vez ou outra batucava a ponta dos dedos sobre a mesa, como se tentasse encontrar uma forma de passar o tempo. Ao notar sua presença, ergueu os olhos por um instante, e deu um sorrisso.
— Bom dia, dona Ariel. Precisa de alguma coisa? — perguntou Siena, levantando-se imediatamente. A voz era suave, carregada de uma simpatia discreta, quase ensaiada.
Ariel arqueou uma sobrancelha diante da formalidade, mas não se incomodou. Provavelmente Elisa insistia naquele tratamento, e Siena já o repetia por puro hábito. Ainda assim, o "dona" lhe arrancou um sorriso divertido.
— Bom dia, dona Siena. Pode me chamar só de Ariel, se não se importar. Acho que não precisamos de tanta formalidade. — Piscou de forma amistosa antes de completar: — Na verdade, eu vim falar com a Elisa. Tínhamos alguns assuntos para alinhar. Ela ainda não chegou?
Um sorriso tímido surgiu no rosto de Siena.
— Como preferir... Ariel. — Ela experimentou o nome com certa hesitação, mas logo retomou a postura profissional. — A Elisa vai se ausentar durante toda a manhã. Surgiu um compromisso pessoal.
Por um breve instante, a curiosidade pareceu atravessar seu olhar, mas desapareceu tão rápido quanto surgiu. Siena conhecia Ariel o suficiente para saber que ela não apreciava especulações sobre a vida particular da chefe.
— Então você deve ter ficado sobrecarregada. — Ariel apoiou as mãos na mesa, inclinando-se um pouco.
Siena soltou uma breve risada.
— Eu não. Mas você, provavelmente, vai. Antes de sair, Elisa pediu que todas as demandas que não pudessem ser adiadas fossem repassadas para você. Já organizei tudo e encaminhei o material para a Marcela. Ela deve estar esperando você voltar à sala para passar os detalhes.
Ariel passou os dedos pelos cabelos soltos, afastando algumas mechas do rosto.
— Pelo visto, meu primeiro horário livre existia justamente para me preparar para o resto do dia.
— Não se preocupe. — Siena sorriu, tranquilizadora. — Eu deixei todas as pautas organizadas e acrescentei alguns comentários para facilitar. Assim você não perde tempo tentando entender o contexto de cada uma.
Ariel sentiu a tensão dos ombros diminuir um pouco.
— Obrigada, Siena. Você é um anjo.
Siena abaixou os olhos por um instante, visivelmente sem graça.
— Imagina... Eu só gosto de facilitar o trabalho dos meus colegas quando posso.
— E é exatamente por isso que eu disse que você é um anjo. Nem todo mundo tem esse cuidado.
Um discreto rubor coloriu o rosto de Siena, que desviou o olhar para os papéis sobre a mesa antes de recuperar a compostura.
— Vou voltar às minhas... ou melhor, vou iniciar as minhas novas obrigações. Se precisar de qualquer coisa, estarei na minha sala.
— Combinado. E, se você precisar de algo também, pode contar comigo. — Siena assentiu e respondeu, com um sorriso gentil.
Ariel retribuiu o gesto e permaneceu alguns segundos observando-a antes de se afastar. Havia algo diferente nela. Sentia uma inquietação que escapava apenas nos intervalos do silêncio e uma tristeza cuidadosamente disfarçada, mas que escapavam pelos olhos. Não tinha intimidade suficiente para lhe perguntar sobre, mas sentia que tinha algo incomodando Siena.
Sem coragem para perguntar sobre, Ariel seguiu pelo corredor até sua sala. Assim que fechou a porta atrás de si, respirou fundo e voltou a atenção para a pilha de responsabilidades que, dali em diante, também seriam suas.
O restante da manhã se arrastou entre reuniões, aprovações de última hora e conversas rápidas pelos corredores da Wicca Enterprise. Ariel participava de tudo no automático, respondendo perguntas, tomando decisões e distribuindo tarefas, mas sua atenção permanecia em outro lugar.
O celular continuava silencioso e a ausência de qualquer mensagem de Ana se transformava, a cada minuto, em um peso difícil de disfarçar.
Foi já no meio da manhã que o aparelho vibrou sobre a mesa. Ariel lançou um olhar para a tela e reconheceu o nome antes de atender. Um alívio breve atravessou seu peito, dissipando-se no instante seguinte.
— Oi, Ariel. Vi que você me ligou algumas vezes. Aconteceu alguma coisa? — perguntou Ana. Sua voz continuava doce, mas havia nela uma aspereza sutil.
— Eu é que queria saber se aconteceu alguma coisa com você. Fiquei preocupada. — Após as palavras de Ariel, instalou-se um breve silêncio do outro lado da linha.
— Desculpa. Eu fiquei longe do celular a manhã inteira. Estou ocupada, resolvendo algumas coisas com as Demunnus. — A explicação veio rápida demais.
Ariel fechou os olhos por um instante. Havia algo na maneira como Ana pronunciava cada palavra que soava cuidadosamente calculado.
— E essas "algumas coisas" incluem a Zina e a Lara? — A pergunta escapou antes que ela pudesse suavizar o tom.
Houve outra pausa do outro lado da linha.
— Elas fazem parte do Coven, então... Mas eu não vou discutir isso com você agora. Estou realmente ocupada. Não precisa se preocupar comigo. Agora eu preciso desligar.
Antes que Ariel encontrasse outra pergunta, ou qualquer argumento capaz de fazê-la permanecer na linha, a chamada foi encerrada.
Por alguns segundos, Ariel permaneceu imóvel, o telefone ainda encostado ao ouvido. A sala parecia subitamente silenciosa.
Ela pousou o celular devagar sobre a mesa e passou a mão pelo rosto, tentando organizar os próprios pensamentos, mas tudo voltava ao mesmo lugar. Zina e Lara.
Dois nomes suficientes para reabrir feridas que ainda não haviam cicatrizado por completo.
Não era exatamente ciúme, um dia pode ter sido, mas hoje era somente a lembrança e a raiva do estrago que aquelas duas haviam deixado para trás. Ariel conhecia bem o encanto que exerciam, a facilidade com que atraíam as pessoas para perto e, depois, a forma indiferente como as descartavam quando deixavam de ser interessantes. Ela própria carregava marcas daquele passado. Ana também. Por isso era tão dificil aceitar e entender como Ana se colocava naquele lugar novamente, mesmo com tudo que elas estavam começando a viver.
A ideia de Ana voltar a orbitar ao redor delas fazia seu estômago se contrair. Era como assistir, impotente, a alguém caminhar novamente para um precipício cuja queda ela conhecia de cor.
Ariel recostou-se na cadeira e deixou o olhar repousar sobre o celular. As últimas palavras de Ana ainda ecoavam em sua mente. "Não precisa se preocupar comigo." Se fosse tão simples, ela já teria parado de se preocupar havia muito tempo.
****
Lia acordou antes mesmo que o despertador tocasse, tomada por uma ansiedade sutil e constante. Havia algo de diferente naquela manhã. Um instinto inquieto no fundo do peito que não a deixava permanecer deitada. Levantou-se com cuidado para não acordar Elisa, que dormia profundamente, os cabelos escuros e longos espalhados pelo travesseiro, e o rosto sereno, como se não tivesse nada no mundo que a procupasse.
Tomou banho devagar, deixando a água quente escorrer pelas costas numa tentativa de acalmar o corpo. Depois, enrolada em uma toalha, sentou-se à mesa com seu celular e uma xícara de café. Havia prometido a si mesma que passaria longe dos e-mails naquele início de dia, afinal, aquela manhã era para ser leve. Mas o impulso venceu. Entre newsletters automáticas, mensagens de Atualizações de desempenho da Wicca e propagandas de lojas online, havia um e-mail do seu advogado. O assunto: Atualização de Registros Vinculados – Solicitação de Dados Complementares.
Lia abriu com desinteresse, mas seu olhar ficou imediatamente preso em um trecho específico. O advogado mencionava a ausência de informações referentes aos bens em nome da esposa de Lia, Olitse Ernandes, e perguntava se poderia entrar em contato direto com ela.
Lia franziu a testa. Um calafrio de susto percorreu sua espinha.
Esposa?
O coração da fênix acelerou, não com emoção, mas com incredulidade. Ela havia solicitado o divórcio assim que foi expulsa do Coven por Olitse e enviada para o mundo-prisão. Aquilo era passado, enterrado, como tantas outras situações.
Sem pensar duas vezes, ligou imediatamente para o advogado. Ele, solícito, prometeu verificar a situação e retornar por e-mail ainda naquela manhã. O retorno veio menos de vinte minutos depois. Lia leu cada linha com certa pressa. A resposta confirmava que o processo de divórcio sequer havia sido levado adiante. O advogado responsável à época abandonou o caso ao saber da condenação de Lia, e os trâmites ficaram suspensos desde então. Como se não bastasse, agora havia uma série de complicações legais, o casamento havia sido feito em outro país, cujas novas leis dificultavam a atuação de advogados estrangeiros, especialmente em casos envolvendo bens adquiridos após a união. O atual advogado, por limitações jurídicas, não poderia atuar como mediador. A melhor alternativa? Que Olitse comparecesse pessoalmente para assinar o acordo.
Lia soltou o celular sobre a mesa e passou as mãos no rosto.
Não estava pronta para reviver nada disso, nem para dizer aquilo a Elisa. Se não tivesse a intenção real de casar com ela, sinceramente, deixaria o assunto esquecido.
Enquanto ensaiava mentalmente como abordar o assunto, ouviu passos no andar de cima. Elisa descia lentamente, ainda de pijama, a expressão sonolenta. Tinha a beleza serena de quem não fazia ideia do que a aguardava.
— Bom dia, amor. — Lia disse, forçando um entusiasmo que não sentia. — Queria falar com você sobre o nosso casamento.
A frase escapou antes que pudesse pensar melhor e Lia franziu o cenho, sem entender por que havia começado dessa forma.
Elisa, no entanto, abriu um sorriso surpreso, iluminando o rosto.
— Hmm, já quer escolher a data? — perguntou com um brilho nos olhos, ainda rindo.
Lia respirou fundo e desceu o tom, tentando corrigir o rumo da conversa.
— Não é isso... é que surgiu um probleminha. — Se aproximou e deu um beijinho rápido na bochecha da nefilim.
Elisa inclinou a cabeça, desconfiada.
— Você desistiu ou quer casar com outra pessoa? — disse com um tom de provocação, mas havia algo ácido por baixo da brincadeira.
— Tenho que me divorciar. — Lia respondeu, sem jeito.
O sorriso de Elisa se desfez no mesmo instante. Os olhos escureceram em profunda confusão.
— Se divorciar? Como assim? — Ela piscou, algumas vezes. — Quer dizer que eu estou com a esposa de outra pessoa? — retrucou, a voz firme e baixa.
— Não, Elisa! Bom, juridicamente, sim! Mas só isso. Foi só um mal-entendido. — Lia tentou manter um tom tranquilo. — Eu realmente achava que já estava divorciada.
— Mas se você é casada, Liana, você é a esposa de alguém... e esse alguém não sou eu. Isso faz de mim o quê? Se fossemos casar agora não poderíamos! — Elisa cruzou os braços, a expressão dura. — Como isso aconteceu?
— Eu nem sabia que ainda estava casada. É só uma questão legal. A Olitse me traiu, me abandonou, me expulsou e pediu minha condenação. E não tivemos nenhum contato depois disso, eu nunca imaginei que o processo tivesse sido engavetado. — A voz de Lia soava firme, mas suave.
Elisa olhou para ela por longos segundos, como se quisesse encontrar uma mentira escondida na sinceridade de Lia, mas não encontrou. Suspirou e recuou um passo.
— Desculpa, Lia. Eu sei que não foi intencional, não quis dar a entender isso. Mas... você acha que ela vai dificultar? A assinatura do divórcio?
— Espero que não. — Lia tentou sorrir. — Mas não se preocupa, eu vou resolver isso o mais rápido possível. Não quero te deixar mais tempo solta por aí, sem ser oficialmente a minha esposa.
Elisa arqueou uma sobrancelha, o humor voltando aos poucos.
— Não se preocupe. Você não corre nenhum perigo. Essa vaga já é sua.
As duas se abraçaram e ficaram um tempo assim, mais firmes do que antes. Lia sabia que, apesar do desconforto inicial, Elisa confiava nela e aquilo não abalaria a relação das duas.
****
O trajeto até a clínica transcorreu em um silêncio confortável. Elisa conduzia o carro com uma das mãos no volante, enquanto a outra permanecia entrelaçada aos dedos de Lia. Do lado de fora, o céu carregado de nuvens abafava as cores da cidade, como se a manhã inteira respirasse mais devagar.
Chegaram com alguns minutos de antecedência. A recepcionista as recebeu com cordialidade e logo as conduziu ao consultório.
A obstetra, uma mulher de voz tranquila e sorriso acolhedor, iniciou a consulta com as perguntas habituais: alimentação, qualidade do sono, episódios de tontura, alterações de humor, dores.
Lia respondeu uma a uma com serenidade, omitindo apenas o turbilhão que havia atravessado naquela manhã.
Ao terminar as anotações, a médica sorriu.
— Vamos fazer a ultrassonografia? Você vai sentir um gel um pouquinho frio. Podem acompanhar tudo por esta tela.
Lia assentiu. Deitou-se na maca e, quase sem perceber, apertou a mão de Elisa. A médica espalhou o gel sobre sua barriga e deslizou cuidadosamente o transdutor.
A imagem começou a surgir no monitor. Primeiro, manchas acinzentadas, depois, contornos, e pequenos movimentos.
— Vocês querem saber o sex*?
Lia e Elisa trocaram um olhar rápido.
— Sim. — responderam juntas.
A médica sorriu antes de voltar a atenção para a tela.
— O bebê está aqui... um pouquinho virado...
Enquanto explicava cada detalhe, moveu o aparelho alguns centímetros e seu semblante mudou discretamente.
Ela franziu a testa por um instante, ajustou a imagem e sorriu outra vez.
— Ah...
Elisa prendeu a respiração.
— Temos um... e dois bebês.
O consultório mergulhou em silêncio.
— Os bebês estão em placentas separadas. Não é o cenário mais comum, mas acontece.
Lia piscou repetidas vezes, incapaz de desviar os olhos da tela. Elisa parecia prender a respiração.
— Parabéns. Vocês vão ter duas meninas. —A médica apontou delicadamente para o monitor. — Conseguem ver? Esta é uma... e esta, a outra.
As duas permaneceram imóveis e o sorriso da obstetra tornou-se ainda mais gentil.
— Vou dar um tempinho para vocês assimilarem isso e já volto, tá bom? — Ela deixou algumas folhas de papel ao lado da maca e saiu discretamente.
O silêncio permaneceu, mas Elisa foi a primeira a se mover. Pegou o papel-toalha e começou a limpar o gel da barriga de Lia com delicadeza, como se qualquer gesto brusco pudesse romper aquele instante.
— Você tá bem? — Elisa perguntou, baixinho, olhando preocupada para o rosto da bruxa que estava franzido.
Lia não respondeu de imediato.
Continuou olhando para a tela vazia. Então levantou a mão e deu um leve tapa no braço de Elisa.
— Ai! — Elisa levou a mão ao local, teatralmente ofendida. — O que foi isso?
— Você me engravidou de dois bebês! — A indignação durou menos de um segundo antes que um sorriso insistente ameaçasse escapar. — Eu nem sei o que pensar!
Elisa riu, abaixando a cabeça.
— A culpa não é só minha. Você é que resolveu ser extremamente fértil.
Lia soltou uma risada incrédula.
— Duas… — A palavra saiu quase num sussurro. — É... isso explica minhas vitaminas baixas. Tinha duas pessoinhas sugando toda a minha energia.
— Parabéns, meu amor. — Elisa segurou seu rosto entre as mãos e beijou-a demoradamente na testa. — Elas vão ter a melhor mãe que poderiam desejar.
Os olhos de Lia marejaram.
— Parabéns para você também. — Encostou a testa na dela. — E... obrigada.
Pouco depois, a obstetra retornou, explicou que o segundo bebê não havia sido identificado antes por estar em uma posição desfavorável nas imagens anteriores, reforçou a importância de um novo exame dentro de duas semanas, e encerrou a consulta com orientações adicionais.
Do lado de fora da clínica, enquanto Elisa buscava o carro, Lia permaneceu sentada em um dos bancos da recepção externa.
Pegou o celular e abriu a conversa com Ariel. "Ariel... eu estou grávida de duas meninas." Não conseguiu escrever mais nada além daquilo. A mensagem saiu direta e sem rodeios, era tudo que conseguia naquele momento.
Ainda antes de Elisa voltar, chegou um audio de Ariel, que ela colocou para reproduzir imediatamente.
— AAAAAAAAAA! Duas menininhas? Ah, meu deus! Tô muito feliz! Não acredito que vamos ter duas menininhas pra mimar e amar. Ai, Lia, vou passar aí hoje à noite, já aceitem: sou madrinha! Das duas, viu?
Lia ouviu todo o audio sorrindo, a amiga parecia eufórica com a notícia. Era impossível ouvir Ariel sem imaginar seus olhos brilhando do outro lado da cidade.
Mandou também uma mensagem para Cristinne, compartilhando mais uma coincidência entre elas. Não soube explicar por quê, mas sentia necessidade de repartir aquela alegria com todas as pessoas que ocupavam um lugar em sua vida.
Quando Elisa estacionou diante da entrada da clínica, Lia guardou o celular e entrou no carro ainda atordoada.
A realidade parecia grande demais para caber dentro de uma única manhã.
****
Ao estacionar na garagem do sobrado, Elisa permaneceu alguns segundos dentro do carro antes de pegar o telefone.
Precisava reorganizar o restante do dia. Siena atendeu no segundo toque.
— Siena, bom dia. Pode remarcar o que for possível da minha agenda da tarde para amanhã, e o que não for... repassa novamente para Ariel, por favor. Tive uma situação pessoal importante. — A voz de Elisa era calma, mas apressada.
— Claro, Dra. Elisa. Está tudo bem? — Siena perguntou, preocupada.
— Está sim. Melhor do que eu esperava, na verdade. — Elisa respondeu, com um sorriso na voz. — Só vou realmente precisar me ausentar por mais tempo.
— Fico feliz em saber! Mais alguma coisa, Dra. Elisa? — Siena queria perguntar mais, porém se contentou em saber que estava tudo bem.
— No momento, é somente isso. Obrigada, Siena. Tenha um bom dia. — Falou com tranquilidade.
— Obrigada. Tenha um bom dia também. — Siena respondeu e encerrou a ligação.
Elisa permaneceu alguns instantes olhando para a tela apagada do celular. Sentia vontade de contar a novidade. Mas sabia, porém, que bastaria uma única informação para abrir espaço para perguntas e questionamentos, vindos de Siena e dela própria, que, naquele momento, preferia adiar ou quem sabe evitar completamente, se conseguisse.
O resto da manhã passou com leveza. Almoçaram em um restaurante pequeno, cercado por plantas e protegido da garoa por um amplo toldo de vidro. Depois, foram ao cinema ver uma comédia boba que arrancou risos verdadeiros de Lia.
Na volta para casa, a conversa girou em torno de um único assunto.
— Eu gosto de Ravena. — Lia comentou, séria.
Elisa fez uma careta.
— Você gosta de tudo que vem dos quadrinhos.
— E Wanda?
— Caótica demais.
— Jean?
Elisa soltou uma risada.
— Você nem tenta esconder suas referências.
— Você é difícil de agradar...
— Ou talvez suas referências sejam suspeitas. — Elisa rebateu, divertida.
— Então sugere um você. — Lia inquiriu, virando o rosto para observar a expressão séria de Elisa, que tinha o olhar fixo na estrada.
— Eu não sei. Ainda tenho que pensar. — Elisa respondeu dando de ombros. — Mas vamos pensar muito bem nesse assunto, promete?
— Isso tudo é medo de que eu registre as meninas com os nomes de personagem que eu gosto? — Lia a provocava, e Elisa bufou, sorrindo.
— Você acertou em cheio no motivo! — A nefilim devolveu a provocação.
Lia riu alto e o som encheu o carro de uma leveza que parecia não existir havia dias.
A conversa continuou pelo restante do caminho, entre novas sugestões absurdas, brincadeiras e promessas de que voltariam ao assunto outras dezenas de vezes.
No entanto, sempre que o silêncio voltava a ocupar o espaço entre elas, a leveza daquele dia cedia lugar ao peso da realidade. Agora havia dois pequenos corações batendo dentro dela. A felicidade continuava ali, viva, mas caminhava lado a lado com um medo novo, profundo e impossível de ignorar. E se não fosse suficiente? E se, quando chegasse a hora, não conseguisse ser a mãe de que aquelas meninas precisariam?
Havia também as ameaças que permaneciam à espreita, silenciosas apenas por enquanto. Inimigos que pareciam adormecidos, mas que ela sabia que não haviam desaparecido. O pensamento fez seu peito apertar, mas sabia que faria o impossível para que as sombras do seu passado jamais as alcançassem.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: