Capítulo 32

Capitulo 32 - O Mundo na Palma da Mão

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 32 – O Mundo na Palma da Mão

As sacolas agora eram outras.

Mais pesadas e mais volumosas.

Entre elas estavam dois sapatos sociais, duas botas, três sandálias, três tênis esportivos, um tênis de cano alto, um par de chinelos simples e um par fofinho pra usar com pijama.

Rebeca olhava tudo.

Depois olhava pra Miriam.

— Como a gente vai carregar isso tudo?

O vendedor se aproximou.

— Eu ajudo vocês.

Foram para o estacionamento.

Porta-malas aberto.

As caixas e as sacolas foram guardadas.

Uma a uma.

Até preencher quase tudo.

Rebeca ainda estava tentando entender... como aquilo tudo era… dela

Miriam fechou o porta-malas.

— Ótimo.

Bateu as mãos de leve.

— Agora o mais importante.

Rebeca pensou em: comida, descanso e silêncio.

— Almoço?

Miriam sorriu.

— Seu celular.

Rebeca piscou em surpresa genuína.

— …meu celular?

Miriam já começava a andar.

— Vamos.

Rebeca a acompanhou.

Mais uma vez… de mãos dadas.

***

 

Luzes brancas.

Telas por todos os lados.

Rebeca entrou mais devagar dessa vez, pois aprendeu que, com Miriam, entrar em algum lugar significava mudança.

Miriam foi direta.

— Vamos resolver isso rápido.

Falou com o vendedor.

Escolheu.

Sem hesitar.

E em poucos minutos...

Rebeca havia ganhado um celular, um headphone, um tablet...

A menina tentava acompanhar, sem entender completamente.

— Pra quê tudo isso?

— Pra você.

Miriam entregou o tablet pra ela segurar.

— Vai ajudar nas suas lições de casa.

— Lições de casa?

— Sim.

Pausa.

— Nós vamos conhecer sua nova escola na sexta.

Rebeca ficou em silêncio.

Uma escola nova significava uma nova vida. Uma nova camada.

Miriam pegou mais um item.

— E isso aqui é um leitor digital.

Entregou pra Rebeca.

— Assim que seu cartão de crédito chegar… a gente cadastra nele. E você pode comprar os livros que quiser.

Rebeca congelou.

— …meu o quê?

— Seu cartão de crédito. – Miriam respondeu calma. — Assim você vai ter mais liberdade pra comprar o que quiser.

Rebeca segurou o leitor.

Em silêncio.

Depois olhou pra Miriam.

E pensou:

— Meu Deus… O que mais eu poderia comprar?

Ela olhou ao redor da loja.

Tudo parecia possível.

Grande.

Mas agora… não tão assustador.

***

Movimento.

Barulho de talheres.

Conversas ao fundo.

Miriam se sentou e abriu o cardápio.

Rebeca fez o mesmo.

Os olhos dela não foram para os pratos.

Mas sim, para os preços.

Linha por linha.

Miriam percebeu e, sem comentar, perguntou:

— Posso fazer uma sugestão?

Rebeca se sentiu aliviada.

— Pode.

Miriam chamou o garçom.

Pediu com naturalidade.

O garçom se afastou.

Rebeca abriu a mochila.

E pegou o celular.

Ainda meio desacreditada.

Miriam olhou para a mochila da sobrinha e viu: um desgaste e uma alça já pedindo ajuda.

— Antes de ir embora… vamos passar em uma loja de bolsas.

Rebeca sorriu e balançou a cabeça.

— Tá…

Ela desistiu de discutir.

Rebeca olhou o celular.

Hesitou.

— Eu posso ligar pra minha mãe?

Miriam se surpreendeu.

Esperava outro nome.

Mas respondeu na hora:

— Claro.

— Eu não sei o número… Eu nunca precisei ligar pra casa.

Miriam pegou o celular.

Digitou.

E entregou de volta.

— Se quiser… pode ir lá pra fora. Eu te chamo quando a comida chegar.

Rebeca deu um pequeno sorriso. Levantou com o celular no ouvido e saiu.

***

O telefone chamou.

Ela esperou.

Respirou.

Não era só uma ligação

Era reencontro.

— Alô? – Rebeca respirou aliviada com ouvir a voz de Débora.

— Mamãe...

— Rebeca?

— Oi, mãe…

— Ai, minha filha… Você tá bem? Comeu? Dormiu?

Perguntas rápidas.

Empilhadas.

— Tô… Eu dormi sim…

A voz falhou.

— Eu… Eu tô com saudade.

Silêncio curto.

— Eu também tô, minha filha.

Débora mudou de tom.

Rápido.

— Me conta… Como foi seu dia?

Rebeca começou tímida, então... se soltou.

— Mãe, você não acredita...

E começou.

Rápida.

Empolgada.

Falou do salão.

Das roupas.

Do shopping.

Tudo meio atropelado.

Débora escutou. Entre aliviada e emocionada.

— E você, mãe?

Débora congelou.

Não esperava pela pergunta.

— Ah… Tudo normal por aqui.

Rebeca ouviu...

Um ruído ao fundo.

Uma voz.

— Quem é?

Reconheceu.

Débora ficou nervosa.

— É a Rebeca…

A voz se aproximou.

Perto demais.

— Alô?

Rebeca desligou.

Na hora.

Respiração acelerada.

— Meu Deus… O que eu fiz?

O telefone tocou na mão dela.

Ela olhou.

E desligou.

Tocou de novo.

Ela desligou.

E repetiu o processo.

Várias vezes...

E então… sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas real.

O telefone era ela e Rebeca só falaria com ele… se quisesse.

***

Rebeca ainda estava parada do lado de fora do restaurante.

O celular na mão.

A respiração já estava mais controlada.

Ela abriu a mochila.

Puxou a caderneta.

E folheou até encontrar o número.

Escrito com cuidado.

Ela digitou.

Olhou pra tela.

E ligou.

Chamou.

Uma vez.

Duas.

— Alô?

— Oi… Adivinha quem é?

— Se for telemarketing eu vou desligar.

Rebeca soltou um riso.

— Sou eu, sua boba.

— Rebeca?! – Janis fingiu surpresa. — Você tá me ligando?! Quem morreu?!

— Ninguém!

Rebeca ainda estava rindo.

— Eu tenho um celular agora…

— Mentira!

— Verdade! Eu acabei de ganhar.

— E já tá me ligando?

— Claro.

Pausa.

— Estou com saudades.

— Eu também.

Silêncio.

Pequeno.

Mas cheio.

***

Miriam estava sentada à mesa.

O movimento continuava ao redor.

Pratos.

Conversas.

Mas ela estava parada.

Esperando.

O telefone tocou.

Ela olhou e viu o nome na tela.

Moisés.

Uma sobrancelha se levantou.

— O que você quer?

— O que aconteceu com a minha filha?

Miriam inclinou levemente a cabeça.

— Eu tenho uma lista na ponta da língua…

Pausa.

— Mas como estou em um lugar público, é melhor ser cuidadosa com as palavras.

Silêncio do outro lado.

Moisés recuou.

— Er… Eu queria falar com ela.

— Ela foi ao banheiro.

— Banheiro?

— Sim.

E então, com a maior naturalidade do mundo, completou:

— Mas não se preocupe. Eu instalei um rastreador e uma escuta nela enquanto dormia. Se a Rebeca sair da linha, eu te passo o relatório.

Moisés ficou em silêncio, completamente sem saber como reagir.

— Passe o telefone para a Débora.

Um pequeno movimento.

— Alô?

— Você fez um excelente trabalho.

Silêncio curto.

— …obrigada.

Miriam desligou e colocou o celular sobre a mesa.

O garçom chegou.

Colocou os pratos na mesa.

A cadeira da Rebeca ainda estava vazia.

Ela se levantou.

Saiu da área das mesas.

O som mudou.

Mais aberto.

Mais espalhado.

Rebeca estava sentada em um banco.

A mochila largada no chão.

O corpo inclinado pra frente.

Celular no ouvido.

E falando.

Rápido.

Animado.

— Não, você não entendeu... era MUITA coisa! Tipo… muita mesmo!

Miriam observou.

Um canto de sorriso.

— Ei!

Rebeca se virou.

Ainda com o telefone no ouvido.

— Nosso almoço chegou. Pare de namorar e venha logo!

Rebeca ficou vermelha até a raiz dos cabelos.

— NÃO É ISSO!

Ela levantou .

Pegou a mochila.

— Eu te ligo depois!

Caminhou até a Miriam.

Mais leve.

Mais solta.

— Não começa…

As duas voltaram pra mesa.

Agora com a comida.

E com uma Rebeca diferente da que entrou ali.

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
Foto de Ana lucia

Ana lucia

21/04/2026 às 03:30

novos ares,novos olhares,velhos sentimentos,mesmo amor

E

Elin Varen 27/04/2026 às 08:33

Mudam os ventos, mudam as paisagens, mudam até os olhos com que se enxerga o mundo… mas alguns sentimentos atravessam tudo isso e permanecem.
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