Capitulo 31 - A Onça e o Espelho
Capítulo 31 – A Onça e o Espelho
Rebeca continuou no teclado.
Alheia.
As mãos firmes.
Mais seguras.
Miriam e Luma observavam.
Em silêncio.
— Ela me passa a impressão de ser fofinha…
Luma falou baixinho, quase sorrindo.
— ...tipo um bichinho de pelúcia.
Um riso leve escapou de Miriam.
— Pode ser…
Olhou de novo pra Rebeca.
Com mais atenção.
— Mas por baixo dessas camadas fofinhas… tem algo mais resistente.
Mais baixo.
— Algo forte...
Olhos fixos nela.
— ...que a gente ainda não consegue ver.
Luma olhou de novo pra Rebeca.
Com outro olhar
Rebeca continuava tocando
Concentrada.
Sem saber que estava sendo vista assim.
Miriam se afastou primeiro.
Luma ficou mais um segundo.
E então seguiu também.
A porta permaneceu entreaberta.
E a música continuou.
***
O sol já estava mais alto.
Miriam e Rebeca caminhavam lado a lado.
Sem pressa.
Rebeca segurava a alça de mochila com uma das mãos.
A outra estava livre.
Olhava ao redor.
Carros passando.
Pessoas indo e vindo.
Ela puxava levemente a manga.
Depois soltava.
Respirava.
— É longe?
— Não. – Miriam apontou. — É logo ali.
Elas seguiram.
Passaram por uma padaria.
Uma farmácia.
Um pet shop.
Coisas comuns.
Mas tudo ainda era meio novo pra Rebeca
Elas pararam na frente do salão.
Fachada simples.
Vidro.
Letreiro discreto.
Rebeca olhou.
Não era intimidador... mas ainda assim… era diferente.
— Vamos?
Rebeca hesitou um segundo.
Depois:
— Vamos.
A porta abriu.
Um sino leve tocou.
— A gente só vai ajustar o corte.
Miriam falou para tranquilizar a menina.
— Nada radical.
Rebeca assentiu.
Confiando… mas ainda cautelosa.
Uma atendente se aproximou.
E cumprimentou a Miriam.
Miriam cumprimenta.
Rebeca olhou o próprio reflexo no espelho.
Por um segundo a mais.
A porta fechou atrás delas.
E o som da rua sumiu.
***
Rebeca sentou com cuidado.
Mãos no colo.
A atendente começou a analisar o cabelo.
Silêncio breve.
Rebeca ficou corada.
— Não esquenta, amor.
Continuou mexendo no cabelo.
— Eu já tive a sua idade.
Rebeca soltou o ar.
Um pouquinho.
— Tem algo em mente?
Rebeca negou com a cabeça.
Pequeno.
Quase tímido.
A atendente sorriu.
— Então confia em mim… que vai dar tudo certo.
Rebeca olhou pelo espelho.
Primeiro para a cabelereira.
Depois para Miriam.
Miriam só assentiu.
Rebeca respirou fundo.
A capa foi colocada sobre ela.
O espelho à frente.
E pela primeira vez…
Rebeca não desviou o olhar.
A atendente separou as mechas.
Analisou.
Pensou.
Tesoura na mão.
Rebeca estava olhando.
Mas não relaxada.
O maxilar travado.
Leve.
Mas constante.
Miriam observou de onde está.
Sem chamar atenção.
Ela reconheceu...
Miriam pegou o celular.
Discreta.
Abriu uma conversa e digitou.
“Preciso de um horário para uma avaliação. Adolescente. O quanto antes, por favor.”
Enviou e guardou o celular.
Olhou de novo pra Rebeca.
A menina continuava ali.
Quieta.
Segurando alguma coisa por dentro.
A tesoura entrou em cena.
Primeiro corte.
Rebeca piscou.
Pequenas mudanças.
Mechas caindo.
Formato surgindo.
Rebeca olhou.
Ainda insegura, mas presente.
Miriam continuou ali.
Observando.
A tesoura parou.
A cabeleireira afastou um pouco.
Analisou.
— Pronto…
Rebeca olhou.
O corte já havia mudado bastante.
Mais leve.
Mais alinhado.
Mas ainda… discreto.
A cabelereira inclinou a cabeça.
Pensativa.
— Que tal algo um pouco mais ousado?
Rebeca franziu a testa.
— Ousado?
A moça já tirou o celular.
Mostrou algumas fotos.
Rebeca olhou.
Mais de perto.
Os olhos brilharam, de curiosidade.
Ela virou levemente a cabeça.
— …posso?
Miriam dá de ombros.
— O cabelo é seu. É você que vai conviver com ele.
Rebeca voltou o olhar para as fotos.
Respirou.
— Pode ser…
A cabeleireira sorriu.
— Então vamos lá.
Já separou as mechas.
Mistura a tintura.
— Que tal azul?
Pausa.
— Pra combinar com seus olhos.
Um sorriso pequeno nos lábios de Rebeca.
— Pode ser.
As mechas foram preparadas.
O azul apareceu.
Devagar.
Nada exagerado, mas visível
A capa foi retirada.
O cabelo caiu no lugar.
Agora com pontos de cor.
Vida.
Rebeca se olhou.
E gostou do que viu.
Miriam continuava observando.
Em silêncio.
E pensou…
— Adeus, ursinho de pelúcia.
Rebeca passou a mão no cabelo.
Cautelosa.
Mas sorrindo.
A capa ainda cobrindo os ombros.
A cabeleireira já terminou o cabelo.
Mas…
— Quer fazer as unhas também?
Rebeca hesitou por um segundo.
Olhou para as mechas azuis.
Depois…
— Quero.
Ela esticou as mãos.
Ainda um pouco rígida no começo.
Mas vai relaxando.
O esmalte foi aberto.
Azul.
A primeira camada.
Depois a segunda.
O brilho aparece.
Rebeca observava.
Com atenção.
Como se estivesse vendo algo novo.
Cabelo.
Unhas.
Miriam cruzou os braços e percebeu...
— Muito bem, dona Miriam…
Olhou de novo pra Rebeca.
— Está cutucando uma pequena onça com a vara curta.
A manicure terminou.
Rebeca levantou.
Olhou as mãos.
Depois o cabelo no espelho.
Um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
A porta do salão se abriu novamente.
Rebeca saiu primeiro.
O passo… diferente.
Mais leve.
As duas caminharam lado a lado
Miriam observando sem invadir.
Elas chegaram na clínica.
A porta estava sendo trancada.
Luma com as chaves na mão.
Bolsa no ombro.
Ela se virou.
E viu.
Parou.
Não conseguiu disfarçar.
Rebeca sentiu a insegurança voltar. O corpo travou levemente.
Luma sorriu.
— Humm…
Olha de cima a baixo.
— Você tá uma gata!
Rebeca corou.
Instantaneamente.
Até a raiz do cabelo.
Não sabia o que fazer.
— Sério?
Miriam interveio, prática:
— Melhor deixar a troca de elogios pra mais tarde. Nós já estamos atrasadas.
— Ih… verdade. – Luma olhou para o relógio, depois para Rebeca. - Depois a gente conversa.
E saiu.
Miriam abriu a porta do carro.
— Vamos?
— Vamos.
Rebeca entrou.
O cabelo balançou de leve.
E, por um segundo…
Ela se sentiu bem sendo vista.
***
O carro parou.
O prédio era enorme.
Vidro.
Movimento constante.
Gente, entrando e saindo.
Rebeca olhou.
Tudo era grande demais...
... rápido demais
... cheio demais
Ela não desceu na hora.
Respirou.
Então abriu a porta.
O som.
As vozes.
Os passos.
Tudo junto.
Ela deu dois passos.
E…
Correu.
Parou ao lado da Miriam.
Segurou a mão dela.
Forte.
Miriam tentou manter o ar sério.
Não conseguiu.
Um sorriso escapou.
— Agradeço por se oferecer pra cuidar de mim.
Rebeca lançou um olhar atravessado para a tia.
E apertou a mão dela ainda mais.
— Engraçadinha.
Elas começaram a caminhar.
Agora juntas.
Rebeca olhou tudo.
Escadas rolantes.
Lojas.
Luzes.
Ela não soltou a mão de Miriam.
Nem por um segundo.
— A gente vai devagar.
Rebeca assentiu.
— Tá…
Ainda assustada, mas não sozinha.
***
Ar-condicionado.
Cheiro de roupa nova.
Música baixa.
Cabides organizados.
Cores.
Modelos.
Rebeca olhou tudo.
Mais uma vez… grande demais
— Você pode escolher o que quiser.
Rebeca olhou pra ela.
— Sério?
— Sério. Mas eu vou fazer algumas sugestões.
— Tá bem.
Rebeca andou entre as araras.
Com cuidado.
Escolheu uma peça.
Depois outra.
Mais uma.
Parou.
Achava aquilo já era muito.
Miriam aproximou-se dela.
Braços cheios de roupas.
Rebeca arregalou os olhos.
— A senhora vai fazer uma doação pra um orfanato?
— Engraçadinha.
Colocou mais peças nos braços.
— Eu só estou escolhendo o que você precisa.
Olhou direto pra ela e acrescentou.
— Ou você acha que vai conseguir viver bem com uma calça e duas blusas?
Rebeca fez bico, incapaz de argumentar.
— Tá…
Miriam a levou para um provador.
Cortina fechada.
Rebeca entrou com um monte de roupa.
A cada troca ela abria a cortina.
Miriam analisava.
— Hm.
— Boa.
— Leva.
— Essa não.
— Essa sim.
Trocava.
Abria.
Avaliava.
Trocava.
Abria.
Avaliava.
Na vigésima troca, Rebeca empurrou a cortina e saiu meio tonta.
— Eu nunca experimentei tanta roupa na minha vida.
— Eu não tenho culpa se o seu pai é pão-duro.
Rebeca parou e pensou.
Não era uma crítica a ela. Era uma realidade sendo nomeada...
— É…
Mas dessa vez… não abaixou a cabeça
Ela voltou para o provador.
Mais trocas.
Mais escolhas.
Acessórios.
Enfeites para o cabelo.
Rebeca saiu uma última vez.
Com uma roupa nova.
Se olhou no espelho.
E não parecia mais a mesma de antes.
Roupa combinando.
Acessórios ajustados.
Um colar delicado com uma clave de sol.
Ela olhou no espelho.
— Ótimo. - Antes que Rebeca pudesse responder, Miriam já começou a tirar as etiquetas. — Esse look está perfeito pra hoje.
— Tia!
— Já foi.
As duas saíram com os braços cheios.
Elas foram para o caixa.
E lá estava a armadilha...
Pequenas coisas.
Coloridas.
Organizadas.
Tentadoras.
Rebeca olhou... curiosa...
Pega uma presilha.
— Eu só estava olhando…
Miriam sem nem hesitar, jogou na sacola.
— E pode olhar com mais calma quando chegarmos em casa.
Pausa.
— À noite.
Rebeca se interessou por outra coisinha.
E outra.
Mais uma.
E Miriam ia jogando tudo na sacola.
No final…
Rebeca tinha uma garrafinha e uma nécessaire do Mickey, várias presilhas e um monte de outras coisinhas coloridas.
— Eu nem precisava disso tudo…
— Agora precisa.
As sacolas ficaram cheias.
Rebeca ainda estava processando.
Miriam pegou as sacolas.
— Ótimo. Agora vamos comprar alguns sapatos.
Rebeca olhou pra baixo.
Os tênis velhos.
— Tia…
Pausa.
— Eu só tenho dois pés, viu?
Miriam sorriu.
— Vou fingir que não ouvi isso.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 16/04/2026 Autora da história
Fico muito feliz que tenha sentido isso
Esse capítulo foi escrito com bastante carinho mesmo.