Capitulo 30 - Em Descoberta
Capítulo 30 – Em Descoberta
A porta da sala de descanso estava entreaberta.
Miriam encostou de leve e empurrou.
Rebeca estava no mesmo lugar.
Sentada.
Fones no ouvido.
As mãos se movendo pelas teclas.
Com segurança.
Com fluidez.
Miriam não escutava a música.
Mas observava.
Os acordes.
O ritmo.
A construção.
E ela soube que aquilo não era um hino.
Ela reconheceria se fosse.
Aquilo era da Rebeca.
Miriam se aproximou.
Devagar.
Sem interromper.
Observou mais um instante.
Então…
Delicadamente…
Encostou o corpo de leve na Rebeca.
Rebeca se assustou e parou na hora.
Tirou os fones.
Respiração ainda no ritmo da música.
— Que tal fazer uma pausa? Já está tarde e você ainda não comeu nada.
Rebeca ainda meio fora de órbita.
Olhou para o teclado. Depois para Miriam
— Eu não vi o tempo passar…
— Eu sei. Mas o seu corpo viu.
Miriam se afastou um pouco.
— Vem.
Rebeca tirou os fones e os colocou com cuidado sobre o teclado.
Levantou e olhou mais uma vez para as teclas. Como quem marca o caminho de volta
A mesa já estava organizada.
Pão, margarina, potes de geleia, talheres e xícaras.
— Pode se servir.
Rebeca olhou e, ainda com aquele cuidado, se aproximou.
— Eu posso… pegar um pouco de geleia?
Miriam levantou o olhar.
— Claro.
Rebeca pegou um pão e do dividiu ao meio.
E então… parou e pensou.
Cortou uma fatia em três pedaços.
Miriam observava, sem interromper. Já curiosa.
Rebeca pegou três sabores diferentes de geleia e colocou um pouco em cada pedaço.
Comeu o primeiro.
Comeu o segundo.
E o terceiro.
Avaliando...
Miriam não comentou, mas claramente se divertia.
Rebeca olhou os potes.
E escolhe um.
Passou na outra metade do pão.
Dessa vez…
Sem dividir.
Comeu com mais segurança.
Sem pressa.
Sem olhar pra Miriam.
Miriam segurou o sorriso.
Tomou o café.
Como se aquilo fosse completamente normal.
Rebeca, baixinho:
— Esse é melhor.
— Bom saber.
Rebeca terminou o pedaço de pão.
Ainda com o gosto da geleia.
Miriam observou por um instante.
Como quem pensa.
Então, naturalmente:
— Minha próxima paciente se chama Rebeca Moretti.
Pausa.
— Conhece ela?
Rebeca levantou o olhar.
Surpresa.
Um pequeno sorriso escapou.
— Um pouco.
Miriam cruzou levemente os braços.
Tom neutro.
— O que você pode me dizer sobre ela?
Rebeca parou.
O olhar caiu e o corpo enrijeceu.
Miriam percebeu.
O maxilar travado. Devido a tensão acumulada, a resposta sendo segurada.
— …alguém que tem feito muita coisa errada.
A frase ficou no ar.
Miriam não respondeu na hora.
Ela pensou.
De verdade.
— Não sei se posso concordar.
Rebeca levantou o olhar, de leve.
— Você é jovem. E errar faz parte do processo de aprendizado de qualquer pessoa.
Rebeca baixou os olhos. Não estava convencida, mas estava ouvindo.
Miriam inclinou levemente a cabeça.
— Que tal pensar de outro jeito?
Pausa.
— Você é alguém… que está se descobrindo.
Rebeca não respondeu.
Mas a respiração mudou. Como se algo tivesse se encaixado.
Miriam se levantou.
— Vamos?
Rebeca demorou um segundo.
Depois levantou também.
Ainda insegura, mas… menos dura consigo mesma.
***
A clínica já estava viva.
Vozes.
Passos.
Portas abrindo e fechando.
Rebeca encolheu levemente os ombros.
De repente, uma criança pequena correu pelo corredor.
E abraçou as pernas da Miriam.
— Tia Miriam!
Miriam olhou pra baixo.
Sem surpresa.
— Eu já atendo você, Luís.
O menino fez um biquinho.
Mas aceitou e saiu correndo de novo.
Rebeca observou, surpresa. Então, relaxou um pouquinho.
Miriam abriu a porta.
— Pode entrar.
Rebeca entrou.
O mesmo consultório de antes.
Mas agora… era outro contexto.
Miriam fechou a porta.
O ambiente ficou mais silencioso.
Ela olhou para Rebeca com mais atenção agora.
— Eu preciso ver como você está, tá?
Tom calmo.
Rebeca hesitou.
Por um segundo.
Depois assentiu.
— Tá…
Rebeca começou a tirar a blusa e a calça.
Devagar.
Sem drama.
Como se já tivesse feito aquilo antes.
Miriam observou.
Sem pressa.
Sem interromper.
As marcas apareceram.
Não eram poucas.
Algumas não eram recentes.
Camadas.
Marcas novas sobre antigas: braços, tórax e pernas.
Miriam não reagiu de imediato.
Mas o olhar mudou.
Profissional, atento e… afetado
Ela respirou fundo.
Discretamente.
— Pode se vestir.
Rebeca obedeceu.
A blusa larga.
A calça ainda grande.
Miriam se aproximou e ajudou.
Ajustou o cinto e dobrou a barra de novo.
O mesmo gesto de antes, mas agora com outro peso.
— Vamos ouvir o pulmão.
Estetoscópio.
Movimentos calmos.
— Respira fundo.
Rebeca obedeceu.
— De novo.
Tudo tranquilo.
Depois garganta.
Ouvido.
Rebeca estranhou.
— Isso tudo faz parte?
— Agora faz.
Miriam se afastou um pouco.
— Eu vou te passar alguns remédios pra dor.
— Não precisa… eu já estou acostumada.
Miriam olhou direto pra ela.
Sem elevar a voz.
— Precisa, sim. E não… você não está acostumada com nada disso.
Silêncio.
— Ninguém merece ser tratado assim.
Mais baixo agora.
Mais firme.
— Acredite em mim. Seu pai não foi tratado assim.
Rebeca travou.
— E eu não acredito… que ele tenha o direito de fazer uma coisa dessas com você.
Rebeca não respondeu.
Mas o olhar mudou.
Alguém finalmente havia dito que aquilo não era normal.
Miriam abriu uma das gavetas.
Pegou alguns comprimidos.
Colocou na mão.
Depois pegou um copo de água.
— Toma.
Rebeca olhou.
— Você consegue engolir?
— Consigo.
Ela colocou os comprimidos na boca.
Bebeu água.
Nada.
Tentou outra vez.
Engoliu apenas a água.
Tentou de novo.
Bebeu mais água.
Mas, os comprimidos continuavam na boca.
— Fica difícil se a senhora ficar olhando…
Miriam segurou um sorriso.
— Desculpa.
E virou de costas.
Rebeca tentou pela quarta vez.
Concentrada.
E, com esforço, conseguiu engolir a água e os comprimidos.
Ela soltou o ar.
— Foi.
Miriam ainda de costas.
— Posso olhar agora?
— Pode.
Miriam se virou.
— Muito bem.
Rebeca dá um meio sorriso.
***
Rebeca saiu e fechou a porta com cuidado.
O consultório ficou quieto.
Miriam permaneceu de pé por um instante.
Respirou fundo.
Então se moveu.
Sentou em frente ao computador.
Ficou alguns segundos olhando para a tela.
Sem digitar.
Organizando o que viu e o que sentiu.
As mãos foram para o teclado.
E ela digitou com precisão.
Fez um relatório detalhado.
Sem exagero.
Sem emoção explícita.
Mas completo.
Localização das marcas.
Aspecto.
Frequência aparente.
Ela releu.
Corrigiu uma palavra.
Adicionou mais uma linha.
E salvou o arquivo.
— Por via das dúvidas…
A tela permaneceu acesa.
O arquivo ali.
Guardado.
Esperando.
Fim do capítulo
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