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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1090
Acessos: 38   |  Postado em: 14/04/2026

Capitulo 30 - Em Descoberta

Capítulo 30 – Em Descoberta

A porta da sala de descanso estava entreaberta.

Miriam encostou de leve e empurrou.

Rebeca estava no mesmo lugar.

Sentada.

Fones no ouvido.

As mãos se movendo pelas teclas.

Com segurança.

Com fluidez.

Miriam não escutava a música.

Mas observava.

Os acordes.

O ritmo.

A construção.

E ela soube que aquilo não era um hino.

Ela reconheceria se fosse.

Aquilo era da Rebeca.

Miriam se aproximou.

Devagar.

Sem interromper.

Observou mais um instante.

Então…

Delicadamente…

Encostou o corpo de leve na Rebeca.

Rebeca se assustou e parou na hora.

Tirou os fones.

Respiração ainda no ritmo da música.

— Que tal fazer uma pausa? Já está tarde e você ainda não comeu nada.

Rebeca ainda meio fora de órbita.

Olhou para o teclado. Depois para Miriam

— Eu não vi o tempo passar…

— Eu sei. Mas o seu corpo viu.

Miriam se afastou um pouco.

— Vem.

Rebeca tirou os fones e os colocou com cuidado sobre o teclado.

Levantou e olhou mais uma vez para as teclas. Como quem marca o caminho de volta

A mesa já estava organizada.

Pão, margarina, potes de geleia, talheres e xícaras.

— Pode se servir.

Rebeca olhou e, ainda com aquele cuidado, se aproximou.

— Eu posso… pegar um pouco de geleia?

Miriam levantou o olhar.

— Claro.

Rebeca pegou um pão e do dividiu ao meio.

E então… parou e pensou.

Cortou uma fatia em três pedaços.

Miriam observava, sem interromper. Já curiosa.

Rebeca pegou três sabores diferentes de geleia e colocou um pouco em cada pedaço.

Comeu o primeiro.

Comeu o segundo.

E o terceiro.

Avaliando...

Miriam não comentou, mas claramente se divertia.

Rebeca olhou os potes.

E escolhe um.

Passou na outra metade do pão.

Dessa vez…

Sem dividir.

Comeu com mais segurança.

Sem pressa.

Sem olhar pra Miriam.

Miriam segurou o sorriso.

Tomou o café.

Como se aquilo fosse completamente normal.

Rebeca, baixinho:

— Esse é melhor.

— Bom saber.

Rebeca terminou o pedaço de pão.

Ainda com o gosto da geleia.

Miriam observou por um instante.

Como quem pensa.

Então, naturalmente:

— Minha próxima paciente se chama Rebeca Moretti.

Pausa.

— Conhece ela?

Rebeca levantou o olhar.

Surpresa.

Um pequeno sorriso escapou.

— Um pouco.

Miriam cruzou levemente os braços.

Tom neutro.

— O que você pode me dizer sobre ela?

Rebeca parou.

O olhar caiu e o corpo enrijeceu.

Miriam percebeu.

O maxilar travado. Devido a tensão acumulada, a resposta sendo segurada.

— …alguém que tem feito muita coisa errada.

A frase ficou no ar.

Miriam não respondeu na hora.

Ela pensou.

De verdade.

— Não sei se posso concordar.

Rebeca levantou o olhar, de leve.

 

— Você é jovem. E errar faz parte do processo de aprendizado de qualquer pessoa.

Rebeca baixou os olhos. Não estava convencida, mas estava ouvindo.

Miriam inclinou levemente a cabeça.

— Que tal pensar de outro jeito?

Pausa.

— Você é alguém… que está se descobrindo.

Rebeca não respondeu.

Mas a respiração mudou. Como se algo tivesse se encaixado.

Miriam se levantou.

— Vamos?

Rebeca demorou um segundo.

Depois levantou também.

Ainda insegura, mas… menos dura consigo mesma.

***

 

A clínica já estava viva.

Vozes.

Passos.

Portas abrindo e fechando.

Rebeca encolheu levemente os ombros.

De repente, uma criança pequena correu pelo corredor.

E abraçou as pernas da Miriam.

— Tia Miriam!

Miriam olhou pra baixo.

Sem surpresa.

— Eu já atendo você, Luís.

O menino fez um biquinho.

Mas aceitou e saiu correndo de novo.

Rebeca observou, surpresa. Então, relaxou um pouquinho.

Miriam abriu a porta.

— Pode entrar.

Rebeca entrou.

O mesmo consultório de antes.

Mas agora… era outro contexto.

Miriam fechou a porta.

O ambiente ficou mais silencioso.

Ela olhou para Rebeca com mais atenção agora.

— Eu preciso ver como você está, tá?

Tom calmo.

Rebeca hesitou.

Por um segundo.

Depois assentiu.

— Tá…

Rebeca começou a tirar a blusa e a calça.

Devagar.

Sem drama.

Como se já tivesse feito aquilo antes.

Miriam observou.

Sem pressa.

Sem interromper.

As marcas apareceram.

Não eram poucas.

Algumas não eram recentes.

Camadas.

Marcas novas sobre antigas: braços, tórax e pernas.

Miriam não reagiu de imediato.

Mas o olhar mudou.

Profissional, atento e… afetado

Ela respirou fundo.

Discretamente.

— Pode se vestir.

Rebeca obedeceu.

A blusa larga.

A calça ainda grande.

Miriam se aproximou e ajudou.

Ajustou o cinto e dobrou a barra de novo.

O mesmo gesto de antes, mas agora com outro peso.

— Vamos ouvir o pulmão.

Estetoscópio.

Movimentos calmos.

— Respira fundo.

Rebeca obedeceu.

— De novo.

Tudo tranquilo.

Depois garganta.

Ouvido.

Rebeca estranhou.

— Isso tudo faz parte?

— Agora faz.

Miriam se afastou um pouco.

— Eu vou te passar alguns remédios pra dor.

— Não precisa… eu já estou acostumada.

Miriam olhou direto pra ela.

Sem elevar a voz.

— Precisa, sim. E não… você não está acostumada com nada disso.

Silêncio.

— Ninguém merece ser tratado assim.

Mais baixo agora.

Mais firme.

— Acredite em mim. Seu pai não foi tratado assim.

Rebeca travou.

— E eu não acredito… que ele tenha o direito de fazer uma coisa dessas com você.

Rebeca não respondeu.

Mas o olhar mudou.

Alguém finalmente havia dito que aquilo não era normal.

Miriam abriu uma das gavetas.

Pegou alguns comprimidos.

Colocou na mão.

Depois pegou um copo de água.

— Toma.

Rebeca olhou.

— Você consegue engolir?

— Consigo.

Ela colocou os comprimidos na boca.

Bebeu água.

Nada.

Tentou outra vez.

Engoliu apenas a água.

Tentou de novo.

Bebeu mais água.

Mas, os comprimidos continuavam na boca.

— Fica difícil se a senhora ficar olhando…

Miriam segurou um sorriso.

— Desculpa.

E virou de costas.

Rebeca tentou pela quarta vez.

Concentrada.

E, com esforço, conseguiu engolir a água e os comprimidos.

Ela soltou o ar.

— Foi.

Miriam ainda de costas.

— Posso olhar agora?

— Pode.

Miriam se virou.

— Muito bem.

Rebeca dá um meio sorriso.

***

Rebeca saiu e fechou a porta com cuidado.

O consultório ficou quieto.

Miriam permaneceu de pé por um instante.

Respirou fundo.

Então se moveu.

Sentou em frente ao computador.

Ficou alguns segundos olhando para a tela.

Sem digitar.

Organizando o que viu e o que sentiu.

As mãos foram para o teclado.

E ela digitou com precisão.

Fez um relatório detalhado.

Sem exagero.

Sem emoção explícita.

Mas completo.

Localização das marcas.

Aspecto.

Frequência aparente.

Ela releu.

Corrigiu uma palavra.

Adicionou mais uma linha.

E salvou o arquivo.

— Por via das dúvidas…

A tela permaneceu acesa.

O arquivo ali.

Guardado.

Esperando.

 

Fim do capítulo


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