Capitulo 29 - Conte a sua versão
Capítulo 29 - Conte a sua versão.
A cidade já sabia.
Não precisava dizer.
Dava pra ver.
Nos olhares.
No silêncio que vinha antes das conversas.
No jeito que algumas pessoas olhavam rápido demais.
E outras… olhavam por tempo demais.
Janis entrou pelo portão.
Sem pressa.
Como se nada tivesse mudado.
Mas tinha.
Ester tinha insistido.
— Vai pra escola.
Não como ordem.
Como tentativa.
Janis não discutiu.
Também não concordou.
Só foi.
O corredor parecia mais estreito.
As vozes mais altas.
Ou talvez…
fosse só impressão.
Alguém riu.
Não era sobre ela.
Mas também podia ser.
Janis não virou.
Não reagiu.
Seguiu.
Como sempre fez.
Entrou na sala.
Parou por um segundo.
A carteira.
Vazia.
Do mesmo jeito.
Mas diferente.
Ela ficou olhando.
Como se esperasse.
Como se, em algum momento…
Rebeca fosse entrar atrasada.
Mas não entrou.
Janis desviou o olhar.
Sentou.
Abriu o caderno.
Ficou parada.
A caneta entre os dedos.
Sem escrever.
Sem pensar direito.
E então…
começou a desenhar.
Linhas soltas.
Sem forma definida.
No começo.
Depois, um banco.
Um balanço.
Pendendo levemente.
Vazio.
Mas não abandonado.
Como se alguém fosse voltar.
Janis inclinou a cabeça.
Observando.
A caneta ainda em movimento.
***
Janis atravessou a rua.
A padaria estava cheia.
Como sempre.
Porta aberta.
Cheiro de pão quente.
Ela entrou.
Sem hesitar.
Do outro lado da rua, Ester parou.
Ficou observando.
Não entrou.
Ainda não.
Lá dentro, as conversas não pararam.
Mas mudaram.
Mais baixas.
Mais rápidas.
Olhares atravessando o espaço.
Alguns curiosos.
Outros… mal disfarçados.
— Oi — alguém disse, sem olhar direito.
Janis assentiu.
Seguiu.
Pediu.
Pagou.
Sem estender conversa.
Sem dar abertura.
Mas não era suficiente.
Uma mulher se aproximou demais.
— E aí… é verdade mesmo?
Janis levantou o olhar.
Silêncio.
A mulher sorriu.
Como se fosse normal perguntar aquilo.
Janis não respondeu.
Só virou.
E foi até o balcão.
Do lado de fora,
Ester viu.
Tudo.
O tempo inteiro.
Os risos.
Os olhares.
O jeito que falavam com ela.
Ou evitavam falar.
Respirou fundo.
E entrou.
Janis levantou o olhar.
Estranhou.
Mas não disse nada.
Ester passou direto.
Foi até o balcão.
O dono da padaria estava repondo bolachas.
— Quanto a minha filha ainda te deve?
O homem parou.
— Imagina… não precisa...
— Quanto?
A voz veio calma.
Mas firme.
Ele hesitou.
Disse o valor.
Ester abriu a bolsa.
Pagou.
Sem negociar.
Sem discutir.
— Tá quitado.
Simples.
O homem assentiu.
Constrangido.
Ester virou.
Os olhares ainda estavam ali.
Mas diferentes agora.
Mais contidos.
Mais cuidadosos.
Ela passou por eles.
Sem parar.
Até chegar na filha.
— Vamos?
Janis assentiu e tirou o avental e a touca.
As duas saíram.
Sem olhar para trás.
Do lado de fora:
— O que foi isso? — Janis perguntou.
Ester não olhou pra ela.
— Você tem coisas mais importantes pra fazer, do que ficar aqui.
Janis não respondeu.
Mas entendeu.
Elas seguiram pela calçada.
A praça estava movimentada.
Gente reunida.
Um círculo se formando.
O som veio antes da visão.
— …perdição—
— …desvio—
— …juízo—
Janis parou.
Reconheceu.
Moisés.
No centro.
Gesticulando.
A voz alta demais.
Os olhos acesos.
As pessoas ao redor:
Algumas atentas
Outras curiosas
Outras… desconfortáveis
— …o mundo tá perdido—
— …valores corrompidos—
— …famílias destruídas—
Janis desviou o olhar.
Como se aquilo não fosse sobre ela.
Mas era.
Ester não parou.
Só colocou a mão nas costas da filha.
Leve.
— Vem.
Janis andou.
Passou.
Sem olhar de novo.
Mas a voz…
continuou.
Atrás delas.
***
Quando chegaram em casa, Ester fechou a porta.
Virou-se para Janis.
— No sábado você vai pra casa da dona Maria Helena.
Simples.
Janis piscou.
— Ela aceitou ficar com você até eu conseguir me transferir pra lá.
— Mas...
— Mas coisa nenhuma.
A voz veio firme.
— Vai arrumar suas coisas.
Janis assentiu.
E foi.
Ester ficou.
Parada.
Foi até a janela.
Olhou.
Moisés ainda estava lá.
Andando de um lado pro outro.
Falando.
Gesticulando.
Como se o mundo ainda estivesse ouvindo.
Ester respirou fundo.
Virou.
Entrou no quarto.
Abriu o guarda-roupa.
No fundo, uma pequena caixa.
Ela puxou.
Abriu por um instante.
Lá dentro, os hinários.
Gastos.
Marcados.
E uma bíblia pequena.
Capa preta.
Desgastada pelo tempo.
Como se tivesse sido aberta muitas vezes.
Ester passou o polegar pela borda.
Sem pressa.
Fechou.
Pegou a caixa.
E saiu.
A rua ainda estava cheia.
Menos gente.
Mas o suficiente.
Moisés falava.
Alto.
Apontava.
Acusava.
E então, parou.
Viu.
Ester.
Indo direto até ele.
— Você acha que isso vai ficar assim? — ele começou.
A voz já carregada.
Já pronta.
Ester não respondeu.
Parou diante dele.
Olhou.
De verdade.
Sem medo.
Sem pressa.
Abaixou.
Colocou a caixa no chão.
Entre eles.
— Pode ficar com tudo.
Moisés travou por um segundo.
— O quê?...
— Eu aprendi muito mais sobre Deus em mesas de bar…
A voz saiu calma.
— ...do que na sua igreja.
Silêncio.
Pesado.
Ester não esperou resposta.
Virou.
E foi embora.
Como se nada tivesse acontecido.
Aos poucos, as pessoas foram saindo.
Uma a uma.
Sem espetáculo.
Sem conclusão.
Moisés ficou.
Parado.
A caixa aos pés.
As mãos ainda tensas.
A respiração descompassada.
Sem saber…
o que fazer com aquilo.
Ou com a própria raiva.
***
O jantar era simples.
Silencioso.
O prato da Janis ainda meio cheio.
Ao lado, o caderno aberto.
O desenho.
Rebeca no balanço.
Exatamente como ela estava.
Logo depois do beijo.
Janis passou o dedo pela linha.
Como se pudesse ajustar alguma coisa.
Mas não mexeu.
Ester observava.
— Você devia aproveitar isso.
Janis não levantou o olhar.
— Isso o quê?
— Seu talento. Fazer alguma coisa que as pessoas possam ver.
Janis finalmente olhou.
Mas antes que respondesse, o celular vibrou.
Ester soltou um pequeno resmungo.
— Vai.
Janis levantou.
Saiu com o telefone.
Ester ficou.
O olhar ainda preso no desenho.
A noite não veio tranquila.
O sono não veio inteiro.
Quebrado.
Como se a cabeça se recusasse a parar.
Imagens voltando.
Ester estava na janela quando viu Moisés puxando Rebeca pelo braço.
Rápido demais.
Forte demais.
Ester hesitou.
Deu um passo.
Parou.
O corpo pronto pra agir.
Mas a mente… travada.
E então, um carro parou.
Miriam desceu.
Calma.
Segura.
Como se já soubesse exatamente o que fazer.
Moisés parou no portão.
Indeciso.
Entrar.
Ou sair.
Não fez nenhum dos dois.
Ficou.
Ester observava.
Sem respirar direito.
Rute entrou na casa.
Desapareceu.
Minutos depois, saiu.
Direto.
Sem hesitar.
Foi atrás da Janis.
Ester seguiu com os olhos.
As duas conversando.
À distância.
Palavras que não ouviu.
Mas entendeu.
Janis se afastando.
Sozinha.
E então, a porta da casa abriu.
Rebeca apareceu.
O teclado nos braços.
Segurando como se fosse parte dela.
Entrou no carro.
Sem olhar pra trás.
Ester soltou o ar.
Devagar.
— Acabou.
Não disse.
Mas soube.
Quando Janis voltou, não precisou perguntar.
O choro respondeu.
Sem pausa.
Sem controle.
Ali…
Ester entendeu de verdade.
Não tinha volta.
Ela pegou o telefone.
Discou.
Esperou.
— Alô?
— Sou eu.
Pausa.
— A senhora pode cuidar dela por mim? Só até eu conseguir me organizar…
A voz falhou.
— …pra ir também.
A resposta veio calma.
Segura.
Como tudo que vinha dela.
— Pode trazer.
Ester fechou os olhos.
E, pela primeira vez, não hesitou.
Quando o dia clareou, Ester já estava de pé.
Trabalhou.
Fez o que precisava ser feito.
Sem erro.
Sem distração.
Mas sem descanso.
Na saída, não foi pra casa.
Virou.
Entrou no depósito.
Corredores estreitos.
Cheiro forte.
Escolheu.
Sem pensar muito.
Tintas.
Spray.
Cores.
Muitas.
O máximo que conseguiu carregar.
Quando chegou em casa, deixou tudo na sala.
Janis parou na porta.
— Que doideira é essa?
Ester respirou.
— Escolhe um bom lugar.
— Pra quê?
— Pra deixar uma marca nessa cidade.
Janis franziu a testa.
Ainda sem entender.
Ester olhou pra ela.
De verdade.
— Não é justo que a história seja contada por um lado só.
Pausa.
— Conta a sua. Do jeito que você sabe.
Janis ficou parada.
Processando.
E então, entendeu.
Ester já estava virando.
— Você tem até sábado.
Simples.
Deixou as sacolas ali.
E foi pro quarto.
Como se tivesse feito o suficiente.
Janis olhou para as tintas.
Depois para o caderno.
Depois de volta.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, uma ideia veio.
Fim do capítulo
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