Capitulo 5 - Descompasso
Capítulo 5 - Descompasso
Voltei para casa esperando encontrá-la.
Camila ainda não tinha chegado.
Olhei o celular.
Nenhuma mensagem.
Tentei ligar.
Ela não atendeu.
Abri as redes sociais.
Nada no perfil dela.
Mas encontrei publicações dos alunos.
Camila estava lá.
No parque.
Depois em um bar.
Sorrindo.
Bebendo.
Como se o dia ainda não tivesse terminado.
Deixei o celular sobre a bancada da cozinha e me sentei.
Não era a primeira vez.
Mas ainda assim…
doía.
Éramos recém-casadas.
E, apesar de tudo, eu ainda queria estar com ela.
Levei a mão ao cabelo.
Enrolei uma mecha entre os dedos.
Sem perceber.
Quando dei por mim, havia fios soltos presos à minha mão.
Minha cabeça latej*v*.
Fui até o banheiro.
Joguei os fios na lixeira.
Lavei o rosto.
Respirei fundo.
— O melhor que tenho a fazer é me manter ocupada.
Olhei o relógio.
Comecei a fazer o jantar.
Pouca coisa na geladeira.
Improviso.
Arrumei a mesa.
Esperei.
As horas passaram.
Não consegui comer.
Desisti.
Fui para a sala.
Liguei a televisão.
As imagens passavam.
Mas eu não acompanhava.
Quando o filme acabou, levantei.
Fui para o quarto.
Depois para o banheiro.
A água caiu sobre mim.
Constante.
Quase meia-noite.
Não ouvi quando ela chegou.
Camila entrou no banheiro.
— Oi, amor.
A voz arrastada.
Pesada.
— Sentiu minha falta?
Ela se aproximou.
Cambaleando.
Instintivamente, cobri o corpo.
Ela percebeu.
Sorriu.
Levantou as mãos.
— Eu sei… você não quer assim.
***
Três dias se passaram.
Camila dirigia como se nada tivesse acontecido.
Cantarolava.
Leve.
— Está um lindo dia, não é?
Assenti.
— Poderíamos passear depois…
Assenti de novo.
Meu corpo estava ali.
Mas minha mente…
não.
Os pensamentos se acumulavam.
Confusos.
Desorganizados.
— Será que ela não se importa?
— Ou só não quer discutir?
— Ou…
não lembra?
Essa era a pior parte.
A dúvida.
Ela dizia não lembrar.
Mas, no domingo…
usou as mesmas palavras.
As minhas palavras.
Remexi-me no banco.
Afastei um pouco o corpo.
— Vamos almoçar juntas hoje? — ela perguntou.
— Pode ser.
Minha voz saiu baixa.
Ela tocou meu rosto.
Suave.
— Você pode confiar em mim.
Eu tinha muitas coisas para dizer.
Mas nenhuma parecia segura.
— Está tudo bem.
Ela sorriu.
Mudou a música para algo que eu gostava.
— Você precisa relaxar.
— Talvez.
Paramos.
Desci do carro.
Tentei ir embora.
Ela me puxou.
— Não vou ganhar um beijo?
Fechei os olhos.
Aproximei.
Ela aprofundou.
— Não se esqueça… eu amo você.
Não respondi.
O campus era grande.
O caminho até a biblioteca era curto.
Arborizado.
Eu gostava.
Ou costumava gostar.
Deixei minhas coisas.
Fui para o balcão.
Mas não fiquei.
Peguei um carrinho de livros.
Comecei a organizar.
Um por um.
Era mais fácil assim.
Mais silencioso.
— Bom dia, Helena.
Mauro.
— Quer ajuda?
— Não precisa.
Sorri.
Continuei.
— Você tem evitado as pessoas.
Ignorei.
— Inclusive a mim.
Peguei mais livros.
Virei de costas.
— Somos amigos há muito tempo.
Continuei trabalhando.
— E eu estou preocupado.
Suspirei.
— Você precisa parar de frequentar fóruns estranhos.
Ele não sorriu.
— Não muda de assunto.
Parei.
Olhei para ele.
— Eu estou bem.
Segurei as mãos dele.
— Sério.
Ele me observou por alguns segundos.
— Repete isso mil vezes… talvez vire verdade.
Sorri.
— Se algo acontecer, você será o primeiro a saber.
Ele hesitou.
Depois assentiu.
— Então vamos competir.
Pegou um monte de livros e saiu andando.
Acompanhei.
Mais tarde, estávamos catalogando livros novos.
— Você vai almoçar com ela de novo? — Mauro perguntou.
— Ela chamou primeiro.
— Nós sempre almoçamos juntos.
— Amanhã eu almoço com você.
— Vou cobrar.
Continuei digitando.
Ele colava etiquetas.
Silêncio.
— Ainda faltam caixas — disse, se alongando.
Saiu para buscar outro carrinho.
Voltei ao computador.
Quando ele voltou, estava sério.
— Sua esposa deixou isso.
Me entregou um bombom e um cartão.
— Ela passou por aqui?
— Não. Só deixou.
Abri o cartão.
“Você me desculpa?”
E logo abaixo:
“Não vou conseguir almoçar hoje. Nos vemos em casa.”
Fiquei olhando.
Por alguns segundos.
Não senti raiva.
Senti…
alívio.
— Você está bem? — Mauro perguntou.
Olhei para ele.
— Estou.
Abri o bombom.
Dividi em dois.
Ofereci metade.
— Tem certeza?
— Claro.
Sorri.
— Podemos comer a sobremesa antes do prato principal.
Ele soltou um pequeno riso pelo nariz.
Aceitou.
— Dickens?
Assenti.
— Dickens.
Mauro ajeitou os óculos com a ponta dos dedos, como sempre fazia antes de começar a leitura.
Era quase um ritual.
Guardamos o que estávamos fazendo e seguimos para o refeitório.
O movimento ainda era pequeno naquele horário.
Escolhemos uma mesa mais afastada, perto da janela.
Sempre a mesma, quando estava livre.
Mauro tirou o livro da mochila com cuidado.
Como se estivesse manuseando algo vivo.
As páginas estavam marcadas.
Anotadas.
Cheias de pequenas observações nas margens.
Ele lia o tempo todo.
Nos intervalos.
Antes de dormir.
Enquanto esperava.
E, desde que começamos a dividir aquelas leituras, ele nunca avançava sozinho nos capítulos que estávamos lendo juntos.
Esperava por mim.
Sentou-se à minha frente.
Abriu o livro no ponto em que havíamos parado.
— Você se lembra de onde paramos?
— Lembro.
Ele assentiu, satisfeito.
E começou a ler em voz alta.
A voz dele era estável.
Clara.
Sem pressa.
Diferente de tudo.
Enquanto ele lia, eu não precisava pensar.
Não precisava ajustar.
Não precisava organizar nada.
As palavras simplesmente vinham.
Uma depois da outra.
E, pela primeira vez naquele dia…
minha mente desacelerou.
De verdade.
Mauro fazia pequenas pausas.
Às vezes para comentar um trecho.
Às vezes para me olhar, como se quisesse confirmar que eu ainda estava ali.
Eu estava.
Mais do que estivera o dia inteiro.
Quando ele terminou o trecho, fechou o livro com cuidado.
— Amanhã continuamos.
Assenti.
— Amanhã.
Ele me observou por um instante.
Como se ainda estivesse avaliando algo que eu não dizia.
Mas, como sempre…
não insistiu.
E eu fui grata por isso.
Porque, com Mauro, nada precisava ser arrancado.
Tudo podia simplesmente… existir.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 13/04/2026 Autora da história
Capítulo novo postado :)