Capítulo 4 — Porto Seguro
Capítulo 4 — Porto Seguro
Acordei antes de qualquer barulho.
Por alguns segundos, fiquei deitada, olhando para o teto, tentando entender se ainda estava cansada ou só… vazia.
Virei o rosto.
Camila ainda dormia.
O corpo espalhado na cama.
Tranquilo.
Como se o mundo não tivesse nenhuma urgência.
Saí sem fazer barulho.
A área de serviço ainda estava fria quando abri a porta.
Minhas suculentas estavam alinhadas na prateleira, como eu havia deixado.
Ou quase.
Me aproximei.
Passei os olhos por cada uma.
Toquei a terra.
Ajustei um vaso.
Depois outro.
Girei um deles alguns milímetros.
Melhor.
Ou quase.
Peguei o regador.
Coloquei pouca água.
O suficiente.
Sempre o suficiente.
Fiquei ali mais tempo do que pretendia.
Observando.
Ajustando.
Respirando melhor a cada pequena correção.
Como se, naquele espaço, tudo ainda pudesse ser colocado no lugar.
— Você já está acordada.
A voz veio atrás de mim.
Virei.
Camila estava parada na porta.
Já vestida.
Roupa de treino.
Cabelo preso.
— Estou.
Ela me observou por um instante.
O olhar passou pelas plantas.
Depois voltou pra mim.
— Vou correr.
Assenti.
Esperei.
Ela não disse mais nada.
Nenhum “quer ir?”
Nenhum “vem comigo”.
Nada.
— Eu volto mais tarde — completou.
— Tá.
A resposta saiu fácil.
Simples.
Como se fosse suficiente.
Camila pegou as chaves.
— Não me espera pra nada.
Assenti de novo.
Ela saiu.
A porta fechou.
Fiquei parada por alguns segundos.
O regador ainda na mão.
Olhei para as plantas.
Uma delas estava levemente desalinhada.
Ajustei.
Depois outra.
E outra.
— Ela só foi correr.
A frase veio automática.
Baixa.
— É normal.
Continuei mexendo.
Alinhando.
Girando.
Ajustando milímetros.
Mas o espaço parecia… maior.
Silencioso demais.
Olhei para a porta.
Depois para o celular.
Nenhuma mensagem.
Voltei para as plantas.
Pressionei a terra com os dedos.
Verifiquei a umidade.
Passei a mão pela superfície da prateleira.
Um grão de poeira.
Removi.
— Ela volta.
Respirei fundo.
E permaneci ali.
Tentando manter tudo no lugar.
O dia já tinha escorrido quase todo quando a mensagem chegou.
Ela escreveu que tinha encontrado alguns alunos no parque e que eles a haviam convidado para apitar algumas partidas de futebol. Reforçou que não tinha hora para voltar.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
Li de novo.
Depois respondi:
— Está bem. Importa-se se eu for visitar meu pai?
A resposta não demorou.
— Não. Divirta-se.
Estranhei.
Camila quase nunca era indiferente quando meu pai surgia entre nós. Não gostei da facilidade com que ela permitiu, mas também não quis pensar demais no assunto. Naquele momento, qualquer brecha de silêncio me parecia valiosa demais para ser desperdiçada.
Procurei o contato do meu pai.
Eu já tinha voltado a falar com ele, mas ainda assim senti um aperto estranho antes de ligar. Como se, ao ouvir sua voz, alguma coisa em mim corresse o risco de ceder.
Ele atendeu no segundo toque.
— Hoje é meu dia de sorte. A ninfa mais bela de todas resolveu se lembrar de mim.
Sorri sem perceber.
— Oi, pai.
— Oi, minha querida. Está tudo bem?
A pergunta veio simples. Sem peso. Sem cobrança.
E foi justamente isso que me fez precisar de alguns segundos para responder.
— Está, sim. Pensei em ir te ver, se o senhor estiver em casa.
— Para você, eu sempre estou.
Conversamos brevemente e combinamos minha visita.
Desliguei.
Fiquei parada no meio da sala por alguns instantes, com o celular ainda na mão.
Então fui para o banheiro, tomei banho e me vesti com pressa demais para alguém que não estava atrasada.
Peguei as chaves do carro e desci.
Assim que me aproximei do veículo, parei.
O carro estava imundo.
A lataria tinha manchas de lama seca. O assoalho estava cheio de copos descartáveis, garrafas vazias, papéis amassados e embalagens que eu não consegui identificar de imediato. No banco de trás, livros e apostilas haviam sido jogados de qualquer jeito, uns sobre os outros, como se nada ali tivesse peso suficiente para merecer cuidado.
Fiquei olhando.
Sentindo aquela irritação silenciosa crescer dentro de mim.
Abri a porta.
Recolhi o lixo.
Um por um.
Copos.
Garrafas.
Papéis.
Depois juntei o material de trabalho de Camila e guardei tudo no porta-malas.
Ajeitei o banco.
Passei a mão no painel.
Respirei fundo.
Mas ainda não estava bom.
Dei partida e, antes de seguir para a casa do meu pai, parei em um posto de gasolina e lavei o carro.
Só depois consegui dirigir.
A casa do meu pai ficava em um condomínio antigo, arborizado, onde eu crescera e onde ainda parecia possível acreditar que o mundo podia ser gentil. Mesmo depois de eu ter me mudado, ele mantivera minha vaga na garagem. Dizia que eu sempre teria para onde voltar.
Estacionei ao lado do carro dele.
Antes mesmo que eu tocasse a campainha, a porta se abriu.
— Seja bem-vinda, minha querida.
Meu pai me abraçou e beijou meu rosto.
Fechei os olhos por um instante.
O abraço dele nunca me apertava demais.
Nunca me prendia.
Era só… abrigo.
— É bom ver o senhor de novo. — falei.
— E eu sempre gosto de ver você.
Ele me conduziu para dentro.
A casa estava como sempre: limpa, organizada, cheirando a chá e madeira encerada. Ali, a ordem não me sufocava. Talvez porque não tivesse sido construída contra o caos, mas a favor da paz.
— Não precisava agradecer por vir — ele disse, indicando o sofá. — Na verdade, se dependesse de mim, eu manteria você aqui para sempre.
Sorri e me sentei.
Meu pai tomou lugar ao meu lado, cruzou as pernas e segurou o joelho com as duas mãos. Havia fios brancos novos em seu cabelo ruivo, e algumas marcas mais nítidas no rosto, mas ele continuava tendo aquela mesma altivez calma que eu sempre admirei.
— E então? — perguntou. — Como foi a viagem?
Meu corpo enrijeceu um pouco antes que eu percebesse.
Baixei os olhos.
— Foi boa.
A resposta saiu rápida demais.
Pronta demais.
— Nós nos divertimos.
Meu pai não disse nada imediatamente.
E foi nesse silêncio que senti o rubor subir ao meu rosto.
— Mesmo assim, você está aqui… e sua esposa não — ele falou, por fim, sem dureza, apenas constatando.
Continuei olhando para as mãos.
As minhas estavam pousadas no colo.
Quietas.
Comportadas.
Como se eu mesma não quisesse correr o risco de me tocar demais.
— As coisas estão um pouco estranhas — murmurei, sem encará-lo.
Ele assentiu devagar.
Não pediu explicações.
Não me obrigou a continuar.
Era essa a diferença.
Meu pai nunca me puxava para dentro de uma conversa. Ele apenas deixava a porta aberta.
— Quando você quiser desabafar, eu estarei aqui — disse.
Olhei para ele.
Sorri.
Um sorriso pequeno, frágil, mas verdadeiro.
— Obrigada.
Ele se levantou e me chamou para a cozinha.
Meu pai sempre foi um excelente cozinheiro. Eu gostava de observá-lo escolher temperos, provar molhos, mexer panelas como quem conversava com elas. Cozinhar, para ele, nunca pareceu uma obrigação. Era uma forma de carinho.
Naquela tarde, sentei perto da bancada com um copo de chá gelado enquanto ele preparava o almoço.
— Tem certeza de que não quer ajuda? — perguntei.
— Tenho. — Ele olhou para mim e sorriu. — É uma satisfação poder mimar você.
Sorri de volta.
— Fico feliz em saber disso.
Ele voltou sua atenção para as panelas, e eu aproveitei para olhar o celular.
Camila havia feito algumas postagens nas redes sociais. Em todas, aparecia sorrindo, cercada pelos alunos, parecendo perfeitamente à vontade em um mundo do qual eu não fazia parte. Aquilo me tranquilizou mais do que deveria. Pensei que, talvez, o tempo longe de mim a deixasse mais leve. Talvez, quando nos reencontrássemos, conversar fosse mais fácil.
— Já que está com o celular na mão… — meu pai falou sem me olhar — importa-se de chamar Odete e Suzana para tomar chá conosco? Aposto que elas vão gostar de ver você.
Levantei os olhos.
— O senhor tem olhos na nuca?
Ele riu.
— Professores desenvolvem certas habilidades especiais. Do contrário, a profissão não seria possível.
Abri a conversa com minha tia Odete e escrevi para ela.
Odete era irmã do meu pai e, como ele, apaixonada por literatura. Mas, enquanto ele escolhera ensinar, ela escolhera escrever. Sempre admirei isso nas duas trajetórias: o modo como ambas cabiam nela.
Ela respondeu pouco depois, aceitando o convite.
— Elas vêm — falei.
— Isso é bom. — Meu pai desligou o fogo e se sentou diante de mim com a jarra de chá. Serviu-se e ergueu o copo. — É bom ter a família reunida.
Ergui o meu em resposta.
— Concordo.
Ele sorriu de canto.
— Em honra de quê estamos brindando?
Pensei por um instante.
Depois respondi:
— À maravilha de estarmos juntos.
O sorriso dele se abriu por completo.
Bebeu um gole generoso de chá e, logo em seguida, sugeriu que almoçássemos no jardim.
Fomos juntos levar as coisas para fora.
O jardim dos fundos era um dos orgulhos do meu pai. Depois da aposentadoria, ele tinha se dedicado a ele com uma seriedade quase divertida. Os canteiros estavam cheios de flores, havia pequenos recipientes com água para pássaros, suportes pendurados para comida, e uma árvore ampla lançava sombra sobre a mesa.
— Bem melhor do que qualquer guarda-sol, não é? — ele perguntou, satisfeito.
— Muito melhor. — Passei os olhos ao redor. — O senhor está se saindo melhor do que muito paisagista.
Ele riu.
— A internet ajuda. Demorei a me render, mas os tutoriais me ensinaram mais do que eu imaginava.
Arrumamos a mesa e almoçamos juntos, devagar, sem pressa de terminar.
Na casa do meu pai, o tempo não parecia um inimigo.
— Senti falta da sua comida — falei depois de alguns minutos.
Ele sorriu.
— Não precisa esperar a saudade apertar. Pode me visitar quando quiser.
Fez uma breve pausa antes de completar:
— Sozinha ou acompanhada.
Assenti.
Não respondi na hora.
Levantei para tirar a mesa, e ele tentou me ajudar, mas eu o impedi.
— O senhor já fez muito. Deixe a limpeza comigo.
— Está certo.
Ele me acompanhou até a cozinha, mas em vez de insistir, sentou-se numa cadeira, pegou o jornal e começou a procurar as matérias de cultura. Enquanto eu lavava a louça, ele lia em voz alta pequenos trechos para mim, comentando nomes, livros, autores, como se nada no mundo estivesse realmente perdido enquanto ainda existissem histórias.
Adorei aquele instante.
Adorei mais do que devia.
Porque ele era simples.
E justamente por isso parecia raro demais.
Quando terminamos de fazer um bolo de baunilha e uma nova jarra de chá gelado, a campainha tocou.
Corri para atender.
Minhas tias chegaram trazendo sacolas, risos e aquela intimidade calorosa que só algumas pessoas sabem oferecer sem parecer invasivas.
Odete me abraçou primeiro. Depois Suzana.
Fiquei feliz em vê-las.
Feliz de um jeito que doeu um pouco.
— É tão bom ver vocês — sinalizei.
Suzana sorriu para mim antes de perguntar, também em Libras:
— Como foi a lua de mel?
Meu corpo falhou por um segundo.
Só um.
Mas foi o suficiente para eu sentir.
— Foi boa — sinalizei de volta.
Tentei sustentar uma expressão compatível com a resposta.
Não consegui.
Vi quando as duas perceberam.
E adorei o fato de nenhuma delas insistir.
Fomos para a cozinha.
Elas haviam trazido alguns doces para o chá da tarde, e mais uma vez meu pai insistiu para que tudo fosse servido no jardim.
Conversamos bastante.
Sobre o novo livro de Odete.
Sobre a próxima exposição de Suzana.
Sobre as noites em claro das duas.
Sobre o modo como se conheceram.
Eu sempre gostei de ouvi-las contar essa história. Do jeito como Odete se apaixonou primeiro pelas pinturas, e só depois pela pintora. Do cuidado que teve para aprender Libras e conversar com Suzana sem intermediários. Do fato de que, entre elas, nada parecia baseado em força. Tudo parecia escolha.
Enquanto observava as duas trocando sinais, sorrisos e pequenas provocações, senti um aperto estranho no peito.
Não exatamente inveja.
Talvez reconhecimento.
Talvez falta.
Talvez só a percepção súbita de que existe uma diferença brutal entre ser puxada e ser acolhida.
Suzana mostrou algumas fotos de obras novas.
Odete falou do bloqueio criativo que finalmente havia superado.
Meu pai acompanhava tudo com um orgulho sereno, como se o simples fato de estarmos ali, juntas, já fosse motivo suficiente para justificar o dia.
As horas passaram depressa.
Quando anoiteceu, despedi-me dos três e caminhei até o carro sentindo uma tristeza mansa, dessas que não ferem na hora, mas avisam que vão doer depois.
Sentei ao volante.
Fiquei alguns segundos parada, olhando a fachada da casa.
A luz da varanda.
As plantas.
A janela da cozinha.
Tudo tão familiar.
Tudo tão inteiro.
Naquele momento, compreendi uma coisa com clareza:
apesar de tudo,
eu ainda tinha um porto seguro no mundo.
Fim do capítulo
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Thalita31
Em: 11/04/2026
Olá, autora!
Confesso que, entre as suas histórias publicadas aqui no site, essa foi a que mais me chamou a atenção.
Gostei de saber que uma das personagens tem questões de saúde mental.
Porém, tem algum entrave nesse casamento delas que eu acredito que não é só por conta da saúde mental de Helena.
E isso tem suscitado a minha curiosidade.
Enfim, parabéns pela escrita.
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Elin Varen Em: 11/04/2026 Autora da história
Nossa, muito obrigada pelo seu comentário
Fico muito feliz que a história tenha te chamado atenção!
E sim… você está certa
Não é só a saúde mental da Helena que influencia esse casamento.
Tem outras coisas acontecendo ali — algumas bem sutis — e a ideia é que isso vá ficando mais claro com o tempo.
Obrigada por ler com tanta atenção, isso significa muito pra mim!