Capítulo 27

Capitulo 27 - Não há pecado em florescer

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 27 - Não há pecado em florescer

 

Miriam parou por um segundo.

O olhar caiu no braço da Rebeca.

Os números.

Levemente borrados.

Mas ainda ali.

Ela não comentou.

Só se aproximou.

Pegou o telefone.

— Tem muita gente preocupada com você. Que tal avisar que você chegou bem?

Rebeca olhou.

Pegou o telefone.

Miriam já estava se afastando.

— Eu vou estar na cozinha.

A sala ficou silenciosa.

Rebeca olhou para o próprio braço.

Os números já não eram tão nítidos.

Mas reconhecíveis.

Ela passou o dedo de leve.

Como se aquilo ajudasse a fixar.

Discou.

Um número de cada vez.

Devagar.

O som da chamada ecoou baixo.

Uma vez.

Duas.

Três.

— Alô?

A voz veio do outro lado.

Baixa.

Rouca.

Rebeca parou.

— Janis?

— Rebeca?

E então, o som mudou.

Como se algo tivesse quebrado.

— Onde você tá?

A voz saiu rápida.

Apressada.

Rebeca respirou.

— Eu cheguei. Tá tudo bem.

Do outro lado…

silêncio.

Mas não vazio.

Cheio demais.

— Eu achei que…

Janis parou.

Tentou de novo.

— Você demorou.

Rebeca apertou o telefone.

— Eu sei.

Do outro lado da linha, o quarto estava escuro.

A camiseta de Rebeca jogada sobre o travesseiro.

Amassada.

Janis estava deitada.

O rosto afundado no tecido.

O cheiro ainda ali.

Fraco.

Mas suficiente.

Ela tinha chorado.

Muito.

Os olhos ainda pesados.

O telefone apertado contra o ouvido.

— Você tá mesmo bem?

Rebeca fechou os olhos.

— Tô. Eu… gostei daqui.

— Ainda bem.

— Eu tô te esperando.

Do outro lado…

um som baixo.

Quase um riso.

Quase um choro.

— Meu esquilinho fofo.

Rebeca fechou os olhos.

E sorriu.

Dessa vez sem segurar.

***

Na manhã daquele dia, depois de se despedir de Rebeca, Janis foi pra casa.

A porta abriu e entrou.

O cheiro de comida veio primeiro.

— Chegou? — Ester perguntou da cozinha.

Janis apareceu no vão da porta.

— Uhum.

Ester olhou.

— Tá tudo bem?

Janis assentiu.

Mas não respondeu.

Ficou ali por um segundo.

E então virou.

Foi pro quarto.

O quarto estava do mesmo jeito.

Como se nada tivesse acontecido.

Janis fechou a porta.

Encostou.

Respirou.

Foi até a mesa.

Pegou o celular antigo.

Passou o dedo pela tela.

Sem bateria.

— Ótimo.

Conectou o carregador.

Deixou ali.

Sem esperar ligar.

Olhou em volta.

Parou.

A cadeira.

A camiseta dobrada.

Esquecida.

Ela tinha separado pra devolver.

Mas…

não deu tempo.

Janis se aproximou.

Pegou o tecido.

Devagar.

Levou ao rosto.

O cheiro ainda estava ali.

Fraco.

Mas inconfundível.

Ela fechou os olhos.

E deitou.

Abraçada à camiseta.

Como se aquilo fosse suficiente.

Como se pudesse segurar.

Mas não segurava.

Nada.

O primeiro choro veio baixo.

Quase preso.

Depois, quebrou.

Sem controle.

Sem medida.

O corpo inteiro tremendo.

Como se tudo que ela não disse…

tivesse ficado preso até agora.

E agora não coubesse mais.

O tempo passou.

Devagar demais.

A luz mudou no quarto.

Do claro da manhã…

para o tom mais quente da tarde.

Janis não se mexeu.

A camiseta ainda presa entre os braços.

O celular carregando ao lado.

Ela não olhou.

Não quis.

Ester bateu na porta.

— Janis?

Nenhuma resposta.

— Você precisa comer alguma coisa.

Silêncio.

— A Rebeca não é a única coisa que existe na sua vida.

Janis não respondeu.

Nem se moveu.

Ester ficou ali por um segundo.

Depois…

foi embora.

O quarto começou a escurecer.

A luz do fim de tarde entrou pela janela.

Janis abriu os olhos.

Sem perceber quando tinha fechado.

O corpo pesado.

A cabeça confusa.

Mas o aperto…

ainda ali.

O som da campainha ecoou pela casa.

Uma vez.

Duas.

Janis não se mexeu.

Ester abriu a porta.

— Débora?

A surpresa veio rápida.

— Eu vim ver como vocês estão.

A voz baixa.

Cansada.

Ester deu espaço.

— Entra.

Pausa.

— Ele…?

Débora balançou a cabeça.

— Sumiu o dia inteiro. Nem na igreja apareceu.

Ester assentiu.

Não parecia surpresa.

— Ela tá no quarto.

Débora olhou na direção do corredor.

Hesitou.

E então foi.

Passos leves.

Parou diante da porta.

Bateu.

— Janis?

Silêncio.

— Sou eu.

A porta abriu devagar.

Janis apareceu.

Os olhos vermelhos.

O rosto cansado.

Ainda segurando a camiseta.

Débora parou.

Não como julgamento.

Como reconhecimento.

Janis não respondeu.

Só deu espaço.

Débora entrou devagar.

O olhar percorreu o quarto.

A cama desfeita.

Roupas espalhadas.

— Tá um pouco bagunçado — disse, sem energia.

Débora inclinou levemente a cabeça.

— Não. Tá estiloso.

Janis soltou um pequeno riso.

Curto.

Quase sem querer.

Débora deu mais alguns passos.

— Eu sei que tudo isso pode parecer injusto…

Janis não levantou o olhar.

— Se ela parar de ser saco de pancada, já é o suficiente pra mim.

Silêncio.

Pesado.

Débora não respondeu de imediato.

Ficou ali.

Absorvendo.

Como se não tivesse defesa pronta.

Janis sentou na cama.

— Tem certeza de que ela vai ficar bem lá?

Débora respirou fundo.

— Muito mais do que se ficasse aqui.

Antes que Janis dissesse qualquer coisa...

— Eu queria te agradecer.

Janis franziu levemente a testa.

— Pelo quê?

— Por estar com ela.

Silêncio.

— Eu sei que tá tudo confuso agora…

A voz falhou um pouco.

Mas seguiu.

— Mas com o tempo você vai ver. A Rebeca vai ter um futuro melhor.

Janis olhou.

De verdade.

— Eu odiaria ver minha filha se tornando…

Débora parou.

Escolhendo.

— ...alguém como eu.

Janis inclinou levemente a cabeça.

— A senhora é legal.

Débora soltou um pequeno ar pelo nariz.

Quase um riso.

— Sou. Mas sou prisioneira de um homem que dá mais valor às próprias gravatas do que a mim.

O silêncio que veio depois…

não era vazio.

Era cheio demais.

— Eu também queria te dizer outra coisa.

Janis levantou o olhar.

— Você fez bem pra ela.

Pausa.

— Muito mais do que imagina.

Janis franziu levemente a testa.

— Eu só…

Parou.

Débora balançou a cabeça.

— Não.

Silêncio.

— Você amou a Rebeca…

A voz saiu mais baixa.

Mais cuidadosa.

— ...de um jeito muito bonito.

Janis não respondeu.

Mas também não desviou o olhar.

— E isso ajudou ela a florescer.

Débora respirou fundo.

— E não há pecado nenhum em florescer.

Silêncio.

Denso.

Janis engoliu em seco.

Como se aquela frase tivesse acertado em cheio.

O silêncio ainda pairava no quarto.

Débora observou por mais um instante.

— E agora?

Janis franziu levemente a testa.

— Agora o quê?

— O que você vai fazer?

Janis olhou para a camiseta nas mãos.

Não respondeu.

— Minha filha está esperando por você.

A frase veio firme.

— Ficar deitada na cama, chorando o dia todo não vai resolver nada.

Silêncio.

— Você é uma mulher de atitude. Melhor agir como tal.

Janis respirou fundo.

Mas não se moveu.

— Ela ainda não ligou.

Débora inclinou levemente a cabeça.

E, quando respondeu…

a voz saiu calma demais.

Quase como certeza.

— Ela vai ligar.

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

E então, o celular vibrou.

O som pequeno.

Mas alto o suficiente.

Janis travou.

Olhou.

A tela acendeu.

Um número desconhecido.

Mas não desconhecido o suficiente.

Ela pegou o telefone.

A mão tremendo um pouco.

Olhou para Débora.

Débora apenas assentiu.

— Vai.

Janis respirou.

E atendeu.

— Alô?

A porta se abriu, sem barulho.

Débora saiu.

Não olhou para trás.

Fechou com cuidado.

A sala estava silenciosa.

Ester já estava lá.

Sentada.

Uma xícara de café nas mãos.

Outra na mesa.

Esperando.

Débora parou por um segundo.

Observou.

Como se já soubesse.

Ester estendeu a xícara.

— Você vai precisar.

Débora pegou.

Ainda em silêncio.

Sentou.

Segurou o café.

O calor subindo pelas mãos.

Ester não apressou.

Só esperou.

Até que, Débora levantou o olhar.

— Precisamos conversar.

Débora segurava a xícara com as duas mãos.

Como se precisasse daquilo.

Ester observava.

— Agora que a Rebeca foi embora… os olhos do Moisés vão se voltar pra você.

Débora não negou.

Só assentiu.

— Eu vou levar a Janis — Ester continuou. — Pra casa da minha sogra. A mãe do pai dela.

Débora levantou levemente o olhar.

— Vai ser melhor pra ela.

— E, nesse meio tempo…

Ester apoiou a xícara na mesa.

— eu posso arrumar um canto pra você.

Débora hesitou.

— Não quero ser um incômodo.

— E não vai ser.

Simples.

— Não vai ser nada grandioso… mas vai ser seguro.

Débora olhou para o café.

Pensando.

— A Rebeca não vai voltar.

Débora levantou o olhar.

— Eu conheço a Miriam tanto quanto você. Ela não vai devolver a menina.

Silêncio.

— Mesmo que ele tente…

Um pequeno suspiro.

— ...mobilizar a guarda nacional.

Débora soltou um ar leve pelo nariz.

— Foi uma pena a Rute não ter aceitado quando teve a chance.

Ester assentiu.

— Ela estava tão preocupada em não desapontar o pai… que acabou renunciando a si mesma.

Silêncio.

— Pelo menos o Josué é um bom homem.

— Você não teve a mesma sorte.

Débora abaixou os olhos.

Não respondeu.

— Me deixa te ajudar.

A voz de Ester veio mais baixa agora.

Mais firme.

— Você é uma mulher nova.

Pausa.

— Ainda dá tempo de recomeçar.

— Eu tenho algum dinheiro guardado — Débora disse, depois de um tempo. — ...das aulas de música.

Ester assentiu.

— Melhor ainda.

Pausa.

— Eu levo a Janis no fim de semana… e já aproveito pra procurar uma casa pra você.

Débora assentiu.

— Obrigada.

Ela terminou o café de uma vez.

Levantou.

— Eu preciso ir. O Moisés não pode desconfiar que eu estive aqui.

Ester não tentou impedir.

Só observou.

Enquanto Débora saía.

***

— Eu senti sua falta.

A voz da Rebeca saiu baixa.

Do outro lado da linha, um pequeno silêncio.

— Eu também.

Simples.

Sem esforço.

Rebeca apertou o telefone contra o ouvido.

— Vem pra cá.

Do outro lado, um sorriso apareceu.

Mesmo que ela não pudesse ver.

— Quantas vezes eu vou precisar repetir, esquilinho?

A voz da Janis veio leve.

— Daqui a pouco eu apareço aí.

Rebeca fechou os olhos.

Um sorriso pequeno.

Dessa vez sem medo.

E, pela primeira vez desde que saiu de casa…

a saudade não doía do mesmo jeito.

***

Rebeca ficou com o telefone na mão por mais um instante.

Como se ainda estivesse ouvindo.

Mesmo depois do silêncio.

Devagar… afastou o aparelho do rosto.

Olhou para a base.

E colocou de volta.

Com cuidado.

O clique foi baixo.

Mas suficiente.

Ela ficou ali por um segundo.

Respirou.

E então virou.

Seguiu para a cozinha.

Miriam estava lá.

Como se já soubesse.

Encostada de leve na bancada.

Uma xícara de chá nas mãos.

Outra sobre a mesa.

Esperando.

Rebeca entrou.

Parou.

Miriam deslizou a xícara na direção dela.

— Ainda tá quente.

Simples.

Rebeca se aproximou.

Sentou.

Segurou a xícara com as duas mãos.

O calor subindo devagar.

Confortando.

— Tá tudo bem?

A pergunta veio simples.

Rebeca assentiu.

— Tá.

Pausa.

Miriam observou por um segundo.

— Quando as coisas se acertarem…

Rebeca levantou o olhar.

— ...você pode convidar ela pra vir aqui.

Silêncio.

Rebeca piscou.

— A senhora sabe quem ela é?

Não foi rude.

Foi genuíno.

Miriam inclinou levemente a cabeça.

— Sei.

Pausa.

— Ela é uma moça que não tem medo de ir atrás do que quer.

Silêncio.

— E isso é raro de se ver.

Rebeca ficou parada.

Processando.

Como se aquilo não encaixasse completamente.

Mas também…

como se fizesse sentido.

 

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

2
Foto de Ana lucia

Ana lucia

21/04/2026 às 03:04

as duas mães se entendem de uma maneira silenciosa,será que ela vai se libertar tambem?

E

Elin Varen 27/04/2026 às 08:32

Existem entendimentos que acontecem sem precisar de muitas palavras. Quando duas mulheres reconhecem a dor e a coragem uma da outra, algo se comunica no silêncio. Quanto à liberdade… às vezes ela começa justamente quando alguém percebe que ainda existe escolha.
M

menteincerta

21/04/2026 às 05:16

A conexão entre a Débora e a Ester é muito bonita. Sempre me anima ver duas mulheres se ajudando e se unindo para ficar bem e para acolher.

As meninas vão sofrer um pouco com a saudade, mas tudo é por uma boa causa.

O que me preocupa agora é a reação do Moisés quando voltar, o que ele pode fazer contra a Débora pra descontar a raiva

E

Elin Varen 21/04/2026 às 08:49

Fico muito feliz que você tenha gostado dessa conexão entre a Débora e a Ester. Também acho bonito quando o cuidado vem da união e da força entre mulheres.

A saudade certamente pesa… mesmo quando a escolha é pela proteção e por algo melhor.

E sobre o Moisés…
Algumas reações nascem mais do orgulho ferido do que de qualquer outra coisa. Vamos ver como isso se desenrola.

Obrigada por acompanhar com um olhar tão sensível.
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