Capitulo 24 - Ela Escolheu Ser Vista
Capítulo 24 - Ela Escolheu Ser Vista
— Fica quieta.
Débora encostou o gelo no braço da Rebeca antes mesmo que ela pudesse protestar.
— Eu …
— Quieta.
A voz não era dura. Era prática. Quase automática.
Rebeca segurou o ar, mas não por causa do gelo.
Débora ajustou a toalha com cuidado, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.
— Vai ficar roxo — murmurou.
— Já tá.
— Vai ficar mais.
Silêncio.
Débora não tirou o gelo. Também não perguntou como aconteceu. Nem precisava.
— Você sempre foi muito boa em… aguentar — ela disse, depois de um tempo.
Rebeca deu de ombros.
— Não é tão difícil.
Débora soltou um suspiro baixo.
— É sim.
A resposta veio simples. Sem discussão.
Ela finalmente tirou o gelo, mas não se afastou.
— Eu tenho muito orgulho de você.
Rebeca franziu levemente a testa, como se não tivesse entendido direito.
— Por quê?
Débora hesitou. Não porque não soubesse… mas porque sabia demais.
— Porque você não se perdeu.
A frase ficou entre elas.
Rebeca desviou o olhar.
— Eu tô aqui, né.
— Não é a mesma coisa — Débora respondeu.
Silêncio de novo.
Dessa vez, mais pesado.
— A Miriam vai te buscar — ela disse, como quem muda de assunto… mas não muda. — Você vai passar um tempo lá.
Rebeca olhou de volta.
— Eu não preciso...
— Eu sei que você acha que não.
Débora apoiou a mão de leve no braço dela — não onde estava o gelo.
— Mas precisa.
Rebeca ficou quieta.
— É só por um tempo — Débora continuou. — Até as coisas… se acalmarem.
Ela não disse: ele.
Mas estava ali.
— Eu vou ficar bem — Rebeca disse, quase automático.
Débora assentiu.
— Eu sei.
E dessa vez… não era concordância.
Era fé.
Ela se levantou, pegando a toalha.
— Arruma suas coisas. Não precisa levar tudo.
Rebeca assentiu.
Débora deu dois passos, mas parou.
Sem se virar, disse:
— E não é porque você tá saindo daqui… que você tá desistindo.
Rebeca não respondeu.
Mas o corpo dela, pela primeira vez, não estava rígido.
Rebeca não lembrava exatamente quando tinha sido a última vez que viu Miriam.
Mas recordava dela.
Não como se lembrasse de alguém próximo.
Mais como se lembrasse de um lugar onde já esteve, sem saber explicar por que parecia seguro.
As visitas eram antigas.
Da época em que Rute ainda passava mais tempo fora de casa do que dentro.
Depois do casamento… aquilo simplesmente parou.
Como várias outras coisas.
Miriam nunca levantava a voz.
Nunca parecia com pressa.
E, ainda assim, ninguém atravessava o espaço dela sem perceber.
Nem Moisés.
Era estranho pensar nisso agora.
Porque, perto dela…
ele sempre parecia menor.
***
— Você vai buscar ela amanhã?
Júnior já estava sentado no sofá quando Miriam entrou.
Não parecia surpreso. Só… esperando confirmação.
— Vou.
Ele assentiu, olhando para as mãos.
— Já passou da hora.
Miriam observou o filho por um instante.
— Você sabia?
Ele deu um meio sorriso, sem humor.
— Não sou cego.
Júnior abriu a gaveta sem saber exatamente o que estava procurando.
Só precisava fazer alguma coisa com as mãos.
Rebeca.
Ele tentou lembrar de quando aquilo tinha começado.
Mas não tinha um começo claro.
Ela sempre foi… assim.
Não o tempo todo.
Quando eram pequenos, ela corria mais que ele.
Ria alto. Sem pensar.
Era divertida.
De verdade.
Mas tinha um detalhe.
Um pequeno atraso entre a risada… e o silêncio.
Como se, no meio do riso, ela lembrasse de alguma coisa.
Ou de alguém.
Ela sempre olhava.
Não de forma óbvia.
Não o suficiente pra alguém apontar.
Mas ele via.
Os olhos procurando o pai…
como quem mede até onde pode ir.
E voltando um pouco antes de ultrapassar.
Júnior fechou a gaveta com mais força do que precisava.
— Eu só não sabia… o quanto.
A frase saiu mais baixa.
Miriam se aproximou, ficando de pé na frente dele.
— Ninguém sabia tudo.
— Mas sabia o suficiente — ele respondeu.
Ela não negou.
— E o hotel? — ele perguntou, mudando de assunto. — É por causa dela, né?
— É.
— Pra ela não se sentir… deslocada. Observada.
Ele assentiu devagar.
— Faz sentido.
Mais um silêncio. Menor dessa vez.
— Ela vai achar estranho — Júnior disse. — Chegar numa casa vazia.
— Melhor do que chegar numa casa cheia e não conseguir respirar.
Ele concordou com a cabeça.
— Ela tem medo dele.
Não era pergunta.
Miriam respondeu no mesmo tom:
— Tem.
Júnior apertou as mãos.
— Eu sempre achei que… era só jeito dele.
Miriam não respondeu de imediato.
— Às vezes a gente chama de “jeito”… pra não ter que chamar de outra coisa.
Júnior soltou o ar pelo nariz.
— É.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, depois levantou o olhar.
— Ela vai ficar bem aqui.
— Vai.
— E você?
Miriam inclinou levemente a cabeça.
— Eu também.
Ele passou a mão na nuca.
— Tá bom.
Voltou a caminhar pelo quarto. Então parou.
— Se ela precisar de qualquer coisa… — começou.
— Eu sei.
Ele assentiu.
— E… se ele aparecer aqui…
Miriam não o deixou terminar.
— Moisés não manda em minha casa.
A firmeza foi suficiente.
Júnior respirou fundo.
— Tá.
Deu mais dois passos, mas olhou por cima do ombro.
— Ainda bem que ela tem você.
Miriam não respondeu na hora.
Só depois que ele saiu do cômodo, ela disse, mais pra si do que pra ele:
— Ela sempre teve.
***
Rebeca ainda estava acordada quando o dia amanheceu.
O quarto estava trancado.
De novo.
Rebeca encostou a testa na porta por alguns segundos, sentindo a madeira fria.
Do lado de fora, o silêncio já não era vigilância. Era ausência.
Ele tinha saído.
Ela respirou fundo.
Dessa vez… não foi automático.
Não foi medo.
Foi decisão.
Rebeca se afastou da porta, caminhou até a janela e abriu com cuidado.
O ar da rua entrou como um choque.
Por um instante, ela hesitou.
Depois, subiu.
E pulou.
O impacto no chão subiu pelas pernas, mas ela não parou.
Não olhou para trás.
A rua parecia comum demais para o que ela estava prestes a fazer.
Casas, portões, carros estacionados.
Tudo igual.
Menos ela.
Rebeca caminhou até a casa de irmã Dalila.
Tocou a campainha.
E não esperou.
Se afastou antes mesmo que alguém atendesse.
Seguiu andando.
A casa de Janis estava logo ali.
Rebeca parou por um segundo, respirando fundo… como se estivesse prestes a atravessar uma linha invisível.
Então bateu.
A porta abriu rápido.
Janis.
O olhar primeiro — confuso.
Depois — preocupado.
— Rebeca…?
Ela não respondeu.
Só segurou a mão dela.
E puxou.
— O que tá acontecendo? — Janis perguntou, andando ao lado dela, tentando acompanhar o ritmo.
Rebeca não desacelerou.
— Confia em mim.
Só isso.
O parque estava quase vazio.
O balanço rangia baixo com o vento.
Rebeca soltou a mão de Janis e se sentou.
O corpo ainda vibrava.
Não de medo.
De alguma coisa mais intensa.
Janis parou na frente dela.
— Você tá me assustando.
Rebeca levantou o olhar.
E então viu.
Dalila.
Parada um pouco mais distante, fingindo não estar olhando.
Mas olhando.
Claro que estava.
Rebeca sabia que estaria.
Era esse o ponto.
Ela voltou o olhar para Janis.
Por um segundo… tudo ficou quieto.
Como se o mundo estivesse esperando.
Janis franziu levemente a testa.
— Rebeca…?
Rebeca segurou o rosto dela com as duas mãos.
E puxou.
O beijo veio direto.
Sem aviso.
Sem espaço para dúvida.
Longo.
Firme.
Como se estivesse dizendo algo que não cabia em palavras.
Não era só para Janis.
Era para quem estivesse vendo.
Para quem fosse repetir.
Para quem fosse levar aquilo adiante.
Quando se afastou, o ar voltou pesado.
Janis ainda estava próxima, respirando rápido, tentando entender.
Rebeca olhou além dela.
Dalila já não fingia mais.
Estava parada, imóvel por um segundo.
Depois virou.
E começou a andar rápido.
Direção conhecida.
Mercado.
Rebeca soltou um pequeno sorriso.
Não de felicidade.
De certeza.
Voltou o olhar para Janis.
— Vai pra casa.
— O quê?
— Vai.
Janis não se moveu.
— Rebeca, o que você fez?
Ela passou o polegar de leve pelo rosto dela.
— Eu precisava.
— Ele vai...
— Eu sei.
Silêncio.
— Não quero que você esteja aqui quando ele chegar.
A firmeza veio calma.
Sem tremor.
Janis hesitou.
— Rebeca…
— Vai.
Dessa vez, ela foi.
Devagar no começo.
Depois mais rápido.
Até desaparecer.
O parque estava quase vazio.
O vento passava leve, fazendo o balanço ranger baixo.
Rebeca sentou.
Por um instante… ficou parada.
Então começou a se balançar.
Devagar no começo.
Os pés empurrando o chão, o corpo indo e voltando.
Mais uma vez.
E outra.
Como se não houvesse nada ao redor.
Como se não houvesse depois.
Só aquele movimento.
Só aquele instante.
Sem tensão no rosto.
Sem cálculo no olhar.
Sem aquele cuidado constante de não ultrapassar limites invisíveis.
Rebeca continuava.
Mais alto agora.
O vento puxando o cabelo.
O corpo solto.
Livre.
Os passos vieram antes da voz.
— Rebeca.
Nada.
Ela continuou.
— Rebeca, para.
O tom mais firme.
O balanço seguiu.
— REBECA.
Agora alto.
Cortando o ar.
Ainda assim… ela não parou.
Moisés atravessou o espaço em poucos passos.
A mão veio direto na corrente.
O balanço parou de uma vez.
O corpo de Rebeca avançou pelo impacto.
Ele puxou.
— Desce.
Ela segurou.
— Não.
Baixo.
Mas claro.
Ele puxou mais forte.
Até os dedos dela cederem da corrente.
Rebeca caiu de pé, desequilibrada.
Ele segurou o braço dela.
Apertou.
— Vamos.
— Não.
Dessa vez, mais firme.
— REBECA!
O grito veio como ordem.
Como sempre vinha.
Mas dessa vez…
Rebeca puxou o braço.
Se soltou.
E olhou direto para ele.
— Não.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Não era ausência de som.
Era ruptura.
O impacto veio rápido.
A mão atravessou o rosto dela.
Rebeca caiu no chão.
O mundo girou por um segundo.
Moisés puxou Rebeca pelo braço de novo.
Sem cuidado.
Arrastando.
Ela não resistiu.
Mas também não ajudou.
O balanço ainda se movia levemente.
Indo e voltando.
Sozinho.
***
A porta bateu quando os dois entraram na casa.
Rebeca foi arremessada no sofá.
Moisés falava alto.
Não era exatamente grito. Ainda.
Era aquela voz ampliada, projetada, treinada em púlpito.
— Você perdeu completamente o temor. Está envergonhando esta casa.
Rebeca estava sentada no sofá.
As mãos apoiadas ao lado do corpo.
Os pés juntos.
A coluna ereta.
Ela não respondia.
Mas não porque não tivesse o que dizer.
Pelo contrário.
A cabeça dela estava cheia.
Cheia da imagem dele no parque.
Cheia do barulho seco da própria pele encontrando a mão dele.
Agora, enquanto ele falava, ela observava.
Observava como o peito dele inflava entre uma frase e outra.
Como ele endireitava os ombros.
Como a voz tentava ocupar mais espaço do que o corpo realmente precisava.
Ele quer parecer grande, ela pensou.
Um grande homem.
Um homem de Deus.
Um pai zeloso.
Mas o que ela via era outra coisa.
Via um homem adulto.
Com o dobro do tamanho dela.
Diante de uma menina magrela.
Falando sobre honra enquanto a ameaçava com um cinto de couro.
Como quem tenta domar uma fera.
A boca dela quase se moveu.
Não em desafio.
Em constatação.
Pequeno.
Ele falava, falava, falava.
As palavras não a atingiam porque não encontravam espaço.
Já não havia espaço dentro dela para aquelas acusações.
Ela não estava se defendendo.
Estava medindo.
Cada gesto.
Cada pausa.
Cada respiração mais pesada.
E quanto mais ela media, menor ele parecia.
Foi isso que o irritou.
Não o silêncio.
Mas a ausência de efeito.
— Está me ouvindo? — ele exigiu.
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que seria prudente.
Não havia deboche.
Havia análise.
E isso o enfureceu.
Ele puxou o cinto.
O som do couro deslizando pelos passadores cortou a sala.
Rebeca não se levantou.
Não por submissão.
Mas porque não correria.
Não daria a ele a imagem da fera indomável.
Quando o primeiro golpe veio, ardeu.
Claro que ardeu.
A dor subiu rápida, quente.
Mas ela mordeu o lado interno da bochecha e pensou:
Ele precisa disso.
Precisa que eu reaja.
Precisa que eu chore.
Precisa que eu implore.
O segundo golpe veio mais forte.
Ela piscou. Apenas isso.
Por um instante, sentiu a raiva subir.
Não como medo.
Como algo mais perigoso.
Um impulso de levantar, empurrar, gritar de volta.
E ali estava o verdadeiro risco.
Se eu gritar agora, eu viro ele.
Então ela ficou.
Imóvel.
As palavras dele continuavam — já menos firmes, mais desordenadas.
Era como assistir ao homem do tempo explicar uma tempestade que não a atingia mais.
Quando ele finalmente parou, respirava pesado.
Ela continuava sentada.
Inteira.
Não quebrada.
Ele saiu da sala como quem precisa bater uma porta para provar que ainda existe.
***
O som do carro veio de fora.
Freando.
Parando.
Moisés apareceu no portão.
E parou.
Congelou.
O carro de Miriam.
A porta abriu.
Miriam desceu primeiro.
Augusto logo atrás.
Nenhum dos dois parecia surpreso.
Nem hesitante.
Só… decididos.
Quando entraram na sala, encontraram Rebeca exatamente onde estava.
Sentada.
O rosto marcado.
A pele ainda vermelha.
Mas os olhos…
Firmes.
Moisés ficou em pé, sem saber o que fazer com as próprias mãos.
Pela primeira vez…
Sem controle.
***
Moisés andava de um lado para o outro.
— Eu flagrei ela — disse, apontando na direção da filha — no meio da rua. Com libertinagem. Com outra menina.
A palavra caiu na sala como uma pedra.
Miriam não respondeu.
Augusto também não.
Foi a própria Rebeca que falou.
Baixo.
Mas claro.
— Janis.
Moisés parou.
— O quê?
Rebeca levantou os olhos.
— O nome dela é Janis.
Silêncio.
Todos olharam para ela.
Rebeca sustentou o olhar.
Por um instante ninguém disse nada.
Miriam observou a menina por um segundo.
Depois voltou os olhos para Moisés.
— Seja como for — disse com calma — isso não muda o que acabou de acontecer aqui.
Moisés abriu a boca.
— Você não entende...
Miriam o interrompeu, sem elevar a voz.
— Não.
Pequena pausa.
— Quem não entende é você.
Ela deu um passo à frente.
— Independentemente do que você tenha visto na rua… você não está mais em posição de decidir o que é melhor para a Rebeca.
A frase ficou suspensa na sala.
Augusto não disse nada.
Mas também não discordou.
E pela primeira vez naquela dia, Moisés não teve resposta imediata.
Fim do capítulo
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