Capitulo 21 - Entre casas
Capítulo 21 - Entre casas
A mesa estava cheia.
O prato ainda estava pela metade.
Rebeca não tinha fome, mas também não tinha coragem de se levantar.
Rute falava alguma coisa sobre revisão.
Moisés comia em silêncio.
Tudo parecia… funcionando.
Era isso que incomodava.
O olhar fixo em algum ponto entre a toalha e a própria mão.
Rebeca respirou.
Aquele era o momento.
— Eu não vou fazer o teste.
O som dos talheres diminuiu.
Moisés não levantou os olhos.
— Vai.
Rebeca respirou fundo.
Dessa vez, não recuou.
— Eu não sei mais se eu quero isso.
Agora ele olhou.
De verdade.
— Isso o quê?
Rebeca apertou os dedos contra o próprio braço.
Sentiu.
Mesmo com a manga cobrindo.
— Isso tudo.
A mão dela fez um gesto pequeno, sem apontar pra nada específico.
Mas apontando pra tudo.
Silêncio.
— Eu não sei se eu quero continuar na igreja.
A frase caiu pesada.
Sem volta.
Rute parou completamente.
Débora não se mexeu.
Moisés inclinou levemente a cabeça.
— Você sabe o que está dizendo?
Rebeca sustentou.
Com mais coragem do que certeza.
— Eu estou tentando saber.
Silêncio.
— Eu só sei que… — ela parou, reorganizando por dentro — eu não consigo continuar fingindo que eu já decidi tudo.
Moisés não falou.
Mas o olhar endureceu.
Rebeca continuou, mais baixo:
— E eu não sei se eu vou ficar.
Agora sim.
Tudo parou.
— Ficar onde?
Ela demorou.
Mas não voltou atrás.
— Aqui.
O ar da mesa mudou.
— Talvez eu vá embora.
A voz saiu mais firme do que ela esperava.
— E talvez eu não volte.
Silêncio absoluto.
Moisés encostou o garfo no prato.
Devagar.
— Você não sabe o que está dizendo.
Rebeca não respondeu.
Sabia menos do que gostaria.
Mas mais do que antes.
— Isso não é dúvida — continuou ele. — Isso é desvio.
Rute olhou para baixo.
Débora não se mexeu.
— Você está confundindo sentimento com verdade.
Rebeca sentiu algo subir.
Não era raiva.
Era… cansaço.
— Ou talvez — disse baixo — eu esteja vendo pela primeira vez.
O olhar dele mudou.
Agora sim.
Duro.
— Você vai fazer esse teste.
— Eu não vou.
Silêncio.
— Vai.
Rebeca se levantou.
A cadeira fez um som seco no chão.
— Eu não consigo mais fazer isso só porque mandam.
— Você faz porque é o certo.
— Pra quem?
A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar.
O ar ficou pesado.
Moisés se levantou também.
Não gritou.
Não precisou.
— Você ainda mora nesta casa.
Rebeca olhou para ele.
De verdade.
— E eu não sei por quanto tempo.
Aquilo atravessou.
Moisés deu um passo à frente.
— Se você sair por essa porta…
Pausa.
— Não volta.
Silêncio absoluto.
Rebeca parou.
A mão já na maçaneta.
O mundo inteiro cabia naquele segundo.
Ela olhou para trás.
Para a mesa.
Para Rute, imóvel.
Para Débora, que não a impedia.
Para Moisés.
Esperando.
Não havia espaço para dúvida ali.
Só para escolha.
Rebeca sustentou o olhar por alguns segundos.
Como quem tenta guardar algo que está acabando.
Então abriu a porta.
E saiu.
***
A rua parecia maior do que de costume.
Ou talvez fosse ela.
Rebeca andou sem direção.
Sem pressa.
Sem plano.
O corpo ainda doía.
Mas agora doía junto com outra coisa.
As casas eram as mesmas.
Os portões.
As calçadas.
Tudo reconhecível.
Nada familiar.
Ela passou pela esquina onde costumava virar com a bicicleta.
Passou direto.
O céu estava começando a escurecer.
As luzes acendendo uma a uma.
Rebeca não sabia para onde ir.
Mas sabia que não podia voltar.
***
O balanço rangia baixo.
Um som pequeno, repetido, que parecia marcar o tempo de alguma coisa que não andava.
Rebeca estava sentada ali há tempo demais.
As mãos segurando a corrente.
O corpo indo pra frente e voltando.
Sem sair do lugar.
Ela não chorava.
Mas também não estava bem.
Os olhos estavam perdidos em algum ponto da rua.
Como se estivesse tentando reconhecer o caminho…
e não conseguisse mais.
Passos.
Devagar.
Sem pressa.
Ester parou a alguns passos de distância.
Não chegou muito perto.
Não de imediato.
— A sua mãe me ligou.
Só isso.
Rebeca parou o balanço com o pé.
O movimento cessou aos poucos.
Ela não respondeu.
Ainda não.
O silêncio não pressionava.
Esperava.
— Eu saí.
A voz saiu mais baixa do que ela queria.
Ester não reagiu.
— Ele falou que se eu saísse, não podia voltar.
Um segundo.
— Então eu saí.
A simplicidade da frase não dava conta.
Mas era o que ela tinha.
Ester se aproximou um pouco mais.
Não o suficiente para tocar.
— E agora?
Rebeca soltou uma respiração curta.
Quase um riso sem humor.
— Eu não sei.
Silêncio.
— Eu achei que ele fosse… — ela parou.
Não terminou.
Ester esperou.
— Eu achei que ele fosse ouvir.
A frase saiu inteira dessa vez.
E doeu mais por isso.
Ester assentiu uma vez.
Pequeno.
Como quem entende algo antigo.
— Às vezes a gente fala esperando resposta… e recebe decisão.
Rebeca apertou a corrente do balanço.
— Eu não queria sair assim.
— Mas saiu.
Não era julgamento.
Era constatação.
Rebeca abaixou a cabeça.
— Eu não tenho pra onde ir.
Silêncio.
Ester deu mais um passo.
Agora perto o suficiente.
— Tem sim.
Rebeca levantou os olhos.
Ester fez um gesto leve com a cabeça.
Na direção da casa.
— Vem.
A casa de Ester estava acesa.
Mas mais quieta do que de costume.
A porta abriu antes que precisassem bater de novo.
Ester olhou primeiro para Rebeca.
Depois para Janis.
Entendeu.
Sem precisar de explicação.
— Entra.
Rebeca entrou devagar.
Como se ainda não tivesse certeza de que podia.
Janis passou por ela direto.
Sem falar nada.
Já indo para o quarto.
Ester fechou a porta.
Virou-se.
— Você fica no quarto da Janis.
Simples.
Rebeca abriu a boca.
— Eu...
— E a Janis fica na sala.
Silêncio.
Não era punição.
Era cuidado.
Rebeca assentiu.
Devagar.
— Obrigada.
Ester fez um gesto pequeno com a cabeça.
— Vai descansar.
Janis já estava lá dentro.
Movendo coisas rápido demais.
Tirou o lençol.
Colocou outro.
Puxou a colcha.
Arrumou o travesseiro com mais força do que precisava.
Rebeca parou na porta.
Observando.
— Você não precisava...
— Eu sei.
Janis não parou.
— Mas eu quero.
Silêncio.
Ela terminou de ajeitar a cama.
Abriu o guarda-roupa.
Parou um segundo.
Como se estivesse escolhendo com cuidado.
Pegou uma camiseta larga.
E um short.
Dobrou os dois.
Sem capricho demais.
Mas com intenção.
Deixou em cima da cama.
Rebeca olhou para a roupa.
— Tá limpo?
Janis soltou um sopro pelo nariz.
Quase um riso.
— Dessa vez… tá.
Um segundo.
— Sem sujeira de bola de vôlei.
Rebeca olhou pra ela.
E, pela primeira vez desde que saiu de casa… quase sorriu.
— Pronto.
Rebeca entrou.
Devagar.
O quarto parecia o mesmo.
Mas não era.
Janis pegou algumas coisas dela — uma blusa, um caderno, um carregador — e juntou tudo sem muita organização.
— Qualquer coisa… me chama.
Rebeca olhou pra ela.
Mais tempo do que o normal.
— Você vai dormir na sala?
Janis deu de ombros.
— Eu já dormi em lugar pior.
Tentou soar leve.
Não conseguiu totalmente.
Silêncio.
Rebeca se sentou na cama.
Sentiu o tecido limpo.
Diferente.
— Obrigada.
Janis assentiu.
Mas não saiu ainda.
Ficou ali por um segundo a mais.
— Você tá bem?
A pergunta veio baixa.
Sem preparo.
Rebeca pensou em responder automático.
Mas não conseguiu.
— Não.
Silêncio.
Janis assentiu de novo.
Como se aquilo fosse suficiente.
— Tá.
Virou.
E saiu.
Ester apareceu na porta do quarto alguns minutos depois.
Sem bater.
Só encostando o corpo no batente.
— Trouxe uma coisa.
Na mão, uma xícara grande.
Vapor subindo.
E um prato com alguns biscoitos.
— Leite com chocolate.
Como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Rebeca se sentou na cama com cuidado.
Pegou a xícara com as duas mãos.
O calor atravessou os dedos.
— Obrigada.
Ester assentiu.
— Come antes de esfriar.
Deixou o prato na mesa de cabeceira.
Olhou uma última vez.
Não para conferir.
Mas para garantir.
— Boa noite.
E saiu.
O quarto ficou quieto de novo.
Mas não vazio.
Rebeca tomou um gole.
Quente demais.
Mesmo assim, não largou.
Ficou ali.
Bebendo devagar.
Comendo um biscoito sem fome.
Só… ocupando o tempo.
Deitou depois.
Com o corpo ainda pesado.
A cabeça mais leve.
O teto não era o dela.
Mas não parecia estranho.
O silêncio era diferente.
Ela fechou os olhos.
Abriu.
Fechou de novo.
Demorou.
Muito mais do que queria admitir.
Mas, em algum momento…
apagou.
***
A luz já estava alta quando ela abriu os olhos.
Rebeca demorou um segundo.
Depois dois.
Então o susto veio.
Ela se sentou rápido demais.
O corpo reclamou.
— Meu Deus…
Olhou em volta.
Tentando se localizar.
Escola.
Horário.
Rotina.
Nada encaixava.
Ela se levantou.
Ainda meio desorganizada.
Abriu a porta do quarto.
E saiu.
O cheiro veio primeiro.
Café.
Pão.
Algo doce.
Rebeca parou no meio do corredor.
A mesa estava posta.
Não perfeita.
Mas pronta.
Janis estava ali.
De pé.
Mexendo em alguma coisa.
Ela levantou o olhar.
Como se já estivesse esperando.
— Bom dia.
Rebeca ainda parecia meio perdida.
— Eu…
Janis apoiou a mão na mesa.
— Ganhamos o dia de folga.
Silêncio.
Rebeca olhou para a mesa.
Depois pra ela.
— Como assim?
Janis deu de ombros.
— Assim.
Um meio sorriso.
Pequeno.
— Hoje ninguém precisa resolver nada.
Rebeca ficou parada por um segundo.
Depois se sentou.
Devagar.
O corpo ainda doía.
Mas menos.
E, pela primeira vez em muito tempo…
o dia não parecia uma obrigação.
Parecia espaço.
***
A casa estava quieta demais.
Sem o barulho da Ester.
Sem passos no corredor.
Sem ninguém ocupando o espaço.
Só elas.
Janis colocou a xícara na frente da Rebeca.
— Tá quente.
Rebeca assentiu.
Não bebeu.
Janis puxou a cadeira.
Sentou.
Tentando parecer normal.
— Eu não queimei a torrada hoje.
Silêncio.
— Evolução.
Nada.
Janis olhou melhor.
Rebeca estava parada.
O olhar preso em algum lugar que não estava ali.
— Ei…
Não terminou.
O rosto da Rebeca mudou primeiro.
Depois a respiração.
E então veio.
Sem aviso.
O choro saiu quebrado.
Forte.
Desorganizado.
Ela tentou segurar.
Não conseguiu.
As mãos foram para o rosto.
Os ombros tremeram.
— Eu…
Mas não tinha frase.
Janis foi até ela.
Sem pressa.
Sem hesitar.
Sentou ao lado.
Puxou a Rebeca pra perto.
Rebeca desabou.
O choro veio inteiro agora.
Sem controle.
Sem medida.
— Eu não queria sair assim…
As palavras saíam entre cortes.
— Eu achei que ele ia… eu achei que…
Janis não respondeu.
Só segurou.
Uma mão nas costas.
A outra firme no braço.
— Eu não tenho pra onde voltar…
A frase saiu mais baixa.
Mas mais pesada.
Janis fechou os olhos por um segundo.
— Tem sim.
Baixo.
Rebeca apertou a camiseta dela.
— Eu não sei o que fazer…
Silêncio.
Janis não disse que sabia.
Ficou ali.
Esperando.
Até o choro diminuir.
Até a respiração desacelerar.
Até o corpo parar de tremer.
Devagar.
Rebeca se afastou um pouco.
O rosto molhado.
Os olhos vermelhos.
— Me tira daqui.
A frase veio simples.
Janis assentiu.
Como se já estivesse esperando.
— Vem.
***
O skate rangia baixo no asfalto.
Rebeca segurava na cintura de Janis, enquanto ela impulsionava
Um pé no chão.
Outro firme.
Devagar no começo.
Depois mais constante.
A cidade foi ficando pra trás.
As casas.
Os portões.
As vozes.
Tudo diminuindo.
O caminho virou terra.
O som mudou.
Mais leve.
Mais aberto.
Árvores espalhadas.
Flores no meio do mato.
Um cheiro doce no ar.
Rebeca desceu com cuidado.
Olhou em volta.
— Onde é isso?
Janis deu de ombros.
— Meu lugar.
Silêncio.
Rebeca respirou fundo.
O ar ali parecia diferente.
Mais fácil.
Janis caminhou até um pé de fruta.
Esticou o braço.
Pegou uma.
Jogou pra Rebeca.
— Come.
Rebeca pegou.
Ainda meio perdida.
Deu uma mordida.
O gosto era forte.
Doce.
Real.
Sentaram no chão.
Sem pressa.
Sem plano.
O mundo ainda existia.
Mas ali…
não precisava ser resolvido.
O vento passou leve entre as árvores.
Rebeca se deitou na grama.
Os olhos no céu.
Janis ao lado.
Sem falar.
E, pela primeira vez desde que tudo quebrou…
nada parecia urgente.
Só… presente.
Fim do capítulo
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