Siena
Os dias se passaram sem muitas novidades ou movimentos. Os mesmos gestos, as mesmas rotinas recentemente adquiridas. Porém, na Wicca Enterprise o clima era de tensão e de surpresas.
Siena, a nova assistente de Elisa, chegava ao trabalho pontualmente. Não ousava se atrasar em sua primeira semana como funcionária direta da CEO.
Já era quase o final da primeira semana de trabalho e Siena já sabia o suficiente. Elisa não gostava de ser chamada de “chefe”. Apenas “Doutora Elisa”, ou “senhora”, se o tom fosse formal. Percebia também que ela não comia pela manhã. Apenas café forte e, às vezes, chá de jasmim. Nunca elogiava e também nunca repetia uma ordem.
Notou que seu humor oscilava de forma sutil, mas perceptível. Percebia as pausas entre as frases de Elisa, o modo como ela olhava por cima dos óculos quando os usava, na forma quase imperceptível de Elisa apertar a mandíbula quando desaprovava algo.
Siena anotava tudo mentalmente, cada detalhe, mesmo que bobo, se tornava o mais interessante possível. Tentava se convencer de que era apenas porque Elisa era uma figura imponente e poderosa, era mais fácil do que aceitar que na realidade estava ficando obcecada pela chefe em tão pouco tempo.
Na quinta-feira, Elisa não havia dito nada quando Siena entrou com o relatório de contratos para a análise final, mas seus olhos demoraram meio segundo a mais no colar da assistente, uma pequena pedra verde-escura que Siena usava.
Siena já tinha ido à empresa com aquele colar outros dias e não era a primeira vez que percebia o olhar atento da chefe, e de outros, sobre ele. Ficou levemente curiosa, pois o item não parecia algo que Elisa usaria, caso o interesse fosse comprar um igual. Talvez para dar à namorada?
Enquanto devaneava, Elisa voltou os olhos para a planilha e pigarreou suavemente.
— Corrija o parágrafo sete. Está poluído. E troque a tipografia. — disse, depois de ficar um tempo em silêncio observando o documento.
— Sim, Dra. Elisa. Com licença. — foi apenas o que respondeu. Pela expressão séria que a CEO mantinha, não teve coragem de tentar iniciar uma conversa.
No entanto, na quinta-feira, algo mudou.
Era fim de tarde e o escritório estava tomado por um tom alaranjado, da luz que atravessava as paredes de vidro. Elisa estava com uma camisa social cinza, mangas dobradas até o antebraço, cabelo preso com precisão cirúrgica. Siena organizava a última remessa de documentos para a semana seguinte, sentada em sua mesa do lado de fora da sala da nefilin, quando ouviu o som de saltos invadindo o silêncio.
Ao levantar o olhar, viu uma mulher alta, de pele morena e cabelo escuro ondulado, vestida com uma calça jeans escura e uma regata branca, que deixava amostra os braços cheios de tatuagens.
Siena não a conhecia, mas sentiu de imediato que não era qualquer pessoa.
A visitante deu um sorriso de canto leve ao ver Siena.
— Oi! A Elisa está na sala dela?
Siena se levantou, devolvendo o sorriso.
— Olá! Ela está terminando um documento. Posso avisar que você esta aqui.
— Claro, eu adoraria. Diz que é a Lia. Eu aguardo aqui.
A ruiva assentiu, sentindo o peso do nome da mulher à sua frente. Era a primeira vez que via Liana Galenia pessoalmente.
Mesmo sendo quem era, seguiu o protocolo e foi até a sala de Elisa informar a visita. A nefilin estava em pé, ao lado da mesa, olhando um gráfico girar lentamente sobre uma tela de projeção.
— Dra. Elisa, Lia está aqui e deseja falar com você. — avisou Siena, sem emoção.
A mandíbula de Elisa contraiu levemente com a presença da mais nova, mas um leve sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Ela pode entrar. Obrigada. — disse, mantendo contato visual por alguns segundos antes de voltar a olhar para a projeção.
Siena voltou e acompanhou Lia até a entrada da sala de Elisa, mas não conseguiu deixar de observar que quando Lia entrou na sala, a porta não fechou completamente e mesmo que fechasse, Siena teria percebido o calor da sala mudar.
Tentou não escutar o diálogo abafado, o que era facilitado pela distância, mas sentia que elas discutiam, ou algo parecido.
Depois de alguns minutos, a porta abriu bruscamente e Lia saiu com os olhos tensos e as bochechas levemente coradas.
Siena fingiu estar concentrada em um contrato, mas registrou mentalmente cada detalhe.
Elisa saiu da sala um minuto depois e passou direto por Siena, sem dizer nada.
Ela esqueceu por um momento do que estava fazendo, observando toda a movimentação das duas, mas logo voltou ao que precisava finalizar. O dia já tinha ido embora.
****
O sétimo andar da Wicca Enterprise parecia mais frio naquela manhã de sexta.
Talvez fosse o ar-condicionado central, sempre programado para manter o ambiente fresco ou talvez fosse o fato de Elisa ter chegado mais cedo do que o habitual, antes mesmo de a equipe de segurança terminar o café. O salto firme da diretora ecoou sobre o porcelanato como uma vírgula em um texto sem fim, marcado, preciso, irretocável, e Siena percebeu a diferença no ar assim que saiu do elevador.
Elisa estava de blazer preto e calça de alfaiataria cinza, com os cabelos presos em um coque baixo.
— Bom dia, Dra. Elisa. — disse Siena, ao passar pela porta de vidro translúcido que separava o corredor da recepção executiva.
Elisa não respondeu de imediato, terminou de digitar algo no celular, o que demorou alguns segundos e depois ergueu os olhos, encontrando brevemente o olhar de Siena e então, parou no colar.
— Bom dia… — respondeu, ainda com os olhos fixos no pingente.
Dessa vez, a ruiva notou a insistência da observação, não havia disfarcen os olhos de Elisa permaneceram ali por cinco segundos completos, como se quisesse que ela percebesse.
A pedra verde-escura repousava sobre a pele clara de Siena, bem no centro da clavícula, brilhava discretamente sob a luz branca.
— Um presente da minha mãe. — explicou Siena, como se aquilo tivesse sido perguntado.
Segurou o colar e fez um carinho na pedra com a ponta dos dedos.
— Era da mãe da mãe dela… e foi passando de geração em geração e agora está comigo. Elas dizem que é um amuleto de proteção. Mantém corpo, mente e alma fechados.
Elisa arqueou uma sobrancelha.
— Superstições familiares?
— Algo assim. Ela acredita que protege a mente de “coisas ruins”.
— E você acredita?
Siena sorriu de canto, curiosa com o rumo da conversa.
— Não costumo questionar os presentes dela. Mas, até agora, tem funcionado… eu acho. Quer dizer… se pensarmos na questão financeira em que nos encontramos e a situação com meu pai… Você bem deve achar que não funciona, né?
— Às vezes te protege de outras coisas. Daquelas que você não consegue ver a olho nu, quem sabe? — Elisa sugeriu.
Ela sustentou o olhar de Elisa por alguns segundos, até que a mais velha finalmente desviou.
— Você achou bonito? O colar? — Siena perguntou, curiosa com a fixação.
— Ele é, sim. Muito bonito.
— E é por isso que te interessa tanto?
Elisa a analisou por um momento e sorriu de lado, mas não respondeu. Apenas voltou os olhos para o celular e entrou em sua sala, deixando para trás uma Siena frustrada e cheia de perguntas.
****
A manhã passou envolta em um ritmo quase meticuloso, enquanto Siena atualizava os calendários, organizava os e-mails da diretoria e coordenava pequenas reuniões de Elisa com os setores de pesquisa, marketing e jurídico.
Mas, mesmo no meio das planilhas e notificações, ela notava que Elisa falava menos. Não sabia se o problema era com ela, por causa da conversa sobre o colar mais cedo, ou se a chefe estava estressada com algum problema em casa, talvez com a namorada.
Os olhos estavam mais escuros, como se algo latejasse por trás da íris.
No intervalo das 15h, na copa executiva, Siena preparava seu café: preto, forte, com muito açúcar.
Elisa entrou com uma pasta em mãos.
— Lembra que prefiro café sem açúcar, né? — disse de repente, como se fosse a continuação de um diálogo que não existia.
Siena riu levemente com a interação inesperada.
— Claro que lembro. Para você adoçar as coisas demais tira a precisão, não é? Mas não se preocupe, esse aqui é para mim.
Elisa a observou experimentar o café que acabara de preparar e, dessa vez, seus olhos percorreram o rosto de Siena com mais lentidão. Era pura curiosidade, o olhar de quem observa algo que ainda não foi classificado.
— Siena, por que você quis esse trabalho em específico? — perguntou Elisa, apoiando a pasta na bancada de mármore branco. — Ao invés de algo menos burocrático.
Siena pareceu pega de surpresa, mas logo se recompôs.
— Honestamente? Minha mãe insistiu.
— Isso não é um bom motivo.
— Talvez não seja. Mas estou aqui… e acho que não estou fazendo um mau trabalho. Ou estou?
Elisa assentiu levemente em negação, e seus olhos voltaram, ainda que por um instante, para o colar.
— Sabe… você não precisa usar um amuleto de proteção no trabalho. Você está segura aqui.
— Não uso apenas por isso. Acho que combina com os meus olhos, não acha? — Siena respondeu em um tom brincalhão com o qual Elisa começava a se acostumar.
Diante do silêncio da CEO, ela continuou.
— Também gosto da ideia de não ser fácil de acessar… — Ela fez uma pausa. — O que na verdade te incomoda tanto nele?
Ela disse isso segurando a xícara com calma.
Elisa a observou, fingindo pensar na resposta, mas a verdade é que não sabia responder.
— Nada me incomoda. Volte à mesa quando terminar.
Siena a observou ir embora, fugindo mais uma vez daquela interação estranha que começava a surgir entre elas.
****
O som da impressora cessou com um pequeno estalo metálico.
Já era a terceira semana de trabalho de Siena na Wicca e, naquele momento, ela retirava os documentos ainda quentes, separando cada folha com um cuidado quase automático.
Eram quase seis e meia da noite. O andar começava a esvaziar, mas o escritório de Elisa permanecia com a luz acesa.
Desde o dia da conversa sobre o colar, Siena não deixara de usá-lo, às vezes escondido sob a gola de blusas mais fechadas, mas sempre ali.
E sempre notava o olhar ocasional de Elisa sobre ele, um olhar breve, mas afiado, como se aquilo fosse um lembrete silencioso de algo que ela não entendia.
Por que aquilo era um problema para ela?
Com o passar dos dias, Siena aprendeu o ritmo de Elisa de um jeito quase musical, mesmo que muita coisa continuasse um mistério.
Sabia que Elisa não gostava de janelas abertas, que detestava rascunhos com erros de concordância, que bebia chá às 17h00 todos os dias, mesmo quando estava atolada de trabalho.
Siena começou a preparar o chá no ponto exato, não perguntou qual ela preferia, apenas observou o aroma que Elisa tolerava com mais leveza.
— Obrigada.
O agradecimento veio de Elisa em um momento qualquer. Sem sorriso, sem gentileza, apenas a palavra solta, como uma migalha deixada no canto da mesa. Uma migalha que Siena guardou como um troféu.
****
Na quarta-feira da terceira semana, as duas revisavam um contrato entre o setor farmacêutico e o departamento de patentes.
— Você parece confortável aqui. Mais do que eu esperava. — Elisa soltou, sem levantar os olhos do documento.
Siena ergueu o olhar devagar.
— Sério? E você esperava o quê?
— Que pedisse demissão na primeira semana.
— Por causa de você?
Elisa finalmente olhou para ela.
— Por causa de tudo.
Siena girou a caneta entre os dedos.
— Ainda não entendi o que é “tudo”, mas… sinceramente? Gosto de desafios. — respondeu, lançando um olhar provocativo. — E para ser bem sincera, estou gostando do ritmo desse lugar.
Elisa não sorriu, mas os olhos dela quase fizeram isso.
Foi nessa mesma semana que Siena começou a perceber os silêncios entre as conversas e uma leve diferença na forma como Elisa a tratava e a olhava.
Às vezes, Siena entrava na sala para entregar um relatório e Elisa não dizia nada, apenas observava.
Olhava como quem tenta decifrar algo.
O que mais irritava Elisa, e talvez a intrigasse, era o fato de não conseguir ler Siena. Não apenas por causa do colar, que impedia de ler sua mente, mas porque Siena era ambígua e quando não falava, deixava Elisa imaginando e criando cenários do que poderia vir em seguida.
Nada em Siena parecia feito para provocar, e ainda assim provocava. Ela não se oferecia, não se insinuava, mas caminhava com uma confiança que parecia não ter medo de ser vista.
E Elisa não conseguia deixar de ver.
Notava os cabelos ruivos soltos quando não era dia de reunião, os dedos longos e firmes digitando no teclado, até o modo como Siena dobrava as mangas da camisa antes de se concentrar, um gesto pequeno, mas absurdamente magnético.
E tudo isso começava a se tornar muito incômodo para a nefilin.
****
Era quinta-feira, fim de expediente. Nos últimos dias, Lia vinha quase todo fim de tarde buscar Elisa no trabalho, mesmo que não fosse necessário, mas Siena achava que ela não apareceria naquele dia.
Percebeu porque já sabia identificar a mudança no ar quando Lia vinha buscar Elisa, o clima se agitava levemente, havia uma antecipação não dita no modo como Elisa ajeitava a gola da blusa ou olhava o relógio.
Mas naquela quinta-feira, Elisa ficou até mais tarde, juntamente com Siena, acompanhando o andamento dos contratos com os fornecedores.
Às 20h04, quando já não havia ninguém no andar além das duas, Elisa saiu de sua sala com uma xícara vazia.
— Ainda aqui? — chamou a atenção da mais nova enquanto se aproximava.
— Alguém precisa garantir que as cláusulas de distribuição estejam redigidas de forma clara e sem erros.
Elisa parou ao lado da mesa da assistente e, por um segundo, olhou os documentos, mas olhou Siena também.
Perto demais, como raramente fazia.
— Siena, você tem algum envolvimento com magia? — perguntou de forma súbita.
Siena engoliu em seco, surpresa com a pergunta direta.
— Nenhum. Nem tinha conhecimento de tudo até… bom, até ser contratada.
— E mesmo assim permanece aqui? Esse outro lado do mundo não te assusta?
— Como eu disse antes… gosto de desafios. E quem não gosta de desvendar mistérios e descobrir criaturas mágicas? Sei que não é só isso, que tem muita papelada e reunião com gente desinteressante, mas tem sido uma experiência.
Elisa aproximou-se um passo. Os olhos agora estavam à altura dos de Siena.
— Desvendar mistérios… — Elisa repetiu as palavras em um sussurro e ficou pensativa. — Você é um mistério, sabia?
— Eu? Imagina… sou um livro aberto. Para quem realmente tiver interesse em ler. — respondeu, tentando desconversar, um pouco sem jeito. — Mas por que acha isso?
Elisa não respondeu de imediato, olhou para o colar, depois para os olhos dela novamente.
— É só uma impressão que tenho.
— Você pode me desvendar, se quiser. — As palavras saíram antes que Siena percebesse.
Quando percebeu, já tinha falado. Ela hesitou, mas manteve a postura, mesmo sentindo o rosto ferver de vergonha.
— Você pode me perguntar o que não souber. Eu te falo o que quiser saber.
Por um segundo, os olhos de Elisa escureceram, como se tivesse reconhecido algo naquele momento. Estava permitindo e procurando interações que não deveria.
Por isso, apenas tocou a borda da xícara e deu alguns passos para trás, fugindo, como sempre vinha fazendo.
— Tenha uma boa noite, Siena.
E, sem dizer mais nada, voltou para a sala.
****
Nos dias seguintes, as pausas entre elas ficaram mais longas e os olhares mais carregados de alguma coisa que nenhuma das duas nomeava.
Além disso, Siena começou a deixar pequenos agrados, como uma folha bem dobrada com observações úteis, uma sugestão de chá novo, um artigo impresso sobre ética farmaceutica. Todos recebidos com uma expressão neutra, mas nunca recusados. Era ousadia demais, Elisa sabia, mas também era algo que ela não conseguia controlar queria ver até onde aquilo iria.
Uma noite, ao sair mais tarde, Siena cruzou com Lia no elevador.
— Ah… Oi, você é a nova assistente da Elisa, né?
Siena sorriu tentando demonstrar simpatia, mas a verdade é que ver a namorada da chefe lhe deixava levemente nervosa.
— Sim. Siena, prazer. — Estendeu a mão, cordial.
— O prazer é todo meu. Eu sou a Liana, mas pode me chamar de Lia. — Lia apertou a mão da mais nova.
— Sim, eu sei. A famosa Liana.
— E você, a famosa Siena. A Elisa já comentou sobre você algumas vezes.
— Já é? Espero que coisas boas. — Sorriu, um pouco sem jeito.
— Não se preocupe, só coisas boas. Elisa sabe reconhecer quem trabalha bem. Enfim, foi realmente um prazer te conhecer. Elisa está na sala dela?
— Fico aliviada! É sim, está, sim. Acredito que esteja te aguardando.
Lia sorriu com naturalidade e seguiu até a sala de Elisa.
Antes de ir embora, Siena passou pelo banheiro e, quando saiu, o andar já estava mais silencioso do que antes.
Ela gostava do silêncio depois do expediente, gostava de como o mundo parecia mais honesto quando as pessoas paravam de performar.
Desceu até o estacionamento interno e caminhou em silêncio entre os carros.
Antes de se aproximar completamente de onde seu carro estava, viu que Lia estava ali, encostada na lateral de um sedã preto, com Elisa presa entre seus braços, provavelmente aproveitando o vazio do fim do expediente.
A diretora da Wicca, impecável, fria e absolutamente racional, agora tinha os olhos entreabertos, a boca colada à de Lia e as mãos firmes nos quadris da outra mulher. A cena era um contraste cruel e hipnótico.
Lia a puxava pela cintura, e Elisa se deixava conduzir como se precisasse daquilo mais do que precisava de ar.
O beijo delas era lento, profundo, cheio de algo que Siena nunca havia nomeado antes, mas que agora sentia na garganta, na pele e no próprio ventre.
Ela não queria interromper.
Deus, ela não queria interromper, mas o carro delas estava colado ao dela. Porta com porta. Não havia saída sem ter que demonstrar que estava ali.
Siena tossiu discretamente.
As duas pararam lentamente, tentando disfarçar a surpresa ao vê-la ali.
Lia olhou primeiro, sem constrangimento, com um sorriso breve.
Elisa levou um segundo a mais. As bochechas estavam levemente coradas e alguns fios de cabelo haviam escapado do lugar, algo que Siena nunca tinha visto antes.
— Desculpa. — disse Siena, mantendo o tom neutro. — Meu carro é esse ai.
Elisa assentiu.
— Claro.
As duas deram passagem, o suficiente para Siena conseguir entrar no próprio carro.
Siena não voltou a olhar para elas, tentou tirar o foco da própria atenção ligando o carro, mas o calor que se espalhava por seu corpo não foi embora com o motor ligado.
Quando chegou em casa, demorou a dormir.
O beijo, o jeito como Elisa se agarrava a Lia, o som abafado do suspiro entre elas, tudo aquilo grudou nela como um feitiço lento.
E, quando finalmente conseguiu dormir, perdeu-se em uma longa noite de sonhos, repassando tudo o que fervia em sua mente.
****
O clima entre Siena e Elisa mudou ainda mais, mesmo que nada tivesse sido dito.
Siena passou a notar detalhes que antes talvez ignorasse, como o modo sutil como Elisa olhava para sua boca quando ela falava.
O instante em que Elisa demorava um pouco mais do que o necessário com os dedos próximos aos dela ao passar um documento, o leve tensionar do maxilar quando Siena sorria.
Elisa também sabia, de alguma forma, que algo havia mudado. Talvez tivesse sentido na aura, talvez apenas percebesse no comportamento, mas havia um campo elétrico entre elas que estalava a cada aproximação.
Em uma terça-feira, Siena entrou na sala com um contrato em mãos.
Usava uma camisa vinho escuro, ajustada ao corpo, e o colar à mostra, como sempre.
Elisa estava com os cabelos soltos pela primeira vez em dias.
— Com licença, Dra. Elisa, preciso que leia essa cláusula sobre distribuição de ativos. Está com ambiguidade. — disse Siena, aproximando-se da mesa.
Elisa pegou o papel e por um segundo, as mãos se tocaram, não por acidente, mas pela permanência de Siena.
Por cinco segundos inteiros, as peles se encostaram, os olhos se encontraram e o tempo pareceu esticar.
Elisa não recuou, o contato era mínimo, mas carregado de tensão.
A CEO passou os olhos pelo contrato sem se afastar.
Siena voltou para sua mesa com as mãos levemente trêmulas e os lábios apertados. Depois disso, Elisa permaneceu em silêncio por horas.
Desde o toque intencional que dividira com Elisa, Siena sentia uma transformação lenta e perigosa se espalhando por dentro de si. Que talvez já estivesse ali há alguns dias.
Não sabia se o mesmo acontecia com Elisa, mas sabia que algo estava diferente.
Elisa mantinha o protocolo de sempre. Rígida, discreta e profissional ao extremo, ainda assim, era visível que se esforçava para não cruzar certas linhas e para não permitir brechas na relação entre as duas e Siena percebia esse esforço.
E onde há esforço, há vontade e era nisso que ela se agarrava, sem perceber.
****
A lanchonete do 18º andar era mais movimentada às sextas-feiras. Siena segurava uma bandeja com alguns alimentos que tinha escolhido, enquanto procurava por um lugar que não exigisse socializações cansativas.
Marcela, assistente de Ariel, acenou de longe com um sorriso escancarado, frustrando seus planos de ficar em silêncio.
— Ei, ruiva! Vem cá, senta comigo!
Elas já haviam trocado palavras algumas vezes, Marcela parecia sempre saber demais, sobre tudo e todos e falava pelos cotovelos.
Hoje, em especial, os olhos dela estavam brilhando com uma energia diferente.
— E então... já viu os olhos da sua chefe quando ela tá com raiva? É de dar medo, né? Espero não cruzar de novo com ela hoje.
Siena deu um sorriso curto, sentando ao lado dela.
— Já vi os olhos dela de vários jeitos.
Marcela riu e ergueu as sobrancelhas.
— Ui, gostei disso. Do que você ta sabendo que eu não sei, hein?
— Não tô sabendo de nada, mas convivo com ela, normal que eu perceba as nuances.
— Inclusive, olha, cuidado com ela, com o que você pode ver por aí. Você já sabe da história, né?
—Que história?
Marcela se inclinou sobre a mesa.
— Da Lia. Quando ela ainda trabalhava aqui, menina… Dizem que um dia esqueceram de trancar a sala. Um estagiário foi levar uns papéis e deu de cara com a Lia sentada na mesa da Elisa. Literalmente sentada, de um jeito muito indecente, se é que você me entende. E não era pra assinar contrato.
Siena arqueou as sobrancelhas, o garfo suspenso no ar.
— Sério isso?
— Sério. A galera jura que ouviu coisa de dentro. E tem mais! Dizem que a Lia tinha um caso antigo com uma succubus. Uma daquelas demônias sexuais de verdade, sabe? Trocavam poder através de orgasmo e tudo mais. Tem até quem diga que a Lia… como posso dizer?... aprendeu umas coisas além da anatomia humana. E que Elisa era completamente rendida a ela por causa disso e por isso que ficou menos carrasca, porque antes ela era pior que hoje. Cuidado para não cair no feitiço de uma das duas. Ela pode ter algum fetiche por funcionárias.
Siena riu com todas aquelas informações absurdas, mas por dentro algo queimava.
— E hoje? Elas ainda estão juntas, né? — Siena perguntou como quem não sabe de nada.
— Hum... dizem que não, todo mundo sabe que elas terminaram, mas ninguém tem a confirmação da volta, porém Lia quase sempre vem buscar a Elisa, então acho que se não voltaram, estão quase, mas sabe como é. Elisa nunca fala nada, e ninguém tem coragem de perguntar. Só que, Siena…
Marcela a olhou com uma expressão perigosa.
— Sim?
Marcela se aproximou mais, com um olhar afiado.
— Se você quiser, você arranca um suspiro dela, viu? Eu vi como a chefe te olha. Qualquer dia pode ser você na sala dela, no lugar da Lia.
Siena arregalou os olhos, em choque com o comentário e o garfo tremeu um pouco na mão.
— O que? Tá maluca, Marcela. Elas logo vão reatar, tenho certeza. Além disso, eu sou hétero, tá? Comigo não tem esse perigo. Nem fala isso alto assim, não quero problema.
— Hetero? Ah, tá bom que eu acredito! — Marcela gargalhou, enquanto Siena comia contrariada, mais uma garfada da própria refeição.
****
No escritório, dias depois, Elisa convocou uma reunião privada para tratar de algumas agendas da semana seguinte.
As duas estavam sozinhas, como sempre, mas o clima entre elas estava menos técnico do que o habitual naquele dia.
Elisa falava com rigidez, mas não conseguia evitar olhar para a boca de Siena.
Siena anotava, mas inclinava o corpo um pouco demais sobre a mesa. Os cabelos ruivos caíam de lado, perfumados, quase intencionais.
— Alguma dúvida? — perguntou Elisa.
— Algumas. — respondeu Siena, em voz baixa. — Mas acho que você preferiria não ouvir.
Elisa ergueu os olhos.
— Você está me testando, Siena?
— Talvez, Dra. Elisa. — respondeu Siena, com aquela ousadia impossível.
Após um longo silêncio, Elisa respirou fundo.
Ela lutava, a cada dia, contra o que crescia entre elas.
— Siena, isso não pode acontecer. — disse Elisa, firme.
— O que não pode acontecer, Elisa? — respondeu Siena, com simplicidade.
Elisa se levantou, contornou a mesa e ficaram frente a frente por alguns segundos longos.
— Você trabalha para mim. Existem limites que não podem ser ultrapassados.
— Se todos estiverem de acordo em ultrapassar… qual é o problema?
— O que te faz achar que estou de acordo?
— São muitos os detalhes que percebi.
— Acho que é fácil às vezes confundir certas coisas. — Elisa fez uma pausa, tentando procurar uma forma de ser mais firme, mas aquilo era tudo que conseguia.
Siena escutou em silêncio. Entendia que seguir pelo caminho da hipocrisia seria mais fácil para Elisa naquele momento, mas a negação a fez murchar.
Um silêncio pesado se instalou entre elas.
Elisa estendeu a mão para pegar o relatório sobre a mesa, mas os dedos tocaram os de Siena por um segundo, o suficiente para provocar um choque elétrico nas duas.
Elisa retirou a mão com rapidez e saiu da própria sala sem olhar para trás, antes que precisasse enfrentar o que estava pensando ou sentindo.
Fim do capítulo
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