Capitulo 16 - Asas
Capítulo 16 — Asas
Era manhã de sábado quando a campainha tocou.
Rebeca apareceu no corredor ajeitando a manga da blusa.
Comprida demais para o calor.
Como vinha sendo nos últimos dias.
Ela abriu a porta.
Janis estava ali.
Ofegante.
Com um sorriso que não cabia no rosto.
E uma bicicleta.
Não era uma bicicleta qualquer.
Era do tipo que parecia feita para dois.
Com espaço atrás, como um convite silencioso.
E um farol na frente — pequeno, mas firme — como se prometesse que dava pra seguir mesmo quando o caminho escurecesse.
— Surpresa.
Rebeca piscou.
Uma vez.
Duas.
Olhou para a bicicleta.
Depois para Janis.
Depois de volta.
— O que é isso?
Janis apoiou o pé no chão.
— Um presente.
Pausa.
— Pra minha garota.
O silêncio que veio não foi vazio.
Foi grande demais.
Rebeca deu um passo para fora.
Aproximou a mão do guidão.
Tocou como se ainda não acreditasse.
— Você roubou?
Janis fez uma cara ofendida.
— Negociei.
— Como?
— Com trabalho.
Pausa.
— Começando hoje à tarde.
Rebeca soltou um riso curto.
Incrédulo.
— Você é doida.
— Um pouco.
Janis inclinou a cabeça.
— Vai querer ou não?
Rebeca olhou para a rua.
Depois para dentro de casa.
Depois de novo para a bicicleta.
— Eu não sei andar.
Janis sorriu devagar.
— Melhor ainda.
Pausa.
— Eu te ensino.
Rebeca demorou um segundo.
Então assentiu.
— Tá.
No começo, Janis foi conduzindo.
Rebeca sentada no banco do carona.
As mãos agarradas na cintura de Janis com mais força do que seria elegante admitir.
A bicicleta avançava devagar pela rua.
Sem pressa.
Sem grandes riscos.
Janis falava de vez em quando.
Qualquer coisa.
Só para manter a voz no ar.
Rebeca não respondia muito.
Estava ocupada demais tentando não cair de um veículo que nem estava controlando.
— Relaxa.
— Eu estou relaxada.
— Não está não.
— Estou sim.
Janis riu.
— Tá parecendo uma tábua assustada.
— Cala a boca.
Mas o “cala a boca” saiu com riso.
Elas seguiram por algumas ruas.
Viraram outra esquina.
Depois mais uma.
Até ficarem longe o bastante da casa de Rebeca para que o medo não viesse primeiro.
Janis parou.
Pôs um pé no chão.
Virou o rosto.
— Agora.
Rebeca franziu a testa.
— Agora o quê?
— Troca.
— Não.
— Sim.
— Janis!
— Rebeca!
Silêncio.
— Você vai aprender em algum momento.
Pausa.
— Melhor que seja hoje.
Rebeca olhou para o guidão.
Depois para a rua.
Depois para Janis.
— E se eu cair?
— Eu te seguro.
— E se você não conseguir?
— Não seja pessimista.
Rebeca respirou fundo.
Desceu.
Passou para o banco da frente.
Segurou o guidão.
As mãos trêmulas demais.
Janis ficou atrás.
Uma mão no banco.
Outra no guidão por um instante.
— Não olha pra mim.
— Pra quem eu olho?
— Pra frente.
Rebeca obedeceu.
— Tá pronta?
— Não.
— Ótimo.
Janis empurrou.
A bicicleta andou.
Um metro.
Dois.
Três.
Rebeca endureceu o corpo.
— Janis.
— Tô aqui.
— Janis.
— Tô aqui.
Mais um pouco.
Mais outro.
A roda se manteve reta.
As mãos dela também.
— Janis.
— Hm?
— Não solta.
Janis não respondeu.
Porque já tinha soltado.
Rebeca pedalou mais um pouco.
Sem perceber.
Depois um pouco mais.
E mais.
Foi só quando sentiu o vazio atrás de si que entendeu.
Virou a cabeça.
Janis estava alguns passos atrás.
Correndo.
Sorrindo.
— Você soltou!
— Soltei.
Silêncio.
A bicicleta continuou andando.
Sozinha.
Com ela.
E então veio.
O riso.
Rápido primeiro.
Quase um choque.
Depois maior.
Mais solto.
Mais alto.
Rebeca apertou o guidão.
Pedalou.
A bicicleta respondeu.
A rua abriu.
O vento bateu no rosto.
No cabelo.
Na pele.
E alguma coisa dentro dela abriu junto.
— Janis!
A voz saiu alta.
Viva.
— Eu tô indo!
— Eu sei!
Rebeca riu de novo.
Mais alto.
Mais rápido.
Pedalou mais forte.
O corpo inteiro leve demais.
Como se tivesse ficado anos presa em algum lugar pequeno demais.
Como se o ar finalmente coubesse.
Ela virou a esquina.
Depois outra.
Pedalou sem pensar.
Sem medir.
Sem calcular.
O coração batia tão forte que parecia música.
O vento zunia nos ouvidos.
E os pensamentos começaram a correr também.
No começo iam todos para o mesmo lado.
Uma fila organizada, como ciclistas descendo a mesma rua.
Então um deles se desviou.
Tomou outra direção.
Depois outro.
E outro.
De repente cada pensamento corria para um lado diferente.
E as coisas ficaram agitadas dentro da cabeça dela.
Muito agitadas.
Mas Rebeca continuava pedalando.
Cada vez mais rápido.
E foi aí que Janis percebeu.
— Rebeca!
Nada.
Só o som da bicicleta se afastando.
Janis correu.
Sem dignidade.
Sem plano.
Só correu.
O coração já não batia em ritmo normal.
— Beca!
Virou a esquina.
Nada.
Mais uma.
Nada.
Mais outra.
O pânico veio rápido.
Curto.
Seco.
Só passou quando a viu.
Parada na frente da casa de Ester.
A bicicleta encostada torta no portão.
Rebeca falando.
Falando rápido demais.
Gesticulando.
Rindo.
Ester estava no jardim, regando as plantas.
Parou com a mangueira ainda na mão.
Rebeca falava sem parar.
— Eu consegui! Eu consegui! Eu fui até lá embaixo e depois virei e tinha uma descida e eu achei que ia cair, mas não caí e depois tinha vento e...
Janis encostou no portão.
Ainda tentando recuperar o fôlego.
Ester levantou os olhos.
Olhou para a filha.
— Janis…
Pausa.
— O que diabos você fez com ela?
Janis levantou as mãos.
— Eu juro que não fiz nada!
Rebeca continuava falando.
Sem respirar.
Sem parar.
Janis levou alguns segundos para recuperar o ar:
— Você pedalou rápido demais.
— Eu sei!
Rebeca respondeu com brilho demais nos olhos.
— Janis, eu consegui.
Ela ria.
Respirava rápido.
Os olhos arregalados.
Luminosos.
Demais.
— Eu estava sozinha e mesmo assim estava indo.
— Eu sei.
— Não, você não sabe.
Ela deu um passo à frente.
As palavras tropeçando umas nas outras.
— Era como se… como se… eu não sei…
Ela levou a mão ao peito.
Rindo de novo.
— Como se eu tivesse criado asas.
O jardim ficou quieto por um segundo.
Janis conhecia aquele brilho.
Mas não daquele jeito.
Não tão alto.
Não tão acelerado.
Ester desligou a água.
— Entrem.
Rebeca virou o rosto.
— O quê?
— Pra dentro.
A voz veio firme.
Sem dureza.
Sem espaço.
— Só um minuto.
Rebeca parecia ainda em movimento por dentro.
— Eu quero mostrar...
— Depois você mostra.
Ester se aproximou.
Tocou o ombro dela com cuidado.
— Agora entra.
Foi a primeira vez que Rebeca pareceu perceber que havia algo errado.
Não muito.
Só um pouco.
O suficiente para piscar algumas vezes.
Janis segurou a bicicleta.
Ester levou Rebeca para dentro.
Na sala, a luz estava mais baixa.
O barulho da rua ficou do lado de fora.
Ester apontou o sofá.
— Senta!
Rebeca se sentou.
Mas as pernas ainda se mexiam.
As mãos também.
Janis entrou logo depois.
Encostou a bicicleta perto da parede.
Ficou de pé.
Sem saber se chegava mais perto ou não.
Ester não fez perguntas.
Só foi até a cozinha.
Voltou com um copo d’água.
— Beba.
Rebeca pegou.
Tomou dois goles.
Rápidos.
— Mais devagar.
A voz de Ester não subiu.
Mas fez efeito.
Rebeca tentou de novo.
Um gole.
Depois outro.
— Isso.
Ester se sentou na poltrona à frente.
Observando.
Sem invadir.
Sem dramatizar.
Só esperando a maré baixar.
Levou alguns minutos.
O riso foi embora primeiro.
Depois a fala acelerada.
Depois aquela vibração elétrica no corpo.
Quando o silêncio finalmente chegou, Rebeca parecia cansada de repente.
Como se tivesse corrido por muito mais do que algumas ruas.
Ela olhou para Janis.
Meio envergonhada.
— O que aconteceu?
Janis abriu a boca.
Mas Ester respondeu primeiro.
— Nada demais.
Pausa.
— Você passou tempo demais presa naquela casa. É só isso.
O silêncio que veio depois foi pequeno.
Mas cheio.
Janis baixou os olhos.
Respirou.
Ester se levantou e estendeu a mão para Rebeca.
— Vamos.
— Pra onde? — perguntou Rebeca.
— Pra sua casa.
Pausa.
— Antes que você resolva voar até a cidade vizinha.
***
Quando chegaram, Débora estava na cozinha.
Virou-se ao ouvir a porta.
O alívio apareceu primeiro.
Depois a dúvida.
— Já voltaram?
— Voltamos — disse Ester.
Rebeca entrou logo atrás.
Ainda com energia demais nos olhos.
Ainda leve demais nos passos.
— Mãe.
Débora percebeu na hora.
A voz rápida.
O sorriso grande demais.
A forma como ela entrou na cozinha sem realmente entrar.
Quase saltando de uma frase para a outra.
— Eu consegui.
— O quê?
— Andar.
— Andar?
— Na bicicleta!
Pausa.
— Sozinha!
Ester encostou no batente.
Observando em silêncio.
Rebeca continuava falando.
Mais alto.
Mais rápido.
Mais viva do que a casa parecia suportar.
Ester esperou duas frases.
Três.
Quatro.
Então falou:
— Débora, é melhor você manter a Rebeca no quarto até isso passar. – Ester segurou a maçaneta da porta e virou-se para sair. – Se Moisés encontrar com ela assim, vai fazer um círculo de oração aqui na sala.
***
Quando a tarde chegou, Rute apareceu para a aula de música.
Rebeca ainda estava daquele jeito quando Rute entrou no quarto.
Falando rápido.
Pulando de assunto em assunto.
— …e tinha uma descida e eu achei que ia cair mas eu não caí e depois tinha vento e eu virei e—
Débora tentou interromper.
— Filha…
Não adiantou.
Rebeca continuava andando de um lado para o outro.
— …e a bicicleta foi mais rápido e eu achei que—
Débora soltou um longo suspiro.
Rebeca estava vermelha.
Suada.
E falando cada vez mais rápido.
— Rute!
— O que aconteceu? – Rute perguntou, assustada.
— Eu consegui andar sozinha! Eu fui até—
Rute olhou para a mãe.
— Ela pirou?
Débora respondeu baixo:
— Eu já tentei de tudo.
Pausa.
— Mas ela continua correndo em círculos dentro da própria cabeça.
Rebeca ainda falava.
— …e depois eu virei a esquina e tinha vento e—
Rute cruzou os braços.
Observou por alguns segundos.
Então disse:
— Acho que sei o que fazer.
Ela segurou o braço da irmã.
— Vem comigo.
— Espera! Eu ainda não terminei de contar...
Rute puxou Rebeca pelo corredor.
— Vai terminar no banho.
Alguns segundos depois, o barulho do chuveiro ecoou pela casa.
A água fria caiu de uma vez.
— AAAAAH!
Rebeca deu um gritinho e tentou sair.
Rute segurou o ombro dela.
— Nada disso.
— Rute!
— Fica aí.
A água gelada continuava caindo.
— Só vai sair daí quando esse fogo todo apagar.
Rebeca tentou reclamar.
Mas o choque da água fria começou a desacelerar tudo.
A respiração.
A fala.
O coração.
Alguns minutos depois, ela já estava quieta.
Apenas respirando.
Rute desligou o registro.
Observou a irmã.
Rebeca já parecia presente outra vez.
Cansada.
Molhada.
Um pouco humilhada.
Mas, muito mais calma.
Rute pegou a toalha.
Entregou.
— Melhor?
Rebeca fez uma careta.
— Não sei.
Rute assentiu.
— Já é um começo.
Então, perguntou:
— Você bebeu alguma coisa?
Rebeca balançou a cabeça.
Rute olhou para a porta.
— Mãe?
Débora apareceu.
Rute perguntou:
— Acredita nela?
Débora sorriu de leve.
— Acho que ela só estava andando de bicicleta.
Rute torceu os lábios.
— Meus parabéns.
Ela olhou para a irmã encharcada.
— Você é a primeira pessoa na história que conseguiu ficar bêbada sobre rodas.
Rebeca soltou uma risadinha cansada.
Dessa vez… normal.
***
Elas estudaram depois.
Ou pelo menos tentaram.
As partituras estavam abertas.
O lápis na mão.
As notas na folha.
Mas a cabeça de Rebeca ainda parecia cheia de vento.
Não do tipo ruim.
Do tipo que ainda queria continuar correndo.
Mesmo assim, ela ficou.
Porque Rute ficou.
Porque Débora ficou.
Porque, de algum jeito, voltar ao papel e à música era o único jeito de não deixar o dia escapar completamente.
***
O jantar estava silencioso.
Janis mexia na comida sem muita vontade.
Ela tinha ficado quieta desde a tarde.
Ester percebeu.
— Você vai perguntar ou vai continuar empurrando arroz pelo prato?
Janis suspirou.
— O que foi aquilo?
Ester levantou os olhos.
— Aquilo o quê?
— A Rebeca.
Pausa.
— Ela parecia… fora de controle.
Ester apoiou os talheres.
— Estava.
Silêncio.
Janis continuou:
— A senhora não parecia preocupada.
Ester inclinou a cabeça.
— Eu estava observando.
Janis franziu a testa.
— Aquilo pode acontecer de novo?
— Pode.
Pausa.
— E provavelmente vai.
Janis ficou imóvel.
Ester continuou:
— Você conhece a Rebeca de um jeito muito específico. A menina torturada pelo próprio pai. Presa dentro de uma casa como se fosse uma fortaleza.
Janis assentiu.
— Mas isso não é tudo que ela é.
Silêncio.
Ester olhou diretamente para a filha.
— Hoje você viu outra parte.
Janis esperou.
— O que ela pode se tornar… se não for bem conduzida.
Janis abaixou o olhar.
— Eu achei que ela estava… perdendo o controle.
Ester respondeu:
— Estava.
Pausa.
— Mas tem uma coisa que você não percebeu.
Janis levantou os olhos.
Ester falou calmamente:
— Enquanto todo mundo estava preocupado… A Rebeca estava se divertindo muito.
Janis ficou quieta.
Aquilo não tinha passado pela cabeça dela.
Ester continuou:
— Aquela sensação de liberdade… foi intoxicante para ela. Aquela menina nunca sentiu isso antes.
Pausa.
— E gostou.
Silêncio.
Janis passou a mão no rosto.
— Isso é perigoso.
— É.
Ester assentiu.
— Por isso existe uma coisa chamada vida adulta.
Janis levantou o olhar.
Ester continuou:
— Compromisso não é apenas colocar um anel bonito em um dedo. É entender com quem você está lidando.
Ela inclinou a cabeça.
— Se você realmente gosta da Rebeca… Vai ter que aprender a amar todas as partes dela.
Silêncio.
Então Ester concluiu:
— Mesmo aquelas que são terrivelmente assustadoras.
Janis ficou parada por alguns segundos.
Pensando.
Então murmurou:
— Merda.
Ester voltou a comer.
— Pois é.
***
Na manhã do dia seguinte, Rebeca foi com a família para a igreja.
Assim que o culto acabou, ela escapuliu para a rua e foi direto para a casa de Janis.
O dia estava quente.
Rebeca parou diante da janela.
Hesitou.
Olhou para a porta da casa.
Depois para a janela de novo.
Respirou fundo.
E bateu de leve no vidro.
Toc. Toc.
Nada.
Mais uma vez.
Toc. Toc.
A cortina se mexeu.
Alguns segundos depois, a janela abriu.
Janis apareceu com o cabelo bagunçado e os olhos apertados de sono.
— Você sabe que existem duas portas nessa casa, né?
Rebeca cruzou os braços.
— Eu estou com vergonha da sua mãe.
Janis piscou, tentando acordar.
— Não vejo motivos.
— Eu fiquei parecendo uma louca.
Janis apoiou o braço na janela.
Pensou um segundo.
— Bobagem.
Pausa.
— Você parecia um esquilo com excesso de cafeína.
Rebeca ficou vermelha na hora.
— Não fala isso!
Janis abriu um sorriso lento.
— Não leva a mal.
Inclinou a cabeça.
— Era meu esquilinho fofo com excesso de cafeína.
Silêncio.
Pequeno.
Rebeca tentou sustentar a cara séria.
Não conseguiu.
O sorriso escapou primeiro.
Depois o resto.
Janis observou.
Com calma.
Como quem registra uma coisa importante.
— Tá vendo?
Rebeca balançou a cabeça.
— Eu não acredito que você falou isso.
— E você gostou.
— Não gostei.
— Gostou sim.
Rebeca desviou o olhar.
Ainda sorrindo.
— Cala a boca.
Janis riu baixo.
— Entra pela porta dessa vez, esquilinho.
Rebeca hesitou.
Olhou para a porta.
Depois para Janis.
E, mesmo com a vergonha ainda ali… Ela entrou.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 20/03/2026
O gente a Rebeca ficou tão feliz com esse momento de liberdade que perdeu o controle...
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Elin Varen Em: 22/03/2026 Autora da história
Foi tipo abrir a porta depois de muito tempo trancada…
entrou ar demais de uma vez só.