Capitulo 15 - Quando a dor muda de lugar
Capítulo 15 - Quando a dor muda de lugar
Janis recuou um passo para que ela pudesse passar.
— Eu preciso falar com você.
— Eu imaginei.
Pausa.
— É sobre a Rebeca.
Rute assentiu.
Respirou fundo.
— Ela disse que vai embora.
— Eu sei.
— Com você.
— Eu sei.
Aquilo não acalmou.
— Não é só isso.
A voz de Rute falhou um pouco.
— Ele… mudou.
Janis inclinou a cabeça.
— Como?
Rute hesitou.
Mas não suavizou.
— Ele não está mais focando só nela.
Silêncio.
— Ele está usando a minha mãe.
O ar mudou.
— Como assim? — Janis perguntou.
— Hoje ele...
Pausa.
— Puniu ela! Como costumava fazer com a Rebeca.
Janis não respondeu.
Mas o maxilar travou.
— Ela se levantou da mesa de jantar — continuou Rute. — Foi pra cozinha… e ficou lá.
Silêncio.
— E ele continuou como se fosse normal.
Agora não havia dúvida.
Isso não era mais só sobre a Rebeca.
— Ele não pode fazer isso — Janis disse.
— Ele pode — respondeu Rute.
Baixo.
Direto.
— E faz.
Foi nesse momento que a voz veio da cozinha:
— E vai continuar fazendo.
Ester apareceu no batente.
Braços cruzados.
Olhar firme.
— Se ninguém parar.
As duas olharam para ela.
— Isso não é castigo — continuou Ester. — Isso é controle.
Pausa.
— E agora ele expandiu.
Rute respirou fundo.
— Eu achei que era só com a Rebeca.
— Nunca é só com uma pessoa — disse Ester.
Silêncio.
Janis passou a mão pelo cabelo.
— Então a gente tira a Rebeca de lá.
— E deixa a Débora? — Ester cortou.
O silêncio veio mais pesado dessa vez.
Janis travou.
Rute também.
— Tá vendo? — Ester continuou, mais calma. — Não é mais simples.
Pausa.
— Não é mais só fuga.
Agora era outra coisa.
Mais difícil.
— E o que a gente faz? — Rute perguntou.
Ester cruzou os braços.
Pensou por um segundo.
— A gente não tira a Rebeca disso à força.
Pausa.
— A gente muda o foco.
Rute franziu a testa.
— Como?
Ester olhou direto para Janis.
— A gente arruma algo que seja mais interessante.
Silêncio.
— Do que esse jogo de poder com ele.
A frase ficou no ar.
Janis não respondeu de imediato.
Mas entendeu.
Rute ainda parecia perdida.
— Tipo o quê?
Pausa.
Janis levantou o olhar.
E dessa vez não teve dúvida.
— Eu sei.
— Janis! — Ester gritou.
Mas ela já tinha saído.
***
A padaria estava quase fechando.
As luzes já estavam sendo apagadas.
Janis entrou antes que a porta fechasse completamente.
— Ô!
O dono virou.
— Já fechamos!
— Eu preciso falar com você.
Ele suspirou.
— Amanhã.
— Não dá.
Ela apontou.
A bicicleta ainda estava encostada na parede.
— Eu preciso daquela bicicleta.
O homem olhou por cima dos óculos.
— Precisa ou quer?
— Preciso.
Pausa.
— Não tenho dinheiro agora.
Ele já ia negar.
— É pra Rebeca.
Ele franziu a testa.
— Qual Rebeca? A filha do pastor?
Janis assentiu.
O homem ficou em silêncio por um tempo.
Ele olhou para a bicicleta.
Depois para ela.
— E você vai pagar como?
Janis sorriu de lado.
— Eu posso trabalhar.
Silêncio.
— Trabalhar de verdade.
— Por quanto tempo?
— O tempo que precisar. Mas, eu vou folgar aos domingos.
— Horário?
— Depois da escola.
Ela não hesitou.
— Fechado.
Ele olhou para ela por alguns segundos.
Avaliando.
— Você não vai desistir no terceiro dia?
— Não.
Pausa.
— Nem no quinto?
— Não.
Ele respirou fundo.
— Tá.
Apontou a bicicleta.
— Mas... se você não cumprir sua parte no acordo ela volta pra cá...
— Trato feito.
Janis empurrou a bicicleta para fora.
E saiu.
O peso do que ela tinha acabado de fazer só chegou quando dobrou a esquina.
Quando voltou, a casa estava silenciosa.
Rute já não estava mais lá.
Mas Ester estava.
Sentada.
Esperando.
— Você quer me explicar? — perguntou.
Janis encostou a bicicleta na parede.
— Depois.
Ester estreitou os olhos.
— Engraçadinha.
Janis deu de ombros.
— Funcional.
Ester olhou para a bicicleta.
Depois para ela.
— Isso é pra ela?
Janis não respondeu.
Não precisava.
Ester assentiu devagar.
— Certo.
Silêncio.
— Então você decidiu entrar nisso de verdade.
Janis apoiou a mão no guidão.
— Eu nunca estive fora.
Ester levantou.
— Só não esquece de uma coisa.
Janis olhou.
— Você não está lidando só com um pai ruim.
Pausa.
— Você está lidando com um homem que acha que está certo.
O peso da frase ficou.
Mas Janis não recuou.
***
Rute voltou para casa do pai.
A luz da sala ainda estava acesa.
Moisés estava sentado.
A Bíblia aberta.
Como sempre.
— Onde você estava?
— Fui correndo em casa.
Pausa.
— Achei que tinha deixado uma panela no fogo.
Silêncio.
Moisés levantou os olhos.
— Foi?
— Fui.
Ela não desviou.
— E?
— Não tinha.
Pausa.
— Melhor conferir do que incendiar a casa.
Moisés não respondeu.
Só virou a página.
Débora lavava a louça.
Em silêncio.
Josué estava encostado na parede.
Com a expressão de quem queria estar em qualquer outro lugar.
— O jantar acabou.
— Eu sei.
— Então vá descansar.
Rute assentiu.
Ela e Josué saíram para a rua.
Sem olhar para trás.
Mais tarde, quando já estava no quarto, se preparando para dormir, o celular vibrou.
Uma mensagem.
Miriam:
“Pensei em você hoje. Está tudo bem?”
Rute ficou olhando para a tela.
Por um tempo.
Longo demais.
Digitou.
Apagou.
Digitou de novo.
Apagou.
Respirou fundo.
E ligou.
Chamou.
Chamou.
— Rute?
A voz veio calma.
— Aconteceu alguma coisa?
Rute fechou os olhos.
E, dessa vez, não tentou segurar.
— Nós precisamos de ajuda.
Silêncio do outro lado.
Curto.
Firme.
— Me conta.
E foi ali…
que a história deixou de ser só da Rebeca.
***
A casa estava silenciosa quando Miriam chegou.
Augusto estava na sala, com os óculos baixos no nariz e um livro aberto no colo.
Ele levantou os olhos.
— Demorou.
Miriam não respondeu de imediato.
Tirou a bolsa do ombro.
Sentou.
— A Rute me ligou.
Isso já foi suficiente.
Augusto fechou o livro.
— E?
Pausa.
Miriam olhou para as mãos.
— Está piorando.
Silêncio.
— Ele não está mais tentando esconder.
Augusto respirou fundo.
— E a mãe?
— Aguentando.
Pausa.
— Do jeito que dá.
O ventilador girava devagar no canto da sala.
— E a menina? — ele perguntou.
Miriam levantou os olhos.
— A mais nova?
— É.
Pausa.
— Não está mais aceitando.
Augusto assentiu devagar.
Como quem já esperava.
Silêncio.
Miriam apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu fiquei pensando…
Parou.
— A gente não pôde fazer nada pela mais velha.
O nome não veio.
Mas estava ali.
Entre eles.
— Não.
— Mas talvez…
Ela respirou fundo.
— Talvez ainda dê pra fazer alguma coisa pela mais nova.
Augusto não respondeu de imediato.
Olhou para o chão.
Depois para ela.
— Você está falando de trazer ela pra cá?
Miriam sustentou o olhar.
— Estou.
Silêncio.
Mais longo agora.
— Você sabe o que isso significa — ele disse.
— Sei.
— Não é só uma decisão de família.
— Eu sei.
— Isso mexe com a igreja.
— Eu sei.
Pausa.
— E com ele.
Agora ela não desviou.
— Eu sei.
Silêncio.
Augusto passou a mão no rosto.
— E você acha que ela aceitaria?
Miriam pensou um segundo.
— Acho que ela está esperando alguém oferecer.
Aquilo ficou no ar.
Pesado.
Real.
Augusto encostou as costas no sofá.
Olhou para o teto.
— E se a gente estiver errado?
Miriam respondeu sem hesitar:
— E se a gente não estiver?
Silêncio.
Mais um.
Ele soltou o ar devagar.
— Então a gente não pode demorar.
Miriam assentiu.
— Não.
***
O telefone tocou na cozinha.
Débora olhou para o relógio antes de atender.
Era cedo demais.
— Alô?
— Débora?
Ela reconheceu na hora.
— Miriam.
Pausa.
— Está tudo bem?
Débora olhou para a porta.
Fechada.
A casa quieta.
— Está.
Silêncio curto.
— Ele não está em casa?
A pergunta veio baixa.
Cuidadosa.
— Não.
Mais silêncio.
Miriam respirou do outro lado.
— A Rute me ligou.
Débora fechou os olhos por um segundo.
Só um.
— Eu imaginei.
O som de água correndo ao fundo.
— Eu não vou perguntar o que está acontecendo — disse Miriam.
— Eu acho que já sei o suficiente.
Débora não respondeu.
— Mas eu preciso te perguntar uma coisa.
Pausa.
— E eu preciso que você me responda com sinceridade.
O coração dela apertou.
— Pode perguntar.
Silêncio.
— Você acha que a Rebeca está segura aí?
A pergunta ficou.
Pesada.
Sem saída.
Débora apoiou a mão na pia.
— Não.
A palavra saiu sem força.
Mas inteira.
Do outro lado da linha, Miriam não se moveu.
— Então me deixa ajudar.
Débora respirou fundo.
O olhar perdido em algum ponto da cozinha.
— Como?
— Trazendo a Rebeca pra cá.
Silêncio.
Longo.
Difícil.
— Ele não vai aceitar.
— Eu sei.
Pausa.
— Eu não estou perguntando pra ele.
Aquilo atravessou.
Débora apertou os olhos.
— Miriam…
— Eu só preciso saber se você permite.
A palavra ficou no ar.
Permite.
Como se ela ainda tivesse esse poder.
Débora riu baixo.
Sem humor.
— Permitir…
Pausa.
— Eu não consigo nem proteger ela dentro da minha própria casa.
Silêncio.
— Mas talvez…
A voz falhou.
Ela engoliu.
— Talvez você consiga.
Mais um segundo.
— Leva ela.
A frase saiu baixa.
Mas firme.
— Antes que ele faça alguma coisa que não tenha volta.
Do outro lado, Miriam fechou os olhos.
— Eu vou.
Débora encostou na pia.
— E Miriam…
— Hm?
— Não diz que fui eu.
— Não vou.
Silêncio.
— Cuida dela.
— Vou cuidar.
A ligação caiu.
Débora ficou parada.
A mão ainda no telefone.
A casa continuava a mesma.
Mas, pela primeira vez em muito tempo…
a decisão não estava mais nas mãos dele.
Fim do capítulo
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