Capitulo 14 - Satanás se manifesta
Capítulo 14 — Satanás se manifesta
Rebeca estava sentada na arquibancada com um livro aberto no colo.
Tiago ainda discutia com alguém. Uma teoria absurda sobre dragões e política.
Quando Janis, no meio da quadra, parou de repente.
Ela olhou para a entrada do parque.
Depois levantou a voz:
— Atenção, pessoal. Satanás se manifesta.
Alguns riram.
Outros olharam automaticamente para a rua.
Rebeca não precisou olhar.
Ela já sabia.
Nos últimos dias, Moisés sempre encontrava um motivo para aparecer no parque.
Fechou o livro imediatamente.
Em um movimento rápido, tirou o anel do dedão e colocou os dois dentro da mochila da Janis, que estava jogada ao lado do banco.
Tiago observou o gesto.
— Procedimento padrão?
— Treinamento intensivo — Rebeca respondeu.
Na quadra, Janis já estava caminhando para a arquibancada como se nada tivesse acontecido.
Quando Moisés entrou no parque, encontrou exatamente o que esperava.
Jovens conversando.
Uma bola parada na quadra.
E sua filha sentada quieta no banco.
Moisés caminhou devagar pelo parque.
Alguns dos jovens o cumprimentaram com um aceno respeitoso.
Outros apenas observaram.
Ele respondeu com um leve movimento de cabeça.
Mas havia algo diferente no ar.
Não era hostilidade.
Era… curiosidade.
Duas senhoras da Comunidade conversavam perto do portão do parque.
Uma delas abaixou a voz quando Moisés passou.
— É ele.
— Eu sei.
— Outra vez?
— Parece que sim.
Moisés ouviu.
Fingiu não ouvir.
Na arquibancada, Rebeca permanecia sentada.
Mochila fechada no colo.
Postura correta.
Ele parou diante dela.
— Rebeca.
Ela levantou os olhos.
— Sim?
— O teste de música da igreja será no início do próximo mês.
Pausa.
— Você precisa começar a se preparar.
Tiago, ainda na quadra, falou antes de conseguir se controlar:
— Mas a gente nem começou o segundo jogo.
Moisés virou a cabeça lentamente.
— Ela tem outras prioridades.
Um silêncio pequeno caiu sobre a quadra.
Estevão cruzou os braços.
Ana olhou para Janis.
Janis não disse nada.
Mas também não desviou o olhar.
Foi um dos adultos que falou primeiro.
O senhor Mauro, que passava pelo parque com uma sacola da padaria, parou perto da grade.
— Boa tarde, pastor Moisés.
— Boa tarde.
Ele observou a quadra por um instante.
— Os jovens estão animados hoje.
— Jovens precisam de disciplina — respondeu Moisés.
Mauro assentiu devagar.
— Também precisam de ar puro.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.
Rebeca já estava de pé.
Moisés percebeu os olhares.
Muitos olhares.
Mais do que ele gostaria.
Ele não podia criar uma cena ali.
Não outra.
Respirou fundo.
— Rebeca.
Ela esperou.
— Sua irmã virá buscá-la mais tarde. Ela vai ajudá-la a estudar.
Rebeca franziu a testa.
— A Rute? – ela estranhou. Débora sempre a ensinava.
— Sim.
Ele continuou, com o tom controlado.
— A partir de agora, vocês voltarão juntas para casa.
Na quadra, Tiago murmurou:
— Ih.
Ana cutucou o braço dele.
— Shhh.
Janis finalmente falou.
— Parece justo.
Moisés virou os olhos para ela.
— Justo?
Janis deu de ombros.
— Família cuidando da família.
Pausa.
— A igreja gosta disso.
Alguns jovens esconderam o sorriso.
Moisés sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois voltou a atenção para a filha.
— Antes do pôr do sol, Rebeca.
Rebeca assentiu.
— Sim, senhor.
Ele se virou para ir embora.
Caminhou até o portão do parque.
E só então ouviu novamente o som da bola batendo na quadra.
O jogo recomeçara.
Atrás dele.
Sem pressa.
Sem medo.
Na arquibancada, Rebeca voltou a sentar.
Janis pegou a mochila.
— Então.
— Então — respondeu Rebeca.
Tiago subiu dois degraus.
— A Rute?
— A Rute — disse Rebeca.
Janis encostou no banco.
— Isso complica um pouco.
Rebeca pegou o livro novamente.
— Não.
Ela virou uma página.
— Só muda a peça.
***
O telefone tocou no meio da tarde.
Rute atendeu ainda com o caderno aberto sobre a mesa.
— Alô?
— Rute.
A voz de Moisés veio direta.
— Sim, pai?
— Venha até aqui.
Pausa.
— Agora.
A ligação caiu antes que ela respondesse.
Quando Rute entrou na casa, o cheiro do jantar já estava no ar.
A cozinha estava acesa.
Débora estava de pé diante do fogão.
De costas.
Mexendo a panela.
Ela não se virou.
Nem quando a porta fechou.
Nem quando Rute disse:
— Oi.
— Rute.
Moisés estava na sala.
Sentado.
A Bíblia aberta no colo.
Ela se aproximou devagar.
— O senhor queria falar comigo?
— Sim.
Ele não a convidou para sentar.
— A partir de hoje, você ficará responsável pela preparação da sua irmã para o teste de música.
Rute piscou.
— Eu?
— Sim.
Pausa.
— Sua mãe não continuará com esse trabalho.
Rute olhou de relance para a cozinha.
Débora continuava mexendo a panela.
Silenciosa.
Foi então que Rute percebeu.
A blusa.
Manga comprida.
A saia longa.
Mesmo com o calor.
Mesmo na cozinha.
Algo apertou no peito dela.
— Mas… — começou.
— É uma decisão tomada.
A voz de Moisés veio firme.
Sem espaço.
— Esse teste exige disciplina.
Pausa.
— E Débora não tem mais a mesma firmeza espiritual.
Rute engoliu seco.
— Sim, senhor.
Moisés assentiu.
— Vá buscar sua irmã.
Rute hesitou um segundo.
— Agora?
— Agora.
Ele voltou os olhos para a Bíblia.
— Antes do pôr do sol.
A conversa estava encerrada.
Rute olhou mais uma vez para a cozinha.
Débora não se virou.
***
Rute ainda estava na entrada do parque quando viu a irmã.
Rebeca já estava com a mochila nas costas.
Pronta.
Como se estivesse esperando.
Quando a viu, não hesitou.
Desceu os degraus da arquibancada quase correndo.
— Rute?
Rute abriu a boca para falar, mas Rebeca foi mais rápida.
— Vamos.
A palavra saiu baixa.
Discreta.
Rute franziu a testa.
— Mas—
— Depois. – Rebeca já estava andando.
Passou direto pela quadra.
Nem olhou para os outros.
Só fez um gesto rápido com a mão, quase um aceno.
Nada que chamasse atenção.
Janis percebeu.
Não disse nada.
Só acompanhou com o olhar.
Tiago abriu a boca para comentar.
Ana cutucou o braço dele.
— Deixa.
Rute acelerou o passo para alcançar a irmã.
— O que foi isso?
— Evitar problema.
— Problema com quem?
Rebeca não respondeu.
Só continuou andando.
Só quando viraram a esquina — longe do parque, longe dos olhares — ela parou.
Virou-se.
— Agora pode falar.
Rute soltou o ar devagar.
— O pai me chamou.
Rebeca não se surpreendeu.
Só esperou.
— Ele disse que eu vou te preparar para o teste.
Silêncio.
— A mãe não vai mais.
Rebeca assentiu.
Como se já soubesse.
— Ele disse que ela não tem mais a mesma firmeza espiritual.
A frase soou estranha até na boca de Rute.
Rebeca desviou o olhar.
Pensou um segundo.
— Ela estava na cozinha?
Rute piscou.
— Estava.
— Manga comprida?
— Estava.
Rebeca assentiu devagar.
Como quem confirma algo.
Mas não comenta.
Rute observou.
— Você já sabia?
— Não.
Pausa.
— Mas eu imaginei que isso fosse acontecer.
As duas voltaram a andar.
Mais devagar agora.
— Rebeca…
A voz de Rute saiu mais baixa.
— Você precisa aceitar isso.
Rebeca deu um pequeno sorriso.
— Preciso?
— Precisa.
Pausa.
— Porque eu não quero que vocês duas apanhem de novo.
O mundo ficou mais quieto por um segundo.
Rebeca parou.
Não olhou para ela.
Mas também não negou.
— Rute…
— Eu estou falando sério.
Agora havia medo na voz.
— Você acha que está controlando. Mas você não está.
Silêncio.
— Ele não vai parar.
Rebeca olhou para frente.
— Eu sei.
Rute virou o rosto.
— Sabe?
— Sei.
— E mesmo assim você continua?
Rebeca demorou um segundo.
— Continuo.
Rute passou a mão no rosto.
— Por favor… Só faz o teste... Só por enquanto... Só até isso passar.
Rebeca voltou a andar.
— Não é sobre o teste.
Rute não respondeu.
Mas entendeu.
E, pela primeira vez, percebeu que não estava tentando ensinar a irmã.
Estava tentando segurar alguém que já tinha decidido ir embora.
***
O quarto estava abafado.
A janela entreaberta deixava entrar um vento fraco, que mal mexia a cortina.
Rute espalhou as partituras sobre a cama com cuidado.
Organizada.
Metódica.
Como sempre.
Rebeca ficou de pé por alguns segundos.
Observando.
Depois se sentou na cadeira.
Não na cama.
— Vamos começar — disse Rute, tentando manter a normalidade.
Rebeca assentiu.
Pegou o lápis.
Girou entre os dedos.
Rute apontou para a primeira linha.
— Aqui.
Silêncio.
— O que vem depois?
Rebeca olhou.
— Você sabe.
— Sei.
— Então fala.
Silêncio.
— Rebeca.
Ela encostou o lápis no papel.
Mas não escreveu.
— Isso não importa.
Rute parou.
— Como assim não importa?
— Não importa.
— Importa sim.
A resposta veio mais firme.
Mais rápida.
— Esse teste é importante.
Rebeca soltou um pequeno riso.
Sem humor.
— Pra quem?
Rute travou.
— Pra você.
— Não.
Silêncio.
— Eu não quero fazer esse teste.
Rute piscou.
— O quê?
— Eu não quero.
— Rebeca!
— Eu não vou estar aqui.
A frase veio baixa.
Mas pesada.
Rute demorou um segundo para entender.
— Como assim?
Rebeca apoiou os cotovelos nos joelhos.
Olhou para o chão.
— Eu vou embora.
O ar mudou.
— Pra onde?
Rebeca respirou fundo.
E então olhou direto para ela.
— Pra Capital.
Silêncio.
— Quando?
— Quando fizer dezoito.
Rute ficou completamente imóvel.
— Você… está falando sério?
— Estou.
Pausa.
— Com quem?
Rebeca não desviou.
— Com a Janis.
O nome caiu entre elas.
Rute piscou devagar.
Tentando encaixar.
— Rebeca…
— Eu não vou deixar a Janis.
Silêncio.
— A gente está junto.
Agora não tinha mais volta.
Rute respirou fundo.
— Você sabe o que está dizendo?
— Sei.
— Não sabe.
— Sei sim.
A voz de Rebeca não subiu.
Mas ficou mais firme.
— Eu sei exatamente.
Pausa.
— Eu escolhi isso.
O quarto ficou pequeno.
— Nosso pai...
— Não é sobre ele.
Rute ficou em silêncio.
— É sobre mim.
A frase veio calma.
Mas definitiva.
Rute passou a mão no rosto.
— Ele não pode saber.
— Eu sei.
— Se ele souber...
— Eu sei.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos.
Só o som do ventilador girando.
— Eu estou tentando te proteger — Rute disse, mais baixo.
Rebeca levantou os olhos.
— Eu sei.
Pausa.
— Mas você não pode me proteger disso.
Rute fechou os olhos por um instante.
— E o teste?
Rebeca deu de ombros.
— É só uma peça.
— Peça de quê?
Rebeca inclinou a cabeça.
— Do jogo.
Silêncio.
Rute olhou para as partituras.
Depois para a irmã.
E, pela primeira vez, não viu uma menina teimosa.
Viu alguém que já estava jogando para sair.
— E você acha que vai ganhar?
A pergunta saiu quase sem querer.
Rebeca demorou um segundo.
Então respondeu:
— Eu não preciso ganhar agora.
Pausa.
— Eu só preciso não perder.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais pesado.
Mais real.
Rute juntou as folhas devagar.
Sem olhar para ela.
— Então vamos estudar.
Rebeca assentiu.
— Vamos.
Mas nenhuma das duas realmente voltou para a música.
***
A mesa já estava posta quando Rebeca desceu.
Tudo no lugar.
Como sempre.
Pratos alinhados.
Talheres paralelos.
A Bíblia ao lado do prato de Moisés.
Ele serviu.
Sem pressa.
Arroz.
Feijão.
Carne.
O prato de Josué.
O de Rute.
O de Rebeca.
O dele.
Quando chegou na vez de Débora…
ele parou.
O silêncio veio devagar.
Como se a casa percebesse antes das pessoas.
Débora não perguntou.
Não olhou.
Apenas tirou as mãos da mesa.
Empurrou a cadeira.
— Eu já comi.
A voz neutra.
Controlada.
Ela foi para a cozinha.
E ficou.
O som da torneira abriu logo depois.
Rebeca não se mexeu.
Não precisava olhar.
Aquilo não era sobre a aula.
Nunca foi.
Ele tinha tentado de um jeito.
Não funcionou.
Agora estava tentando outro.
Pior.
— Coma — disse Moisés.
Rebeca levantou os olhos.
— Posso subir?
— Não.
— Eu não estou com fome.
— Coma.
A palavra veio mais firme.
Rebeca apoiou as mãos no colo.
— Não.
Rute parou o movimento com o garfo.
Josué ergueu levemente a cabeça.
O som da água continuava na cozinha.
— Então você ficará à mesa.
Pausa.
— Até o jantar terminar.
Rebeca assentiu devagar.
— Tá.
E ficou.
Sem tocar no prato.
Sem olhar para ninguém.
O tempo começou a se arrastar.
Foi então que ela levou a mão até a toalha.
Um fio solto.
Ela puxou.
Devagar.
Outro veio junto.
Ela enrolou no dedo.
Soltou.
Puxou de novo.
— Rebeca…
A voz de Rute saiu baixa.
— Hm?
Sem olhar.
— Para com isso.
— Com o quê?
Ela puxou mais um.
O tecido cedeu.
Moisés observava.
Em silêncio.
Rebeca continuou.
Agora sem pressa.
Sem esconder.
Linha por linha.
— Rebeca — a voz dele veio baixa.
Ela parou.
Olhou.
Sustentou.
E puxou de novo.
O som foi mínimo.
Mas definitivo.
O soco veio seco.
A mesa inteira tremeu.
Os pratos vibraram.
Os copos balançaram.
Rute se encolheu.
Josué levantou a cabeça.
A água na cozinha parou por um segundo.
Só um.
Rebeca não se moveu.
A mão ainda sobre a toalha.
O fio enrolado no dedo.
Ela olhava para ele.
Sem medo.
Sem pressa.
Aquilo foi pior.
Muito pior.
Moisés respirava pesado.
Mas não se levantou.
Rebeca soltou o fio.
Levantou.
— Agora eu posso subir?
Ninguém respondeu.
Ela não esperou.
Virou.
E foi.
Os passos leves na escada.
A porta do quarto fechou lá em cima.
O som ecoou pela casa.
E ficou.
Ninguém falou por alguns segundos.
Moisés voltou a se sentar.
Abriu a Bíblia.
Como se nada tivesse acontecido.
— Terminem o jantar.
A voz controlada.
Isso era o pior.
Rute não conseguiu engolir.
Josué também não.
Débora voltou a abrir a torneira.
Como se o som pudesse preencher o que faltava.
Rute se levantou.
— Eu vou ver como ela está.
— Não precisa — disse Moisés.
Sem olhar.
— Ela escolheu isso.
A frase ficou no ar.
Pesada.
Errada.
Rute pegou a bolsa.
— Aonde você vai?
— Volto já.
Ela não esperou resposta.
Saiu.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 19/03/2026 Autora da história
Às vezes a jogada não é atacar…
É mudar o tabuleiro.