Capitulo 13 - Pequenos Movimentos
Capítulo 13 - Pequenos Movimentos
Nos dias que se seguiram, a casa de Moisés continuou funcionando como sempre.
O mesmo café da manhã silencioso.
A mesma Bíblia aberta na mesa do jantar.
As mesmas orações antes de dormir.
Mas havia uma diferença pequena.
Rebeca parecia feliz demais.
Em um dia, ela voltou do parque. Mas estava sem os sapatos.
Entrou pela porta da frente como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Cheguei! — falou com entusiasmo.
— O que fez com seus sapatos?! — Moisés perguntou irado.
— Esqueci na quadra — respondeu ela, tranquila.
A menina saiu correndo pela porta. Moisés esperou.
Duas horas depois ela apareceu, carregando os sapatos nas mãos.
— Por que demorou tanto?! — Moisés estava um pouco mais irado.
— Não foi fácil encontrar — Rebeca respondeu, tranquila.
— Por que não os calçou? — os olhos de Moisés estavam brilhando de raiva.
— As meias estavam muito sujas — Rebeca deu de ombros e colocou os sapatos dentro da sapateira antes de ir para o quarto.
Em outro dia, Moisés viu a menina chegando, com um estranho volume dentro do bolso.
— Cheguei!
— O que é isso? — Ele apontou como se tivesse encontrado a prova de um crime.
— Não é nada demais. – Rebeca puxou uma pequena caixa do bolso. A tampa estava mal encaixada e um mar de cartas de baralho se espalhou pelo chão.
— De quem é isso?! — Moisés gritou.
— Do Tiago. – a menina abaixou e recolheu as cartas do chão.
— E por que estava no seu bolso?
— Eu esqueci de devolver. – respondeu correndo para fora.
— Rebeca!
E em um outro dia, Rebeca entrou em casa com energia demais.
— Cheguei!
A voz ecoou pelo corredor.
Moisés estava sentado na mesa da cozinha, lendo a Bíblia.
Ele levantou os olhos devagar.
Rebeca continuou falando com Débora como se não tivesse percebido.
— A gente jogou vôlei hoje. E eu quase acertei a bola na cabeça do Estevão.
Débora tentou um pequeno sorriso.
O olhar de Moisés percorreu a filha: O joelho ralado. A saia dobrada. O corpo suado.
Moisés encarou a esposa por uns instantes, então perguntou:
— Você acha que isso está certo?
Pela primeira vez desde que Rebeca havia começado a jogar contra o Moisés, a menina sentiu o estômago virar.
Ela não queria que a mãe fosse atingida por causa dela.
Débora pegou um pano de prato e enxugou as mãos devagar.
Aproximou-se da menina.
Observou a filha de cima a baixo.
Depois olhou para Moisés.
— Você bebeu? — perguntou para Rebeca.
— Não.
— Fumou?
— Não.
— Usou algum tipo de droga?
— Não.
— Fez alguma oração para outros deuses?
— Não.
Moisés respirava pesado.
Débora continuou, com a mesma calma:
— Fornicou?
Rebeca ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
— Não!
O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável.
Débora voltou o olhar para o marido.
— Então… eu não sei o que te dizer, Moisés.
Moisés voltou os olhos para a Bíblia.
Mas não estava mais lendo.
Algumas noites terminavam em silêncio pesado.
Outras terminavam com portas batendo.
E, às vezes, Rebeca aparecia no café da manhã usando mangas compridas, mesmo quando o calor era grande demais para aquilo.
Débora fingia não ver.
***
— Tem certeza de que está tudo bem?
Rebeca e Janis andavam lado a lado na rua.
Durante dias Janis ajudou Rebeca a elaborar planos para tirar a paz de Moisés. Porém, conforme o tempo foi passando e as ideias de Rebeca foram ficando cada vez mais ousadas, Janis começou a se preocupar.
— Tudo ótimo. – Rebeca respondeu. – Só estou ansiosa pela jogada de hoje.
Quando as duas passaram em frente à padaria, Janis parou.
— Espera.
Rebeca continuou andando alguns passos antes de perceber.
— O quê?
Janis apontou discretamente para a entrada da loja. Uma bicicleta estava encostada na parede. Tinha uma pequena placa presa ao guidão.
Vende-se.
Janis inclinou a cabeça, observando.
— Bonita.
Rebeca olhou apenas por um segundo.
— É.
E continuou andando.
Janis ainda ficou parada alguns instantes antes de segui-la.
As duas foram para a casa de Janis. Dois copos de macarrão instantâneo estavam esperando por elas no balcão da cozinha.
— Não acredito que Moisés nunca permitiu que você experimentasse. — respondeu Janis. — Isso é comida da melhor qualidade.
— Você já comeu isso? - Rebeca abriu um dos copos. O cheiro do tempero não agradou e ela fez uma careta.
— Claro.
— E sobreviveu?
— Estou aqui.
Janis colocou água para ferver enquanto Rebeca examinava o copo de macarrão como se fosse um objeto estranho.
— Três minutos? — ela leu.
— Confia.
A água ferveu.
Janis despejou dentro do copo e tampou.
— Agora a gente espera.
— Tem cheiro de laboratório.
Janis deu de ombros.
— Tem gosto melhor do que parece.
Três minutos depois, ela entregou o copo para Rebeca.
Rebeca experimentou uma garfada.
Pensou.
— Não é ruim.
— Eu avisei.
Ela comeu mais um pouco.
Depois olhou para o restante.
— Agora eu vou levar um pouco para minha mãe provar.
Janis levantou uma sobrancelha.
— Corajosa.
Rebeca levou o copo consigo para casa.
A porta se abriu sem pressa.
Encontrou Débora e Moisés na cozinha.
O almoçou estava pronto e a mãe estava organizando os pratos na mesa.
Rebeca entrou na cozinha com a mochila em um ombro e o copo de macarrão instantâneo quase vazio na mão.
Ela comia devagar.
Um fio de macarrão desapareceu entre os lábios.
Barulho.
Slurp.
Moisés levantou os olhos da mesa.
— O que é isso?
Rebeca respondeu com naturalidade.
— Macarrão instantâneo.
Ela girou o copo, olhando o que restava.
— A mãe da Ana me deu. - Mentiu. — Ela ficou surpresa porque eu já tenho dezesseis anos e nunca tinha provado.
Moisés franziu a testa.
— E por que você trouxe isso para dentro de casa?
Rebeca deu de ombros.
— Trouxe para a mamãe experimentar.
Débora hesitou um segundo, mas pegou o copo.
— Vamos ver.
Ela despejou o que restava em um prato.
Experimentou.
Fez uma careta leve.
— Não gostei.
Rebeca inclinou a cabeça.
— Posso terminar?
Débora assentiu.
— Pode.
Rebeca pegou o prato.
Mas, em vez de usar o garfo que estava ao lado, começou a comer o macarrão fio por fio.
Levando cada um à boca com a mão.
Slurp.
Outro.
Slurp.
A cozinha ficou silenciosa.
O som do macarrão sendo sugado parecia alto demais.
Moisés observava.
Os olhos estreitos.
Porque aquilo era estranho.
Ela poderia acabar em duas garfadas.
Mas não.
Ela estava fazendo durar.
Outro fio.
Slurp.
Rebeca mastigou calmamente.
Engoliu.
Então se levantou.
— Vou devolver o garfo.
— Agora? — Moisés perguntou.
Ela assentiu.
— Sim.
— É da Ana.
Pausa.
— Eu não demoro.
Ela saiu.
Tranquila.
Quando o sol estava se pondo, ela voltou.
Entrou em casa exatamente do mesmo jeito.
Calma.
Sem pressa.
Como se nada tivesse acontecido.
Moisés estava na sala.
— Demorou.
Rebeca respondeu com a mesma serenidade de sempre.
— Desculpe, senhor.
Ele ficou olhando para ela.
Tentando entender se aquilo era provocação.
Ou ingenuidade.
Ou algo pior.
Finalmente perguntou:
— Você acha que está me desafiando?
Rebeca inclinou a cabeça.
Quase curiosa.
— Não, senhor.
Pausa.
— Estou apenas obedecendo.
Silêncio.
Ela subiu as escadas.
Deixando atrás de si uma sensação estranha.
Pela primeira vez em muito tempo, ele não sabia exatamente como punir a própria filha.
Fim do capítulo
A Rebeca começou a mover as peças.
Se você estivesse no lugar dela… qual seria o próximo movimento?
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