Capitulo 12 - A Rainha faz seu primeiro movimento
Capítulo 12 – A Rainha faz seu primeiro movimento.
A manhã ainda estava silenciosa quando Rebeca apareceu na cozinha.
Já estava vestida para a escola.
A mochila nas costas.
O cabelo preso.
Ela não disse nada.
Apenas ficou parada perto da porta.
Moisés estava sentado à mesa, lendo a Bíblia como fazia todas as manhãs. O som da página virando era praticamente o único barulho da casa.
Os minutos passaram.
Ele virou outra página.
Então levantou os olhos.
— O que você quer?
— Estou esperando.
— Esperando o quê?
— O senhor.
Ele franziu a testa.
— Para quê?
— Para ir para a escola.
O silêncio que se seguiu não foi exatamente tranquilo.
Moisés fechou a Bíblia com um gesto curto.
— Você já tem idade para ir sozinha.
Rebeca assentiu.
— Eu sei.
Ela abriu a porta.
— Tenha um bom dia.
Ele resmungou algo baixo enquanto voltava à leitura.
Rebeca saiu.
Assim que o portão se fechou atrás dela, o ar pareceu mais leve.
Ela caminhou até a esquina.
Janis estava encostada no muro, o skate debaixo do braço.
— Bom dia, prisioneira. – Janis tirou o anel do dedão da mão esquerda e colocou no dedão da mão direita de Rebeca.
Ela sorriu.
— Bom dia.
Janis jogou o skate no chão.
— Então… qual é o plano hoje?
— Preciso passar na sua casa.
Janis ergueu uma sobrancelha.
— Logo cedo?
— É rápido.
Janis inclinou a cabeça, analisando.
Então sorriu de lado.
— Ah.
Rebeca franziu a testa.
— Ah o quê?
— Você quer um beijo antes da aula.
Rebeca ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
— Não.
— Não?
— Não.
Janis fingiu desapontamento.
— Que começo de manhã decepcionante.
Rebeca riu.
— Eu preciso do meu caderno.
Janis piscou.
— O diário?
— Sim.
— Agora isso ficou interessante.
Elas seguiram pela rua.
A casa de Janis ainda estava quieta quando chegaram.
Ester já tinha saído para a escola.
Janis abriu a porta e fez um gesto exagerado.
— Bem-vinda ao território inimigo.
Rebeca entrou direto e foi para o quarto de Janis.
— Não repare a bagunça.
Janis deu um sorriso torto.
Rebeca revirou os olhos.
Um amontoado de roupas estava espalhado pelo chão. Folhas, cadernos, lápis jogados nos lugares mais improváveis. No meio daquela confusão, Rebeca encontrou o diário.
Folheou algumas páginas.
Janis cruzou os braços.
— Atualizações?
— Muita coisa aconteceu.
Rebeca se sentou à escrivaninha.
Pegou uma caneta.
Ficou alguns segundos olhando para a página em branco.
Então começou a escrever.
Primeiro escreveu sobre as discussões na Célula e as perguntas que ninguém costumava fazer.
O desconforto que finalmente tinha aparecido entre os adultos.
Depois escreveu sobre o jogo de vôlei.
A presença de Janis.
A visita do pastor Elias.
A sabugada que Moisés tinha levado.
Rebeca parou por um instante.
Escreveu uma palavra.
Pai
Ficou olhando para ela por alguns segundos.
Então passou um risco firme sobre a palavra.
Abaixo, escreveu:
Moisés
Continuou.
Quando terminou, releu tudo.
Ainda faltava uma frase.
Ela pensou um pouco.
Então escreveu:
Ele é forte.
Mas não é invencível.
Janis observava em silêncio.
— Isso é sobre o plano?
— Também.
— E sobre mim?
Rebeca levantou os olhos.
— Talvez.
Janis se aproximou.
— Então eu mereço pelo menos um beijo.
Rebeca suspirou.
— Você não desiste.
— Tenho princípios.
Rebeca fechou o diário por um segundo.
Se inclinou.
Deu um beijo rápido nela.
Janis sorriu.
— Agora sim.
— Vamos.
— Já?
— Vamos nos atrasar.
As duas correram para a rua e Janis pegou o skate.
— Sobe.
— Isso nunca acaba bem.
— Confia.
Rebeca subiu.
O skate desceu a rua com velocidade suficiente para transformar atraso em milagre.
Quando chegaram à escola, ainda tinham alguns minutos.
Na sala de aula, Rebeca fez algo que Janis não esperava.
Parou no meio do corredor.
— Troca de lugar comigo hoje?
Janis franziu a testa.
— Você odeia se sentar no fundo.
— Hoje não.
Janis deu de ombros e ocupou a primeira carteira.
Rebeca foi para o fundo.
Abriu o caderno.
Mas não era o caderno de matemática.
Era o diário.
Durante a aula, ela escreveu mais algumas linhas. Pequenos resumos dos últimos dias. Mais detalhes sobre os meninos da célula. As idas ao parque. As tardes passadas no teclado, em uma tentativa de afugentar a tristeza.
Quando fechou o caderno, a frase voltou a aparecer.
Ele é forte.
Mas não é invencível.
Naquele dia não havia reunião da Célula.
Mas alguns dos jovens tinham combinado de ir ao parque depois da escola.
Janis foi junto.
No fundo, ela tinha aprendido a gostar dos meninos.
O vôlei começou como sempre começava.
Janis trouxe a bola e Tiago endireitou a rede.
O resto aconteceu naturalmente.
Rebeca jogou.
Correu.
Riu.
Mas depois de um tempo se sentou na grama.
Abriu um livro. O Hobbit.
A menina havia desenvolvido o hábito pela leitura na casa de Ester. E quando já tinha lido todos os livros que havia encontrado na estante da tia, Janis passou a pegar livros para ela na biblioteca.
Janis passou correndo.
— Você veio para o parque pra ler?
Rebeca levantou os olhos.
— Eu vim para o parque pra fazer o que eu quiser.
Janis riu.
— Justo.
Depois de ler três capítulos, Rebeca guardou o livro na mochila de Janis e pegou o diário mais uma vez.
Ficou alguns segundos olhando para a página em branco.
Então voltou a escrever.
Primeiro veio um título pequeno no canto da página:
Como vencer Moisés
Abaixo, ela começou uma lista.
1. Confronto direto
— não funciona
— ele ganha no grito
Ela riscou.
2. Desobedecer a tudo
— piora os castigos
Riscado também.
3. Fugir
Ela parou um pouco nessa palavra.
Não riscou.
Mas também não continuou.
A caneta ficou parada no papel.
Foi nesse momento que uma sombra apareceu sobre o caderno.
Janis.
— Sabia.
Rebeca levantou os olhos.
— O quê?
— Você está tramando alguma coisa.
Rebeca deu de ombros.
— Talvez.
Janis olhou para o caderno.
— O que é isso?
Rebeca virou um pouco o diário, tentando esconder.
Tarde demais.
Janis já tinha lido o título.
— “Como vencer Moisés”?
Janis se sentou ao lado de Rebeca.
— Isso ficou interessante.
Rebeca suspirou.
— Eu estou tentando entender qual é a fraqueza dele.
Janis apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Você está fazendo uma análise tática do seu pai.
— Dele.
Ela apontou para o nome.
— Moisés.
Janis ficou alguns segundos olhando para a lista.
— Você esqueceu uma.
— Qual?
Janis respondeu sem pensar muito.
— A sua felicidade.
Rebeca franziu a testa.
— Como assim?
Janis deu de ombros.
— Ele odeia quando você parece feliz.
Rebeca ficou em silêncio.
— Quando você ri… — continuou Janis — quando você está com os meninos… quando você está comigo…
Ela apontou para o caderno.
— É nessas horas que ele perde o controle.
Rebeca ficou olhando para a página.
Devagar, escreveu mais uma linha.
4. Felicidade
Janis inclinou a cabeça.
— Isso não é exatamente uma arma.
Rebeca fechou o diário.
— Talvez seja.
Na quadra, alguém gritou:
— Janis! Sua vez!
Ela se levantou.
— Se estiver planejando alguma coisa, exijo ser incluída!
Janis observou enquanto Rebeca guardava o caderno na mochila.
— Primeiro eu preciso ter certeza de que vai funcionar.
Rebeca deu um pequeno sorriso. Olhou para os amigos jogando na quadra, depois para o anel que havia ganhado de Janis.
— Mas acho que estou aprendendo a jogar o jogo dele. – resmungou para si.
O sol já estava mais baixo quando eles se despediram.
Janis e Rebeca foram para casa de skate.
— Não que eu me importe com Moisés. – Janis falou. — Só não quero que você se meta em confusão. Então, tenha cuidado.
— Sempre. – Rebeca tirou o anel do próprio dedo e o colocou na mão de Janis. – Nos vemos amanhã.
— Até amanhã. – Janis beijou o rosto de Rebeca e se afastou no skate.
Rebeca abriu o portão e entrou em casa.
— Cheguei!
A voz ecoou pela sala.
Moisés estava sentado na poltrona, lendo a Bíblia.
Ele levantou os olhos.
O olhar era puro perigo.
Rebeca viu.
E, pela primeira vez, decidiu não recuar.
Ela continuou sorrindo.
O jantar começou como qualquer outro.
Débora colocou os pratos na mesa.
Rebeca se sentou.
Pegou um copo com água.
Por alguns segundos ninguém disse nada.
Então Rebeca começou a falar.
— Hoje teve uma prova surpresa.
Débora levantou os olhos.
— Prova?
— De história.
Ela deu de ombros.
— Eu fui bem.
— Que bom — respondeu Débora.
Rebeca continuou, como se estivesse apenas contando sobre o dia.
Falou sobre a escola.
Sobre os colegas.
Sobre o encontro com os jovens da Célula no parque.
Sobre o jogo de vôlei.
Sobre coisas novas que estava aprendendo.
Nada exagerado.
Nada provocativo.
Apenas… conversa.
Débora escutava.
Respondia de vez em quando.
Moisés permaneceu em silêncio por um bom tempo.
Então resmungou algo baixo.
Rebeca fingiu não ouvir.
Continuou falando.
Quando o prato estava quase vazio, Moisés finalmente levantou os olhos.
— Rebeca.
Ela parou.
— Termine de comer.
Pausa curta.
— E vá para o seu quarto.
Rebeca o observou por um segundo.
Depois sorriu.
Não era um sorriso de deboche.
Era apenas… meigo.
— Está bem.
Terminou o resto da comida.
Levantou-se.
Pegou o copo.
Levou até a pia.
Quando passou pela porta da sala, olhou para trás.
— Boa noite.
Subiu as escadas devagar.
No quarto, não ligou o teclado como costumava fazer.
Não abriu livros para fazer a lição de casa.
Não escreveu no diário.
Apenas trocou de roupa.
E se deitou.
O silêncio da casa parecia diferente naquela noite.
Rebeca ficou olhando para o teto por alguns segundos.
Pensando.
Então virou de lado.
Fechou os olhos.
Alguns minutos passaram.
Então ela ouviu os passos.
Lentos.
Pesados.
Subindo a escada.
Rebeca fechou os olhos imediatamente.
Controlou a respiração.
A maçaneta girou devagar.
A porta abriu.
Ela ouviu o ranger leve da madeira.
Moisés entrou.
Rebeca permaneceu completamente imóvel.
A respiração lenta.
Regular.
Ele ficou parado perto da porta por alguns segundos.
Observando.
Depois deu alguns passos dentro do quarto.
Rebeca podia sentir a presença dele mesmo sem abrir os olhos.
O silêncio ficou longo.
Denso.
Como se ele estivesse tentando descobrir alguma coisa.
Talvez esperando que ela se mexesse.
Talvez esperando que ela abrisse os olhos.
Rebeca não se moveu.
Nem um milímetro.
Alguns segundos depois, ele respirou fundo.
Virou.
Saiu do quarto.
A porta se fechou.
Os passos desceram a escada novamente.
Rebeca continuou imóvel por mais alguns segundos.
Só quando o silêncio voltou completamente à casa ela abriu os olhos.
Olhou para o teto.
E então um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.
Não era um sorriso de alegria.
Nem de alívio.
Era um sorriso tranquilo.
Quase… diabólico.
Ela virou de lado.
Puxou o cobertor um pouco mais para cima.
E pela primeira vez em muito tempo teve certeza de uma coisa.
Ela tinha aprendido a jogar.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 16/04/2026 Autora da história
Obrigada por compartilhar isso comigo
É um tema que realmente mexe com muitas camadas — às vezes vem como reflexão, às vezes como desconforto… e acho que ambos têm seu lugar.
Na história, eu tento olhar para essas vivências com cuidado, justamente porque nem sempre é simples separar intenção, fé e as consequências que vêm disso.
Fico feliz que a leitura tenha te provocado esse olhar. Obrigada por comentar com tanta sensibilidade.