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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 4302
Acessos: 86   |  Postado em: 14/03/2026

Capitulo 11 - O Despertar da Rainha

 

Capítulo 11 – O Despertar da Rainha.

A casa estava em silêncio.

Já era madrugada.

Rebeca esperou alguns minutos depois que as luzes se apagaram. Contou a respiração do pai no quarto ao lado. Contou o ranger da madeira da casa assentando na noite.

Quando teve certeza de que ninguém estava acordado, levantou-se.

Vestiu a primeira coisa que encontrou.

Abriu a janela do quarto com cuidado e passou por ela devagar. Se Tiago havia feito aquilo, ela também podia.

A rua estava fria.

Ela começou a andar rápido.

Não pensava muito. Se pensasse, talvez voltasse.

O caminho até a casa de Janis parecia mais longo à noite. As casas todas fechadas. Os postes iluminando pedaços da rua como pequenas ilhas de luz.

Quando chegou, ficou alguns segundos parada diante da janela.

Respirou fundo.

Pegou uma pedrinha do chão e jogou contra o vidro.

Toc.

Nada.

Jogou outra.

Toc.

A cortina se mexeu.

Alguns segundos depois a janela abriu.

Janis apareceu com o cabelo todo bagunçado e os olhos apertados de sono.

— Rebeca?!

A pergunta saiu direto:

— Você está terminando comigo?

Janis piscou algumas vezes, tentando entender o que estava acontecendo.

— O quê?

— Na Célula… — Rebeca respirou fundo. — Aquilo que você falou.

Janis apoiou os braços na janela.

— Você fugiu de casa no meio da madrugada por causa disso?

Rebeca deu de ombros.

— Responde.

Janis soltou um suspiro.

— Não.

Silêncio.

— Não estou terminando com você.

Rebeca não parecia convencida.

— Então por que você falou aquilo?

Janis passou a mão no rosto, tentando acordar de vez.

— Porque alguém precisava falar.

— Falar o quê?

— Que o problema na sua vida sou eu.

Rebeca franziu a testa.

— Mas isso não é verdade.

— Eu sei.

Janis deu um pequeno sorriso torto.

— Mas seu pai não sabe.

O vento da madrugada passou pela rua.

Rebeca cruzou os braços.

— Eu não entendi.

Janis apoiou o queixo na mão.

— Seu pai queria que todos pensassem que eu sou o problema. E ele usa isso como desculpa para castigar você.

— E daí?

— Daí que eu inverti a ordem do jogo. — Janis deu um pequeno sorriso. — Agora o pessoal da Célula acredita que o problema é ele.

Rebeca ficou quieta.

Janis continuou:

— Se eu saio da jogada, ele não consegue mais movimentar as peças dele. E não poderá mais castigar você.

— Então você está fingindo?

— Estou ganhando o tempo que nós duas precisamos para sumir daqui.

Rebeca olhou para o chão por alguns segundos. Quando levantou o rosto de novo, os olhos estavam brilhando.

— Eu achei que você estava terminando comigo.

A voz saiu mais baixa do que ela queria.

Janis abriu a boca para responder, mas parou.

Rebeca tentou continuar firme.

Não conseguiu.

As lágrimas vieram rápido demais.

Ela passou a mão no rosto, irritada consigo mesma.

— Aquilo… — disse, respirando fundo — aquilo doeu mais do que qualquer castigo.

O silêncio da rua ficou mais pesado.

Janis endireitou o corpo na janela.

— Ei…

Rebeca virou o rosto, tentando se recompor.

— Eu fiquei por dias inteiros achando que tinha estragado tudo.

Janis empurrou a janela mais para cima.

— Entra aqui.

Rebeca hesitou.

— Janis…

— Entra.

Alguns segundos depois, Rebeca estava sentada no chão do quarto de Janis.

Janis se sentou na cama, ainda tentando acordar completamente.

O quarto estava meio escuro. Só a luz da rua entrando pela janela.

Rebeca esfregou os olhos.

— Eu não queria chorar.

Janis deu de ombros.

— Mas chorou.

Silêncio.

— Desculpa — disse Janis, finalmente.

Rebeca levantou o rosto.

— Pelo quê?

— Por não ter lhe contado.

Ela apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Eu achei que era melhor assim.

— Melhor para quem?

— Para você.

Rebeca soltou um pequeno riso sem humor.

— Jura?

Janis suspirou.

— Você não sabe mentir, Rebeca.

— Sei sim.

— Não sabe.

Janis inclinou a cabeça.

— Se eu tivesse lhe contado, seu pai teria percebido.

Rebeca ficou quieta.

Janis continuou:

— Eu precisava que todo mundo acreditasse que eu era o problema.

— E você é?

— Claro que não.

Rebeca respirou fundo.

— Então por que fazer isso?

Janis respondeu sem hesitar:

— Seu pai precisa perder o inimigo para perder o argumento.

Silêncio.

— Quem sabe assim ele deixa você respirar um pouco.

Rebeca pensou por alguns segundos.

— Você está manipulando a Célula inteira.

Janis deu de ombros.

— Eu prefiro chamar de estratégia.

Rebeca enxugou o rosto.

— Você podia ter me avisado.

— Podia.

Pausa.

— Mas você teria estragado tudo.

Rebeca ficou em silêncio.

Janis a observou por alguns segundos.

— O que aconteceu nos últimos dias?

— Nada.

Resposta rápida demais.

Janis estreitou os olhos.

— Rebeca.

— Nada.

Ela desviou o olhar.

— Meu pai só decidiu me levar e buscar na escola.

— Só isso?

— Só.

Janis continuou olhando para ela.

Mas não insistiu.

— Confia em mim?

Rebeca demorou um segundo.

— Confio.

Janis assentiu.

— Então deixa eu fazer o meu trabalho.

Silêncio.

Rebeca se levantou.

— Eu devia voltar.

— Devia.

Ela caminhou até a janela.

Antes de sair, parou.

— Janis.

— Hm?

— Não faz isso de novo.

— O quê?

— Me assustar assim.

Janis deu um pequeno sorriso.

— Não prometo.

Rebeca balançou a cabeça e saiu pela janela.

A rua continuava silenciosa.

Janis ficou parada olhando-a desaparecer na escuridão.

Depois passou a mão pelo cabelo.

— Droga…

E só então percebeu uma coisa.

Rebeca tinha chorado por causa dela.

Mas havia alguma coisa naquela semana…

que ela ainda não tinha contado.

***

 

A casa do pastor Elias ficava na cidade vizinha. Era simples. Uma varanda estreita, duas cadeiras de madeira e uma mesa pequena sempre coberta de papéis e anotações.

Quando Josué chegou, o pastor estava regando algumas plantas no quintal.

Ele levantou os olhos e sorriu com tranquilidade.

— Bom dia, Josué.

— Bom dia, pastor Elias.

Elias colocou o regador de lado.

— Entre.

Os dois se sentaram na varanda.

Josué demorou um pouco para falar.

— Eu precisava de um conselho.

Elias não respondeu de imediato. Apenas apoiou as mãos nos joelhos e esperou.

— A Célula está… diferente — Josué começou.

— Diferente como?

— Os jovens estão inquietos.

— Isso é normal.

Josué balançou a cabeça.

— Não desse jeito.

O pastor Elias inclinou levemente a cabeça.

— Continue.

Josué respirou fundo.

— Eles começaram a questionar algumas decisões familiares. Regras em casa. Disciplina.

— Isso também é normal.

Josué hesitou.

— Mas agora começaram a falar em parar de vir.

Elias ergueu uma sobrancelha.

— Parar de vir?

— Alguns disseram isso ontem.

Silêncio.

— E por quê?

Josué olhou para o chão por um momento antes de responder.

— Por causa da Rebeca.

Elias não demonstrou surpresa.

— A filha do pastor Moisés.

— Sim.

— O que está acontecendo com ela?

Josué demorou alguns segundos antes de responder.

— Castigos.

— Que tipo de castigos?

— Restrição de comida. Às vezes ela fica sem jantar.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Mais pesado.

— Nos últimos dias o pastor Moisés tem acompanhado Rebeca no caminho da escola e tem privado a menina da companhia dos amigos, inclusive os da Célula.

Elias cruzou as mãos.

— Por quê?

— Começou com uma discussão pequena.

— Pequena quanto?

Josué suspirou.

— Chiclete.

O pastor Elias piscou devagar.

— Chiclete.

— Sim.

Ele ficou alguns segundos olhando para o quintal antes de falar novamente.

— E isso virou um conflito comunitário. – Josué massageou as têmporas. - Não era para virar. Mas virou.

Pastor Elias assentiu.

— Os jovens começaram a se incomodar.

— Claro que começaram.

O pastor apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Eles veem o que acontece.

Josué ficou quieto.

— E agora?

— Agora alguns dizem que não querem continuar vindo à Célula. Porque acreditam que estão presenciando uma injustiça.

Josué levantou os olhos.

— O senhor acha que é injustiça?

Elias não respondeu diretamente.

— Eu acho que disciplina precisa de proporção.

Pausa.

— E sabedoria.

Josué respirou fundo.

— Eu não sei mais como conduzir a situação.

O pastor Elias olhou para ele com calma.

— Você não conduz.

Josué franziu a testa.

— Como assim?

— Esse não é um problema da Célula.

Silêncio.

— É um problema pastoral.

A frase caiu simples, mas pesada.

Josué entendeu imediatamente.

— Então o senhor precisa falar com o pastor Moisés.

Elias assentiu.

— Sim.

Ele se levantou devagar.

— Antes que o problema deixe de ser uma Célula inquieta… e vire uma geração desconfiada.

Josué também se levantou.

O peso nos ombros parecia um pouco menor agora.

— Obrigado por me ouvir.

Elias sorriu levemente.

— Parte do meu trabalho é ouvir antes que as coisas explodam.

Ele caminhou até o portão da casa.

Antes de Josué sair, acrescentou:

— E Josué…

— Sim, pastor?

— Jovens não abandonam a fé por causa de perguntas.

Pausa.

— Eles abandonam quando ninguém responde.

Josué saiu dali entendendo algo que não tinha entendido antes.

Aquela não era apenas uma conversa sobre disciplina.

Era uma disputa silenciosa sobre quem ensinaria os jovens a confiar novamente.

 

***

 

O pastor Elias apoiou as mãos na mesa. Ele não tinha ido sozinho para a reunião. Havia pedido a ajuda de seu amigo e companheiro ministerial, pastor Salvador. Ambos estavam ali para ouvir e, se necessário, aconselhar Moisés.

— Antes de qualquer conclusão… precisamos entender uma coisa.

Ele olhou diretamente para Moisés.

— Como tudo isso começou?

Moisés não hesitou.

— Começou com desobediência.

— Especifique.

Ele respirou fundo.

— Minha filha passou em frente ao mercado onde trabalho… fazendo bolinhas com chiclete.

Houve uma pausa breve.

O Pastor Salvador inclinou levemente a cabeça.

— Chiclete.

— Sim.

— Continue.

Moisés manteve o tom firme.

— Aquilo é impróprio para uma menina na posição dela. Uma jovem que deseja tocar na igreja e que deve ser vista pela Comunidade como exemplo. Bolinhas de chiclete são coisa para pessoas de moral duvidosa.

Silêncio.

Josué não se mexeu.

— Perguntei quem havia dado aquilo a ela — continuou Moisés. — Porque eu não gasto dinheiro com esse tipo de coisa. E não permito que minha esposa o faça.

— E?

— Ela afirmou ter ganhado de Mateus. Um rapaz da Comunidade. Que tem namorada.

Um dos pastores franziu a testa.

— E isso caracteriza…?

— Falta de vigilância — respondeu Moisés. — Brechas começam pequenas.

— E como o senhor procedeu?

Moisés endireitou a postura.

— Repreendi. Ela insistiu que não estava fazendo nada demais.

— E então?

— Cortei regalias. Coisas supérfluas que ela aprecia comer.

O silêncio agora não era neutro.

Era avaliativo.

O Pastor Elias folheou a Bíblia, mas não leu nada.

— Estamos falando de que tipo de regalias?

— Doces. Lanches fora de hora. Pequenos agrados, como carnes e suco.

— Por quanto tempo?

— Até que compreendesse a gravidade.

— E ela compreendeu?

Moisés hesitou pela primeira vez.

— Ela discutiu.

O Pastor Salvador apoiou o queixo nos dedos.

— Discutiu… ou discordou?

O ar mudou.

— Questionou a disciplina.

— Com desrespeito?

— Não.

Pausa.

— Com argumento.

Isso foi mais pesado do que qualquer acusação.

O Pastor Elias fechou a Bíblia devagar.

— Pastor Moisés… permita-me perguntar algo com sinceridade.

Silêncio.

— Em que momento bolinhas de chiclete se tornaram questão de moral?

O ventilador continuou girando.

Moisés não respondeu imediatamente.

— O senhor acredita que há imoralidade no ato?

Ele engoliu seco.

— Há risco.

— Risco de quê?

Silêncio.

Josué desviou o olhar.

O pastor continuou:

— Porque o que estamos ouvindo não é um caso de pecado manifesto.

Pausa.

— Estamos ouvindo um caso de controle ampliado.

A palavra caiu como pedra.

Moisés respirou fundo.

— A disciplina forma caráter, mas também pode deformá-lo — o outro pastor respondeu, calmo.

Silêncio absoluto.

Então veio a pergunta decisiva:

— O senhor retirou proteína da alimentação de sua filha por causa de bolinhas de chiclete?

O ventilador continuava girando.

Moisés sustentou o olhar.

— Disciplina exige firmeza.

— E proporcionalidade.

Silêncio.

— Estamos falando de comida, pastor.

Moisés apertou o maxilar.

— Não deixei de alimentá-la.

— Mas restringiu.

— Sim.

O outro pastor inclinou o corpo para frente.

— A menina passou fome?

— Não.

— Sentiu constrangimento público?

Moisés não respondeu.

Josué sentiu o peso de cada uma das perguntas.

O silêncio agora tinha outra textura.

Não era apenas desconforto.

Era alerta.

— Pastor Moisés… precisamos separar zelo espiritual de controle excessivo.

Pausa.

— Chiclete não é imoralidade.

— Ganhar algo de um jovem comprometido não é adultério.

— E restringir alimento básico não é disciplina pedagógica.

As palavras eram firmes.

Sem gritos.

Sem acusação teatral.

Apenas verdade.

Então veio a pergunta que muda tudo:

— O senhor deseja formar caráter… ou vencer uma disputa doméstica?

Moisés respirou fundo, como se ainda tivesse mais a acrescentar.

— Mas não é só isso.

Os pastores esperaram.

— Ela não tem cumprimentado adequadamente os fiéis da Comunidade.

— O que significa “adequadamente”? — perguntou o mais velho.

— Entusiasmo. Postura. Alegria visível. Uma jovem na posição dela precisa demonstrar gratidão.

— Ela foi desrespeitosa?

— Não.

— Ignorou alguém?

— Não.

— Então?

Moisés hesitou.

— Foi… fria.

O Pastor Salvador inclinou a cabeça.

— Fria.

— Contida demais. Como se estivesse suportando a presença das pessoas.

Silêncio.

— Pastor Moisés — o mais velho falou com calma — estamos disciplinando emoções agora?

Moisés ignorou a pergunta.

— Ela também tem andado de skate.

— Sozinha?

— Com uma garota. Uma menina mundana.

A palavra foi dita com peso.

— Mundana? — perguntou o pastor Salvador.

— Não frequenta a igreja. A mãe já frequentou, mas não está mais ativa. Há costumes… diferentes.

— E a menina mundana frequenta a Célula? – pastor Elias perguntou para Josué.

— Ela tem demonstrado interesse.

— E desde quando conviver com pessoas que estão se interessando pela igreja é proibido pelas Escrituras?

Moisés respirou mais pesado.

— Não é apropriado para uma moça.

— Apropriado segundo qual texto?

Moisés fingiu não ouvir a pergunta.

— Inicialmente concordei com a amizade porque Rebeca se ofereceu para dar aulas de música à tal menina. Duas horas todos os dias.

— E quanto ela cobra? — perguntou Elias.

— Nada.

Silêncio.

— Então sua filha dedica duas horas diárias ao ensino gratuito?

Moisés manteve a postura.

— Sim. Mas com o tempo percebi certa influência.

— De que natureza?

— Questionamentos. Postura mais ousada. Resistência às minhas orientações.

— A menina incita desobediência?

— Incita.

— Como?

— Outro dia flagrei molho de tomate na roupa de Rebeca. Algo foi oferecido a ela na casa daquela menina.

O pastor mais velho piscou lentamente.

— Molho de tomate.

— Sim.

— E isso caracteriza…?

Moisés percebeu que a explicação soava menor do que parecia na própria cabeça.

— Ofertas frequentes criam dependência.

O segundo pastor inclinou-se para frente.

— Ela também tem jogado bola. – Moisés tentou mudar de assunto.

— Com os jovens da célula?

— Sim.

— Então ela está convivendo com o grupo que o senhor mesmo desejava que frequentasse.

Josué desviou o olhar.

O pastor mais novo abriu a Bíblia, não para atacar, mas para sustentar o argumento.

— Não julgueis para que não sejais julgados… — leu com calma. — Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados.

— Pastor Moisés… permita-me organizar o que estamos ouvindo. – Pastor Elias tomou a palavra novamente. Ele enumerou com calma:

— Sua filha: Dá duas horas de aula gratuita por dia. Convive com jovens da igreja. Não foi flagrada em pecado. Recebeu comida na casa de alguém a quem presta ensino gratuito. E foi privada de certos alimentos e do convívio com os jovens por isso.

Silêncio pesado.

Então veio a pergunta cirúrgica:

— O senhor considera inadequado que alguém retribua hospitalidade com hospitalidade?

Moisés apertou o maxilar.

— A questão não é hospitalidade. É influência.

— A menina a incentiva a de que maneira?

— A se posicionar.

A sala ficou quieta.

O pastor mais velho falou com voz baixa:

— Pastor… posicionamento não é pecado.

Pausa.

— E caridade não é falha de caráter.

Então veio a frase que muda o rumo da reunião:

— Se sua filha está ensinando gratuitamente alguém que não é da igreja… talvez o senhor devesse se orgulhar, não se preocupar.

Josué sentiu o golpe.

Moisés permaneceu imóvel.

O pastor continuou:

— A pergunta correta talvez não seja “que influência essa menina exerce sobre Rebeca”.

Ele sustentou o olhar.

— Mas por que sua filha se sente mais nutrida emocionalmente fora da própria casa?

E pela primeira vez, Moisés não tinha resposta pronta.

 

***

 

A reunião da Célula daquela semana não começou como as outras.

Josué não estava à frente.

Quem ocupava a cadeira central era o pastor Elias.

Os jovens se entreolharam quando ele entrou.

Rebeca estava lá. Mas, Janis não.

Ela havia dito aos jovens da Célula que era bem-vinda naquele lugar. Também insinuou que Moisés havia proibido as aulas de música.

— Boa noite — Elias disse, se sentando.

A voz não era alta.

Mas carregava peso.

— Eu soube que houve tensão nos últimos encontros.

Ninguém respondeu de imediato.

Tiago mexia no cadarço do tênis.

Ana olhava para o chão.

Estevão cruzava e descruzava os braços.

— Quero ouvir vocês — Elias disse.

Silêncio.

Foi Ana quem começou.

— A gente não queria causar problema.

— Mas causaram — Elias respondeu, sem dureza.

— A gente só… não entendeu.

Tiago levantou o olhar.

— A gente não estava fazendo nada errado.

Elias assentiu.

— Vocês estavam jogando vôlei.

Alguns sorriram, meio constrangidos.

— E estavam juntos.

Silêncio.

— E isso virou conflito.

O pastor cruzou as mãos.

— Jovens precisam de convivência saudável.

Olhares se ergueram.

— O problema não é a quadra. Nem a bola. Nem a amizade.

Rebeca sentiu o ar voltar aos pulmões.

— O problema é quando a convivência vira escândalo. Quando compromete estudo. Quando vira afronta.

A palavra ficou no ar.

Tiago franziu a testa.

— A gente não estava afrontando ninguém.

— Talvez não intencionalmente — Elias respondeu. — Mas houve tensão. E tensão não é leve.

Ele olhou para cada um deles.

— Então faremos o seguinte.

A sala ficou mais atenta.

— Vocês terão tempo de convivência.

Olhares rápidos.

— Desde que:

Ele levantou um dedo.

— Não haja escândalo.

Outro dedo.

— Não haja negligência nos estudos.

Outro.

— E que a postura dentro da Célula seja de edificação, não de rebelião.

Silêncio.

A palavra rebelião pesou.

Tiago respirou fundo.

— A gente não queria rebelião.

— Mas começaram uma. — Elias respondeu, com calma.

Rebeca engoliu seco.

Ele continuou:

— Questionar não é pecado. Mas questionar com espírito de confronto constante enfraquece o ambiente.

— E quando a gente sente que está sendo tratado injustamente? — Estevão perguntou.

Elias sustentou o olhar.

— Então falem. Mas não transformem cada encontro em campo de batalha.

Silêncio.

Ele finalizou:

— Vocês são jovens tementes. E precisam agir como tal.

A palavra voltou.

Tementes.

Rebeca sentiu o peso dela diferente agora.

Não como arma.

Mas como responsabilidade.

— Estamos entendidos? — Elias perguntou.

Olhares se cruzaram.

— Sim — Ana disse primeiro.

Depois Tiago.

Depois Estevão.

Rebeca demorou meio segundo.

— Sim.

Elias assentiu.

— Então vamos reconstruir o que foi tensionado.

Tiago levantou a mão:

— E a Janis?

— O que tem ela? – Pastor Elias perguntou.

Tiago olhou para Rebeca.

— A Rebeca é a melhor amiga dela. – falou. – Ela pode explicar melhor.

Rebeca sentiu os olhares de todos em cima dela.

— Janis ficou ofendida com tudo o que aconteceu.

Elias olhou para ela por alguns instantes e perguntou.

— E a menina para quem você tem lecionado música?

Rebeca assentiu.

— O pastor Moisés proibiu as aulas. – Ana completou.

Elias meneou a cabeça.

— Daremos um jeito nisso.

A reunião terminou sem debate.

Sem ironia.

Sem provocação.

Mas também sem submissão cega.

Quando saíram, Tiago cochichou:

— Então… nos vemos amanhã depois da escola?

Rebeca quase sorriu.

— Sem escândalo — Ana completou.

Eles riram.

Mas agora sabiam:

Havia concessão. Mas também vigilância.

***

Moisés caminhava ao lado do pastor Elias com os punhos cerrados.

— O senhor tem certeza de que isso é realmente necessário?

Elias assentiu.

— Absoluta. É nosso dever cristão consolar almas que estão feridas.

Moisés franziu o cenho e não disse mais nada até alcançarem o destino.

— Chegamos. – Resmungou.

Pastor Elias tomou a dianteira e bateu na porta.

Janis atendeu.

- Boa tarde. – falou. Sem conseguir disfarçar a surpresa. – Posso fazer alguma coisa pelos senhores?

Moisés permaneceu em silêncio por alguns segundos.
O pastor Elias apenas aguardou.

— Pastor Moisés — disse ele por fim — creio que algumas palavras podem ajudar a encerrar esse mal-entendido.

Moisés olhou diretamente nos olhos de Janis ao falar:

— Gostaria de me desculpar. Sei que você não compreende minhas ações...

— Não só eu. O mundo todo. – Janis o interrompeu.

Moisés fingiu não ouvir.

— Mas, tudo o que faço é pelo bem da minha filha.

Esperou algum comentário e como Janis permaneceu calada, continuou:

— Eu ficaria muito satisfeito se você voltasse a frequentar as reuniões da Célula. Os jovens apreciam sua companhia. E, se desejar, você e Rebeca podem continuar com as aulas de música.

— Na minha casa ou na sua? – Janis perguntou com um sorriso inocente.

Moisés olhou para o pastor Elias.

— Vou deixar que decidam. – Deu as costas e se afastou.

Janis deu um meio sorriso.

— O senhor é um grande homem, pastor. Um grande homem.

 

***

 

Eles saíram da casa de Janis em silêncio.

Moisés caminhava um passo à frente, rígido como sempre.
O pastor Elias vinha logo atrás, com o mesmo passo tranquilo de quem não tinha pressa de chegar a lugar algum.

A rua estava quase vazia.

Quando chegaram ao portão da casa de Moisés, Elias falou:

— Se não for incômodo… aceito aquele café que sua esposa costuma oferecer.

Moisés hesitou um segundo.

— Claro.

Abriu o portão.

A luz da cozinha ainda estava acesa.

Débora estava terminando de colocar a mesa quando os dois entraram.

Ela ergueu os olhos.

— Pastor Elias?

O homem sorriu.

— Boa noite, irmã Débora.

Ela enxugou as mãos no pano de prato.

— Que surpresa.

Moisés tirou o paletó.

— O pastor Elias nos acompanhará no jantar.

Rebeca estava sentada à mesa com o caderno aberto diante de si. Levantou os olhos devagar quando ouviu o nome.

Pastor Elias.

Ela olhou rapidamente para o pai.

Depois para o pastor.

Algo estava diferente.

— É um prazer ter a companhia do senhor no jantar — disse Débora.

Elias assentiu.

— Então me permitam sentar com vocês por alguns minutos.

Eles se acomodaram à mesa.

O ventilador girava devagar no teto.

Ninguém falou por alguns segundos.

Elias olhou para Rebeca.

— Como você está, minha filha?

— Bem.

— Estudando bastante?

— Sim.

— E a música?

Ela hesitou.

— Sempre que posso.

O pastor assentiu.

— Fiquei sabendo que você tem dado aulas.

Rebeca olhou para o pai antes de responder.

— Tenho.

— Gratuitamente.

— Sim.

Moisés entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Minha filha gosta de ajudar.

Elias sorriu de leve.

— Isso é uma qualidade rara.

Silêncio.

Depois ele olhou para Moisés.

— Falamos bastante no caminho até aqui.

Moisés não respondeu.

— E acredito que algumas coisas podem ser ajustadas.

Rebeca manteve os olhos no prato.

— A Comunidade anda inquieta — continuou Elias. — Jovens precisam de convivência saudável.

Moisés respirou fundo.

— Disciplina também é necessária.

— Sem dúvida.

Pausa.

— Mas disciplina precisa de proporção.

O silêncio ficou mais pesado.

Débora observava em silêncio.

Elias apoiou as mãos na mesa.

— Estou sugerindo uma trégua.

A palavra caiu devagar.

Moisés levantou os olhos.

— Trégua.

— Sim.

— Em que termos?

— Rebeca continuará frequentando a Célula.

— Naturalmente.

— Terá tempo para convivência saudável com seus amigos.

Moisés voltou a ficar tenso.

— Nada muito extravagante. – Elias continuou. – Apenas o necessário para garantir um desenvolvimento saudável para a menina.

— Veremos o que poderá ser arranjado. – Moisés resmungou.

— Creio que oito horas da noite é um bom toque de recolher para uma mocinha de dezesseis anos, estou certo? – pastor Elias perguntou para Rebeca.

A menina assentiu.

— E poderá retomar as aulas de música.

Rebeca levantou o rosto.

— Com Janis.

O nome ficou suspenso na mesa.

Moisés apertou o maxilar.

Elias continuou, calmo:

— A jovem demonstrou interesse na igreja. Isso deve ser encorajado, não afastado.

Silêncio.

Moisés olhou para a filha.

Depois para Elias.

— Desde que não haja escândalo.

— Claro.

— E que a postura dela seja adequada.

— Naturalmente.

Rebeca sentiu algo estranho no peito.

Não era vitória.

Mas também não era derrota.

Era espaço.

— Então acredito que estamos entendidos.

Débora começou a servir os pratos.

— Às vezes quem parece mais forte…

Pastor Elias fez uma pausa.

— apenas nunca foi confrontado.

Rebeca levantou os olhos.

Elias concluiu:

— Mas lembre-se de uma coisa importante.

Ele olhou rapidamente para Moisés.

Depois voltou para ela.

— Quem fere…

Pausa.

— também pode sentir dor.

Rebeca olhou para o pai.

Pela primeira vez em muito tempo, percebeu algo novo.

Ele ainda era poderoso.

Mas não era invencível.

E essa descoberta mudava tudo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Minhas amadas...

Vocês estão muito quietinhas. Devo me preocupar com o silêncio? Ou vocês estão tão impactadas com a história que ninguem consegue comentar nada?


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Comentários para 11 - Capitulo 11 - O Despertar da Rainha:
menteincerta
menteincerta

Em: 15/04/2026

O tema religião sempre me causa certa revolta, misturada com reflexão e um desconforto que não é de todo ruim. Quase sempre é difícil ver as coisas pelo olho do outro, mas, mais difícil ainda, é quando a religião se disfarça de boa intenção para causar dano 

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