Capítulo IV: A pequena vila
Por Cecília:
Os dias na fazenda de tia Eulália estabeleceram-se numa rotina que oscilava entre o tedioso e o desconcertante.
Acordava cedo, não por vontade própria, mas porque o galo da propriedade insistia em anunciar o amanhecer com entusiasmo ensurdecedor. Vestia-me com a ajuda ocasional de Lurdes. E assim minhas manhãs eram dedicadas a caminhadas pelos jardins, sob ordens estritas de tia Eulália de "respirar o ar puro e fortificante". Eu obedecia, percorrendo os caminhos de pedra entre canteiros de jasmins e rosas, sentindo meus pulmões expandirem com menos dificuldade do que na cidade. Era irritante admitir, mas o campo realmente estava me fazendo bem.
Após as caminhadas, vinha o desjejum. Tia Eulália sempre presente, animada e tagarela. Inês... bem, Inês era uma presença variável. Às vezes aparecia, sentando-se naquela cadeira do outro lado da mesa, comendo em silêncio enquanto seus olhos escuros ocasionalmente encontravam os meus. Outras vezes simplesmente não comparecia, e tia Eulália oferecia desculpas vagas sobre "Inês ter assuntos a resolver" ou "Inês preferir comer em seu quarto".
As tardes eu passava no gabinete ou no meu quarto. Aqueles cômodos tornaram-se meu refúgio. Paredes forradas de livros e documentos, uma poltrona confortável junto à janela e silêncio interrompido apenas pelo tique-taque do relógio de pêndulo.
Foi no gabinete que tive meu segundo encontro significativo com Inês.
Eu estava instalada na poltrona, lendo quando ouvi passos. Ergui os olhos e ali estava ela.
Inês parou na entrada, claramente não esperando me encontrar. Usava o mesmo vestido cinza de sempre, ou talvez fosse outro idêntico. Seus cabelos estavam presos, mas alguns fios rebeldes escapavam ao redor de seu rosto.
— Não sabia que estava aqui — disse ela, com sua voz saindo fria.
— O gabinete é grande o suficiente para duas pessoas — respondi, marcando a página com o dedo. — A menos que minha presença a incomode a ponto de não suportar compartilhar o mesmo cômodo.
Algo passou por seus olhos. Irritação, certamente.
— Não me incomoda — disse ela finalmente, entrando e dirigindo-se à estante mais distante de onde eu estava. — Desde que não espere conversação.
— De ti não esperaria nunca — assegurei, voltando ao livro.
Mas não conseguia me concentrar nas palavras. Estava plenamente consciente de sua presença ali. Finalmente, após o que pareceram horas mas provavelmente foram apenas minutos, ela pegou um volume e dirigiu-se à poltrona do outro lado da sala. Sentou-se, abriu o livro, e começou a ler.
O silêncio que se seguiu era pesado. Eu fingia ler, mas meus olhos continuavam desviando para ela. A maneira como seus lábios se moviam levemente enquanto lia. Como sua testa franzia quando encontrava algo que a intrigava. Como seus dedos, longos e pálidos, viravam as páginas e faziam anotações em um caderno que ela havia trazido consigo.
E foi ela quem quebrou o silêncio.
— Este livro não é desta casa — disse sem erguer os olhos do próprio livro. — Escolha um tanto imprudente para uma jovem senhorita de boa família.
— Trouxe este da capital — expliquei, sentindo meu rosto esquentar. — Não sabia que havia pessoas que conseguiam ler a metros de distância.
— Conheço este gabinete, a biblioteca e todo o acervo desta casa melhor que a palma da minha mão — respondeu ela, finalmente olhando para mim.
— E vejo que os controla com tal empenho também, não é mesmo?
— Não, não controlo nada. Esta casa não é minha — Inês disse com um sorriso nos lábios.
— Então agora decidiu não mais me ignorar, decidiu realizar julgamentos e considerar minha escolha de leitura imprudente?
Ela me estudou por um longo momento.
— Não te ignoro. Simplesmente, tenho minhas ocupações e sua presença me é irrelevante. E sim, considero sua escolha de livro imprudente sim e... reveladora — disse finalmente.
— Reveladora de quê?
— De que talvez não seja tão insípida quanto aparenta.
Não soube se aquilo era um insulto ou um elogio. Possivelmente ambos. Senti uma irritação tomar forma dentro de mim.
— Pois eu vou seguir seu exemplo. E passarei a te ignorar, pois suas opiniões não me interessam em nada. — retruquei, incapaz de conter a afetação em minha voz.
— Como preferir, senhorita Cecília. Faça e aja como julgar apropriado — respondeu ela sem me olhar.
— Perfeitamente, senhorita Inês — disse, observando-a e desta vez havia um sorriso ainda maior em seus lábios.
Continuamos lendo em silêncio e quando finalmente Inês saiu do gabinete, colocando o livro novamente na estante, senti que pude respirar normalmente de novo. Assim que ela saiu, fui até a estante e por uma curiosidade que não sei de onde surgiu, fui até o livro que ela havia pegado. Li o título e vi que se tratava de um livro sobre botânica. Por que ela estava lendo aquilo e por que fazia anotações? Definitivamente aquilo não era da minha conta e eu deveria começar a seguir meu próprio conselho e ignorar a presença de Inês.
***
Os dias se seguiram nesse padrão. Manhãs no jardim. Desjejuns com ou sem Inês. Tardes no gabinete, onde às vezes ela aparecia e compartilhávamos silêncio. Jantares formais onde tia Eulália tentava manter conversação enquanto Inês e eu evitávamos trocar palavras e olhares. Mas quando nossos olhares se cruzavam, era como se eles se desafiassem e... como se houvesse outra coisa. Algo que me fazia sentir calor e me deixava acordada à noite.
Estávamos à mesa e Arminda havia preparado um banquete, como sempre. Sopa de abóbora para começar, seguida de frango assado com batatas e legumes, e pudim de coco com calda de goiaba para sobremesa.
Tia Eulália estava particularmente animada, falando sobre as flores do jardim, sobre uma carta que recebera de uma prima distante, sobre absolutamente nada de importante. Eu respondia e comia de maneira mecânica, e tentava não olhar para Inês com excessiva frequência.
Foi durante o prato principal que tia Eulália pausou, pousando o garfo com cuidado.
— Meninas — disse ela, e havia algo em seu tom que imediatamente captou minha atenção. — Preciso pedir um favor.
Inês ergueu os olhos do prato, suas sobrancelhas arqueando levemente.
— Acabaram minhas linhas de bordar — tia Eulália continuou, gesticulando com as mãos. — As de seda importada que uso para os trabalhos mais delicados. E também preciso de mais lã para o xale que estou fazendo para o inverno. Há uma loja específica na vila que vende os materiais de qualidade que prefiro.
— Posso mandar Arminda enviar alguém — ofereceu Inês.
— Não, não — tia Eulália balançou a cabeça. — É muito específico. As cores precisam ser exatas, e apenas alguém que conhece meu trabalho saberia escolher adequadamente. — Ela pausou, olhando para Inês com expectativa. — Então gostaria que você fosse à vila amanhã de manhã, Inês. E que… que levasse Cecília com você.
A vila. Finalmente. Era quase uma semana que eu via o mundo por entre as grades desta propriedade, e o mundo continuava existindo lá fora sem me aguardar. Haveria gente nova, rostos que não conhecia, conversas que não girariam em torno de linhas de bordar ou do clima da fazenda. Talvez uma praça, uma venda, crianças correndo pelas ruas de pedra. Coisas pequenas, mas que de repente me pareciam extraordinárias depois de tanto silêncio e tanto campo.
E então olhei para Inês.
Ela não disse nada ainda, mas havia algo em sua postura. Uma leve rigidez nos ombros, um imperceptível franzir entre as sobrancelhas, que me fez olhá-la. Era óbvio. Ela não queria que eu fosse. Isso ficou claro antes mesmo que abrisse a boca. E o que me intrigou não foi a recusa em si, mas o fato da proposta ter a apanhado de surpresa, fazendo com que ela precisasse encontrar razões depressa o suficiente para que soassem razoáveis.
— Seria uma oportunidade maravilhosa para Cecília conhecer a vila — continuou tia Eulália, sorrindo para mim. — Ela está aqui há quase uma semana e ainda não viu nada além desta propriedade. E eu, infelizmente, não posso acompanhá-las. Minhas pernas simplesmente não me permitem caminhar longas distâncias sem que eu sinta dor.
Abri a boca para concordar entusiasticamente, mas Inês foi mais rápida.
— Acredito que ainda é cedo para ela visitar a vila — disse, com sua voz saindo controlada mas com tensão. — Visto que não deve estar plenamente recuperada de sua saúde.
A irritação acendeu em meu peito. Quem ela achava que era?
— Estou em plena condição de conhecer a vila — retruquei, virando-me para encará-la diretamente. — Minha saúde tem melhorado consideravelmente desde que cheguei. Não tive nenhum episódio respiratório significativo nesta semana.
— Uma semana não é tempo suficiente para garantir estabilidade — Inês argumentou com seus olhos escuros fixando-se nos meus com tanta intensidade que fez um arrepio percorrer meu corpo. — A vila requer caminhada. Esforço. Exposição ao sol e à poeira das ruas. Poderia desencadear uma crise.
— Ou poderia não desencadear absolutamente nada — contra-argumentei, sentindo meu tom se tornar mais afiado. — Não sou de porcelana, senhorita Inês. Não vou me quebrar ao primeiro sopro de vento.
— Não disse que é de porcelana — ela replicou e sua voz também havia adquirido uma qualidade mais áspera. — Disse que é imprudente expor-se desnecessariamente quando sua recuperação ainda é tão recente.
— E eu digo que ficar trancada nesta propriedade é igualmente imprudente para minha sanidade mental!
— Sua sanidade mental não está em questão. Seus pulmões sim.
— Meus pulmões estão perfeitamente funcionais!
— Por enquanto.
Tia Eulália nos observava com expressão fascinada, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro. Com certeza uma parte da minha tia apreciava essa discussão.
— Lamento que minha presença na vila seja tão inconveniente para você — disse, forçando minha voz a soar calma apesar da raiva e... e algo mais que fervia dentro de mim. — Lamento profundamente que tia Eulália não possa nos acompanhar. Mas se você não vai, vou eu de qualquer forma. Com ou sem você.
Os olhos de Inês se estreitaram perigosamente.
— E como pretende fazer isso? Cavalgará sozinha até a vila? Uma jovem senhorita desacompanhada? Certamente sua família ficaria encantada ao saber que está arriscando não apenas sua saúde mas também sua reputação.
— Posso pedir que Lurdes, Arminda ou Rute me acompanhem.
— Arminda tem a cozinha para cuidar. Rute tem deveres na casa. E Lurdes partirá daqui a alguns dias e não conhece nada na região.
— Então você poderia simplesmente me acompanhar como pediu minha querida tia — sugeri, inclinando-me ligeiramente para frente. — A menos que esteja procurando desculpas porque a verdadeira razão de sua recusa não tem nada a ver com minha saúde.
Vi suas narinas se alargarem. Suas mãos se fecharem em punhos ao lado do prato.
— E que outra razão eu teria, senhorita Cecília? — perguntou, com sua voz saindo perigosamente baixa.
— Não sei — respondi, segurando seu olhar. — Talvez simplesmente não suporte a ideia de passar um dia inteiro em minha companhia. Talvez prefira manter-se isolada na biblioteca ou às escondidas em cantos por aí.
— Ora essa… não me escondo — ela disse, me encarando.
— Meninas! — a voz de tia Eulália cortou através de nossa discussão. Não era alta, mas tinha autoridade suficiente para nos fazer parar. — Por favor. Isto não é uma guerra. É apenas uma ida à vila.
Respirei fundo, tentando acalmar meu coração que batia descompassado. Inês fez o mesmo, seus olhos ainda fixos nos meus com uma intensidade que parecia queimar.
— Inês — tia Eulália disse gentilmente — compreendo sua preocupação com a saúde de Cecília e acho benevolente de sua parte. Mas ela tem razão. Tem melhorado notavelmente. E um passeio à vila, com acompanhamento adequado, não lhe fará mal. Pelo contrário, pode até fazer bem.
Inês não respondeu imediatamente. Apenas continuou me olhando.
— E Cecília — tia Eulália voltou-se para mim — agradeço seu entusiasmo, mas deve compreender que Inês conhece melhor o caminho, a vila, e o que pode ou não ser excessivo para alguém em recuperação. Se ela estabelecer limites durante o passeio, espero que os respeite. E é claro que não irão cavalgando. Chamei uma carruagem para levá-las.
— Que ótimo, tia Eulália. E não se preocupe, respeitarei os limites— concordei, ainda olhando para Inês — limites razoáveis.
— Todos os meus limites são razoáveis — Inês retrucou.
— Isso é questionável.
— senhorita Cecília...
— Está bem! — levantei as mãos em rendição. — Seguirei suas instruções. Todas elas. Por mais excessivamente cautelosas que sejam.
Vi o canto de sua boca se contrair. Raiva ou humor, impossível distinguir.
— Então está decidido — declarou tia Eulália, visivelmente aliviada. — Vocês duas irão à vila amanhã. Partirão após o desjejum. Inês, por favor, escolha o percurso mais fácil e faça paradas frequentes. Cecília, leve seu tônico e um lenço caso precise. E ambas... — ela pausou, olhando entre nós com expressão de divertimento — ...tentem ser civilizadas uma com a outra.
— Sempre sou civilizada — murmurei.
— Naturalmente — Inês disse ao mesmo tempo.
O resto do jantar transcorreu em silêncio. Tia Eulália tentou algumas vezes iniciar conversação sobre assuntos neutros, mas suas tentativas morreram diante de nossos monossílabos.
Quando finalmente Arminda começou a retirar os pratos da sobremesa, Inês levantou-se.
— Com sua licença — disse a tia Eulália, sem me olhar. — Vou me retirar. Preciso... verificar algumas coisas antes de amanhã.
— Claro — tia Eulália respondeu. — Boa noite.
Inês fez uma reverência mínima e saiu.
Fiquei ali sentada, olhando para a porta por onde ela havia desaparecido, sentindo uma mistura estranha de ansiedade e nervosismo.
— Cecília — a voz de tia Eulália me trouxe de volta. Ela me observava com expressão gentil. — Inês pode parecer difícil, mas no fundo ela se preocupa. À sua maneira particular.
— Sua maneira particular é excessivamente hostil, titia — murmurei.
— Ou talvez um tanto defensiva — tia Eulália sugeriu. — Há uma diferença.
Não respondi. Não sabia o que dizer.
Naquela noite, deitada em minha cama, olhando para o teto escuro, tudo que conseguia pensar era no dia seguinte. Conhecer a vila seria algo novo e sair da fazenda me faria bem. Mas…
Um dia inteiro com Inês. Longe da supervisão de tia Eulália. Apenas nós duas.
Meu coração acelerava só de imaginar.
Virei-me na cama, abraçando o travesseiro, e tentei não pensar em olhos escuros intensos e em como meu corpo reagia de uma maneira estranha sempre que ela estava perto.
***
A carruagem partiu após o desjejum, conforme o combinado.
Inês já estava do lado de fora quando desci os degraus da varanda, verificando não sei o quê junto ao cocheiro com aquela expressão fechada de sempre. Usava um vestido diferente do habitual, quase um cinza azulado, com um casaco de lã preto sobre os ombros. Eu havia me vestido com mais cuidado que o normal, considerando que iríamos até a vila e eu conheceria o lugar pela primeira vez.
Inês não fez qualquer comentário sobre minha roupa. Algo que, entre damas, seria habitual.
Subimos a carruagem sem cerimônia. Inês entrou primeiro, sentou-se do lado da janela esquerda, e voltou os olhos para fora antes mesmo que eu me acomodasse no banco à sua frente. O cocheiro fechou a porta e as rodas começaram a girar sobre o cascalho.
E foi assim que começou o silêncio.
Não era o silêncio do gabinete, que tinha ao menos a textura dos livros e o pretexto da leitura. Era o silêncio de duas pessoas dentro de um espaço pequeno que se recusavam a reconhecer a existência uma da outra, o que exigia, uma atenção constante. Eu precisava não olhar para ela. Ela precisava não olhar para mim. E ambas precisávamos fingir que esse esforço não estava acontecendo.
Olhei pela janela e tentei me distrair com a paisagem.
A estrada que cortava a propriedade de tia Eulália era rodeada por eucaliptos altos. Conforme seguíamos o caminho, vieram os campos abertos, o capim dourado e o céu que já carregava nuvens baixas no horizonte. Era bonito.
Depois de vinte minutos olhando para campos e mais campos, comecei a sentir uma irritação crescer.
Não era a paisagem. Era ela. Ali, a menos de um metro de distância, olhando para o lado oposto como se eu fosse uma bagagem esquecida no banco. Nem uma palavra. Nem um gesto. Nada que reconhecesse que eu existia naquele espaço que ela dividia comigo.
O mínimo de decoro exigiria ao menos uma observação sobre o tempo. Sobre a estrada. Sobre qualquer coisa.
Mas Inês aparentemente havia deixado o decoro em casa junto com qualquer pretensão de simpatia.
Cruzei os braços. Voltei os olhos para a janela. Desfiz os braços porque parecia uma criança emburrada. Voltei a cruzá-los porque não havia motivo para eu me preocupar com o que parecia.
Em uma parte do caminho, a carruagem balançou num buraco e nossos joelhos se chocaram. Inês recuou. Eu também.
Foi então que as primeiras gotas começaram a bater no teto.
Chuva. Uma chuva fina que escorregava pela vidraça. Eu não fechei a janela. Havia uma brisa agradável vindo de fora, e o cheiro de terra molhada que subia dos campos era a primeira coisa prazerosa daquela viagem toda.
— Feche a janela.
A voz de Inês saiu sem nenhum nível de doçura, sem nem voltar o rosto na minha direção, como se estivesse dando uma instrução a um empregado distraído.
Olhei para ela. Ela continuava olhando para o lado de fora pela sua própria janela, que estava, notei, completamente fechada.
— E se eu não quiser? — respondi.
Aí ela virou o rosto. Seus olhos escuros encontraram os meus com aquela expressão que eu já começava a reconhecer.
— Então vai se ensopar, vai ficar com febre, e farei questão de contar cada detalhe a sua tia.
— É pior que minha irmã em questão de fofoca — murmurei, mas fechei a janela. Não por obediência. Pela simples razão de que a chuva havia se intensificado e a manga do meu casaco já estava começando a ficar úmida.
— E você — disse Inês, voltando os olhos para frente — é mais teimosa que uma criança pequena.
— Tenho dezenove anos.
— Aparenta ter menos quando está emburrada.
— Não estou emburrada. Estou apenas apreciando a paisagem.
— Com a janela fechada e molhada apenas do lado de fora. Muito bem — disse Inês, com um leve traço de ironia na voz e me olhando de relance.
— A paisagem não desapareceu só porque o vidro úmido está entre nós — murmurei, tão baixo que não tinha certeza se ela havia ouvido.
Ela não respondeu. Mas o canto de sua boca se moveu, e eu não soube dizer se aquilo era um sorriso ou um xingamento mudo. Talvez fosse ambos.
Voltamos ao silêncio. Observei o perfil de Inês às escondidas. A linha reta do nariz, a mandíbula firme, os fios de cabelo que escapavam do coque e colavam na nuca por causa da umidade. Havia algo em Inês que me perturbava de um jeito que eu não conseguia entender. Ela era bela e tinha classe, apesar do semblante carrancudo e da origem que eu desconhecia.
Desviei os olhos antes que ela pudesse me pegar olhando para ela.
***
A vila de São Benedito do Sul apareceu depois de uma curva longa. Era menor ainda do que eu esperava, e mais bonita.
A rua principal era de pedras irregulares e as casas eram baixas. A maioria delas pintadas de branco ou amarelo-palha, com janelas de madeira pintadas em verde ou azul. Havia uma praça central com uma fonte de pedra e uma figueira antiga.
Uma igreja pequena ficava de lado da praça. Do outro, uma venda com barris na porta e um homem de chapéu de palha sentado num banco, que ergueu os olhos quando passamos.
— É charmosa — disse, sem conseguir me conter.
— É uma vila pequena do interior — respondeu Inês.
— Mas isso não a impede de ser charmosa.
A carruagem parou numa rua lateral, diante de uma loja que se anunciava por uma placa de madeira esculpida: “Armarinho e Aviamentos”. A fachada era estreita, com uma vitrine onde bobinas de linha se empilhavam em cores que iam do branco ao bordô escuro, organizadas com cuidado.
Descemos.
A chuva havia parado, deixando as pedras da rua com aquele brilho escurecido e o ar com cheiro de terra e flores molhadas. Algumas mulheres que passavam nos olharam. Um senhor que conversava na porta da venda ao lado interrompeu a conversa. Uma menina que varria a calçada nos seguiu com os olhos até entrarmos.
— Nossa — murmurei, quando a porta do armarinho fechou atrás de nós. — Como nos olham.
— Estou acostumada com isso — respondeu Inês, dirigindo-se já ao balcão onde uma senhora de cabelos brancos presos num coque alto nos recebia com um sorriso.
Fiquei parada por um instante.
“Estou acostumada.” ela disse.
Não tive tempo de pensar sobre isso porque a responsável pela loja, a quem Inês chamou de Dona Perpétua, já se lançava numa conversa animada com Inês sobre os pedidos de tia Eulália, abrindo gavetas e depositando sobre o balcão de madeira escura bobinas de seda em cores que tinham nomes como rosa antigo, verde musgo e azul índigo, cada uma mais bonita que a anterior.
A loja era pequena e cheirosa. As prateleiras iam do chão ao teto, organizadas com uma lógica que só Dona Perpétua parecia conhecer completamente. Havia linhas, lãs, fitas e botões em caixinhas de vidro.
Dona Perpétua dobrou um tecido com as mãos e me lançou um olhar por cima dos óculos.
— E esta moça? — perguntou, com naturalidade. — Não a conheço.
— É sobrinha da senhora Eulália — respondeu Inês, sem erguer os olhos da lista que conferia. — Está na fazenda se recuperando.
— Sobrinha! — Dona Perpétua me examinou com mais interesse, como se eu houvesse mudado de categoria. — Filha de qual dos irmãos?
— De Amélia Monteiro Cavalcanti — respondi eu mesma, já que Inês parecia disposta a me representar indefinidamente sem me consultar.
— Ah, a casada com o Senhor Antônio. — A senhora assentiu com aquele ar de quem conecta informações guardadas há anos. — Nunca os conheci pessoalmente, mas sua tia fala deles com muito carinho. — Virou-se para Inês. — Parecida com a família, não acha?
Inês levantou os olhos da lista pela primeira vez desde que havíamos entrado. Pousou-os em mim por um instante, com aquela avaliação silenciosa que ela fazia como se eu não pudesse perceber.
— Os olhos lembram os de Dona Eulália — disse, e voltou à lista.
Não soube o que fazer com aquilo. Era uma observação simples, mas vinda de Inês, que distribuía palavras com um conta gotas, pareceu algo mais. Ou talvez eu estivesse inventando significados onde havia apenas uma resposta educada a uma pergunta de armarinho.
Eu circulava devagar pelo local, tocando aqui e ali, enquanto Inês e Dona Perpétua conferiam o pedido.
— Esta aqui chegou semana passada — ouvi Dona Perpétua dizer, empurrando sobre o balcão uma bobina de seda cor âmbar. — Italiana. A senhora Eulália vai gostar.
— Ela não encomendou esta cor — disse Inês, examinando a bobina com um franzir de testa.
— Não encomendou, mas vai querer. Conheço o gosto dela há anos.
Inês considerou por um momento.
— Levarei então. Mas se ela não quiser, devolvo.
— Não vai devolver — Dona Perpétua respondeu, com convicção.
Aproximei-me do balcão sem intenção particular, apenas porque a seda cor âmbar era realmente bonita e eu queria vê-la de perto. Minha mão tocou a bobina ao mesmo tempo que a mão de Inês a segurava para examinar melhor.
Nossos dedos se roçaram. Ela recuou a mão. Eu também. E Dona Perpétua continuava falando sobre metragens sem ter notado nada.
Mas meu coração havia disparado com aquele contato, e quando olhei para Inês ela estava com os olhos fixos na bobina com uma atenção que parecia excessiva.
— Desculpe — eu disse baixo.
— Não tem importância — Inês respondeu, com a voz completamente neutra.
***
Saímos do armarinho com um embrulho de papel pardo que Inês carregava.
— Há mais alguma coisa que tia Eulália precisava? — perguntei, enquanto caminhávamos em direção à praça.
— Não.
— Então temos tempo.
Ela me lançou um olhar lateral. — Tempo para quê?
— Para ver a vila. — Parei e me virei para encará-la. — Nunca estive aqui. Não me esconda da vila, senhorita Inês.
— Não estou te escondendo de nada. Estou administrando seu nível de esforço físico dentro do que é razoável para—
— Senhorita Inês.
Ela parou.
— Estou bem — disse, com mais calma do que realmente sentia. — Minha respiração está regular. Não estou com febre. — Peguei sua mão e a levei até minha testa.
Nossos olhares se cruzaram, e sentir o calor da mão de Inês sob a minha pele me deixou com uma sensação estranha. Ela a retirou rapidamente, interrompendo o contato.
— Não estou com dor. Estou apenas... aqui, Senhorita Inês. Numa vila pequena e charmosa, com pedras molhadas de chuva, e gostaria muito de sentar naquela praça por dez minutos antes de voltar para a fazenda.
Fiz uma pausa.
— Dez minutos. Você pode me conceder dez minutos?
Ela me olhou por um longo momento. Aquele olhar que descia e subia como se estivesse avaliando alguma coisa que não tinha nada a ver com minha saúde.
— Cinco — disse finalmente.
— Oito.
— Isso não é uma negociação.
— Claramente é, já que você abriu com cinco em vez de zero.
Algo passou pelos seus olhos.
— Sete. E se começar a tossir, voltamos imediatamente.
— De acordo — respondi, sorrindo para ela.
A figueira da praça tinha um banco de pedra em volta de um tronco. Sentei-me e Inês ficou de pé por um momento, como se sentar representasse uma concessão adicional que ela ainda estava avaliando, e então se sentou também, a uma distância de meio banco entre nós.
A praça tinha aquela quietude. Uma mulher atravessou com uma cesta de pães. Um cachorro dormia junto à parede da igreja.
— Por que você é tão calada e nunca fala sobre si mesma? — perguntei, com cautela.
Inês virou o rosto na minha direção devagar.
— O quê?
— Você sabe coisas sobre mim. Minha família, minha saúde, meus livros. Mas eu não sei nada sobre você. Nada que você mesma tenha dito.
— Não há nada particularmente interessante a dizer.
— Isso é uma mentira e você sabe.
Seus olhos se estreitaram levemente. Não de raiva.
— Cecília.
Era a primeira vez que ela dizia meu nome sem o senhorita na frente. Eu notei. Tenho quase certeza de que ela também notou.
— Estou apenas conversando, Inês. É apenas uma conversa — disse, olhando para a fonte para dar a ela espaço para respirar. — Sete minutos é tempo suficiente para conversarmos.
— Moro na fazenda de sua tia há 12 anos — disse ela finalmente, com aquele tom de voz controlado. — Não tenho família próxima nesta região. Visito a vila somente para tratar dos negócios da casa. — Uma pausa. — Isso é o suficiente e atende às suas expectativas?
— Atende a algumas. E levanta outras.
— As outras não são da sua conta.
— Provavelmente não — concordei, abaixando meu olhar.
O cachorro junto à igreja levantou a cabeça, nos olhos sem interesse, e voltou a dormir.
— Tempo — disse Inês, levantando-se.
— Ainda falta um minuto.
— A carruagem espera.
— A carruagem certamente tem paciência.
Mas me levantei assim mesmo, porque havia algo na rigidez repentina dos ombros dela que me disse que eu havia chegado perto de alguma fronteira que ela não queria que eu cruzasse. E apesar de tudo, apesar da irritação, das farpas e do silêncio da carruagem, eu não queria machucar Inês.
Caminhamos de volta em silêncio. Quando subimos à carruagem e as rodas começaram a girar sobre as pedras da vila, eu olhei pela janela para a praça que diminuía e ficava cada vez mais distante.
Inês olhava para frente.
— Inês — chamei.
Ela virou o rosto.
— Obrigada — completei. — Pelos sete minutos.
Ela me olhou por um momento que pareceu mais longo do que realmente era.
— Foram oito, Senhorita Cecília — disse, voltando os olhos para a estrada.
Virei o rosto e sorri para a janela, onde ela não podia me ver.
Fim do capítulo
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