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Sob o peso do desejo por MalluBlues e

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Palavras: 4010
Acessos: 205   |  Postado em: 15/03/2026

Capítulo V: O jardim e as laranjas

Por Inês:

 

A viagem de volta da vila transcorreu em silêncio, como a ida.

Quando chegamos, nos deparamos com Dona Eulália à nossa espera. Ela estava sentada na sua poltrona de sempre, com o bastidor no colo e os óculos no nariz.

— Finalmente — disse ela, pousando o bastidor com rapidez. — Como foi? A vila estava bem? Dona Perpétua estava bem? E o pedido? Ela tinha tudo?

— Tinha quase tudo — respondi, depositando o embrulho sobre a mesa central. — Falta o vermelho carmim. Disse que chegará na próxima semana.

— Ah, esse vermelho... — Dona Eulália suspirou. — Sempre atrasado. — Ela se levantou, com determinação, e começou a desfazer o embrulho com mãos ansiosas.

Cecília havia se sentado no sofá com uma postura mais relaxada do que eu julgava necessária. Uma perna levemente cruzada, os cabelos um tanto desalinhados pela viagem e o casaco já abandonado na cadeira mais próxima. Observava Dona Eulália com expressão divertida. E eu observava a ela, e me irritei por fazer isso.

— Oh — disse Dona Eulália, erguendo a bobina de seda azul índigo contra a luz da janela. — Que azul magnífico. Olha, Inês.

— Já vi — respondi.

— Mas olha de novo. Esta cor tem profundidade.

Olhei. Era de fato um azul bonito. Não disse isso.

— E este verde... — Dona Eulália prosseguia, abrindo as bobinas com prazer. — Perfeito para o xale. Perfeito. Dona Perpétua nunca me decepciona, aquela mulher santa. — Ela pausou, erguendo a bobina de seda âmbar com uma expressão diferente. Mais contemplativa. — E esta? Não encomendei esta cor.

— Dona Perpétua insistiu — disse eu. — Pode devolver se não quiser.

— Devolver? — Dona Eulália olhou para mim como se eu houvesse sugerido algo levemente absurdo. — Devolver esta beleza? — Ela passou os dedos pela seda com cuidado. — Italiana, é?

— Italiana — confirmei.

— Que mulher extraordinária, aquela Perpétua. Sabe o que quero antes que eu saiba. — Ela olhou para Cecília. — Viste, minha querida? Que cor maravilhosa.

— É linda — concordou Cecília, e então seus olhos se deslocaram para mim com um brilho que eu conhecia o suficiente para reconhecer como antecipação de algo. — O carretel âmbar agora está aí em suas mãos são e salvo, mas por pouco viu, titia Eulália...

Dona Eulália levantou os olhos.

— Como assim?

— Senhorita Inês e eu tentamos pegar a bobina ao mesmo tempo — Cecília disse com leveza. — Inês quase derrubou o carretel no chão de susto.

— Não derrubei nada — disse de maneira ríspida.

— Recuou tão rapidamente que ele quase caiu — ela respondeu, com tom brincalhão.

— Estava verificando a qualidade da seda. Não havia necessidade de duas pessoas segurarem a mesma peça simultaneamente.

— Naturalmente — murmurou Cecília. Havia um sorriso em seus lábios que ela não se dava ao menor trabalho de esconder.

— Ai, meninas… vocês duas. Mas e a vila? — Dona Eulália perguntou, voltando-se para Cecília. — Gostou?

— Muito — respondeu Cecília. — É exatamente o tipo de lugar sobre o qual se lê em livros e não se acredita que existe de verdade. A praça, a figueira, as pedras molhadas de chuva... — Ela fez uma pausa. — Dona Perpétua é encantadora também. Me recebeu tão bem.

Dona Eulália riu.

— É a maneira dela. — Ela então lançou um olhar para mim. — E ela perguntou sobre quem Cecília era?

— Perguntou — respondi, numa palavra.

— E?

— E respondi.

Dona Eulália esperou por um complemento.

— Disse que era sua sobrinha — acrescentei. — Que estava se por aqui de passagem, se recuperando.

— A senhorita Inês comentou com Dona Perpétua que temos os olhos parecidos — disse Cecília, dirigindo-se a Dona Eulália com um sorriso sereno. — A senhora também acha, titia?

Dona Eulália inclinou a cabeça e examinou a sobrinha com a mesma atenção que antes dedicara à seda âmbar.

— Talvez. Não na cor, mas há algo no tamanho… e na região ao redor dos olhos. Sim. Uma certa… intensidade.

— Então a senhorita Inês tem me observado com bastante cuidado para, em tão pouco tempo, notar tal semelhança — disse Cecília.

Senti o calor subir ao meu rosto com uma rapidez que me irritou profundamente.

— Eu disse que lembravam os de Dona Eulália. Trata-se apenas de uma constatação de semelhança familiar, não de um comentário pessoal.

— Claro — respondeu Cecília, num tom que me fez desejar encerrar o assunto naquele mesmo instante.

— Que maravilha — murmurou Dona Eulália, voltando a se ocupar das bobinas.

***

Naquela noite, decidi que passaria a fazer as refeições em horários diferentes. Precisava do meu silêncio habitual.

Não era fuga. Era uma medida razoável de preservação. Cecília tinha o hábito de aparecer ao desjejum já completamente acordada, articulada e tagarela, o que eu considerava uma ofensa às leis naturais do início da manhã. Além disso, tinha a tendência de olhar para mim de um modo que eu não conseguia classificar adequadamente, o que era ainda mais perturbador do que a tagarelice.

Assim, comecei a tomar o desjejum mais cedo, antes que os passos de Cecília se ouvissem no corredor. E o jantar, quando podia, em meu quarto, sob o pretexto de leituras a terminar.

***

Na manhã seguinte, encontrei-a na varanda.

Eu passava com meu cesto de ferramentas de jardinagem quando a vi ali, parada, de costas para mim, os cotovelos apoiados no parapeito e os olhos voltados para a paisagem da propriedade.

Usava um avental, havia vestido um casaco por cima do vestido, e meus sapatos, velhos e já bastante gastos, não eram exatamente o que se esperaria de uma senhorita..

Ela ouviu meus passos e virou-se.

— Bom dia, senhorita Inês.

— Senhorita — respondi, com um aceno breve, e continuei caminhando.

— Estava pensando em caminhar até os campos hoje — disse ela, para as minhas costas. — Sozinha, talvez. O tempo está tão bom, não acha?

Parei. Não deveria ter parado, mas parei.

Voltei-me devagar, observando-a com atenção.

— Vai passear sozinha — repeti.

— Sim.

— Sua recuperação — comecei, escolhendo as palavras com cuidado — está em andamento, se não me engano.

Cecília inclinou levemente a cabeça. Havia algo em seus olhos que beirava a diversão.

— Está.

— E imagino que o médico indicou repouso como parte do tratamento.

— Indicou repouso moderado. Não reclusão.

— Caminhadas longas pelos campos não se enquadram em repouso moderado.

Ela virou o corpo completamente em minha direção, cruzando os braços com lentidão.

— E que distância é longa, segundo a sua avaliação?

— A que excede a capacidade atual de quem está se recuperando.

— E a senhorita sabe qual é a minha capacidade atual?

Não respondi imediatamente. Havia algo na pergunta e na maneira como ela a fizera que soava a deboche. Aquela menina havia decidido me perturbar.

— Sei que Dona Eulália ficaria apreensiva — disse, por fim.

— Ah. — Cecília descruzou os braços. — Então é por tia Eulália.

— É a pessoa responsável por seu bem-estar nesta propriedade.

O calor voltou ao meu rosto. Segurei o cesto com mais firmeza.

— E eu também tenho interesse em que as coisas desta casa corram sem contratempos, senhorita Cecília.

— Naturalmente — disse ela, com aquele exato tom que eu já havia aprendido a detestar. Depois, mais suavemente: — Não pretendo caminhar longas distâncias, nem ir sozinha, senhorita Inês. Era apenas um pensamento em voz alta.

Olhei para ela por um momento.

— Que bom — disse, por fim, e retomei meu caminho em direção ao jardim sem aguardar resposta.

Ouvi, atrás de mim, o que poderia ter sido o início de um riso contido. Ela estava intencionalmente zombando de mim.

***

Nos fundos da propriedade havia, separado dos jardins ornamentais de Dona Eulália por uma cerca baixa de madeira escurecida pelo tempo, um espaço que era inteiramente meu.

Não no sentido da propriedade. Nada aqui era meu nesse sentido. Mas Dona Eulália havia me dado aquele cantinho doze anos atrás, quando eu havia chegado sem nada e precisava de algo para fazer com as mãos e com as horas. "Faça o que quiser com aquele pedaço", ela disse. "Está abandonado de qualquer forma".

Fiz um jardim.

Não o tipo de jardim que se faz para ser admirado. Os jardins de Dona Eulália eram para isso, com suas rosas dispostas por cor. O meu era para ser usado. Fileiras ordenadas de manjericão e alecrim, hortelã e erva-cidreira, lavanda nas bordas porque afastava insetos e porque eu gostava do cheiro. Camomila num canto mais ensolarado. E, mais ao fundo, protegidas da luz direta por uma treliça que eu mesma havia construído com bambus, as plantas medicinais que eu conheci por meio dos livros e da prática que os anos no internato trouxeram: calêndula, arnica, melissa, valeriana e outras.

Naquela tarde, regava as ervas com o regador de lata que eu guardava preso à cerca, movendo-me devagar entre as fileiras, verificando as folhas e removendo com os dedos as ervas daninhas que insistiam em aparecer entre elas.

Estava tão absorta que não ouvi nenhuma voz até sair do meu jardim.

Vi que Cecília e Lurdes estavam paradas conversando do lado de fora, a alguns metros de mim. Lurdes com as mãos entrelaçadas na frente e Cecília com os braços levemente cruzados, olhando para mim com uma expressão curiosa.

Meu primeiro instinto foi passar por elas com o aceno mínimo que a polidez exigia e seguir em frente. Tinha terra nos dedos, pois não encontrei meu par de luvas no cesto e presumi que havia esquecido no quarto. Naquele momento não tinha nenhuma disposição para conversação. Muito menos com Cecília.

Porém, antes que eu desse o segundo passo, a voz de Lurdes me alcançou.

— Senhorita Inês.

Fechei os olhos e bufei. Girei-me na direção delas.

Lurdes tinha uma expressão aberta, do tipo que tornava impossível ser rude sem sentir-se mesquinha depois. Cecília mantinha uma expressão amena, a de quem já sabe o que vai acontecer e está apenas aguardando com paciência.

— Pois não — disse, esfregando minhas mãos e tentando limpá-las da terra.

— Como a senhorita sabe, partirei em breve — começou Lurdes, com um jeito de quem havia ensaiado o que ia dizer. — E gostaria de conhecer uma parte da propriedade que a senhorita Cecília e eu ainda não adentramos. Porém tenho receio de ir sozinha.

— E que parte seria essa? — perguntei, olhando brevemente para Cecília, que sustentou meu olhar com uma tranquilidade que eu classificaria como suspeita.

— As plantações de laranja. Há muitos homens estranhos para nós rondando por ali, e não seria de bom tom irmos de encontro ao desconhecido. Ainda mais em companhia apenas da jovem senhorita.

— Entendo — disse. — Peço que aguardem. Entrarei e pedirei para que Rute as acompanhe.

— O entardecer logo se aproxima — disse Cecília, dirigindo-se a mim pela primeira vez. — Até que Rute conclua os afazeres da casa e venha até nós, o passeio ficará inviável.

Olhei para ela. Ela me olhou de volta. Havia uma luz de fim de tarde no rosto dela. Desviei os olhos rapidamente.

— E o que sugere, senhorita? — perguntei olhando para o chão, num tom que não era exatamente cordial.

— Ora, que nos acompanhe. — E me lançou um meio sorriso. — Lurdes também quer pedir laranjas para levar ao filho Rafael. Você se importa?

— Questiona-me como se eu fosse a proprietária do lugar. E não sou.

— Não — concordou ela. — Mas este pouco tempo de convivência fez com que eu conhecesse tia Eulália o suficiente para saber que ela lhe tem em alta estima e ficaria muito desapontada se eu chegasse ao jantar com a história de que Lurdes partiu sem as laranjas por falta de acompanhamento.

Fiz uma pausa. E olhei para elas. Os olhos de Lurdes brilhavam e Cecília mantinha uma postura confiante.

— Além disso — acrescentou Cecília, mais baixo —, acredito ter entendido que a senhorita se preocupa para que tudo corra bem. Atualmente, isso inclui acompanhar minha recuperação e… as laranjas.

Não respondi. Dona Eulália estava lá dentro, bordando feliz com os novos fios. Não podia permitir que a semente das intrigas que Cecília parecia disposta a plantar chegasse a afetar o humor dela, já bastava o quanto afetava o meu. E ouvir os sermões intermináveis de Dona Eulália definitivamente não estava nos meus planos.

— E então? — Cecília perguntou suavemente.

Passei as mãos no avental.

— Deem-me um momento para lavar minhas mãos com a água do jarro que fica na parte externa e logo retorno para acompanhá-las.

***

A plantação de laranjas ficava no lado leste da propriedade. Chegava-se por um caminho de terra batida que corria paralelo à cerca de pedra, largo o suficiente para duas pessoas andarem lado a lado. Lurdes estava a um passo atrás, eu e Cecília à frente.

O sol estava baixando lentamente e a sombra das árvores se estendia pelo chão em faixas longas. Havia um cheiro de terra e fruta madura no ar.

— É muito maior do que parece da casa — disse Cecília, quando as primeiras laranjeiras apareceram além da curva do caminho.

Eram duzentas e quarenta e duas árvores. Eu sabia disso porque havia ajudado a replantar doze delas dois anos atrás, quando uma praga havia comprometido um trecho da fileira leste. Não disse nada disso.

— É uma boa plantação — disse apenas.

— Boa é pouco — murmurou Cecília, olhando para o arvoredo que se estendia até onde a vista alcançava. — É bonita. Não sabia que plantações podiam ser tão bonitas.

Eu estava olhando para as árvores. Depois estava olhando para ela sem ter decidido fazer isso. A luz do sol atravessava as folhas e caía sobre Cecília, fazendo com que os fios loiros de seu cabelo brilhassem ainda mais. Seus lábios, levemente entreabertos, estavam rosados. Percebi que a observava e desviei o olhar imediatamente, com uma irritação que era principalmente comigo mesma.

Cecília virou o rosto para mim.

— Estava me observando há pouco.

— Verificava se conseguia acompanhar o passo — disse. — Não quero que passe mal no meio da plantação.

Um silêncio.

— Claro — disse ela. 

Continuamos caminhando.

No início da plantação havia um galpão baixo onde os trabalhadores guardavam os equipamentos de colheita, e foi lá que encontrei Jovito, sentado num banco de madeira do lado de fora, consertando a alça de uma cesta com linha grossa.

— Dona Inês — disse ele, levantando-se. 

Seus olhos foram rapidamente para Cecília e Lurdes, com a avaliação discreta de quem não está habituado a estranhos na propriedade.

— Jovito — respondi com um menear de cabeça. — Como está a colheita desta semana?

— Boa, dona Inês. As da fileira do meio estão no ponto. As de cima precisam de mais uns dias.

— Precisaria que separasse um cesto de laranjas para esta senhora — disse, indicando Lurdes. — Para levar numa viagem longa.

Jovito assentiu.

— As da fileira do meio então. Firmes, duram bem na viagem. — Ele olhou para Lurdes. — A senhora prefere mais doces ou mais ácidas?

— Mais doces, se puder — disse Lurdes, com o sorriso de quem não esperava ser consultada. — É para uma criança.

— As do lado sul, então. Pegam mais sol. — Ele deu meia-volta em direção às fileiras sem mais cerimônia.

Cecília havia se afastado alguns passos enquanto Lurdes e eu falávamos com Jovito e estava agora parada entre duas laranjeiras, com a mão levantada tocando um dos frutos sem colhê-lo, apenas segurando-o levemente na palma como se estivesse medindo seu peso.

— Pode colher se quiser — disse a ela, sem pensar.

Ela virou o rosto. Havia surpresa na expressão dela.

— Pode? — repetiu.

— As da fileira do meio estão no ponto — disse, repetindo as palavras de Jovito. Desviei os olhos para a outra direção.

De relance, vi Cecília olhar para a laranja na mão por um momento. Depois a girou levemente no galho até que se desprendeu com aquele som seco.

Ela a examinou, passou o polegar pela casca, sentindo a textura irregular da fruta.

Então me olhou.

Havia algo na maneira como ela se movimentava que prendia minha atenção.

— Agradeço, Senhorita Inês — disse, mostrando-me o fruto recém colhido.

— Não foi nada — respondi, e desviei os olhos para as fileiras onde Jovito já selecionava as laranjas de Lurdes.

***

Na volta, Lurdes carregava a cesta com cuidado. 

Cecília seguia ao meu lado, tentando descascar a laranja com os dedos.

— Você cuida de um jardim, senhorita Inês? — perguntou, sem erguer os olhos da fruta. 

— Sim.

— Sondei outro dia e há muitas plantas desconhecidas por lá.

Olhei para ela.

 — Incrível como é curiosa com assuntos que não lhe dizem respeito, senhorita Cecília. Mas serei cordial. Sim, lá há temperos e plantas medicinais.

— Já li sobre algumas plantas medicinais — disse ela, com uma naturalidade que me surpreendeu. — Uma pausa. — Por acaso, faz algum elixir ou remédios com elas?

— Sim, com algumas — respondi, depois de um momento. — Para coisas simples. Dores, insônia, inflamações... Dona Eulália sente dores frequentemente e prefere não depender do médico da vila a cada pequena queixa.

Cecília finalmente conseguiu abrir a fruta e o cheiro cítrico espalhou-se no ar.

— E existe um remédio para insônia?

— Sim. Alguns chás ajudam.

— Às vezes eu não durmo bem — disse simplesmente.

Não havia provocação em seu tom de voz. Era apenas uma afirmação.

Olhei para ela de lado, mas Cecília estava com os olhos na fruta, separando os gomos com atenção.

— Entendo — disse, por fim.

Ela ergueu os olhos para mim.

— Entende?

— Ouço passos pela casa no meio da noite e presumi ser a senhorita ou Lurdes, já que antes da chegada de vocês o silêncio era absoluto nesses horários — disse, numa voz neutra.

Um silêncio se formou entre nós.

Cecília me olhou por um momento, longo o suficiente para que eu me perguntasse se havia dito demais.

Então voltou a olhar para os gomos de laranja em suas mãos.

— Sim, sou eu. Mas presumo então que a senhorita também não dorme tão bem se consegue me ouvir de madrugada — disse, me olhando intensamente.

O canto da boca dela se moveu quase imperceptivelmente.

Não respondi mais nada.

Caminhamos em silêncio pelo resto do caminho. O cheiro de laranja permanecia nos dedos de Cecília enquanto ela comia a fruta lentamente, cobrindo a boca com uma das mãos. A luz do entardecer cedia aos poucos ao azul escuro que precede a noite, e, à nossa volta, os grilos começavam a se fazer ouvir.

*** 

Quando retornamos à casa, Dona Eulália já nos aguardava na sala principal, atraída provavelmente pela movimentação incomum e pela nossa ausência.

— Laranjas! — exclamou ela, com a mesma satisfação com que havia recebido a seda âmbar. — Que maravilha. Lurdes, você vai levá-las para o Rafael?

— Vou sim, Dona Eulália. — Os olhos de Lurdes brilharam. — Jovito escolheu as mais doces.

— Jovito sempre escolhe as melhores. — Ela lançou um olhar entre mim e Cecília, com aquela expressão alegre que antecipava algum comentário. — Foram juntas até a plantação?

— Fomos — disse Cecília, antes que eu pudesse responder. — A senhorita Inês fez a gentileza de nos levar.

Dona Eulália voltou o olhar para mim.

— Oh, Inês… que amável da sua parte.

Limitei-me a um aceno breve e subi as escadas antes que ela tivesse a oportunidade de acrescentar mais alguma coisa.

***

Mais tarde, já no quarto, a bandeja que havia pedido a Arminda repousava sobre a mesa pequena. As velas lançavam uma luz amarelada e instável pelas paredes, e o silêncio daquele cômodo era tudo que eu precisava.

Comia devagar quando ouvi as batidas na porta.

Três. Firmes. Com uma cadência que eu desconhecia.

Pus o guardanapo sobre a bandeja, afastei a cadeira e atravessei o quarto. Abri a porta numa fresta. O suficiente para ver, mas não o suficiente para dar passagem.

Cecília estava no corredor.

A luz das velas do meu quarto a alcançava apenas de lado, recortando o perfil dela contra a penumbra do corredor mal iluminado. Estava com o mesmo vestido do fim da tarde, os cabelos ainda um tanto soltos. 

— O que faz aqui, senhorita? — perguntei. — Precisa de algo?

Ela olhou para a fresta da porta. Depois olhou para mim. Havia algo entre diversão e ofensa em sua expressão.

— Ora, que indelicadeza, Senhorita Inês. Deixar uma fresta tão pequena quando vim lhe fazer um favor.

— Um favor.

Não era uma pergunta. Mas abri a porta um pouco mais. O suficiente para que ela pudesse ver o quarto por cima do meu ombro, o que ela fez, com aquela curiosidade de quem não se envergonha de ser apanhada olhando.

Inspecionou o espaço com os olhos. A bandeja, as velas, a pilha de livros sobre a cômoda. Voltou o olhar para mim.

— Sim — disse ela. — Um favor.

E tirou do bolso do vestido o meu par de luvas de jardinagem.

As reconheci imediatamente. Estavam dobradas com mais cuidado do que eu costumava dobrar.

— Mais cedo a senhorita as deixou cair — disse Cecília, estendendo-as. — Guardei comigo, pretendendo devolver no jantar. Mas como a senhorita prefere fazer suas refeições sozinha, julguei que talvez precisasse delas pela manhã. Vim devolver.

Olhei para as luvas. Depois para ela.

Estendi a mão.

Meus dedos tocaram os dela quando peguei as luvas. Foi um instante. Ela não recuou e eu tampouco, e houve um segundo em que os nossos olhos se encontraram.

Recuei a mão e apertei as luvas entre os dedos.

Uma sensação de irritação me tomou. 

— Senhorita Cecília — disse, com uma voz que tentava manter calma —, penso que a senhorita faz escolhas que parecem inocentes, mas que de fato não as são.

Ela inclinou a cabeça levemente e sua expressão fechou.

— Ora. A que se refere?

Estávamos frente a frente no vão da porta, ela no corredor e eu na soleira, e mesmo com a luz baixa eu podia ver os detalhes do rosto dela com uma clareza que não me era útil. A linha do queixo. A leve tensão nos cantos da boca. Os olhos que não desviavam.

— Penso que fez todo esse teatro de devolver as luvas apenas agora para espiar meu quarto e invadir meu silêncio com sua tagarelice — disse. — A senhorita fala muito, e isto com certeza não deve ser considerado qualidade em seu meio social.

O silêncio que se seguiu foi tenso. 

Cecília baixou o olhar por um momento, olhando para as luvas na minha mão, ou para os meus dedos, eu não soube distinguir e então o ergueu novamente.

— Vejo que me julga de maneira desnecessária — disse, com calma. — E não sou curiosa a tal ponto. — Uma pausa. — Se falar excessivamente é um defeito, Senhorita Inês, ser tão fechada quanto a senhorita o é deve ser tal qual ou ainda pior.

Virou-se.

Saiu pelo corredor com passos rápidos e não olhou para trás.

Fiquei parada na soleira por um momento com as luvas na mão e depois fechei a porta.

Voltei à mesa. Havia perdido a vontade de jantar, mas comi o resto da comida assim mesmo.

As luvas estavam sobre a mesa, ao lado do prato.

 

Olhei para elas por um instante e lembrei-me da forma como Cecília as havia segurado antes de me entregar. Dobras cuidadosas. 

 

Afastei o pensamento com irritação.

 

Levei outra colherada à boca.

 

E, contra toda a lógica, veio-me à mente a imagem dela parada no corredor, a luz da vela desenhando o perfil do rosto, os olhos fixos nos meus.

 

Fechei os olhos com força.

 

Que criatura insuportável.

Fim do capítulo


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Comentários para 5 - Capítulo V: O jardim e as laranjas:
Marta Andrade dos Santos
Marta Andrade dos Santos

Em: 21/03/2026

É  o amoroso kkkkk

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