Capítulo VI: A biblioteca
Por Cecília:
A despedida de Lurdes aconteceu numa manhã de céu límpido, tão azul que quase doía olhar. Ela partiu logo após o desjejum, carregando uma pequena trouxa com seus pertences, a cesta com as laranjas e uma carta que escrevi às pressas para mamãe, assegurando-lhe que estava bem instalada e que meus pulmões, milagrosamente, pareciam estar começando a cooperar.
— Cuide-se bem, menina Cecília — disse Lurdes, apertando minhas mãos. Seus olhos estavam marejados. — E se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mande outra carta. Vou levar esta e sua mãe ficará tranquila sabendo que está bem acomodada.
— Cuida bem do Rafael — respondi, sentindo minha própria garganta apertar. — E não te preocupes comigo. Estou em boas mãos.
Menti, claro. Não sabia se estava em boas mãos. Sabia apenas que estava em mãos estranhas, numa casa estranha, com uma mulher estranha que parecia ter feito sua missão pessoal evitar-me como se eu carregasse a peste bubônica.
Observei a carruagem desaparecer pela estrada empoeirada, levando consigo a última conexão real com minha vida anterior. Senti-me repentinamente pequena, sozinha, e perigosamente longe de casa.
Mas também senti algo mais. Algo que levou alguns minutos para identificar: alívio. Uma leveza estranha, quase culposa. Lurdes, com toda sua dedicação e cuidado, também representava vigilância constante, lembretes perpétuos de minha fragilidade, olhares preocupados a cada respiração mais profunda.
Agora, pela primeira vez em... bem, talvez pela primeira vez na vida, estava verdadeiramente sozinha. Sem mamãe, sem Francisca, sem Lurdes. Apenas eu, meus pulmões traidores, e esta casa silenciosa cheia de segredos que não me diziam respeito.
***
Os dias seguintes estabeleceram uma rotina peculiar. Acordava cedo. Não tão cedo quanto Inês, percebi, pois ela sempre já havia tomado sua primeira refeição do dia quando eu descia. Ficávamos apenas eu e tia Eulália, que falava animadamente sobre amenidades: o clima, os laranjais, as fofocas menores da vila próxima, planos para reformar a capela da fazenda.
Inês raramente aparecia para as refeições, e quando aparecia, limitava-se a cumprimentos monossilábicos e retiradas estratégicas assim que o decoro permitia. Eu a via ocasionalmente pelos corredores, sempre com um livro sob o braço, sempre caminhando de maneira determinada, como se tivesse assuntos urgentíssimos a tratar e minha presença fosse completamente indesejada.
Era quase cômico, realmente. A casa era enorme. Quantos aposentos? Quinze? Vinte? Mas de alguma forma Inês conseguia torná-la pequena demais para ambas. Se eu ia ao jardim pela manhã, ela o visitava à tarde. Se eu lia na sala de estar, ela desaparecia no gabinete. Se eu caminhava pelos corredores do segundo andar, ouvia seus passos ecoando estrategicamente no térreo.
Era um balé elaborado de evitação mútua, e eu não sabia se deveria me sentir insultada ou impressionada pela dedicação dela.
Mas aqui está o que mais me surpreendeu: eu estava melhorando.
As manhãs eram mais fáceis. Conseguia caminhar pelos jardins sem parar a cada dez passos para recuperar o fôlego. As crises noturnas de tosse praticamente cessaram.
O médico, maldito seja, tinha razão. Os ares do campo realmente me faziam bem.
Era libertador. E aterrorizante. Porque se o campo me curava, significava que quando retornasse à cidade, para aquele ar envenenado que me adoecia, todo este progresso seria perdido.
***
Foi na terceira semana que terminei o livro que trouxera comigo. Um romance francês que Francisca consideraria escandaloso e que por isso mesmo eu adorara.
Suspirei ao fechar a última página, recostando-me na poltrona azul do gabinete. Pensei na bagagem com os livros religiosos que Francisca havia selecionado para minha estadia e me contive para não revirar os olhos. A janela estava aberta, trazendo aquela brisa perfumada de jasmins que agora reconhecia e, devo admitir, adorava.
— Cecília — a voz de tia Eulália veio do corredor, seguida por batidas gentis na porta. — Posso entrar?
— Claro, titia.
Ela entrou com aquele sorriso que usava constantemente comigo.
— Vejo que terminou seu livro — disse ela, seus olhos atentos não perdendo o volume fechado em meu colo.
— Terminei — confirmei. — E agora me encontro em estado deplorável de falta de leitura. É uma condição médica séria, devo informá-la.
Ela riu e me lançou um olhar contemplativo.
— Bem, infelizmente os livros que mantenho neste gabinete tratam sobretudo de medicina, botânica e administração — disse. — Receio que não sejam exatamente o tipo de leitura que a minha sobrinha procura no momento.
Fez uma breve pausa e então acrescentou, com um leve entusiasmo:
— Mas… felizmente conheço a cura perfeita para isso. Tenho uma biblioteca que é considerada, na região, uma das mais completas. O Coronel, Deus o tenha, era um homem de muitas falhas, mas possuía grande apreço pela literatura. Há obras de diversos países, em várias línguas.
Ela indicou o corredor com um pequeno gesto da mão.
— Vá até lá e escolha algo que lhe agrade — acrescentou. — Algo que seja… apropriado para uma senhorita.
Me animei imediatamente com o novo espaço desconhecido. Uma biblioteca completa, ela disse.
— Onde fica? — perguntei, já me levantando.
— No andar térreo, ala leste. Terceira porta à esquerda depois da sala de estar. Não pode errar. É a única porta dupla naquela ala.
***
A biblioteca revelou-se exatamente como tia Eulália prometera: impressionante.
As portas duplas de madeira escura abriam-se para um santuário de conhecimento. Prateleiras do chão ao teto cobriam três paredes inteiras, repletas de lombadas em couro de todas as cores e tamanhos. Havia uma escada rolante antiga para alcançar os volumes mais altos.
O local exalava papel velho, couro, madeira, e aquele aroma indefinível que apenas bibliotecas antigas possuem.
Eu estava maravilhada, girando lentamente para absorver tudo, quando uma voz seca e familiar cortou meu encantamento:
— Veio saquear a biblioteca, vejo.
Inês.
Ela estava sentada numa das poltronas, praticamente escondida pela sombra, com um livro aberto em seu colo. Como eu não a vira ao entrar?
— Sim, vim procurar leitura. Não saquear. — respondi, recuperando-me da surpresa inicial e decidindo não dar-lhe a satisfação de parecer perturbada. — Tia Eulália me disse que a biblioteca estava disponível para uso.
— Disponível — repetiu Inês, fechando seu livro com um estalo. — Sim, suponho que esteja. Embora disponível não signifique necessariamente apropriada.
Algo em seu tom fez meus olhos estreitarem-se.
— Apropriada?
— Para uma senhorita jovem da cidade — ela continuou, levantando-se e caminhando até uma das prateleiras com aqueles passos longos e decididos. — Certamente há critérios a considerar. Conteúdo moral, adequação à idade, influências potencialmente perturbadoras...
Estava zombando de mim. Claramente. Mas sua expressão permanecia perfeitamente séria.
— Sou perfeitamente capaz de escolher minhas próprias leituras, Senhorita Inês — retruquei, cruzando os braços.
— Oh, sem dúvida — ela concordou, retirando um volume de uma prateleira baixa. — Mas sinto que seria negligente da minha parte não orientá-la. Por exemplo... — ela examinou o livro em suas mãos — ...aqui temos Fábulas de La Fontaine. Moralmente instrutivo, e com ilustrações adoráveis. Perfeito para senhoritas de sua... constituição. Arriscaria dizer que O Corvo e a Raposa será particularmente positivo para você.
Minha boca abriu-se de indignação.
— Fábulas? Fábulas infantis?
— Oh, perdão… prefere contos com mais simbolismos — ela devolveu o volume e pegou outro. — Talvez prefira o Contos de Fadas dos Irmãos Grimm. Também ilustrado. Se a memória não me falha, há uma Cinderela particularmente tocante.
O sangue subiu ao meu rosto.
— Senhorita Inês, tenho dezenove anos, não nove.
— Dezenove? — ela fingiu surpresa. — Meu Deus, então é praticamente uma senhora madura. Nesse caso... — ela caminhou para outra prateleira — ...Robinson Crusoé pode ser adequado. Há aventura, lições de sobrevivência, e o inglês é relativamente simples de compreender.
— Eu leio perfeitamente inglês — sibilei, — francês, e um pouco de italiano. E Robinson Crusoé li aos treze anos.
— Aos treze? Que precoce! — seus olhos escuros brilhavam com diversão. — Então talvez... O Peregrino de Bunyan? Bastante inspirador e cheio de alegorias cristãs. Sua tia Eulália ficaria encantada.
Respirei fundo, lutando contra o impulso de arrancar o livro de suas mãos e atirá-lo pela janela.
— Senhorita Inês — disse, pronunciando cada palavra com clareza perigosa — seria muito amável de sua parte se me indicasse onde estão os livros que NÃO foram escritos para crianças pequenas ou freiras devotas.
Ela inclinou a cabeça, estudando-me.
— Ah — disse finalmente. — Gostaria de outro tipo de literatura. Daquele tipo que lia no gabinete no outro dia, suponho?
— Sim, supôs corretamente. E dada a imensidão desta biblioteca, seria agradável e de bom tom se pudesse me indicar.
Por um momento, pensei que ela fosse recusar ou continuar sua zombaria irritante. Mas então algo mudou em sua expressão.
— Pode ler francês, disse?
— Fluentemente.
— E não se ofende com temas... complexos?
— Depende do que considera complexo, senhorita Inês.
Ela caminhou para uma seção diferente da biblioteca, uma área mais escura, prateleiras mais altas.
— Balzac — disse, passando os dedos pelas lombadas. — Byron. Victor Hugo. — Ela pausou, retirando um volume e examinando-o. — George Sand, se quiser algo escandaloso mas bem escrito.
George Sand. A escritora que usava nome masculino e vestia roupas de homem. Mamãe teria um ataque se soubesse.
— George Sand seria... interessante — admiti. Mas e aquele? — disse apontando para um livro de capa vermelha que ficava mais ao alto na estante do lado e que chamou minha atenção.
Inês ficou levemente corada, e mesmo dali, pude perceber a mudança de cor em sua pele.
— Estes são completamente inadequados — disse ela, num tom que pretendia ser firme, mas trazia certo desconforto.
— Pois eu quero estes — respondi, sem levantar a voz. — O terceiro.
Inês puxou a pequena escada de trilho e subiu três degraus, pegando o livro.
— Mademoiselle de Maupin — leu Inês, agora em voz mais baixa, como se o título em si exigisse cautela.
Houve um breve silêncio. Ela não se moveu de imediato. Seus dedos permaneceram suspensos no ar por um segundo a mais do que o necessário, antes de tocar a lombada com relutância visível.
— A senhorita sabe o que está escolhendo? — perguntou, por fim.
— Sei exatamente — menti.
Inês puxou o volume da prateleira com cuidado excessivo, como quem retira algo frágil. Ao descer para entregá-lo, evitou meu olhar.
— Este livro… — começou, depois interrompeu a própria frase. — Não costuma agradar.
— Imagino que não — disse, aceitando-o.
— Que conste — acrescentou — que fiz apenas o que me foi pedido.
Sorri. Não por desafio, mas por reconhecimento.
Antes que eu pudesse pegá-lo, Inês voltou a se mover. Retirou de uma prateleira inferior uma capa solta, gasta nas bordas, e a colocou sobre o volume em um gesto rápido.
— Que conste também — disse, em tom baixo — faço isso porque, sendo esta sua escolha ou não, se Dona Eulália souber que está lendo este livro, estarei em apuros.
A capa falsa trazia outro título: Introdução à Vida Devota. Um nome inofensivo e respeitável demais para levantar suspeitas. Inês ajustou-a com cuidado, como quem apaga vestígios.
— Para todos os efeitos — acrescentou, evitando novamente meu olhar — a senhorita está lendo outra coisa.
Peguei o livro já disfarçado.
— Entendido. Então agora temos um segredo, senhorita Inês — respondi.
Inês recuou um passo, recompôs a postura e retomou aquela expressão correta, quase severa.
Mas o rubor que insistia em voltar ao seu rosto denunciava algo que possivelmente eu só descobriria após iniciar minha leitura.
Ela acenou com a cabeça, já se virando para voltar à sua poltrona e seu próprio livro.
— Senhorita Inês? — chamei, sem saber bem por quê.
Ela pausou, olhando por cima do ombro.
— O que está lendo?
Por um momento, pensei que ela fosse me chamar de curiosa novamente ou então que não fosse nem responder. Mas então, com hesitação quase imperceptível, ela ergueu o livro para que eu visse o título.
— Orgulho e Preconceito — disse. — Jane Austen.
Jane Austen. Romances. Histórias de amor e finais felizes.
— E encontra-se satisfeita com sua atual leitura? — perguntei.
— É sobre segundas chances — ela respondeu, com sua voz ficando mais suave. — Sobre pessoas que cometeram erros e tem oportunidade de corrigi-los. — Uma pausa. — É fantasia completa, naturalmente. Na vida real, segundas chances são raras. Mas a leitura é agradável.
E com isso, ela voltou a postura habitual, acomodando-se novamente em sua poltrona e claramente encerrando a conversa.
Fiquei ali parada por mais um momento, segurando o livro contra meu peito, observando aquela figura cinzenta curvada sobre páginas amareladas, e me perguntei o que exatamente havia acontecido à senhorita Inês para torná-la tão infeliz.
***
Naquela noite, deitada em minha cama, iniciei a leitura.
Bastaram poucas páginas para que eu compreendesse do que se tratava. O livro era considerado inadequado não apenas por ser a história de uma mulher que se veste de homem. O livro falava da liberdade de uma mulher que desperta amor em um homem e uma mulher.
Suspirei, ajustando a vela no criado-mudo para melhor iluminação.
Pensei no que minha mãe diria se soubesse daquilo. Horrorizada seria pouco. Ler aquele livro, para ela, equivaleria a confessar uma falha de caráter. Algo a ser corrigido com silêncio e vigilância.
Minha irmã, então, não hesitaria. Carola, com sua devoção rigorosa e suas certezas afiadas, faria o sinal da cruz antes mesmo de terminar o título. Veria ali não um romance, mas uma ameaça. E eu não duvidaria de que, se lhe fosse dado poder suficiente, me trancafiaria num internato religioso, convencida de que certas ideias só se curam com clausura.
Essa possibilidade, curiosamente, não me afastou da leitura. Ao contrário.
Virei a página.
Talvez, pensei antes de o sono finalmente me vencer, talvez este exílio forçado não fosse completamente terrível.
Talvez até tivesse algo de bom aqui.
Fim do capítulo
Postei três capítulos hoje e espero muito que estejam apreciando a história. Peço desculpas se ela está em um ritmo mais lento e gostaria imensamente de feedbacks com as opiniões de vocês sobre o rumo da história e possíveis ajustes. Beijão!
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VanessaVS
Em: 19/03/2026
Bom dia, autora!
Estou adorando sua história, amo romances de época e temos poucas histórias desse gênero. O ritmo está perfeito e o estilo da sua escrita muito me agrada. As interações entre as personagens são carregadas de uma tensão instigante, construido de forma lenta, isso também me agrada. Fico ansiosa por mais.
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rebarlow
Em: 16/03/2026
Boa noite, autora!
Esperei um pocuo para comentar por que geralmente gosto de historias finalizadas, mas li outras obras suas e estou encantada. Essa em especial estou acompanhando por que amo classicos historicos, e vc escreve muito bem, com informaçoes pertinentes a epoca, como roupas, detalhes de moblia e principalmente o linguajar. Estou amando!
So quero ver onde essa leitura da Cecilia, vai leva-la rsrsrs.
MalluBlues
Em: 19/03/2026
Autora da história
Ah... agradeço muito por comentar. É bom saber que a história está te agradando. Espero que continue acompanhando e gostando do desenrolar da história. Outra dia, li uma autora que disse que gosta de escrever o que queria ter lido. E eu penso que é assim mesmo... gostaria de ter lido uma história assim.
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MalluBlues Em: 19/03/2026 Autora da história
Vanessa, fico muito muito feliz em saber que você está gostando da história. E eu também amo romances de época!