Capitulo 33
Fedra abriu os olhos sobressaltada com receio de ter perdido a hora, mas logo se acalmou ao perceber que Sabrina dormia tranquilamente ao seu lado. Ela nunca perdia a hora, parecia ter um despertador mental que nunca falhava. Sorriu soltando um longo suspiro. Nunca se acostumava ao fato de dormir todas as noites ao lado de uma mulher que, dormindo, ainda lhe causava arrepios de desejo pelo corpo todo. Deliciou-se mais uma vez por cada contorno do belo rosto de Sabrina, ora com o olhar, ora com a ponta dos dedos. Acariciava-lhe o cabelo, quando ela abriu os olhos carregados de preguiça.
-Não te cansas? - Perguntou Sabrina gem*ndo e já esticando o braço para junto de Fedra.
-Nunca...sua convencida.
Risos com beijos na boca.
-Estou com fome...ontem jantamos?
Fedra soltou uma gargalhada com gosto.
-Criatura, tu me levaste para comer no restaurante vegan, e que por sinal, era muito bom...
-Hmmm, devo ter comido pouco, pois estou faminta...que horas são, meu bem?
-Ainda é cedo...hoje acordei antes da hora e nem estou com fome...
Riram abraçadas.
Entre beijos e risinhos, Sabrina colocou-se sobre Fedra, acariciando-lhe o corpo todo.
-Sabrina...
-Shhhhh...
-Vamos perder a hora...-Disse sem a menor convicção.
-Prometo não me alongar...também tenho horários a cumprir.
Fedra deixou-se levar. Cada encontro de seus corpos em busca de prazer, era sempre uma viagem inesquecível ao mundo dos sentidos.
Algum tempo depois, de olhos fechados e coração tranquilo, Fedra entregava-se sem ressalvas aos carinhos de Sabrina nos seus seios desnudos. Há algum tempo atrás seria impossível. Não se permitiria ser tocada, vista na sua vulnerabilidade, e agora sentia-se desejada e completamente relaxada. Seus olhos encheram-se de lágrimas e não disfarçou. Sabrina beijou-lhe a face molhada, os olhos, a boca e acomodou-se no seu corpo.
-Tudo bem? - Perguntou Sabrina entrelaçando suas pernas.
-Hum-hum...acho que estou um pouco emotiva...mais ainda...
Riram baixinho.
-Meu bem, estive a pensar, e se o Djaiss também se juntasse a nós no jantar com a Glória. O que achas?
-Excelente ideia. Será ainda mais divertido...meu primo precisa sair um pouco da toca e pensar em outra coisa que não seja nesse bendito projeto.
-Não te metas na vida profissional dele, porque isso me interpela diretamente.
Gargalhadas.
-Dois viciados em metas e...
-A senhora tem alguma razão de queixa? Tem se sentido preterida?
-Nunca, meu amor. Se eu reclamar, os anjos castigam.
Gargalhadas com muitos beijos.
***
-Ainda bem que utilizamos de bom senso e resolvemos fazer o jantar aqui. Lá em casa seria um desastre, eu não tenho nenhuma louça que se compare a esse teu set maravilhoso. - Brincou Sabrina abraçada às costas de Fedra enquanto ela arrumava pratos na máquina de lavar louça.
Fedra riu apertando os olhos enquanto se deliciava no abraço.
-Nossos convidados não se importariam de comer nas tuas louças de airbnb.
Gargalhadas.
-Por falar neles, reparaste como se deram bem? A Glória está até mais calma...
-Nunca passou pela minha cabeça que o Djaiss pudesse se conectar com a energia acelerada de Glória. Meu primo sempre foi mais calmo, tanto que a relação dele descambou para um lugar horroroso, exatamente por incompatibilidade de génio com a antiga esposa, que era acelerada demais, autoritária...
-Mas a Glória tem tentando frear sua impulsividade e acredito que com sucesso...mas não viaje, oh minha casamenteira preferida, pois até onde percebi, o assunto é sobre trabalho...vida...nada de possibilidades românticas.
Gargalhadas altas.
-Eu é que sou casamenteira? Que eu me lembre bem, tu que sugeriste que o meu primo se juntasse a nós...- Riu Fedra batendo de leve no braço de Sabrina.
-Amor, eu sugeri que ele viesse porque gosto dele, trabalhamos juntos e ele se tornou um grande amigo...o romance ficou por conta do destino...olha só, os dois na varanda e tão entretidos...será?
-Ah Sabrina, tu és muito engraçada e a mulher mais surpreendente que eu já conheci...sabias que eu sou completamente apaixonada por ti?
-Não...hoje ainda não tinhas dito nada nesse sentido.
-Não?...- Fedra empurrou-a contra a parede da cozinha e beijou-a com intensidade suficiente para não restar qualquer dúvida.
Ouviram uma leve batida na madeira e elas olharam para a porta da cozinha soltando uma gargalhada conjunta.
-Ah esse fogo... - Brincou Glória rindo muito.
-Doida...- Disse Sabrina abraçando Fedra.
Ela ficou vermelha e Fedra se apaixonou um pouco mais.
-O jantar estava delicioso, a companhia melhor ainda e preciso dizer que minha vida melhorou muito depois que as senhoras resolveram juntar as escovas de dentes.
Gargalhadas.
-Nós também te amamos! - Disseram em uníssono provocando mais uma gargalhada.
-A companhia está maravilhosa, mas eu preciso ir porque amanhã, mal o sol apareça, minha filha amada me acorda para levá-la ao futebol. Eu não sei a quem essa menina foi puxar tanta energia...
-Ah não?
Gargalhadas.
-Glória, ainda queres a carona para casa? Eu já estou morto de sono e depois dessa comilança - sorriu - minha pressão caiu e amanhã acordo cedo para levar meus filhos na natação. Até que enfim, foi-me concedido o direito de ter os meus fins de semana com meus pequenos.
Fedra abraçou o primo emocionada, sabia o quanto o afastamento dos filhos o consumia.
-Daqui a pouco, consegues a guarda compartilhada.
-Deus te ouça, prima. Eu não cometi crime algum, mas vá saber o que vai na cabeça de cada um...
-Agradecemos pela vossa presença, o jantar foi maravilhoso...Djaiss, leve essa senhora em segurança para casa. Ela é um diamante em minha vida...- Sabrina abraçou Glória que a encheu de beijos.
-Prometo, desde que ela se mexa. Vamos, Glória! Nossos filhos não vão nos dar trégua amanhã cedo.
-E como tens razão...meninas, durmam bem e...ah, nem vou dizer mais nada para não soar repetitiva.
Gargalhadas.
Minutos depois e já sozinhas:
-Meu bem, dormimos aqui ou vamos para casa?
-Meu amor, estamos em casa...
Fedra riu.
-Eu sempre me esqueço que sou uma mulher com duas casas...já estou tão acostumada com nosso outro espaço, que me esqueço que aqui também é minha casa...
-Aqui é a tua casa e é maravilhosa e vamos dormir naquela cama deliciosa que tem sempre cheiro de paraíso...- Brincou Sabrina.
-E tu lá sabes qual é o cheiro do paraíso?
-Ah sei e sei também que é para lá que vamos dentro de poucos minutos...- provocou batendo nas nádegas de Fedra.
-Depois de um banho quente...
-Juntas!
Riram entre beijos e afagos.
***
A vida na Praia, para Sabrina e Fedra, seguia na toada certa. A relação se fortalecia, respaldada num amor maduro. Ambas muito devotas do trabalho, não descuravam de pequenos detalhes que regavam o sentimento intenso que as unia. O cuidado, afeto e respeito, eram motores que permeavam a conexão entre as duas.
Em mais um dia comum, Fedra saiu mais cedo do trabalho e resolveu aparecer de surpresa no escritório de Sabrina e Djaiss, com o intuito de levá-la para jantar.
-Cheguei em má hora? - perguntou Fedra ao perceber a agitação de Sabrina ao telefone enquanto olhava para as telas do computador e do tablet em simultâneo.
-Nunca, meu amor. Me dê quinze minutos e resolvo aqui. - Respondeu Sabrina piscando o olho.
Fedra sentou-se pacientemente enquanto observava a sua mulher contornando obstáculos com mestria.
Algum tempo depois, no carro:
-Admiro a tua calma diante de problemas...- Elogiou Fedra enquanto dirigia.
-As coisas hoje saíram um pouco do planeado e Djaiss passou o dia na obra, tive que fazer valer o meu repertório...
-Foste brilhante...acho que nasceste para isso...
Sorriram.
-Digamos que já contornei alguns obstáculos na vida e ganhei calo...- piscou Sabrina.
-Eu fiquei impressionada com teu tato para contornar objeções...eu já sabia que eras boa, mas ver ao vivo é ainda mais instigante.
-E por isso vou ganhar um jantar maravilhoso no restaurante mais exclusivo da cidade?
Riram.
-Por isso...também.
-Posso pedir mais uma coisinha? - Sabrina beijou-lhe o pescoço rapidamente.
-Garota, tu me desconcentras...- Sorriu Fedra deixando a cabeça descair pelo lado em que foi beijada. - Peça...vou pensar no teu caso...
-Estou com muita tensão nas costas...uma massagem de 10 minutos...juro que não peço mais nada...
-Sei...essas massagens sempre levam a outros lugares...
-Tens pressa?
Fedra desviou o olhar rapidamente para ela.
-Não...a noite toda há de ser suficiente...
Sorriram.
-Corra, estou com fome. - Gritou Sabrina.
Gargalhadas.
***
-Mãe, desculpa vir tão tarde, mas só agora consegui sair do escritório. Que dia, meu Deus. - Fedra abraçou a mãe e deixou-se ficar.
-Oh filha, mas tu trabalhas tanto...ao menos, almoçaste?
-Hum-hum...a correr, mas comi alguma coisa. Conta-me como foi o teu dia? Divertiste muito com a Sabrina?
-Ah, ela nem pôde vir...fiquei um pouco receosa de ligar para saber o porquê do atraso...
-Ela não te levou na consulta? - A voz de Fedra sofreu uma leve alteração.
-Não...perto da hora, eu já preocupada, e sabendo que tu não poderias e a Malia também não está, liguei para ela...
-Mãe, ela tinha prometido te levar e ela sabia que nem eu e nem a Malia tínhamos disponibilidade...
-Calma, filha. No final tudo correu bem. Liguei e percebi que ela estava atropelada pelos seus afazeres e tinha se esquecido, mas logo pediu ao Djaiss e meu sobrinho foi o querido de sempre. Tudo correu bem e minha consulta de rotina foi um sucesso.
Fedra suspirou demonstrando algum cansaço.
-E eu pensando que as coisas tinham corrido de outra forma...
-Filha, eu estou bem. A tua companheira é viciada em trabalho como tu. - Sorriu.
-Pois...a Malia deu noticia? Essa é outra que se esquece da vida quando vai ao Tarrafal como os amigos...
-Fedra, estás ranzinza...
Fedra sorriu ainda nos braços da mãe.
-Se calhar tens razão...muita pressão no trabalho. Sinto que estou sendo avaliada, só não sei para quê...
-Ah, mas vais brilhar. Seja o que for, vais sair em grande.
-Coruja!
Risos.
***
Fedra encontrou o apartamento às escuras e logo entendeu que Sabrina ainda não tinha regressado do trabalho. A noite já ia avançada o que lhe causou algum estranhamento, mas de tão cansada que estava, preferiu tomar um banho quente antes de qualquer outra coisa.
Quase adormecendo no sofá, ouviu o barulho da porta e respirou aliviada. Sabrina entrou sem fazer muito barulho e depois de deixar a mochila no móvel de apoio, soltou um longo suspiro.
-Meu bem, cheguei! - Disse crente que Fedra estaria por ali.
Silêncio.
Cansada, decidiu tomar um banho antes de qualquer outra coisa. De pijama, pegou no telefone e ligou para Fedra. O telefone tocou algures dentro do apartamento. De cenho franzido, Sabrina regressou à sala e encontrou Fedra no sofá. Sem pensar muito, fez o que sempre fazia em situações parecidas, aconchegou-se ao corpo dela, abraçando-a com braços e pernas. Fedra suspirou recetiva.
-Saudades...saudade do teu cheiro e da tua pele quente...- Sabrina cheirou o cabelo de Fedra que permaneceu calada. - Chegaste há muito tempo?
-Não...meia hora, talvez...
-Tudo bem?
-Hum-hum...
-Hmmm, parece que não fui a única a ter um dia stressante...- Beijou-lhe a testa.
Fedra soltou o ar e olhou para cima.
-Ei...o que foi? - Sabrina já a conhecia o suficiente para saber quando algo não ia bem.
-Fiquei preocupada...não pude acompanhar a mãe na sua consulta de rotina...minha filha não está e também não é responsabilidade dela e...
-Fedra, eu sei que prometi levá-la, mas surgiu muitos contratempos no trabalho, reunião de última hora com os chefes...mas consegui que o Djaiss a levasse e sei que correu tudo bem. Eu jamais a deixaria sem alternativa...desculpa, mas é que as coisas fugiram um pouco do meu controle...
Fedra encarou-a com os olhos marejados.
-Aconteceu alguma coisa? Me desculpa, por favor...o Djaiss garantiu-me que correu tudo bem...
Sem responder nada, Fedra encolheu-se no abraço dela e deixou que as lágrimas corressem soltas. Sabrina acolheu-a em silêncio.
-Não tem nada a ver contigo, meu bem...nada...eu é que não gosto de falhar com a minha mãe...ela não permitiu que eu fraquejasse no episódio da doença...esteve sempre comigo e sei o quanto aquilo a matava por dentro...teve momentos muito sombrios e ela esteve sempre ao meu lado...eu prometi que se sobrevivesse, ela nunca estaria só...
-Meu amor, mas ela não esteve sozinha...ela adora o Djaiss e ele faz tudo por ela...por favor, me desculpe...eu deveria ter avisado que o Djaiss...
-Não...tu foste perfeita, eu é que estou sensível...não sei explicar...senti que tinha falhado e minha mãe ainda brigou comigo me chamando de doida...
-Um pouco...
Risos.
-Deve ser menopausa...stress no trabalho...
-A médica não te disse que estás longe da menopausa?
-Sim...ah sei lá...estou estranha...o trabalho tem exigido ainda mais de mim...ás vezes eu me perco no meio das demandas...
-Eu entendo...há momentos que parece que a vida nos testa com gosto e ela pode ser ardilosa...
-Hum-hum...bastante...desculpa-me se pareci rude ou...
-Se esse pequeno amuo é a tua forma de ser rude...
Gargalhadas.
-Idiota...e tu, estás bem? Alguma coisa saiu do planeado no projeto?
-Não...no projeto está tudo bem...
-Então e esse olhar quase assustado? - Fedra apertou-lhe a ponta do nariz.
-Que perigo é essa mulher...estamos na penumbra e ainda assim detetas olhos assustados?
Risos com beijos.
-Está tudo bem?
-Está...e dona Gracelina?
-Ela está ótima...mimada e eu não ajudo nada...
Gargalhadas.
-Comeste alguma coisa?
-Sim...sopa lá na minha mãe. E tu?
-Hambúrguer...o Djaiss pediu e elogiou tanto que resolvi experimentar. Uma delícia!
-Hmmm, que vontade...
-Aqui em casa não temos nada que se pareça...aliás, precisamos fazer compras.
-Pois...mas agora não quero nada além disto...ah Sabrina, tens o dom de me acalmar...isso quando não me incendeias...
Gargalhadas com muitos beijos.
-Vamos dançar? - Sabrina puxou-a para fora do sofá.
-Agora? Maluca...estou cansada...para Sabrina...
-Agora! Não és tu que sempre dizes que precisamos aproveitar o momento. Vem!
Começou a tocar Where are we going, de Marvin Gaye e Fedra se rendeu.
-Ah, tu não vales nada...a nossa música...
Sabrina riu enlaçando-a e rodopiando pela sala.
***
Mais um dia da semana frenética de Fedra. Tinha um relatório em mãos que precisava ser entregue em poucas horas, e sempre encontrava alguma coisa para melhorar, o que a deixava em stress máximo. Respirou fundo e releu a parte final mais uma vez. O telefone vibrou sobre a mesa e ela finalmente desviou o olhar da tela do computador. Era a filha, sorriu antes de atender.
-Ocupada, dona Fedra? - A voz de Malia era jovial e acalmava.
-Um bocado, mas para a minha filha eu sempre tenho tempo.
-Posso ligar mais tarde, ou falamos na avó...
-Não, preciso mesmo de uma pausa. O que te aflige? Ou são apenas saudades da tua mãe?
Risos.
-Mãe, estivemos juntas há dois dias...tu nem és carente.
Risos.
-Atrevida, mas se queres saber, ando carente de filha...só um pouquinho.
Gargalhadas.
-A Sabrina eu sei que está bem. Ela foi bajular a tua mãe com uma caixa de bolas de Berlim gourmet. Meu Deus, a Grace não falava de outra coisa e quase sufocou a tua namorada com tantos beijos.
Risos.
-E quando é que essa senhora vai deixar de ser mimada?
-Nunca! Se depender de nós, nunca.
Risos.
Malia passou a relatar alguns planos que tinha, e que estava a amadurecer e pediu a opinião da mãe.
-Filha, se estás feliz e realizada, eu só posso apoiar. Se queres que eu diga, sinto-te tão adulta...mais ainda...
-Então, mãe...é isso, sinto que estou a tomar as rédeas da minha vida nas mãos. A principio, meus planos eram outros, mas ainda bem que a vida pode nos surpreender...
-Claro, e se alguma coisa não correr como almejas, sempre podes voltar para a Europa, ou quem sabe, passar a temporada com o teu pai nos Estados Unidos...
-Sim, mas agora quero mesmo ficar mais algum tempo por aqui. Já estou até a ganhar o meu próprio dinheiro. - Disse orgulhosa. - Ficar perto de ti e da avó é tão bom...já não sou mais a adolescente chata.
Gargalhadas.
-Nem de longe...terás sempre o meu apoio no que decidires, meu bem. Filha, agora preciso desligar, reunião com Bruxelas em 20 minutos e ainda preciso fechar o relatório.
-Vais arrasar!
-Eu tento...há novos diretores e o clima anda um bocado estranho...
-Eles nem são doidos de não oferecer o mundo a uma profissional como tu.
-Mais chatices, com certeza. - Brincou.
-Tchau, mãe. Não vou mais roubar o teu tempo.
A videoconferência começou pontualmente. Fedra esperava ver mais colegas homólogos, mas ela era a única representante de agência e do outro lado, toda a cúpula da instituição em Bruxelas. Apresentou o trabalho que lhe tinha tirado um pouco a paz e mal terminou, recebeu rasgados elogios. Em dado momento, um dos chefes começou a abordar um projeto novo, de visibilidade internacional, liderança direta. Sem entender muito bem o porquê de estarem a discutir aquele assunto com ela, ainda assim, Fedra respondeu a todas as questões que lhe foram dirigidas. Mostrou domínio total do dossier, fazendo perguntas cirúrgicas. Não demorou muito a perceber que estava a ser avaliada, embora não fizesse muito sentido. Até que um dos chefes disse: "We believe you are exactly the profile we need."
Fedra levou um susto, mas manteve-se serena. Como assim? Então o teste era para esse fim? Não sabia se pulava na cadeira ou se afundava nela. A reunião terminou com formalidades e sorrisos contidos. O silêncio no escritório era ensurdecedor. Durante algum tempo, ela tentou concatenar as ideias. Não estava doida, ou estava? Permaneceu imóvel com o olhar fixo num quadro à sua frente. O sinal de email novo na caixa de correio arrancou-a da inércia. Assunto: Formal offer.
A cabeça girou e a garganta ficou presa por alguns minutos. Respirou fundo algumas vezes e abriu a mensagem. Era simplesmente a oferta que durante muito tempo pareceu-lhe ser o auge da sua carreira. Contrato de 3 anos, cargo estratégico no escritório sede em Bruxelas, muitos benefícios, remuneração estrondosa e a possibilidade de reforma antecipada ao final do contrato.
Os pensamentos a atropelaram em sobreposição. "Eu trabalhei para isto". "É o ápice da minha carreira". Riu quase descontrolada. "Lutei muito para chegar aqui." "Sempre quis ficar mais perto da minha filha e dar-lhe ainda melhores condições."
Releu a mensagem e parou na rúbrica salarial. Não era gananciosa e já vivia muito bem, mas aquela quantia mudaria muito a sua vida. Lembrou-se de quem era há cinco anos...ambiciosa, incansável, focada e...solitária. A vida tinha mudado tanto...Sabrina...seu coração estremeceu e a cabeça ferveu. Sentiu-se desmoronar...
Meia hora depois, ainda sentada com os olhos presos no ecrã, tentava racionalizar.
-São só três anos...a Sabrina pode ir comigo. Claro que não, ela tem o trabalho que gosta tanto e não posso pedir que abdique dos seus sonhos em prol dos meus...não posso...
Levantou e começou a andar de um lado para o outro. A sala parecia cada vez menor à medida que seus pensamentos pulavam sem qualquer sentido.
-E se eu ficar... vou ressentir-me? E se eu for... vou perder aquilo que finalmente me faz inteira?
Cambaleou até à cadeira e fechou o laptop sem responder ao email. Encostou-se na cadeira e de olhos fechados tentou recuperar o ritmo da respiração que estava mais curto.
-Que momento para ser testada, Fedra?
Precisava conversar com alguém ou enlouqueceria. Sua mãe costumava ser boa ouvinte...
***
Fedra entrou em casa na expectativa de Sabrina ainda não ter regressado do trabalho. Sentiu-se defraudada ao ter suas narinas invadidas pelo aroma delicioso de comida fresca ao lume. Sabrina cantarolava na cozinha e sua vontade de fugir aumentou. Talvez fosse para sua casa...
-Meu amor...vem cá.
A voz doce e firme de Sabrina baralhou-lhe ainda mais os sentidos. Não tinha mais como fugir sem parecer uma doida. Tarde demais...arrastou-se até à cozinha tentando disfarçar sua expressão de desespero.
-Ei...liguei-te mais cedo e nada...muito trabalho?
O sorriso terno de Sabrina quase provocou um colapso em Fedra.
-Sim...nem vi que ligaste...minha mãe também reclamou...
-Não foste vê-la?
-Fui...passei rapidamente por lá...hoje o dia foi exaustivo...
Sabrina beijou-lhe rapidamente a boca e o cheiro de shampoo no cabelo molhado, quase causou-lhe uma vertigem. Aquele cheiro aguçava-lhe todos os sentidos. Sabrina descalça, de roupão entreaberto nos seios, sorriso escancarado...precisava de ar...
-Estou a fazer o risoto de camarão que adoras...ah, e comprei o vinho verde que a senhora bebe sem pensar...
-Não te importas se eu for tomar banho e um remédio para dor de cabeça?
-Claro que não...está tudo bem?
-Hum-hum...em quinze minutos eu estarei nova para degustar o nosso risoto. - forçou um sorriso, mas sem muita convicção.
Mais tarde, ainda na mesa de jantar, Sabrina notou que Fedra mal tocara na comida.
-Não acertei no ponto do risoto?
-Hmmm? Ah, não... eu é que estou sem fome. Estava uma delicia, como sempre...
-Já sei, comeste alguma coisa na Grace...ela sempre guarda o melhor para a filha querida.
-Estou um pouco enjoada...cabeça pesada...
-Vem cá, vamos para o sofá...a louça, depois eu arrumo...
Fedra assentiu sem forças para argumentar. Sentia-se por um fio...
No sofá, ela sentou-se um pouco afastada de Sabrina e não era habitual.
-Fedra, esse esquema de duas casas está a causar-te algum desconforto?
Fedra arregalou os olhos sem entender. Terem duas casas era o menor dos seus problemas, aliás, nem era uma questão.
-Não...
-Eu sei que mexi um bocado com a tua rotina...tens algumas coisas aqui...muita coisa...-sorriu - mas ainda a tua casa é lá...estive a pensar e...já resolvi essa questão na terapia...sinto-me mais confiante, segura das minhas emoções e sei que morar contigo não vai me diminuir em hipótese alguma. Eu adoro o meu canto de airbnb como carinhosamente o chamas, mas o barulho do mar que se ouve da tua varanda é imbatível e me conquistou desde a primeira vez...se quiseres, eu me mudo para a tua casa...nossa outra casa...
Num rompante, Fedra levantou-se do sofá e alcançou a porta que dava acesso à varanda. Atordoada, Sabrina engoliu em seco. Recompôs-se e logo alcançou-a.
-Meu bem...tudo bem, se quiseres manter as coisas como estão...eu só queria que soubesses que já me sinto pronta para viver contigo...juntas, num lar que é nosso...
Fedra encarou-a.
-Já não me sinto um peso...sinto-me escolhida...
Escolhas...tudo o que havia martirizado a cabeça de Fedra nas últimas horas. Cada palavra de Sabrina pesava uma tonelada. As emoções gritaram e ela explodiu num choro convulsivo.
-Fedra...- Sabrina abraçou-a tentando entender o que não fazia o menor sentido.
Ela desabou num soluço desesperado. Anos de controlo emocional se rompendo...
-Aconteceu alguma coisa? - Perguntou Sabrina em pânico.
Fedra balbuciou algo ininteligível.
-Meu amor...por favor, não me assustes...
-Eu sempre quis isto...-Balbuciou Fedra.
-O quê?
Fez-se um silêncio pesado. Fedra tremia nos braços de Sabrina.
-Fedra...por favor...- Suplicou, Sabrina.
Fedra buscou o ar com força e com os olhos marejados disse:
-Bruxelas...
Fim do capítulo
Feliz dia Internacional das Mulheres!
Abraço
NH
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HelOliveira
Em: 08/03/2026
Feliz dia da mulher....
Mais um desafio a ser vencimento....confio que juntas vão achar uma solução
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Mais um e vamos ver como elas se saem. Capítulo 34 postado ????
Muito obrigada. Bjs
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Mais um e vamos ver como elas se saem. Capítulo 34 postado ????
Muito obrigada. Bjs
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Mais um e vamos ver como elas se saem. Capítulo 34 postado ????
Muito obrigada. Bjs
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Mais um e vamos ver como elas se saem. Capítulo 34 postado ????
Muito obrigada. Bjs
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NovaAqui
Em: 08/03/2026
Feliz Dia!
Eita que o amor delas será testado!
Fortes emoções no próximo capítulo
Boa semana, NH
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Bom teste nao achas?
34 no ar e todas as respostas também...ou quase rsrs
Muito obrigada. Bjs
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brunafinzicontini
Em: 08/03/2026
Nossa! Que bomba! E agora?
Nadine, querida, ficaremos nesta aflição durante a semana toda? Deus queira que Sabrina dê um jeito de ir para Bruxelas com Fedra! Elas não podem se separar mais...
Feliz dia internacional das mulheres, mulher admirável!
Beijo,
Bruna
Nadine Helgenberger
Em: 15/03/2026
Autora da história
Será que haverá separação? Capítulo 34 devidamente postado rsrs
Muito obrigada. Bjs
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Nadine Helgenberger Em: 15/03/2026 Autora da história
Mais um e vamos ver como elas se saem. Capítulo 34 postado ????
Muito obrigada. Bjs