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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

Ver comentários: 5

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Palavras: 4718
Acessos: 637   |  Postado em: 22/02/2026

Capitulo 32

 

 

Desde que mudara de ilha, Sabrina mantinha a sua sessão de terapia, agora na vertente on line. Embora se sentisse cada vez mais forte e senhora de suas decisões, sabia que ainda não era o momento de alta definitiva, já que vez ou outra, ainda se perdia no emaranhado de medos e inseguranças.

A chamada começou pontualmente. Sabrina estava sentada à secretária, luz natural a entrar pela janela, portátil aberto. Do outro lado do ecrã, a terapeuta, serena, atenta, bloco de notas ao lado.

-Como foi a semana? - perguntou.

Sabrina respirou fundo antes de responder.

-Intensa. Mas houve uma situação específica... que me causou algum desconforto.

Passou a relatar o evento na galeria, o encontro com o antigo namorado de Fedra, a proximidade entre eles que lhe causou incómodo.

            -Eu senti ciúme. Muito! - Assumiu sem rodeios - E não é comum em mim. Mas aquela cena ativou coisas antigas...

A terapeuta inclinou ligeiramente a cabeça.

-Que coisas?

Sabrina hesitou um segundo. Depois foi direta.

-Eu já falei sobre isso nas sessões, mas percebi que é necessário repetir. Já vivi uma relação com uma mulher casada com um homem. Durante dois anos - pausa - eu era... o intervalo dela, o segredo picante. Quando ela queria, eu estava lá. Quando eu precisava, ela não estava, e mesmo assim eu ficava.

A voz de Sabrina ficou mais firme.

-Eu aceitava migalhas, aceitava ser escondida. Quando me sentia diminuída... eu calava. Quando me sentia usada... eu justificava. Eu me violentava para manter aquilo.

Breve silêncio do outro lado.

-E o que exatamente foi ativado na galeria? - perguntou a terapeuta.

Sabrina não demorou.

-O medo de ser colocada naquele lugar de novo. De ser a opção paralela. De ver Fedra confortável demais numa dinâmica que me excluía... e eu ficar ali, pequena, esperando.

Ela engoliu seco.

-E tive medo de falar. Medo de abordar o assunto e ela reagir como a outra reagia. Desqualificando, fazendo-me sentir exagerada. E eu... sucumbir outra vez.

A terapeuta anotou algo.

-Vamos organizar essas ideias. Quando viste a Fedra com ele, qual foi o pensamento automático que surgiu?

Sabrina respondeu quase de imediato:

-"Eu vou perder espaço." Depois outro: "Ela pode gostar da atenção."
E outro ainda: "Eu não tenho direito de reclamar."

-E qual foi a emoção associada?

-Insegurança. Medo. Raiva contida.

-E o comportamento que quase adotaste?

Sabrina sorriu de leve.

-Fugir...ficar calada, engolir.

-Mas não fizeste isso.

Sabrina ficou em silêncio por um momento.

- Não. Eu falei, com medo, mas falei.

-O que te fez agir diferente desta vez?

Sabrina pensou. Não respondeu no impulso.

-Porque... não era a mesma relação. - disse devagar - Fedra não me esconde nem me manipula. Ela não me diminui. E, mesmo com medo, eu senti que tinha espaço para falar.

A terapeuta assentiu.

-Então vamos diferenciar fatos de projeções. Fedra fez algo que indicasse desrespeito?

-Não.

-Ela invalidou teus sentimentos quando falaste?

-Não, pelo contrário.

-Ela te colocou em posição de segredo?

Sabrina quase riu.

-Não. Eu é que às vezes ainda tenho receio do mundo...da família dela.

Pequeno silêncio.

-Então o que foi ativado foi memória emocional, não realidade atual - concluiu a terapeuta.

Sabrina encostou-se à cadeira. Aquilo fez sentido.

-Sim, foi isso.

-E quando falaste, o que aconteceu?

-Eu me senti... forte. Vulnerável, mas forte - pausa - e surpreendida com a minha coragem.

-Isso é importante. Antes, tu te violentavas para manter alguém. Agora tu te posicionas para se proteger. Consegues ver a diferença?

Sabrina assentiu devagar.

-Consigo. Antes eu aceitava qualquer coisa para não perder. Agora... eu prefiro perder do que me perder.

A terapeuta sorriu levemente.

-Isso é tomar o leme da própria vida.

Sabrina deixou a frase assentar. Tomar o leme...

-Ainda sinto medo... - admitiu - mas é como se eu estivesse a pisar num terreno mais seguro.

-Porque estás. Tu escolheste uma relação onde podes confiar e mais, estás a confiar também em ti.

Sabrina ficou em silêncio. Não havia euforia e sim clareza.

-Acho que... pela primeira vez, eu não estou a competir com fantasmas. Estou a viver o que está diante de mim.

A terapeuta fechou o bloco.

-E isso muda tudo. Chegamos ao fim. Abraço e resto de uma boa tarde.

A chamada terminou. Sabrina fechou o portátil devagar. Não se sentia leve como num filme mágico, mas sentia-se sólida. E isso era muito melhor.

***

A contratação de Jair Vasconcelos, o Djaiss, foi rápida e certeira. Ele tinha formação sólida, experiência prática. Mas foi na entrevista que Sabrina percebeu o quão competente era. Direto, cheio de ideias estruturadas e, melhor ainda, executáveis.

Um mês depois, Sabrina tinha certeza: não poderia ter feito melhor escolha. Ele entendia o projeto, antecipava problemas e não tinha medo de propor soluções fora do padrão.

Numa manhã particularmente intensa, estavam os dois debruçados sobre plantas, relatórios e mapas de impacto ambiental. O ar condicionado lutava contra o calor intenso da Praia, e a mesa estava tomada de papéis e marcadores.

-Se desviarmos o eixo aqui - disse Djaiss, apontando para o desenho - reduzimos o impacto na zona sensível e ainda ganhamos eficiência energética. E podemos compensar com vegetação nativa aqui e aqui.

Sabrina ficou em silêncio alguns segundos, analisando. Depois levantou os olhos.

-Como é que eu demorei tanto para te encontrar? - disse, genuinamente impressionada. - Que dupla que nós fazemos.

Djaiss riu, descontraído.

-A minha prima devia estar com a cabeça nas nuvens... e o coração muito ocupado para esquecer de pelo menos dizer que eu podia servir.

Sabrina esboçou um leve sorriso que ficou suspenso. Uma pontada leve de constrangimento. Ela e Fedra não escondiam a relação, pelo menos não na frente de pessoas como o Djaiss, e claro que ele já as vira juntas algumas vezes, mas não queria misturar as coisas

Djaiss percebeu a mudança no ar imediatamente.

-Ei, desculpa - disse rápido. - Eu brinco assim com a Fedra desde sempre... esqueci-me que aqui sou profissional e tu és minha chefe.

Sabrina relaxou os ombros e sorriu.

-Aqui somos colegas, Djaiss. E eu gosto de trabalhar com gente que pensa.

Ele assentiu, retomando o foco.

-Então vamos formalizar essa proposta e recalcular os índices de impacto.

Voltaram ao trabalho, concentrados. Tudo fluía. Havia sintonia técnica e nenhum ruído.

A meio de uma análise, porém, Djaiss levantou os olhos novamente.

-Permita-me só uma constatação.

Sabrina arqueou a sobrancelha.

-Desde que seja técnica.

Ele sorriu.

-Nunca pensei que a minha prima pudesse ser tão ousada. Mas preciso aplaudi-la de pé. A Fedra está muito melhor depois que ousou.

Silêncio curto.

Sabrina sustentou o olhar dele. Não defensiva nem invasiva, apenas presente.

Depois sorriu, contida.

-Vamos revisar os prazos de execução antes que a ousadia nos custe orçamento.

Ele riu e voltou aos números.

***

No fim do dia, quando Djaiss saiu com uma pasta debaixo do braço e um "até amanhã" cheio de energia, Sabrina ficou sozinha no escritório.

Observou os processos espalhados e sentiu orgulho do trabalho sólido.

E depois... o pensamento foi inevitável. Fedra...

Pegou no telefone e digitou sem pensar demais:

Estou com saudades.

A resposta veio quase imediata.

Contando as horas para te abraçar.

Sabrina ficou alguns segundos olhando para o ecrã.

Depois levou o telefone ao peito, fechou os olhos por um instante... e sorriu.

***

A casa de Dona Gracelina estava cheia. Cheiro de cach*pa rica, risadas altas, pratos já postos na mesa grande da sala. Um sábado de sol forte e família reunida em que ninguém vinha para comer pouco ou falar baixo.

Fedra estava sentada perto da mãe, enquanto Malia circulava entre a cozinha e a sala, ajudando e roubando pedaços de torresmo pelo caminho. Djaiss era o assunto do momento.

-Esse rapaz trabalha demais - reclamou Vera, irmã dele, já de colher na mão. - Estou a morrer de fome.

-Pois eu também, vamos começar a comer - reforçou um primo ao fundo.

Dona Gracelina nem virou o rosto.

-Ninguém toca em nada enquanto todos não estiverem aqui.

-Mas mãe... - protestou Fedra, rindo.

-Mas nada. - Firme. - O Djaiss e a Sabrina estão a trabalhar. O atraso é justificado.

-Sempre foi o preferido dela - cochichou outro primo.

Fedra entrou na brincadeira:

-Claro, ele faz todas as vontades dela.

Dona Gracelina olhou por cima dos óculos.

-Ele faz porque quer. E vocês também podiam fazer mais.

Risos gerais.

O clima era leve. Conversas cruzadas, gente falando ao mesmo tempo.

Fedra, no entanto, de vez em quando desviava o olhar para o telefone pousado ao lado.

Nada, nenhuma mensagem de Sabrina.

Malia percebeu. Aproximou-se por trás e falou baixo, fazendo careta:

-Mãe... ela vai chegar.

Fedra fez-se de desentendida.

-Quem?

-A tua namorada viciada em trabalho. - Piscou - Arranjas uma mulher que trabalha que nem tu... e ainda juntas ao Djaiss? Isso é sabotagem emocional.

Fedra riu alto.

-A ideia do Djaiss foi tua!

-Foi. - Malia cruzou os braços, divertida. - E até hoje não entendo como tu não te lembraste dele, de tanto que a Sabrina andava angustiada por causa do engenheiro.

Fedra abanou a cabeça.

-Oh minha filha... não gosto dessas coisas de cunha e afins. Foi o que eu te ensinei a vida inteira.

-Eu sei. - Malia inclinou-se sobre a mesa, conspiratória. - Mas podias ser mais maleável. Era só sugerir o currículo que ele se sustenta sozinho.

Fedra suspirou, meio vencida.

-Eu sei... eu sei.

Malia abriu um sorriso largo.

-Ainda bem que tens uma filha beeeeem mais maleável. Resultado: Djaiss empregado... e tu quase a morrer de ansiedade porque a namorada nunca mais chega.

As duas explodiram em gargalhadas.

-Desavergonhada! - disse Fedra, empurrando-lhe o braço com carinho.

-Ansiosa! - devolveu Malia.

Dona Gracelina olhou desconfiada.

-Do que é que vocês estão a rir?

-Nada, avó! - respondeu Malia, inocente demais para ser verdade.

Nesse momento, o som do portão chamou a atenção e vários rostos viraram-se ao mesmo tempo. Ouviram-se passos apressados e a voz de Djaiss ainda no corredor:

-Calma! Estamos vivos!

Sabrina apareceu logo atrás dele, cabelo preso, expressão cansada, mas luminosa. Ao lado vinha Catarina, mochila ao ombro, cumprimentando com educação.

-Desculpem o atraso - disse Sabrina. - A estrada estava...

-Que bom que chegaram bem, agora podemos nos deliciar na cach*pa da tia que é sempre deliciosa. - Interrompeu Vera.

-Exatamente - completou Djaiss.

Dona Gracelina levantou-se imediatamente.

-Pronto. Agora sim.

Sabrina entrou na sala e o olhar dela encontrou o de Fedra quase instantaneamente.

Fedra levantou-se também, disfarçando com naturalidade.

-Finalmente!

-Chegámos inteiros - respondeu Sabrina, sorrindo só para ela.

Malia observava tudo, satisfeita.

-Viram? - murmurou para a avó. - Valeu a pena esperar.

Dona Gracelina fez um gesto largo com as mãos.

-Agora sim, podem servir-se.

E a mesa ganhou vida. Conversas retomadas, pratos a circular, brincadeiras cruzadas.

No meio do barulho, Sabrina sentou-se ao lado de Fedra. Os joelhos tocaram-se por baixo da mesa.

Fedra inclinou-se levemente.

-Estava com saudades - murmurou.

Sabrina sorriu de canto.

-Eu também. Eu tive que trazer a Catarina, peço desculpas por não ter avisado antes, mas me esqueci completamente que ela se tinha juntado a nós...não queria deixá-la num almoço solitário...

-Ah, meu bem, aqui em casa da minha mãe tem sempre lugar para mais 10. - Sorriu. - Tua amiga e colega é muito bem-vinda.

E ali, no meio da família, do riso e da comida farta, havia uma tranquilidade nova.

 

***

O almoço já ia a meio quando alguém reparou a ausência de uma figura sempre imperiosa na família.

-Alguém sabe da tia Adélia?

Alguns primos olharam para a porta como se ela pudesse materializar-se ali, com um comentário ácido pronto na ponta da língua.

Dona Gracelina abanou a mão no ar, tranquila.

-Está com obras em casa e avisou que se atrasava.

-Ainda bem que não tivemos de esperar por ela também - brincou um dos primos de Fedra, já servindo mais cach*pa.

-Por ela não precisavam esperar mesmo - rebateu Gracelina. - Só vem para a sobremesa

Todos riram enquanto a mesa seguia farta e barulhenta.

Catarina, sentada mais perto de Malia, já estava completamente integrada. Falava pelos cotovelos, gesticulava, ria alto. Malia, curiosa e simpática como sempre, puxava assunto com facilidade.

-Então vieste só a trabalho? - perguntou Malia.

-Sim! Quer dizer... sim, mas também aproveito tudo o que posso. - Inclinou-se conspiratória. - E trabalhar com a minha musa outra vez é um privilégio.

Malia franziu o sobrolho.

-Musa?

-A Sabrina! - respondeu Catarina, como se fosse óbvio. - Eu admiro profundamente essa mulher. Trabalhámos juntas em Mindelo, foi a melhor coisa que me aconteceu. Aprendi tanto... - suspirou dramática - Estou louca para conseguir algo fixo aqui na Praia e me mudar de vez.

A empolgação era genuína.  Malia ficou quieta um segundo, olhou discretamente para Sabrina.

Sabrina continuava ao lado de Fedra, conversando baixinho. Às vezes nem falavam, apenas se olhavam com a sintonia que já caracterizava aquela relação. Um mundo particular no meio da confusão da mesa.

Malia voltou o olhar para Catarina. Depois bateu levemente com a mão na própria testa.

Para com isso. Ideias doidas.

Mas Catarina continuava.

-A sério, a Sabrina é brilhante. Ética, inteligente, sensível... uma líder incrível. Eu sou apaixonada por essa mulher. - Disse isso olhando para Sabrina com admiração explicita.

Malia pousou o copo devagar e sem rodeios, questionou:

-Apaixonada tipo... como?

Catarina piscou, confusa.

-Tipo... profissionalmente! Artisticamente! Humanamente! - riu - Sou fã!

Malia não sorriu.

-Sabes que a Sabrina é namorada da minha mãe, não sabes?

Silêncio. Literal. Até o tilintar de talheres pareceu parar.

Catarina abriu a boca e fechou. Olhou para Sabrina, depois para Fedra e por último para Malia, e então... começou a rir alto. Uma risada genuína.

-Meu Deus! - riu ainda mais. - Eu estou apaixonada pela mente dela, pela ética, pela forma como ela conduz projetos! - olhou para Sabrina - Não estou a tentar roubar ninguém, prometo!

Djaiss que estava perto começou a rir também, percebendo o mal-entendido. Abanou a cabeça, divertido.

-Malia, tu não perdoas. Se tua mãe sonha que estás a meter na vida dela...

Malia cruzou os braços, mas já sorria.

-Só estou a esclarecer.

Catarina inclinou-se para ela, cúmplice.

-Não precisas te preocupar, pelo menos não comigo. Sou a maior fã desse romance e devias sim, era me agradecer, já que muitas vezes coloquei juízo na cabeça doida da minha musa.

Olhou para Sabrina e piscou teatralmente. Ela sorriu sem saber o teor da conversa acesa entre as meninas mais jovens.

***

Tia Adélia chegou quando o café já circulava e o bolo começava a desaparecer dos pratos. O clima na sala era leve, risos altos, conversas suaves. Fedra e Sabrina estavam num canto do sofá, joelhos quase encostados, falando baixo e rindo como se partilhassem um segredo que só elas entendiam.

-Ora, ora... cheguei e já estão na sobremesa? - anunciou Adélia, entrando com o seu habitual ar de quem preside qualquer sala em que pisa.

Cumprimentos rápidos, beijos no ar, bolsa pousada com decisão. Imediatamente, com seu olhar crítico, observou, e mediu a atmosfera. O olhar pousou nas duas mulheres que sorriam uma para a outra.

Fedra disse qualquer coisa ao ouvido de Sabrina que sorriu. Sem controlar a língua ferina, tia Adélia soltou em tom leve demais para ser inocente:

-Ah, essas amizades de hoje em dia... são tão... intensas, não é? Antigamente não tínhamos nada disso...

Silêncio breve. A maioria fingiu não ouvir e outros estavam ocupados demais para prestar atenção nas pérolas de tia Adélia.

A mãe de Fedra observou tudo, mas não teceu qualquer comentário.

Minutos depois, Adélia levantou-se:

-Vou ver o que mais há nessa cozinha para comer, não quero bolo de cenoura...ah minha irmã que só faz as vontades dessa neta - disse, meio a brincar, meio a marcar território.

A mãe de Fedra levantou-se quase ao mesmo tempo.

-Vou contigo.

Na cozinha, Gracelina encostou a porta e o tom mudou.

-Adélia - tom baixo, mas firme - na minha casa, ninguém ofende a minha filha, nem a minha neta. Nem de forma direta, nem com "pérolas".

A irmã encolheu os ombros.

-Eu só comentei. Não se pode dizer nada hoje em dia...

-Pode-se dizer muita coisa. O que não se pode é mascarar preconceito com ironia.

Adélia cruzou os braços.

-A filha é tua. Se não vês nada de errado, quem sou eu?

A resposta veio limpa, sem hesitação:

-Exatamente. Quem és tu? Aqui, as regras são minhas. E a regra é simples: felicidade não se questiona, respeita-se.

Adélia desviou o olhar, mexendo numa colher que não precisava ser mexida.

-Sempre foste dramática.

-Sempre fui mãe.

Silêncio.

Logo em seguida veio a frase final, suave, mas inegociável:

-Minha casa, minhas diretrizes.

Adélia suspirou, saindo pela tangente:

-Assim, nos entendemos, minha irmã.

 

***

A maioria dos presentes no almoço já ia na segunda rodada de café, da mesa do bolo só sobravam migalhas e guardanapos amarrotados. O ambiente era de leveza habitual, já que o episódio na cozinha tinha sido discreto. Contudo, a tia Adélia não sabia viver sem testar limites.

Encostou-se na cadeira, ajeitou o colar e lançou, com ar casual, quase inocente:

-Então... e esses sobrinhos não pensam em casar outra vez? Estou com saudades de uma boa festa. Preciso de um casamento para animar este ano.

O olhar vagueou pela mesa e pousou meio de esguelha em Fedra, rápido e calculado.

Fedra percebeu as intenções da tia, sorriu, mas não entrou na provocação.

Do outro lado da mesa, Djaiss levantou a cabeça devagar. Ele sempre percebia as coisas...

-Tia - disse, com aquele tom leve que antecede uma alfinetada elegante - foca nos mais jovens.  Há muita opção na segunda geração.

Alguns já começaram a rir, antecipando. Ele continuou contando nos dedos:

-Eu, a Fedra, o Pedro... e até a tua filha, Simone... já tivemos a nossa parte. Já houve festa, já dançaram, já comeram bem à nossa custa. Uma vez chega.

Explosão de risos na mesa. Fedra bateu palmas, concordando.

-Boa, Djaiss!

-Verdade! Agora é a vez dos primos mais novos pagarem baile e buffet!

Adélia forçou um sorriso. Não podia reagir sem parecer exatamente aquilo que tentava disfarçar.

-Eu só estava a brincar...

-E nós também, tia - respondeu Djaiss, sereno.

Fedra permaneceu tranquila, encostou-se a Sabrina, pegou-lhe na chávena e brindou no ar:

-Às festas que já tivemos.

-E às muitas que estão por vir. - respondeu Sabrina com um sorriso luminoso na face.

***

O almoço assentava-se devagar, restando pratos empilhados, cadeiras desalinhadas e aquele cansaço bom de domingo cheio.

Fedra encostou-se à parede do corredor, longe do burburinho final da arrumação e Sabrina aproximou-se, com aquele ar de quem guarda segredo há demasiado tempo.

-Reservei uma pousada para nós. Vamos desaparecer este fim de semana.

Fedra franziu a testa, surpresa genuína.

-O quê? Mas tu mal respiraste esta semana. Trabalhaste até tarde quase todos os dias. Quando é que tiveste tempo para isso?

Sabrina deu um passo para mais perto.

-Justamente por isso. A vida já é exigente demais, se não prestarmos atenção, começamos a viver lado a lado... e não juntas. E um dia acordo e tu já não suportas olhar para a minha cara.

Fedra fixou o olhar e séria refutou:

-Esse dia, se algum dia existir... ainda está muito, muito longe.

Sabrina inclinou a cabeça, meio provocadora.

-Não posso correr riscos. Sou preventiva.

Fedra sorriu de lado.

-Então é melhor irmos. Já estou curiosa. Onde é que me vais levar?

Sabrina puxou-lhe a mão discretamente, ainda ali no corredor da casa da mãe de Fedra, enquanto ao fundo se ouviam risos.

-Surpresa!

-Isso é injusto.

-Confia em mim.

Fedra aproximou-se mais um pouco.

-Eu confio.

Sabrina baixou a voz:

-Acho que vais adorar. Silêncio, natureza exuberante e nós, sem interrupções.

Fedra respirou fundo. O peso da semana, da família, das pequenas tensões... começava a dissolver-se só com a ideia.

-Vamos antes que alguém nos peça para lavar loiça - disse Fedra, divertida.

-Exatamente o meu plano estratégico.

Elas entrelaçam os dedos.

Ao longe, a mãe de Fedra observava a cena, sorrindo. A filha sabia definitivamente o que estava a fazer.

***

A despedida começou no hall de entrada, com aquele ritual demorado de quem não quer terminar o dia. Dona Gracelina aproximou-se de Sabrina devagar, sem qualquer formalidade e abraçou-a com cuidado, como se quisesse transmitir segurança através das mãos.

-Minha querida... - a voz embargou ligeiramente - se alguma coisa aqui te magoou, peço desculpa, do fundo do coração.

Sabrina ficou imóvel por um segundo.

Gracelina continuou:

-Na minha casa, nunca mais ninguém vai dizer ou fazer nada contra a felicidade alheia, muito menos da minha filha.

Ela segurou o rosto de Sabrina entre as mãos e beijou-lhe a testa com uma ternura quase maternal. Depois abraçou-a outra vez.

Sabrina, que normalmente conseguia manter compostura, sentiu os olhos encherem-se. Retribuiu o abraço com força.

-Obrigada... - disse baixo.

Malia, encostada à porta, cruzou os braços exageradamente.

-Ah pronto, estou com ciúme.

Todos riram.

Ela aproximou-se e envolveu Sabrina num abraço.

-Também quero esse tratamento VIP.

Beijou-lhe a bochecha e cochichou:

-Agora és oficialmente da família.

Fedra observava a cena de braços cruzados, encostada à parede, a sorrir.

-Bom... eu já não existo então.

Gargalhada geral.

Sabrina estendeu a mão para Fedra.

-Anda cá, dramática.

Catarina assistia a tudo em silêncio, com um nó doce na garganta. Ela conhecia histórias de Sabrina que ela mesma tinha contado, que não cabiam naquela sala. Fases duras, solidão, relações onde o afeto era escasso e a aceitação condicional. Ver a cena que se desenrolava à sua frente, uma base sólida, proteção explícita, carinho sem reservas, mexia com ela.

Sabrina percebeu o olhar da amiga.

-E tu? O que vais fazer hoje? - perguntou, ainda meio sem jeito com tanta atenção concentrada nela.

Antes que Catarina respondesse, Malia interveio:

-Não se preocupe com a Catarina. Vamos para a mesma festa e ela tem planos...

Olhou para a mais nova amiga com cumplicidade.

-E qualquer coisa, eu deixo-a no hotel. Ela está em boas mãos.

Sabrina riu.

-Eu sei que está. Só não quero ninguém abandonado enquanto eu vou desaparecer num fim de semana romântico.

Fedra levantou a sobrancelha.

-Romântico?

-Extremamente romântico - respondeu Sabrina, provocadora.

Depois voltou-se para Catarina:

-Aproveita o teu fim de semana. Trabalhaste demais esta semana. Estás oficialmente liberada.

Catarina sorriu.

-Vê se aproveitas tu também.

***

À medida que o tempo corria, a relação de Fedra e Sabrina amadurecia sem dramas e regada a constância.

Sabrina continuava imparável no projeto. Estratégica, visionária, resolvendo problemas antes mesmo de virarem crise. O dono não poupava elogios, sempre enaltecendo sua capacidade de liderança.

Fedra, por seu lado, também crescia. Organizada, firme nas suas decisões e cada vez mais respeitada. Os superiores confiavam cada vez mais nela, na sua capacidade de entrega.

E, no meio das agendas cheias, elas continuavam a adubar o sentimento. Pequenos refúgios, fins de semana em hotéis discretos. Trilhos silenciosos, pele com pele, almas desnudas, sentimento sem medo.

***

Já era fim de manhã no escritório e Fedra seguia concentrada no computador. Vários relatórios abertos, comparação de dados e o telefone ao lado, mas no silencioso para não haver distração.

Estava tão imersa que se sobressaltou com o aparelho a vibrar. No ecrã o nome que sempre lhe provocava sorrisos: Sabrina. Sempre que ela viajava, fazia questão de estabelecer contato em horários importantes e o almoço era um deles. Fedra percebeu que tinha perdido a noção do tempo e já era hora de comer.

-Estou a trabalhar - atendeu, já sorrindo.

-Ótimo. Então não estou longe...

Fedra endireitou-se na cadeira.

-Como assim?

-Almoça comigo.

Silêncio de dois segundos. Fedra tentava processar.

-Mas tu... não estás em Mindelo?

-Surpresas fazem bem à produtividade.

Fedra riu, baixando a voz.

-Onde estás?

-Perto demais para recusares.

Fedra sentiu subir pelo peito aquela energia que qualquer coisa relacionada à Sabrina provocava.

-Aceito. Claro que aceito.

-Até já!

Desligaram.

Fedra ficou alguns segundos a olhar para o nada. Mais um sorriso involuntário escapou-lhe pelos lábios. Em seguida, sacudiu a cabeça.

-Concentra-te, Fedra. - Murmurou para si mesma, voltando a atenção ao ecrã.

Num rompante, lembrou-se de um documento que precisava assinar. Levantou-se decidida, dirigindo-se à sala da secretária. Mal saiu da sua sala, deu de cara com José Carlos no hall do seu escritório, impecável como sempre e exalando confiança. Ela abrandou o passo.

-José Carlos? O que fazes aqui? -Perguntou genuinamente admirada.

Ele sorriu com aquele ar de quem sabe sempre o que está a fazer.

-Acabei de sair de uma reunião no escritório da representante do Banco Mundial. Resolvi passar para te convidar para almoçar, já que da minha última vez por aqui, a senhora escapou diplomaticamente. - Piscou o olho.

Fedra que não gostava de exposição gratuita e por estarem no corredor onde muitos olhares se cruzavam, tomou a atitude que considerou a mais sensata.

-Vamos conversar na minha sala.

Ele aceitou sorrindo triunfante.

Ele entrou, ela fechou a porta, com cortesia absoluta.

-Como está o projeto? - ela perguntou com a intenção clara de manter uma distancia calculada.

-Avançando. E eu fico aqui até amanhã e não abro mão deste almoço.

O tom era leve e a intenção clara.

Fedra preparava-se para responder quando o telefone interno tocou. Ela imediatamente atendeu.

-Sim?

A secretária, contida:

-A dona Sabrina está aqui.

O poder que um nome tinha de fazer seu mundo alinhar-se. Respondeu sem hesitar.

-Ela pode entrar.

Desligou e instintivamente pegou na bolsa. José Carlos sorriu convencido no momento que a porta foi aberta.

Sabrina entrou, elegante e serena, sem, contudo, evitar uma surpresa no olhar ao ver o cenário. Ela mediu o ambiente em segundos.

Fedra não deu espaço para qualquer dúvida, aproximou-se e abraçou-a com naturalidade, quase alívio.

José Carlos inclinou a cabeça.

-Ah... a amiga da galeria de arte.

Sabrina sorriu.

-Eu mesma.

Fedra afastou-se um pouco, mantendo a mão de Sabrina na sua.

-Infelizmente, não vou poder almoçar contigo, José Carlos. Já tenho compromisso.

E olhou para Sabrina como se o resto da sala tivesse desaparecido.

Sabrina sustentou o olhar, sem pressa ou qualquer necessidade de explicação.

José Carlos observava curioso, tentando juntar as peças.

-Ora, podemos almoçar os três, não custa nada e estou curioso para conhecer melhor a tua amiga.

Fedra perdeu o sorriso protocolar.

-Custa, sim.

Ele franziu o sobrolho diante da postura tão assertiva à qual não estava muito habituado.

Fedra falou devagar, para não deixar margem para qualquer dúvida.

-A Sabrina não é apenas minha amiga, ela é minha namorada. E queremos almoçar sozinhas.

Fez-se um silêncio pesado. José Carlos tentou rir.

-Não sabia que era tão sério. - Na realidade ele não sabia de nada, mas custava-lhe sair-se por baixo.

Sabrina cruzou os braços, tranquila.

Fedra não suavizou:

-É sério e não é novo, só nunca foi assunto teu.

A frase atingiu-lhe em cheio, ainda mais que jamais convivera com aquela versão de Fedra.

-Entendi. - Respondeu completamente desconcertado.

Não entendeu totalmente, mas percebeu o suficiente.

Fedra pegou na mão de Sabrina sem pedir licença ao ambiente.

-Temos algo a celebrar e não vamos dividir isso com ninguém.

Sabrina olhou para Fedra com aquela intensidade silenciosa. José Carlos percebeu que estava fora de cena.

-Desejo felicidade a vocês.

Havia sinceridade misturada com ego ferido.

-Obrigada - respondeu Fedra. - E, da próxima vez, agenda reunião formal se for trabalho.

Não havia agressividade no tom, apenas fronteira estabelecida.

-Vamos? - Virou-se para Sabrina.

Sabrina aproximou-se, tocando-lhe o rosto de leve.

-Vamos.

Elas saíram da sala de mãos dadas e no corredor do sétimo andar, não se soltaram.

Alguns olhares levantaram-se, outros fingiram não ver. Não importava.

Dentro do elevador, fez-se um breve silêncio e logo em seguida as duas começam a rir. Riso nervoso e de libertação.

-Foste intensa - disse Sabrina com olhar de admiração.

-Estou farta de me explicar. - Fedra soltou o ar que nem sabia que estava a prender.

-Meu amor...eu adorei...será que posso beijar-te? Há cameras nesse elevador? - Perguntou muito próxima de Fedra que sorriu puxando-a para os seus braços.

-Depois de sairmos de mãos dadas da minha sala, quem se importa com cameras de elevador?

Beijaram-se com vontade e saudade acumulada.

            -Vamos celebrar o quê, mesmo? - Perguntou Sabrina beijando o pescoço de Fedra.

            -A liberdade!

 

Fim do capítulo


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Comentários para 32 - Capitulo 32:
Sem cadastro
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Em: 12/03/2026

Me emocionei nesse capitulo, de verdade. Dona Gracelina... Foi incrivel, sou chorona e quando as lagrimas inundaram os olhos de Sabrina, eu ja estava chorando antes rsrsr. Fazer o que ne, efeito Nadine/Samira!

Essa historia em particular, os personagens, a tragetoria, tudo de uma sensibilidade incrivel. O romantismo, o senso de familia, saude mental, exito profissional, tudo abordado de uma forma que nos prende, nos faz torcer muito por elas e refletir tambem... Obg por isso :)


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 15/03/2026 Autora da história
Muito obrigada, meu bem :)


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mtereza
mtereza

Em: 01/03/2026

A meu Deus amo essas duas


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 08/03/2026 Autora da história
Muito obrigada. Bjs


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brunafinzicontini
brunafinzicontini

Em: 27/02/2026

Ah... Nadine... eu, de novo! 

Não posso deixar de manifestar também minha alegria pela ajuda de Vitória e seu marido, que foi fundamental para a revolução de Sabrina! Adorei! Seria injustiça minha não mencionar isso...

Love,

Bruna.


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 08/03/2026 Autora da história
Muito obrigada.
Bjs


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brunafinzicontini
brunafinzicontini

Em: 27/02/2026

Sensacional! A história vem ficando cada vez mais linda, Nadine! Que felicidade ver Sabrina se fortalecendo, crescendo e deixando-se levar por essa nova mulher que nasce dentro de si! E que alegria ver como Fedra completa sua vida, também ela se autoafirmando, enfrentando a família, lutando por sua própria felicidade! as duas juntas são um encanto - e felizmente a mãe e a filha de Fedra compreenderam o quanto a presença de Sabrina é importante para ela. Sabrina conseguiu resgatar Fedra do vale de sombras e infelicidade em que se encontrava, no momento mais difícil de sua vida, quando ainda se debatia contra a ideia da morte. Foi uma ideia linda e original criar uma situação como essa, Nadine! Assim como a de mostrar o caminho traçado com muito esforço por Sabrina, orientada por sua terapeuta, em busca de sua própria imagem! As duas se reconstruíram com muito amor, apoiando-se e entregando-se mutuamente numa sintonia emocionante! Parabéns, Nadine! 

Mande meu abraço à Dona Gracelina, por sua participação especial em momentos críticos, colocando Adélia em seu devido lugar, e também à Malia, Catarina e Djaiss... e não podemos nos esquecer de Glória. Também, é claro, uma chute especial no traseiro de José Carlos, se faz favor...

Grande abraço, Nadine - sempre rezando para que Deus cuide bem de suas preciosas mãozinhas...

Bruna 

 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 08/03/2026 Autora da história
Eu gosto dessa história rsrsrs, gosto de todas que escrevo, mas essa tem toques que me remetem a coisas do meu quotidiano, e por isso, ganha um cantinho especial no meu coração.
Já falta pouco para terminar. Preciso me libertar de alguns compromissos ( escrever um capítulo por semana é um deles) porque minha vida parece a da Sabrina...cheia de reviravoltas e lá vem mais uma ( que delícia) e preciso respirar para agir em conformidade.
Ah, Gracelina é DIVINA! Por mais mães assim...
Glória existe (com outro nome, claro) e é uma grande amiga minha. Tem todos as loucuras do personagem e mais um pouco que não cabe na história kkkkk
Abraço



brunafinzicontini

brunafinzicontini Em: 08/03/2026
Mais uma reviravolta em sua vida? Uau!!! Conte o que é, por favor!...


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NovaAqui
NovaAqui

Em: 23/02/2026

Haha

Fedra colocou o cueca no lugar dele, ou seja, lugar nenhum, insignificante hahahahaha

E mamacita! Colocou tiazinha no bolso e sem deixar espaço para nenhum comentário preconceituosa 

Todo mundo percebeu kkkk e elas tentando manter a discrição kkkk

Amando o momento delas.

Muito bom

Obrigada por mais um capítulo gostosinho!

Você é a melhor 

 

Boa semana nessa sua Terra Linda 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 08/03/2026 Autora da história
Cueca kkkkkk, adoro!
Gracelina é DIVA!
Já só faltam 3 capítulos, na realidade 2, porque já postei o 33. Saudades, mas as histórias precisam de um fim...
Muito obrigada.
Bjs


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