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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

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Palavras: 7224
Acessos: 189   |  Postado em: 15/02/2026

Capitulo 31

 

 

O tempo corria com alguma velocidade, pelo menos era essa a sensação de Sabrina ao se dar conta de que já morava na Praia há dois meses. Os dias eram sempre longos, cheios, exigentes. Trabalho intenso, decisões rápidas, equipa a ganhar forma, o projeto finalmente a respirar. Havia cansaço, mas era recompensador, um sinal claro de que a vida andava para a frente. Estava feliz e era uma felicidade que não sentia há muito tempo, se é que já tinha sentido. Tudo fluía bem, no trabalho, na sua nova rotina na Praia, na sua casa que aos poucos ia ganhando a sua personalidade. Sua conexão com Fedra era cada vez mais inegável, já não tinha a urgência dos começos, mas a profundidade de quem escolheu ficar.

Fedra, por seu lado, estava mais apaixonada do que alguma vez admitiria em voz alta. E foi exatamente por isso que algo novo começou a nascer dentro dela. Um sentimento com todas as características de um medo crescente. Nada racional, ou dramático, mas que persistia.

A convivência mais próxima revelou-lhe ainda mais quem Sabrina realmente era, todo o magnetismo, a calma, a inteligência, aquela forma rara de ocupar o espaço sem esforço. Sabrina era encantadora, e essa perceção sem querer, começou a causar uma sensação estranha em Fedra. Não eram raras as vezes em que se perguntava se era suficiente.

Tentava concentrar a sua atenção nas coisas que fluíam com leveza, o fato da filha estar numa temporada em casa, se descobrindo em possibilidades profissionais, cada vez mais adulta e amiga. A saúde da mãe estava perfeita, nada de sustos. O trabalho apresentando desafios cada vez mais interessantes e ela sempre se dedicando ao máximo. Uma análise superficial concluiria que não havia qualquer razão para inquietações na alma...

Mas havia algo à espreita. Às vezes tendia a querer mais, ainda que não estivesse muito clara da intensidade de seus desejos. Apesar de entender que conhecia Sabrina, nunca viveu algo assim e elas não falavam sobre a relação. Ainda que fosse leve e boa, ela começou a se sentir um pouco insegura, ainda mais por Sabrina nunca mencionar a vontade de morar com ela.

 

***

Numa tarde tranquila, Fedra trabalhava em casa. Computador aberto, documentos espalhados sobre a mesa, mas a mente longe. Entre um suspiro e outro, tentava se concentrar na tarefa que tinha prazo apertado.

A filha andava pela casa, cantarolando algo que ouvia no headphone, enquanto um cheiro doce lentamente tomava o ar.

-Mãe -chamou ela, suave. - Vem cá.

Fedra levantou os olhos, ainda meio ausente.

-Fiz bolo de cenoura e café. - Sorriu.

Fedra sorriu e imediatamente levantou-se.

            -Tu sabes resolver quase tudo com bolo. -Disse, beijando-lhe a testa. - E para não fugir à regra, acertaste os desejos insanos da tua mãe.

Riram alto dirigindo-se à cozinha, onde se sentaram muito próximas.

            -Então - começou Fedra - decidiste mesmo ficar um tempo em casa?

-Decidi -respondeu a filha, animada. - Estou muito empolgada com o trabalho na galeria. Vai ser intenso, mas é o que eu quero agora.

-E o namorico? - perguntou Fedra, leve.

Malia riu.

            -Era só isso mesmo, um namorico. Somos muito diferentes. Agora quero trabalhar, conhecer gente nova... amigos, experiências. Até porque daqui a pouco, vou passar uma temporada nos Estados Unidos com o pai, não há condições de inventar namoros sérios.

Fedra assentiu, orgulhosa. Ficaram em silêncio por alguns segundos, bebendo café.

A filha observou-a melhor.

            -Mãe... estás com algum problema?

-Não - respondeu Fedra rápido demais. - Está tudo bem!

A filha não se convenceu.

-Algo no trabalho? A tua saúde?

-Não, filha. Está tudo bem mesmo. Na minha saúde que já foi uma questão, está tudo em ordem.

Malia inclinou a cabeça, analisando-a.

-Mãe... eu não estou doida. Eu conheço-te e sei que alguma coisa está a fervilhar nessa cabecinha brilhante.

Fedra sorriu, mas não respondeu.

Foi então que a filha disse, quase casual:

-Até a Sabrina veio morar cá. E eu sei o quanto isso te faz feliz. Eu vejo quando ela está aqui em casa. Tu não tens uma amiga tão próxima... nem com quem te dês tão bem há tanto tempo.

Fez uma pausa curta.

-Não era para estares radiante?

A pergunta ficou no ar.

Fedra olhou para o café, depois para a filha, respirou fundo. Estava feliz. A questão era que ainda não tinha aprendido a não ter medo quando a felicidade era grande demais para caber dentro dela.

O silêncio instalou-se por alguns segundos. Fedra olhou para o café já frio na chávena e ergueu o olhar encontrando os olhos perscrutadores da filha.

            -Filha... - começou, hesitando - eu preciso dizer uma coisa.

A filha apoiou o queixo na mão, curiosa, mas tranquila.

-Diz.

Fedra respirou fundo. Uma vez, duas, até ganhar coragem.

            -A Sabrina... - fez uma pausa - na realidade... ela é mais do que uma amiga.

Silêncio.

Fedra evitou olhar diretamente para a filha, como se as palavras ainda estivessem a ganhar forma.

-Nós... - tentou de novo - quer dizer... eu e ela...

Interrompeu a frase, franzindo a testa, claramente sem saber como terminar a frase.

A filha manteve-se séria por dois segundos. Depois sorriu. Um sorriso lento, quase divertido.

-Mãe...

Fedra levantou os olhos, cautelosa.

-Sim?

-Tu estás a tentar dizer-me que estás apaixonada pela Sabrina?

Fedra piscou, surpresa.

            -Eu... bom... sim... quer dizer... nós estamos... - suspirou - sim.

A filha soltou uma pequena gargalhada de pura ternura.

-Mãe... eu sei.

Fedra congelou.

-Sabes?

-Há muito tempo.

-Há muito tempo quanto?

-Tempo suficiente para perceber que tu ficas diferente quando ela está por perto, e que ela olha para ti como quem sabe exatamente o que quer, no caso, ela te quer muito.

Fedra abriu a boca, fechou, pensou... e começou a rir. Um riso meio incrédulo, mas de alivio.

-Eu aqui, a preparar discurso...

            -Horrível, por sinal - interrompeu a filha, rindo.

-Ei! Isto não é fácil!

-Claro que não. Admiro a tua coragem...nunca pensei que fosses capaz de algo tão...

-Tão?

-Corajoso! Mãe, eu sempre te achei tão dentro do padrão...toda certinha, ainda que às vezes entra uma versão maluca, que adora dançar e se acabar na pista de dança...ah, essa versão vinha acompanhada da presença da amiga Sabrina. - Riu alto.

Fedra abanou a cabeça, ainda rindo, mas os olhos já brilhavam.

-Eu tinha medo - confessou, mais baixo. - Medo de como tu ias reagir. Medo de complicar tudo...medo de... perder.

A filha estendeu a mão e segurou a dela.

-Mãe, eu quase te perdi. Tudo o que eu quero é ver-te feliz, e tu estás. Isso vê-se de longe.

Fez uma pausa, suave.

            -E ela gosta mesmo de ti...

Fedra respirou fundo com a sensação de um peso enorme saindo de suas costas

-Que alívio... - murmurou. - Eu estava a fazer um drama enorme dentro da minha cabeça.

-Como sempre - disse Malia, provocando.

-Olha o respeito, menina.

Riram juntas.

Mais um momento de silêncio. Fedra segurava a mão da filha, mas de repente fez uma careta.

-Isto é um absurdo... - murmurou. - Eu estar a ter esta conversa contigo.

Malia ergueu uma sobrancelha, tranquila.

-E por acaso tens outra pessoa com quem falar sobre isso?

Fedra abriu a boca, mas desistiu de dizer qualquer coisa.

-As tuas primas? - continuou Malia. - Estão ocupadas demais com as próprias vidas cheias de altos e baixos que muitas vezes elas mesmas criam.
Amigas? Tens algumas... mas eu nunca te vi falar disto com nenhuma.
Com a tia Adélia?

As duas olharam-se e desataram a rir.

Fedra relaxou um pouco, encostando-se à cadeira.

            -Mas tu és minha filha...eu que devo solucionar os teus problemas...

-Esquece esse detalhe - disse Malia, leve. - Pensa que sou uma amiga, ou uma psicóloga.

Riram outra vez.

E então, finalmente, Fedra deixou cair as defesas.

-Malia... - começou, mais baixo - eu comecei esta história sem saber o que estava a fazer. Fiquei completamente... seduzida, encantada pela Sabrina...

Fez uma pausa, o olhar distante.

-Acho que sempre gostei dela. Só não entendia... ou não queria entender... que podia ser assim.

-Mãe, eu era uma criança, mas acho que gostavas dela desde aquela época...ficavas tão melhor quando estavam juntas...

Fedra ficou silenciosa por um momento, quase sonhadora.

-Ela é tão... - não terminou.

Malia sorriu, sem interromper.

            -Ela é a mulher mais interessante que eu conheço - continuou Fedra, agora sem pudor. - Forte, inteligente, doce, misteriosa. ... tudo ao mesmo tempo. Nós vivemos isto um ano inteiro, cada uma na sua ilha... e eu morria de saudades dela.

Respirou fundo.

-Mas também tinha medo. Medo de que as coisas saíssem do controlo.

-Medo da opinião dos outros? - perguntou Malia, suave.

Fedra abanou a cabeça imediatamente.

-Eu não ligo para a opinião dos outros. Nunca liguei. Mas tenho uma mãe idosa... tios... a tia Adélia... - riu de leve - sabes como é.

Depois ficou séria outra vez.

-Eu queria ela mais perto... mas ao mesmo tempo não sabia como seria. E de repente... ela veio. Sem que eu realmente soubesse que viria. E eu... - sorriu - eu gostei, estou tão feliz.

Ficou em silêncio por alguns segundos, depois falou mais baixo, como se estivesse a confessar algo perigoso.

-O que eu vou dizer agora pode não fazer muito sentido... mas se eu não disser, vou enlouquecer. Mesmo sem ter nenhuma estrutura preparada para recebê-la aqui como minha namorada... eu queria que ela estivesse aqui comigo.

A voz dela tremia levemente.

-Às vezes não sei como me comportar. Sinto-me... deslocada. E eu sei que ela não poderia simplesmente vir para cá. Oficialmente somos apenas amigas... e quando estamos juntas...

Interrompeu a fala.

Malia apertou-lhe a mão e sorriu, com ternura.

-Mãe... eu entendo. Mas acho que ela pensou muito em ti quando decidiu morar sozinha.

Fedra encarou a filha tentando entender.

-Tu tens uma família muito tradicional e eu moro contigo. Se ela viesse para cá... podia ser constrangedor para ti. Não por mim - disse Malia com firmeza - mas para ela, com certeza seria.

Fez uma pausa, doce.

-Ela está aqui, tu podes vê-la quando quiseres. Vocês podem pensar juntas no que fazer... com calma.

Malia inclinou a cabeça, sorrindo.

-Isso não é maravilhoso?

Fedra ficou em silêncio.

Malia ficou alguns segundos a pensar antes de falar.

-Mãe... - disse, cautelosa - mesmo sem ter a tua experiência... posso perguntar uma coisa?

-Claro!

-Tu não ficaste com medo... quando percebeste que a Sabrina veio mesmo para a Praia?

Fedra franziu a testa.

-Sim, algum, mas estás a referir a quê?

Malia escolheu as palavras com cuidado.

-De repente ela aqui... perto... a coisa tende a ficar mais séria. Talvez... - encolheu os ombros - talvez tenhas percebido que não é bem isso que queres. Que não estás pronta para bancar uma relação assim. Que antes... escondido... era mais fácil. Uma espécie de aventura.

Fedra reagiu imediatamente.

-Não! É exatamente o contrário.

Malia ficou em silêncio.

Fedra respirou fundo, procurando as palavras certas.

-Com ela mais perto... eu fiquei ainda mais encantada. A força dela... impressiona-me. Convivendo de perto, percebi que ela é bem inteligente, mas não só cognitivamente. Ela tem uma sagacidade para a vida... uma clareza... e a coragem? Ela é muito corajosa.

Os olhos de Fedra suavizaram.

-Toda a gente se encanta com ela. Ela irradia coisa boa. Às vezes... - riu de si mesma - eu sinto-me quase boba ao lado dela.

Malia sorriu.

Fedra continuou, ainda mais profunda.

-Ela teve uma vida difícil. Teve de lidar com coisas que nem passam pela nossa cabeça. E nem por isso ficou amarga ou rancorosa. Ela continua doce... inteira.

Malia apertou-lhe a mão.

-Mãe... não podes perder alguém assim.

Fedra baixou o olhar.

-Eu não quero perdê-la. A questão é... se ela vai continuar a querer-me.

Levantou os olhos, meio envergonhada.

-Olha para mim... a falar isto diante da minha filha de 21 anos. Estou a parecer uma idiota.

Malia riu, puxando-a para um abraço.

-Idiota não, humana...apenas uma mulher.

Fedra encostou a cabeça no ombro dela, deixando-se ficar por um instante.

-Eu não tenho vivência suficiente para te dar uma opinião muito fundamentada - continuou Malia, suave. - Mas acho que tens duas opções muito claras.

Fedra afastou-se um pouco, ouvindo com atenção.

-Falar com alguém mais experiente... - disse ela, meio sorrindo - ou falar com a Sabrina.

 

***

Fedra chegou à casa da mãe para a visita diária, já era noite. Corpo cansado, mente pesada, o dia tinha sido longo demais. Quando entrou, encontrou a mãe animada, sentada na sala, com aquele brilho vivo de quem tinha algo bom para contar.

-Filha! - disse logo. - Acabei de desligar o telefone. Sabes que esse povo dos Estados Unidos quando ligam, esquecem da vida. Era a Adelaide, estávamos aqui a falar da Malia, da dedicação dela ao trabalho. Tão dedicada, a minha neta... e eu adoro vê-la a crescer, cada dia mais mulher, sem perder o jeitinho meigo.

Fedra sorriu enquanto beijava a mãe.

-Deves estar ainda mais animada... ela passa mais tempo aqui do que lá em casa.

A mãe fez uma careta teatral.

-Ah, filha, não fiques chateada. A tua velha precisa de companhia.

Fedra riu baixo.

-Até parece que eu não estou sempre aqui.

-É diferente - respondeu a mãe, sorrindo. - Mas tu sabes... a qualquer sinal teu, ela corre para o ninho.

As duas riram juntas. Silêncio confortável.

-E a Sabrina que nunca mais apareceu por aqui?

Fedra suspirou, encostando-se ao sofá.

-Tem estado muito ocupada. Muito mesmo. Agora, por exemplo, está em Mindelo a trabalho.

A mãe fez um som pensativo.

-Hummm... então essa tua implicância não é só pela Malia andar por aqui. É também pela ausência da Sabrina...também não sei para quê vocês trabalham tanto.

Fedra nem tentou negar.

            -Sinto muita falta dela.

A mãe sorriu com suavidade.

-Temos essa mania... acostumamo-nos rápido demais.

-Rápido demais... - repetiu Fedra, pensativa.

-Acostumar com coisa boa não é erro, minha filha.

Fedra ia responder quando o telefone tocou. Era Sabrina.

O semblante logo mudou, como se uma luz se acendesse exalando vida.

-Já voltaste? - disse sem esconder a alegria.

Do outro lado, a voz calma de Sabrina.

-Voltei. Era para chegar só amanhã, mas consegui adiantar. Estou com saudade... se não tiveres planos, queria ver-te.

Fedra já estava de pé.

-Estou em casa da minha mãe... mas vou sim passar lá.

Desligou e nem precisou dizer nada.

-Vai - disse a mãe, firme, quase mandando.

-Mãe? Ainda agora cheguei...

-Ah, filha... se visses a tua cara quando atendeste esse bendito telefone.

Fedra riu, meio sem jeito.

-Dá um beijo na Sabrina por mim. E diz que neste fim de semana há lanche cá em casa.

Fedra piscou.

-Lanche? O povo todo?

-Não - respondeu a mãe, com ar cúmplice. - Só para nós. Eu... e as minhas meninas. - Piscou um olho.

Fedra aproximou-se, beijou-lhe a testa.

-Tu és terrível, dona Gracelina.

-Vai embora antes que eu mude de ideia.

Fedra riu, pegou na bolsa e saiu quase a correr.

E a mãe ficou sorrindo sozinha, enquanto pensava que enfrentaria Adélia mil vezes e o mundo outras tantas, para ver a filha naquele estado de felicidade.

***

 Fedra subia as escadas do apartamento de Sabrina pulando os degraus de dois em dois, quando parou e começou a rir.

            -Fedra, pelo amor de Deus...eu perdi o discernimento, a compostura...tudo e ainda falo sozinha e quase sem ar. - Riu encostando-se à parede tentando recuperar o ar e a compostura.

Na porta de Sabrina, respirou fundo levando a mão ao peito, recompôs-se e bateu. A porta abriu no segundo seguinte e ela teve a sensação de pernas querendo falhar.

            -Ei, mulher...nunca mais chegavas...

Sabrina abraçou-a, enchendo-a de beijos.

            -Tive que passar em casa...já sabia que a senhora estaria cheirosa e eu...

            -Ah para! Fiquei esse tempo todo aqui inventando o que fazer para passar o tempo e me convencendo de que não estou doida, porque a senhora foi para casa tomar banho? Aqui tem água quente que a madame gosta, o gel de banho maravilhoso que tu me deste, roupa...e sempre podes ficar nua...

Riram enquanto suas bocas se entregavam a um beijo intenso, carregado de saudades.

Quando finalmente se afastaram, começaram a falar ao mesmo tempo:

-Eu estava cheia de saudades! - Sabrina.

-Eu senti tanta falta! - Fedra.

Pararam, se olharam e caíram na risada.

Sabrina fechou a porta e encostou-se nela observando Fedra.

            -Como foi lá em Mindelo? - Perguntou Fedra passando a mão pelo cabelo.

            -Correu tudo bem. Trabalhei mais do que qualquer outra coisa, mas pude matar as saudades de quem me interessa...ah, novidade boa, a Catarina vai trabalhar a parte de comunicação do Projeto. Ela termina o estágio lá na consultoria no fim do mês e já tem duas possibilidades de colocação, fora esse freela no Projeto. Ela passou por uma shortlist e foi escolhida sem qualquer dúvida. Claro que fiquei feliz, por ela e por poder trabalhar com alguém em quem confio, tanto no profissional quanto no pessoal. O que foi?

            -Sabias que é um tesão ver-te falar de trabalho? Ficas ainda mais viva e...

            -É? - Sabrina puxou-a para si.

            -Para...estou com fome...- Fedra correu para longe.

            -Eu também...sorte a tua. O que queres comer?

            -Qualquer coisa, meu bem...vou trocar essa roupa...posso?

            -Fique nua...- Sabrina piscou e Fedra fingiu embaraço.

Minutos depois, estavam sentadas no chão da sala, caixas de comida abertas sobre a mesa de centro, entre risos e mãos que às vezes se encontravam sem perceber.

Um pouco mais tarde, já deitadas no tapete, partilhavam um silêncio bom. Sabrina encostada no colo de Fedra e de olhos meio fechados, desenhava o símbolo do infinito no braço dela.

            -A tua mãe e a Malia, estão bem?

            -Hum-hum...dona Gracelina intimou que a senhora apareça por lá.

Sabrina sorriu aconchegando-se um pouco mais no corpo de Fedra.

            -Dorme comigo. - Pediu baixo.

Fedra sorriu, passando os dedos pelo cabelo ainda húmido dela.

            -A essa hora, nem que me expulsasses, eu sairia daqui.

Riram e Sabrina beijou-lhe o peito.

            -Mas preciso de roupa para trabalhar amanhã...

Sabrina ergueu a cabeça.

            -Tens roupa aqui...

-Tenho?

-Tens. E se não tiveres... usas uma das minhas blusas sérias e chiques...se bem que as que usas são bem mais sofisticadas e eu adoro.

Fedra riu.

            -Fica. - Insistiu Sabrina, tranquila.

Fedra suspirou, rendida.

-Fico. Se não tiver roupa, levanto mais cedo e passo em casa.

Sabrina levantou a cabeça e riu direto para ela.

-Achas mesmo que consegues? -Provocou.

Fedra estreitou os olhos.

-Estás com más intenções, dona Sabrina?

Sabrina aproximou-se devagar, voz baixa:

-As melhores, meu amor. Condizentes com a minha saudade...

Beijaram-se, sem pressa, completamente entregues.

Depois de um tempo, Fedra falou num tom casual:

-A Malia já sabe que eu estou apaixonada por ti...

Sabrina soltou uma pequena risada.

-Ela sempre soube.

Fedra ergueu a cabeça.

-Como assim?

-Nós não disfarçamos quase nada - disse Sabrina, calma. - No almoço de Natal... a forma como ela olhava para nós. E naquele dia em que foste despedir-te de mim lá em tua casa... abraçaste-me apertado demais para uma "mera amiga". Acho que esqueceste que ela estava por perto.

Fedra fingiu indignação.

-E tu nem para me dares um toque?

Sabrina riu, puxando-a de volta.

-Mais cedo ou mais tarde... todos vão saber mesmo. Eu só sou mais discreta em respeito ao teu tempo.

Fez uma pausa, olhando-a nos olhos.

-Porque por mim...

Ela não concluiu a frase, mas Fedra a entendia bem no que não dizia.

            -Meu bem...tua pele está quente...- Sussurrou Fedra com a mão passeando pela barriga de Sabrina que a beijou com o desejo gritando pelos poros.

            -Só a pele? - Provocou deslizando a língua pelos lábios dela.

Fedra suspirou puxando-a ainda mais contra o seu corpo.

            -Vamos para cama...-Balbuciou Fedra vendo sua blusa voar pela sala.

Sabrina parecia estar em outra galáxia, dando atenção apenas ao que fazia seu corpo arder de prazer. Se entregaram ao prazer ali mesmo. Livres, sedentas, corpos em sintonia, almas entregues.

***

Sabrina acordou cedo, mas não quis chamar Fedra que dormia profundamente. Ainda sonolenta, viu as horas e sorriu ao perceber que ainda tinha tempo para repetir o que fazia sempre e nunca se cansava. Namorou Fedra com os olhos por largos minutos e sempre a sorrir, agradeceu aos seus anjos por tamanha bênção em sua vida. Em seus devaneios matinais, pensou em muitas vontades que fervilhavam em seu coração, mas que ainda não tinha conseguido materializar, ainda mais que não dependiam apenas dela. Prendeu o ar e beijou a ponta do nariz de Fedra. Os lábios entreabertos eram uma verdadeira tentação, mas resistiu ou ela acordaria e então, adeus café da manhã de rainha.

Depois de lavar o rosto e escovar os dentes, e se assegurar que Fedra continuava a dormir, dirigiu-se à cozinha.

Estava compenetrada nos preparativos quando foi surpreendida por um abraço que a deixou com o corpo mole.

            -Bom dia, maravilhosa.

A voz de sono de Fedra era afrodisíaca. Sabrina gem*u inclinando o seu corpo para trás para um melhor encaixe.

            -Esse cheiro está uma tentação...o que é? - Perguntou Fedra ainda grudada em Sabrina.

            -Temos ovos no ponto que a senhora gosta, torradas de pão alemão, café, as frutas da praxe, queijo que eu trouxe de São Vicente e minhas tapiocas. - Sorriu.

            -Que delícia! Eu ainda vou aprender a gostar dessa tua tapioca...me dê mais algum tempo.

Riram.

            -Obrigada...eu me esqueço como é bom também ser cuidada...

            -Preciso dar o meu melhor para ver se tenho um pouco mais da senhora aqui comigo. - Brincou Sabrina.

            - Se fizeres um décimo a mais, eu nunca mais saio daqui....

- A ideia é essa, mas não quero que fiques apenas porque eu te faço um café da manhã de rainha.

-Eu posso te dar outras tantas razões...

-Hmmm?

Fedra segredou-lhe algo no ouvido que lhe eriçou os pelos do braço.

            -Dona Fedra...não brinque com quem está quieta...depois não quero ninguém desesperada porque está atrasada para o trabalho. - Girou o corpo e segurando-a com força pela cintura, beijou-lhe a boca com fervor.

            -Vou...vou preparar a mesa. - Fedra suspirou tonta olhando na direção do balcão.

Sabrina sorriu.

Depois do café degustado com calma...

            -Hoje ficas em casa a trabalhar? - perguntou Fedra, pegando sua bolsa e o casaco.

            -Agora de manhã sim...só trabalhos de computador e cérebro e isso tenho aqui. - Sorriu fazendo uma careta.

            -Eu preciso concentrar-me no trabalho...algumas pendências e o pessoal de Bruxelas e Zurique chega no inicio do mês.

            -Fedra no modo turbo.

Riram às gargalhadas.

            -Poderia passar no teu escritório para te resgatar para um almoço rápido, mas já tenho compromisso com a Dúnia e depois um café com a Glória. Diz ela que tem novidades...ah, e hoje é dia de terapia.

Sorriram se olhando com calma. Fedra vestiu o casaco, mas não se moveu. Sabrina aproximou-se e ajeitou-lhe a gola da blusa.

            -Preciso contratar um engenheiro ambiental, mas os currículos que recebi não me deixaram muito segura. - Sabrina franziu a testa.

            -Ainda nada?

            -Não...parece que ele vem de Saturno.

Gargalhadas.

            -Vai dar tudo certo. Preciso ir...- Beijou-lhe a boca demorando mais do que seria razoável.

            -Jantas comigo? - sabrina encarou-a com os olhos brilhando.

            -Ai, mulher...alguém te resiste?

            -Eu espero sinceramente que tu não me resistas...nunca.

            -Sabrina, eu preciso trabalhar e tu também...

            -Meu amor, eu não estou a te prender...estás solta, vês? -Mostrou-lhe as mãos livres, sorrindo.

            -Idiota! Ainda é convencida...oh meu Deus...

Abraçaram-se sem dizer nada.

Fedra abriu a porta, saiu... deu dois passos e riu sozinha no corredor, leve, viva.

***

Os dias que antecediam a chegada de comitivas de avaliação, eram sempre desafiadores e mais uma vez, Fedra estava no centro do furacão. O telefone não parava, choviam emails, passos apressados nos corredores, vozes em várias línguas e decisões que não esperavam.
No meio do frenesi, ela respondia, organizava, decidia, quase sem direito a pausas e nem respirar direito. O típico dia em que não se pode falhar.

Num momento, perdeu-se no meio dos papéis sobre a mesa. Demasiados, números, prazos, exigência ao mais alto nível. Sentiu a cabeça pesar...gostava do que fazia, era muito exigente consigo mesma, mas havia momentos em que queria apenas olhar para o lado e...

            -Sem devaneios, Fedra. - Repreendeu-se.

Fechou os olhos por um segundo, pensou em Sabrina. No riso fácil, na calma que ela trazia sem esforço. Experimentou a sensação de corpo a se soltar, a respiração voltou ao ritmo certo e um quase-sorriso apareceu sozinho.

Procurou o telefone no meio dos dossiers e ligou. Tocou uma vez e logo desligou. Mais uma tentativa e ele estava completamente mudo. Atentou-se ao fato de Sabrina estar a trabalhar no interior, onde havia muitos pontos cegos, sem cobertura de rede.  Respirou fundo engolindo a frustração e logo em seguida voltou a atenção às suas inúmeras demandas.

***

Fedra alongou os braços suspirando alto enquanto encarava os últimos feixes de luz lá fora pela janela panorâmica de sua sala. Que dia intenso! Certificou-se de que tinha cumprido a vasta agenda e deixou o corpo relaxar na cadeira. Tudo o que queria e precisava a partir daquele momento, era um banho quente e uma conversa suave e divertida com Sabrina sobre seus dias e outras trivialidades. Mordeu o lábio ao se dar conta que estava com saudades dela. Que novidade, riu sozinha. Mas a verdade era que nos últimos dias tinham estado muito absorvidas com o trabalho, cada uma à sua maneira e tempo de qualidade juntas, tinha sido reduzido. Pegou a bolsa decidida a sair e comprar alguma comida gostosa para o jantar delas, quando o telefone tocou.

            -Mãe!! Não te esqueceste, pois não??

A voz da filha vinha elétrica, viva, cheia de brilho.

Fedra sorriu, cansada, mas rendida. Levou a mão à testa batendo várias vezes.

-A exposição... claro que não. Estou a sair agora.

-Vai ser lindo, mãe. Está tudo incrível e vem muita gente importante. É bom ter-te aqui hoje.

Houve um pequeno silêncio e Fedra ajustou seu emocional.

-Eu vou, filha.

Mesmo cansada e querendo apenas um banho quente... e os braços de Sabrina, ela foi.

***

A galeria estava cheia de luz. Cores nas paredes, conversas baixas, taças a tilintar, perfume bom no ar e gente elegante.

Fedra parou à entrada por um segundo, absorvendo. Deu-se conta que sua alma precisava de um momento como aquele, também.

A filha veio quase a correr.

-Mãe!

Abraçaram-se forte.

-Está lindo aqui - disse Fedra, sincera.

-Eu disse! Muito trabalho e eu aprendi muito e dei meu contributo. - Disse Malia, orgulhosa.

-Eu consigo ver o teu toque nos pequenos detalhes. Não conseguiste convencer a tua avó?

-Ah, ela queria tanto vir, mas hoje é dia de visitarem a dona Ermelinda...sabes como é a avó nessas coisas de deveres e gestão das amizades. Mas ela exigiu fotos e vídeos e disse que no próximo fim de semana virá acompanhada das amigas, da tia Adélia...enfim.

Risos.

            -Mãe, preciso circular. Aproveita e se vanglorie que tua filha tem um dedo nessa beleza toda. Ah, tem uma artista divina do Mali que vai atuar...ela é multi-instrumentista, um show. Oh, começou...aproveita, Fedra.

Riram.

Fedra caminhou pela galeria analisando os quadros. Prestou atenção na música que ganhava os primeiros acordes, a multi-instrumentista do Mali criando um som profundo, quase hipnótico. Seu peito encheu-se de orgulho da filha, do caminho que começava a traçar e da mulher que aos poucos se tornava.

A música espalhava-se como seda pelo ar e Fedra ainda estava meio suspensa no momento quando sentiu um toque firme no seu ombro.

-Fedra?

Ela virou-se completamente e encontrou José Carlos.

Não era exatamente uma surpresa, já que arte sempre foi o território dele. Exposições, galerias, vernissages, faziam parte do seu habitat. O detalhe era outro.

-Não sabia que estavas na Praia - disse Fedra, sincera.

Ele sorriu daquele jeito antigo, seguro, levemente conquistador.

-Cheguei há uns dias. E... olha para ti.

O olhar dele percorreu Fedra de cima a baixo, mas sem desrespeito. Como quem revive algo.

-Estás muito bonita.

Fedra sorriu com educação.

 -Obrigada.

Ele aproximou-se um pouco mais.

-Sempre foste muito elegante, mas agora... há qualquer coisa diferente.

Fedra não respondeu, apenas manteve o sorriso social. O tipo de silêncio que não convida, mas também não corta.

Ele continuou a falar sobre arte, viagem, memórias soltas. Fedra ouvia, presente, mas não inteira, apenas educada. Ele, por outro lado, parecia decidido a não sair dali.

-Sabes... é bom ver-te - disse ele, mais baixo. - Muito bom mesmo.

E foi nesse momento que algo mudou no ar. Não um som alto ou um gesto brusco. Uma presença que Fedra sentiu antes de ver.

Virou o rosto lentamente e viu Sabrina parada a poucos passos. Olhar calmo, profundo, mas tudo menos neutro.

Por um segundo Fedra ficou imóvel, talvez digerindo a surpresa.

            -Sabrina! - Fedra abriu um sorriso.

José Carlos franziu ligeiramente a testa, olhando entre as duas.

Sabrina aproximou-se com naturalidade.

-Desculpa interromper - disse, suave. - A Malia insistiu muito para eu vir e que bom que ela me convenceu. O evento está maravilhoso...

Fedra piscou, entendendo tudo num instante. Malia, claro. Sabia que ela não lembraria por estar embrenhada no trabalho e sabia também da probabilidade de ser um evento que agradaria Sabrina. Sua filha sempre surpreendente.

José Carlos olhava agora com atenção renovada, ainda mais observador. Tentando entender a tensão clara e ao mesmo tempo invisível.

Sabrina parou ao lado de Fedra, mas sem a tocar.

-Não consegui falar contigo mais cedo. Interior... rede impossível - disse Sabrina, olhando só para Fedra.

A voz baixa, íntima, como se o resto da sala não existisse. Fedra soltou o ar devagar. Algo dentro dela assentou.

-Eu liguei.  - respondeu, quase num sussurro.

José percebeu uma leve trepidação no ar, o suficiente para ficar ainda mais atento.

O silêncio entre os três durou meio segundo a mais do que seria confortável.

Então Sabrina sorriu.

-Não me apresentas o teu amigo?

Fedra voltou a si.

-José Carlos... esta é a Sabrina.

Nada mais, mas havia um mundo ali.

José estendeu a mão cortês, mas agora cauteloso.

-Prazer. Somos grandes amigos, mas apenas porque ela não quis que eu me tornasse padrasto dessa jovem que circula lindamente pela galeria. - Sorriu triunfante piscando para Fedra.

Ela engoliu em seco e percebeu que sequer tinha chamado a filha para cumprimentar o antigo namorado e nem ela fizera qualquer movimento nesse sentido.

            -O prazer é meu. - Sabrina apertou-lhe a mão com firmeza, mantendo o ar tranquilo.

Seu olhar desviou para Fedra e permaneceu no encontro onde havia verdade e escolha.

***

A galeria continuava vibrando, luz quente, vozes cruzadas, música viva. Mas para Fedra, o centro tinha mudado.

José Carlos percebeu primeiro a rigidez no ombro dela. Ele conhecia aquele sinal, e simbolizava que Fedra estava ali, mas bem distante.

Cínico como sempre, sorriu para Sabrina com elegância ensaiada.

-Dá-me licença um instante? Preciso roubar a Fedra por dois minutos... assuntos profissionais.

-Claro! - Sabrina sustentou o olhar, calma.

Fedra abriu a boca, talvez para recusar, mas José Carlos já a conduzia com leve pressão no braço e ela deixou-se levar mais por confusão do que por vontade.

E ele não a largou mais. Falava pelos cotovelos, cumprimentava pessoas, elogiava, e sorria sempre muito próximo e dono da situação.

-Estás deslumbrante hoje, Fedra. Já te disseram isso? - murmurou perto demais.

Ela sorriu já sentindo sua paciência esvair-se.

            -A única coisa que eu sei é que estou muito cansada e tu estás a exagerar.

-Nunca contigo. Muito trabalho?

-Sim...visita de avaliação dentro de poucos dias. Já sabes...o povo quando vem...

-Mas pode ser um bom sinal também...com a tua competência, não demora nada para te oferecerem um cargo altíssimo em Bruxelas, ou quem sabe em Zurique.

-Acho que ainda não cheguei nesse patamar...

-Não sejas modesta, Fedra. E sabes como essas posições nessa altura da carreira, são verdadeiros oásis. Muitos benefícios, status e trabalho mais leve...um sonho para um cinquentão como eu e uma mulher que já provou que pode muita coisa...

Fedra não estava na mesma sintonia e nem acreditava que pudesse galgar os tais sonhados cargos internacionais. Em tempos, já tivera esse sonho e batalhara muito para alcança-lo, mas já não se sentia tão motivada...

-Devíamos jantar um dia destes. Conversar com calma... como amigos, claro. - Sublinhou como amigos o que para Fedra soou como uma armadilha elegante.

Ela hesitou meio segundo, o suficiente para ele continuar o discurso, fechando a porta da recusa sem parecer que o fazia. Mas Fedra já não ouvia direito, porque o corpo dela sabia antes da mente. Instintivamente começou a percorrer a galeria com os olhos. Eles pousaram numa cena que a deixou com todos os sentidos em alerta.

Malia, Sabrina e a artista do Mali, juntas. As três riam enquanto conversavam inclinadas umas para as outras. E o rosto de Sabrina estava aberto, luminoso, vivo, o que fez o peito de Fedra apertar. A artista falava com entusiasmo, claramente encantada.

Fedra sentiu um impulso quase infantil e na sua cabeça uma vozinha provocativa começou a berrar: vai até lá. Agora! E no mesmo instante se repreendeu. O que estás a fazer? Estás doida?

José Carlos continuava a falar e a se gabar. Ela já não respondia.

- ...Fedra? Estás comigo?

-Hmm? Sim... desculpa.

Mas não estava. Não mais. Alguém se juntou a eles e conseguiu reter a atenção de José Carlos. Ela logo aproveitou a oportunidade e com uma desculpa educada afastou-se. Caminhou devagar, quase hesitante, como quem atravessa algo invisível. Malia a viu primeiro e sorriu, fazendo um sinal para que ela se juntasse ao grupo. Quando seu olhar se cruzou com o de Sabrina, muitas emoções gritaram ao mesmo tempo.

O evento foi chegando ao fim com um sinal claro de sucesso. Malia não disfarçava sua alegria, seu primeiro trabalho sério como assistente de curadoria cultural tinha sido brilhante. Abraçou a mãe, que a apertou muito orgulhosa. Sabrina despediu-se da cantora e multi-instumentista maliana e logo voltou a sua atenção para mãe e filha.

-Muito obrigada pelo convite. Eu nem sabia que precisava desse bálsamo cultural. - Sorriu feliz.

-Sabia que ias gostar - respondeu Malia. - Mãe, como é que não lembraste do Djaiss para sugerir à Sabrina?

-Hã? - Fedra não conseguia prestar atenção. Seu coração acelerava deixando a mente aérea.

-Quando liguei para convidar o evento, ela estava preocupada porque precisa de um engenheiro ambiental e não aparecia ninguém com as qualificações requeridas pelo projeto. Logo lembrei do Djaiss que sempre foi excelente profissional e precisa de um rumo na vida depois do divórcio...

-Claro, o Djaiss...- Fedra soltou o ar.- Como não me ocorreu?

            -Sabrina, não liga...minha mãe de vez em quando desliga os botões. Normalmente isso acontece quando está muito preocupada, ou muito feliz? E aí, dona Fedra? - Provocou a menina.

            -Tua mãe está cansada...só isso...- Esquivou-se, Fedra.

Seus olhos encontraram os de Sabrina que ansiava por essa troca. Ficaram. Ninguém conseguiu desviar e nem queriam. Malia observou as duas com ternura e curiosidade.

-Mãe, vou dormir com a avó... mas ainda vou sair um bocado com uns amigos.

Fedra assentiu, ainda presa naquele olhar.

            -Vim de táxi...estás no teu carro? - perguntou Sabrina num tom que deixou Fedra quase embriagada.

            -Estou...

            -Vamos?

Fedra nem respondeu com palavras. Aproximou-se de Malia e beijou-a.

Malia sorriu batendo a cabeça, puxou Sabrina também, beijando as duas.

- Vocês são impossíveis - murmurou, rindo.

 

***

O trajeto para casa foi feito quase sem qualquer troca de palavras, cada uma dentro do próprio turbilhão. Sem qualquer indagação prévia, Fedra dirigiu até ao endereço de Sabrina. Desceram do carro juntas e subiram ao apartamento ainda em silêncio.

Ao entrar, Fedra pousou a bolsa devagar, soltou o ar dos pulmões, passando a mão pelo rosto.

-Vou tomar um banho quente... estou mesmo cansada.

Antes de desaparecer pelo apartamento, virou-se:

-Como foi o teu dia no interior?

-Algum stress... mas no fim resolveu-se tudo. - Pausa curta - E tomara que dê tudo certo com o Jair...Djaiss, precisamos mesmo de um engenheiro ambiental.

-Não sei onde anda a minha cabeça...se o Djaiss descobre que não o indiquei...- Sorriu fazendo uma careta.

-Tomara que ele seja o engenheiro que estou à procura...

Fedra assentiu.

Depois de uma rápida troca de olhares, Fedra foi para o banho.

Sozinha, Sabrina deixou a casa à meia luz. Deitou-se no sofá, o corpo solto, mas a mente acesa. Com os olhos presos no teto, revivia flashes, a galeria, o silêncio de Fedra, o homem ao lado dela, a sensação estranha no peito. E não era qualquer homem, era o antigo namorado, alguém que já lhe causara muita insegurança...

Soltou o ar refletindo sobre os sentimentos. Não era um simples ciúme, era... deslocamento...incerteza. Medo de dizer demais, medo de não dizer e se consumir com as consequências...

Apertou os olhos enquanto ouvia a água correr na casa de banho.

Fedra não demorou no banho. Voltou com passos suaves, cabelo húmido e de pijama. Observou Sabrina deitada no sofá, sem qualquer movimento. Não sabendo muito bem como agir, sentou-se na ponta do sofá. A distância era pequena, mas a sensação era de um mundo inteiro pelo meio.

Sabrina virou o rosto e os olhos encontraram-se. As duas suspiraram ao mesmo tempo. Quase riram...

Sabrina então sentou-se também, com movimentos lentos.

Houve um silêncio curto, necessário.

-Se eu me atrapalhar e disser alguma asneira... é porque não sei muito bem como agir. - Respirou fundo - Mas também não vou ficar calada, porque já percebi que isso não funciona. - Sabrina falou primeiro.

Fedra não se mexeu.

-Preciso dizer que me senti estranha... muito estranha. - Pausa - Não querias que eu fosse? - Perguntou, honesta.

O olhar não era de acusação, mas de ansiedade.

            -Não me parece uma atitude tua... mas fiquei a pensar.

Fedra reagiu na hora, inclinando-se.

-Ei. - Suave, firme - Eu nem me lembrava do evento, meu bem. O trabalho tem-me engolido... completamente. Fui no último momento, quando tudo o que eu queria era voltar para cá... e ficar tranquila contigo. Precisei exercer o meu papel de mãe, e se Malia não me chama...

A tensão de Sabrina quebrou um pouco.

            -A Malia fez muito bem em te chamar. Essa menina é dotada de muita argúcia...devo ter acertado em alguma coisa. -Fedra sorriu genuína, sem defesa.

            -Tive vontade de fazer tanta coisa...- Sabrina sustentou o olhar acompanhado daquele meio sorriso que Fedra já conhecia, perigoso, doce, impossível de ignorar.

-E porque não fizeste? -  Perguntou Fedra, num tom intimo, agora mais perto.

Sabrina inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos brilhando.

-Porque eu ainda estava a tentar perceber o que estava a sentir... - pausa curta - e também porque não quis expor-te. Não ali, num evento tão importante para a tua filha.

O olhar de Fedra amoleceu.

-Eu vi-te inquieta... - confessou Sabrina - mas também vi que estavas presa numa conversa que não soava natural. E eu... - soltou um pequeno riso - eu não queria parecer uma namorada territorial num evento cheio de gente importante.

Fedra finalmente riu, baixinho.

            -Territorial tu? - aproximou-se um pouco mais - Eu teria adorado.

Sabrina arqueou a sobrancelha.

-Terias?

-Hum-hum. - Fedra agora falava quase num sussurro - Porque enquanto ele falava comigo... eu só conseguia procurar-te com os olhos...o tempo todo.

Silêncio.

Sabrina respirou fundo.

-Eu quis ir lá... puxar-te... beijar-te... acabar com aquela encenação ridícula.

-E porque não foste? - Fedra provocou, já sorrindo.

-Porque eu conheço o teu tempo e respeito o teu mundo. Sei o peso que certas coisas ainda têm para ti. - Pausa - Mas não penses que foi fácil ficar quieta.

Fedra ficou séria por um instante, olhares cruzados.

            -Ele é passado, Sabrina. Passado! Não mexe em nada aqui dentro. - Levou a mão ao próprio peito - Nada.

-Ainda bem... - murmurou, aliviada.

Fedra inclinou-se, encostando a testa na dela.

-Sabes de uma coisa?

-O quê?

-Quando disseste que ficaste com ciúme... - sorriso lento - eu gostei.

Sabrina soltou um riso incrédulo.

            -Em momento algum eu usei essa palavra! - Fingiu irritação.

            -Amor, eu sempre fui boa em interpretação de texto.

Gargalhadas.

            -Idiota...ai, como ela é idiota...-Sabrina fingiu bater-lhe nas pernas.

            -Eu sei que a senhora é convencida, mas ninguém que entra nessa água, quer sair...

            -É para interpretar?

Caíram juntas numa gargalhada gostosa e libertadora.

Fedra ainda ria quando iniciou a frase, mas o riso foi-se dissolvendo devagar, substituído por algo mais profundo, verdadeiro. Ela encostou a testa na de Sabrina, respirando perto.

-Agora eu posso falar sem receio de nada... - disse, baixa - Fiquei com ciúme daquela mulher maravilhosa... e cheia de talentos. Cada vez que ela sorria para ti... que segurava o teu braço... eu queria mandar o José Carlos calar a boca e fugir dali... correr para ti e...

Sabrina caiu na risada, puxando-a, cobrindo-lhe o rosto de beijos rápidos, carinhosos, quase infantis.

-Meu bem... - disse entre beijos - tu sabes que eu sou apaixonada por música... a mulher é extraordinária no que faz. Fiquei encantada com o talento, só isso. E a tua filha... - sorriu com orgulho - além de ajudar a organizar tudo lindamente, é uma relações-públicas nata. A conversa fluiu... e foi bom para mim. Ah, e nosso entrosamento maior deu-se pelo fato de ela conhecer e admirar o trabalho do artista casado com a tua amiga sueca lá do hotel...

-O Gary?

-Isso...nossa conversa incidiu muito sobre o talento de Gary. Eles já participaram juntos de alguns eventos pelo mundo e ela estava toda empolgada porque estariam juntos. A conversa com ela fluiu bem, só assim para eu não cometer uma insanidade.

Fedra riu, já imaginando.

-Que insanidade?

Sabrina aproximou o rosto, olhos brilhando de malícia suave.

-Chegar bem perto daquele teu ex... olhar para ele sem dizer nada... pegar-te pelo braço... e sair contigo pelo salão como se o mundo inteiro não existisse.

Fedra soltou uma gargalhada, caindo de costas no sofá e puxando Sabrina junto.

-Eu teria adorado...

Riram juntas, leves, cúmplices, como quem descobre que o amor também pode ser divertido.

Depois Fedra suspirou, olhando-a com carinho profundo.

-Meu Deus... ainda bem que eu não senti ciúme sozinha. Eu senti-me tão inadequada... mas eu queria o quê ao namorar uma mulher tão maravilhosa?

Sabrina ficou séria por um segundo.

            - Sabrina... quando eu te vi naquela galeria... faltou-me o ar e não é exagero...

Com um movimento suave, Sabrina levantou do sofá e puxou-a em direção ao quarto.

O amor dessa vez foi feito com mais intensidade e uma entrega sem qualquer ressalva. Os corpos pareciam ansiosos e as almas se entrelaçaram de forma inequívoca. O prazer veio em camadas quase torturantes...tantas vezes até não restarem mais forças e os corpos se enlaçarem em rendição. 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Olá :)

Assumo que exagerei :) é que esse ano, nao estou nem aí para o carnaval e minha diversão é outra...escrever rsrsrs.

Leiam na ressaca do carnaval, depois disso...ou quando der.

Um abraço e bom carnaval para quem for pular e para quem (assim como eu) estiver no descanso...no meu caso particular, é ocio criativo ;)

Ah, gostei desse capítulo...talvez por ter exagerado nas letras kkkkk


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Comentários para 31 - Capitulo 31:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 16/02/2026

Adorei esse capítulo, mas esse ex todo se achando me deixou nervosa...achei que podia causar algum desentendimento entre elas e pra complicar um pouquinho mais uma artista cheio de talento tá...

Foi até bonitinho o ciúmes de ambas....

Sabrina está deixando claro, está respeitando o tempo da Fedra, acho que ela pode tomar uma atitude 

Mesmo descansando.bom carnaval 

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NovaAqui
NovaAqui

Em: 15/02/2026

Capítulo maravilhoso!

Adorei essa interação das mães e filhas: Malia e Fedra e D. Gracelina e Fedra. Fedra já tem o amor delas para deixá-la segura.

Nadine! Você tinha que ressuscitar o ex? kkkkk que idiota esse cueca

Eu já voltei dos blocos! Carnaval só durante o dia! À noite, estou na segurança do meu lar, mas amanhã logo cedo: "partiu blocos!"

O Rio tem muitos blocos! É uma loucura! Você tem que escolher, pois alguns saem no mesmo horário.  Estamos conseguindo pular carnaval com segurança e diversão 

Alguém vai ter que fazer o pedido de namoro/noivado/casamento kkkk elas estão demorando muito para dar a chave de suas respectivas casas uma para outra. Essas meninas precisam ficar mais espertas nesse assunto rsrsrs

Adorei o seu ócio criativo! Não sei se na sua Terra Linda tem esse feriado de carnaval como temos aqui no Brasil, mas se você tiver esse feriadão aproveite bastante pulando ou descansando ;-))

Boa semana 

Beijão 

 

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