• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Depois eu te conto...
  • Capitulo 30

Info

Membros ativos: 9568
Membros inativos: 1649
Histórias: 2039
Capítulos: 20,751
Palavras: 52,472,617
Autores: 796
Comentários: 106,291
Comentaristas: 2559
Membro recente: Ruivinha

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • 10 anos de Lettera
    Em 15/09/2025
  • Livro 2121 já à venda
    Em 30/07/2025

Categorias

  • Romances (870)
  • Contos (505)
  • Poemas (236)
  • Cronicas (234)
  • Desafios (182)
  • Degustações (30)
  • Natal (8)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Echoes of Larkhill
    Echoes of Larkhill
    Por Lady Texiana
  • Depois eu te conto...
    Depois eu te conto...
    Por Nadine Helgenberger

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Despedida
    Despedida
    Por Lily Porto
  • Feliz Ano Amor Novo
    Feliz Ano Amor Novo
    Por SraPorter

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (870)
  • Contos (505)
  • Poemas (236)
  • Cronicas (234)
  • Desafios (182)
  • Degustações (30)
  • Natal (8)
  • Resenhas (1)

Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

Ver comentários: 3

Ver lista de capítulos

Palavras: 4329
Acessos: 440   |  Postado em: 08/02/2026

Capitulo 30

 

A visita ao lounge da Vitória começou sem muitas expectativas, apenas algumas horas com uma amiga que raramente via, mas com quem sempre tivera afinidade. Um convite casual, para uma tarde tranquila, tudo pensado para o conforto de ambas.

O apartamento de Vitória tinha vista aberta, luz a entrar sem pedir licença e silêncio. Uma delícia. O marido, um escocês de poucas palavras e olhar atento, também estava presente. Educado, discreto, claramente habituado a observar mais do que falar. Sabrina sabia que ele era um grande investidor, mas sem maiores detalhes. Não gostava de ser indiscreta, mas Vitória era expansiva, mais cedo ou mais tarde, saberia mais informações.

A conversa com a amiga correu solta. Atualizações de vida, risos abertos, memórias de quando tudo parecia mais confuso e mais simples ao mesmo tempo. Em dado momento, sem planeamento, Sabrina virou-se para o marido dela que sempre esteve por perto, como quem pergunta sobre o tempo.

            - E aquele projeto para Cabo Verde, como está a andar?

A pergunta saiu leve, despretensiosa. Mas não era de todo. Sabrina tinha um faro antigo para oportunidades. Uma espécie de radar que nunca dormia completamente.

Ele suspirou antes de responder.

            -Tivemos de mudar algumas coisas, principalmente o local de implementação. Isso atrasou tudo. O maior problema agora é encontrar uma empresa que consiga executar a parte técnica no prazo que precisamos. Está difícil, mesmo pagando muito bem.

Sabrina não respondeu de imediato. Na sua cabeça, tudo acendeu. Nada de euforia, mas uma clareza inequívoca. Aquele silêncio curto que ela fazia quando a mente já estava a trabalhar três passos à frente.

            -Que tipo de execução técnica? - Perguntou, como quem continua uma conversa comum.

Ele explicou com palavras claras. Detalhou prazos, exigências, contexto institucional. Ressaltou a burocracia, a questão de empresas que prometiam mais do que entregavam. Sabrina ouviu tudo com atenção absoluta, sem interromper com perguntas.

Quando ele terminou, ela inclinou-se ligeiramente para a frente e disse, quase em tom de confidência:

-Eu trabalho exatamente com esse tipo de projeto. Coordenação, estruturação, execução em contextos complexos. Já passei por situações bem piores do que essa.

Vitória ergueu as sobrancelhas. Não conhecia aquela versão de sua amiga. Ela sempre falava como quem precisa pedir licença, jamais com tamanha assertividade.

Sabrina continuou sua explanação sem qualquer exagero. Deu exemplo de marcos concretos da carreira, de projetos entregues sob pressão, contextos políticos difíceis, de financiadores exigentes. Falou com naturalidade de quem sabe o próprio valor e não precisa prová-lo.

Benson não disfarçou o interesse. Levantou-se, afastou-se alguns passos e fez uma chamada curta. Quando voltou, a decisão já estava tomada.

            -Amanhã, logo nas primeiras horas -disse - tens disponibilidade para uma reunião com o meu assessor jurídico?

Sabrina assentiu, aparentemente tranquila por fora e em alerta máximo por dentro.

No dia seguinte, tudo aconteceu depressa. Reunião objetiva, com perguntas cirúrgicas, seguido de um contrato robusto com excelentes condições e responsabilidades condizentes. Quando Sabrina assinou, a caneta pareceu pesar mais do que devia.

Horas mais tarde, sentada frente a Catarina, o pânico começou a mostrar a cara.

-Eu assinei - disse Sabrina, largando a pasta sobre a mesa. - Está feito!

Catarina sorriu primeiro. Depois leu-lhe o rosto com mais atenção.

            -Mas essa cara não é de quem conquistou algo incrível.

Sabrina passou a mão pelo cabelo, num gesto antigo.

-É um projeto grande, enorme. E eu vou precisar de valências que não tenho. Pelo menos não sozinha.

-Bem-vinda ao clube de quem cresce, musa - respondeu Catarina, objetiva.

            -Não é isso - insistiu Sabrina, entendendo o tom crítico da amiga. - Eu sei entregar, sempre soube. Mas isto exige equipa, técnica específica, decisões rápidas. Eu estou com medo de falhar.

Catarina apoiou os cotovelos na mesa.

            -Ouve-me bem. - Fez uma pausa curta. - Tu não foste escolhida por acaso e nem por simpatia. Eles viram toda a tua competência. O pânico é só o teu cérebro a perceber que o jogo mudou de nível.

Sabrina respirou fundo. Sabia que era verdade, mas ainda assim, o medo estava lá.

-Eu vou ter de montar tudo quase do zero.

            -Então monta - disse Catarina. - É isso que sempre fizeste. Ei, Sabrina, tu és capaz.

Sabrina ficou em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, a vida não lhe estava a tirar nada. Estava a exigir mais, e isso, apesar do medo, tinha um gosto novo.

            -Ah, não sabes de ninguém de confiança e que seja boa nas limpezas, uma espécie de governanta?

            -Hã? De projeto de milhões a governanta?

Gargalhadas.

            -É para acalmar os nervos, Cat...a Vitória que me pediu ajuda nesse sentido e preciso alternar o foco, para não enlouquecer.

            -Vais brilhar, meu bem. No projeto de milhões e na busca pela governanta.

Risos com abraços.

***

A mudança de Sabrina para a Praia deixou de ser opção e passou a ser uma necessidade. O projeto seria no interior da ilha, mas tudo o que realmente travava ou destravava o avanço passava pela capital: ministérios, assinaturas, reuniões que só aconteciam se o responsável estivesse presente. Não havia como adiar. Sorriu ao se dar conta de mais uma cambalhota que a vida dava, com a diferença de que dessa vez não vinha acompanhada de dor. Houve uma reviravolta limpa, quase elegante. Tudo tinha acontecido para o seu bem e isso de certa forma causava alguma desconfiança.

Sabrina entrou num modo que conhecia bem: o modo resolução. Vendeu o que tinha valor imediato, algumas peças de mobiliário, objetos que já não diziam nada, roupas que pertenciam a versões antigas de si mesma. Outras coisas, doou. Precisava andar leve.

Havia entusiasmo real. Um entusiasmo que não vinha da promessa de conforto, mas da sensação clara de estar a mudar de vida com as próprias mãos.

No meio da correria, chamou Guima para ajudá-la as arrumações e de certa forma, para já iniciarem as despedidas. Sentiria muita falta dela, mas a vida agora precisava seguir outro rumo.

Guima andava às voltas na cozinha que quase já não tinha nada, mas ela insistia em deixar tudo perfeito. Sabrina entrou para pegar um copo de água e observou que ela não parava de enrolar uma toalha entre os dedos. Era o sinal de que estava nervosa, Sabrina já a conhecia há tempo suficiente para entender os tiques.

                -Sabrina... - começou, hesitante. - Eu já estou acostumada com a ideia de que vais embora, e o quão ruim isso será para as minhas finanças...

Sabrina manteve o olhar firme, sabia que vinha algo a seguir.

            -Mas eu queria dizer uma coisa - continuou Guima, respirando fundo. - Com a dona Lúcia eu não trabalho mais. Não fico!

Sabrina não se surpreendeu.

-Porquê, Guima?

Ela balançou a cabeça, cansada.

-Agora ela só vê defeito em tudo o que eu faço. Tudo! Nada do que eu faço é suficiente, e pior... - fez uma pausa curta - ela tem sido muito estúpida comigo. Faz questão de me humilhar com palavras duras

Sabrina sentiu um aperto seco no peito. Não era novidade. Mas o desabafo de Guilhermina resgatava lembranças de uma época não muito distante e que nunca mais se permitiria viver.

-Eu aguento trabalhar ganhando menos - disse Guima, com uma honestidade desarmante. - Mas não aguento desrespeito. Meus filhos mais velhos me ajudam no que podem e minha menina mais nova, graças a Deus, é uma adolescente consciente.

Depois, como quem percebe a própria vulnerabilidade, acrescentou:

-Fico triste que vais embora. Vai ser menos uma fonte de renda. Mas com ela... não dá.

O silêncio pesou por alguns segundos.

            -Não sabes de ninguém que precise de ajuda? Alguém assim como tu...- perguntou Guima, quase em súplica.

Foi aí que a memória de Sabrina acendeu rápido. O pedido de Vitória.

O pedido feito no dia em que sua vida deu uma guinada daquelas, quase como um comentário solto: "Se souberes de alguém de confiança para nos ajudar em casa...e ainda na limpeza regular de cinco apartamentos que temos na cidade."

Sabrina levantou o olhar.

-Sei sim, Guima, sei exatamente. - Sorriu confiante.

Guima ergueu a cabeça, alerta.

-Uma amiga minha, a Vitória, já te falei dela. Eles precisam de alguém de confiança, para ajudar na limpeza da casa deles e em mais cinco apartamentos, de um empreendimento turístico. Trabalho certo e pagam muito bem.

Guima arregalou os olhos.

-Sério, Sabrina?

- Claro! Ela me pediu ajuda há alguns dias, e eu estava a quebrar a cabeça, para pensar em alguém de confiança e jamais pensei em ti. Vou falar com ela hoje, confia que vai dar tudo certo.

-Ah, se eu me acertar com ela, fico só com esse trabalho. Fica mais fácil gerir e não terei de aturar várias pessoas, cada uma com seu humor. Livre da doida da dona Lúcia, mas essa decisão eu já tomei, independente de qualquer coisa. Muito obrigada!

Guima caminhou ate Sabrina e sem qualquer protocolo, abraçou-a com vontade.

-Deus vai sempre proteger-te, Sabrina - disse, com a voz embargada. - Tua alma é boa.

Sabrina não respondeu de imediato, apenas retribuiu o abraço. Pensou que, no meio de contratos grandes, decisões estratégicas e mudanças de rota, aquele gesto simples lembrava-lhe algo essencial: Crescer não a estava a afastar das pessoas.
Estava, finalmente, a colocá-la no lugar certo para ajudar, sem precisar se diminuir.

***

Sabrina e Catarina estavam sentadas uma de frente para a outra, café já frio, de tanto que emendavam assuntos na tentativa de não perderem nada.

-Não dá - disse Catarina, largando-se na cadeira. - Simplesmente não dá. Aquele lugar sem ti, é insuportável.

Sabrina sorriu de lado. Conhecia bem aquele tom.

-Calma e respira - respondeu, sem cerimónia. - Eu estando fora, a tua vida lá ficou muito mais fácil. Não tens nada de realmente desafiador a acontecer contigo agora.

-Fácil não é a palavra - resmungou Catarina. - É só... vazio e tenso ao mesmo tempo.

-E temporário - cortou Sabrina. - Falta pouco para o estágio acabar. Aguenta e não te metas em dramas que não são teus.

Catarina levantou as mãos, rendida.

-Eu jurei que não ia falar de Lúcia.

Sabrina arqueou a sobrancelha.

-Mas...?

-Mas eu não me aguento - disse ela, com aquele sorriso culpado. - Ainda não contrataram ninguém para o teu lugar.

Sabrina inclinou-se ligeiramente para a frente.

-Claro que não...é difícil encontrar alguém que aguente tanto...

-E corre pelo escritório que ela está à espera que tu voltes.

Sabrina soltou uma gargalhada limpa, daquelas bem profundas.

-Então que continue à espera.

Catarina riu junto.

-Não, espera, piora. - Baixou a voz, teatral. - De vez em quando ela vai trabalhar na tua antiga sala.

Sabrina piscou, incrédula.

-O quê?

-Vai lá, senta-se, abre o computador... como se fosse normal.

Sabrina abanou a cabeça.

-Catarina, isso é coisa de gente doida. Quem é que sai daquela sala suntuosa dela, para se enfiar naquele cubículo?

-Musa - disse Catarina, apontando para ela - eu vou morrer de saudades tuas. Mas a melhor coisa que fizeste na tua vida foi abandonar aquele hospício.

Fez uma pausa curta e acrescentou, quase saboreando:

-Ah, e o tal ás da consultoria? Ela já nem liga. Era tudo para te afrontar. Que maluca!

Sabrina respirou fundo. Não havia mais lugar para raiva, apenas distância.

-Que bom - disse apenas. - Problema resolvido sozinho.

-Eu ainda te vejo antes de ires embora?

-Que menina dramática! Vou para a ilha de Santiago, não para marte.

Riram alto.

            -Felicidade da tua namorada maravilhosa e dos teus amigos e nós que ficamos por cá...ah, nem vou concluir para não passar por carente.

Sabrina riu com vontade.

            -A musa de lá está a contar as horas para te ver...estou com uma certa inveja dela, não que eu queira beijar a senhora ou coisas desse tipo, Deus me livre de beijar amigas...

Sabrina quase se afogou de tanto rir.

            -Catarina, o que te deram no almoço? Estás doida, garota...mais doida ainda.

Risos.

            -E a menina por quem estavas apaixonada? Esfriou?

            -Nada...mas ela na Praia e eu aqui? Que futuro?

            -Aproveita que vou morar lá e passe uns fins de semana, casa já tens...

            -Não vais morar com a Fedra?

            -Não...a Fedra está com muita demanda no trabalho, mal temos conversado direito, não quero encher a cabeça dela com coisas que posso resolver sozinha...

            -Não sei se entendo muito bem, mas confio em ti. Vou sim visitar-te e ver se minha crush ainda quer alguma coisa comigo.

            -Como não?

Gargalhadas.

***

Sentada no chão, em meio a malas espalhadas pelo chão ainda por finalizar, Sabrina pensava nas voltas que sua vida dava. Sorriu ao imaginar que aquele cenário, há três meses, sequer lhe passaria pela cabeça. Sentia que precisava estar mais perto de Fedra, até para que a relação evoluísse para outro patamar, mas a falsa ilusão de ter uma vida estável na sua ilha, a mantinha presa no conforto de não ousar. A vida viera com seus movimentos nada subtis e a forçara a agir. Ao mesmo tempo que estava muito feliz por dar um novo rumo à sua vida e consequentemente à sua relação, não se sentia segura o suficiente para comunicar a decisão irrevogável à Fedra. Poderia parecer paradoxal, já que aparentemente, era um desejo de ambas. Fedra estava num momento muito intenso no trabalho, com muitas expectativas sobre o seu desempenho, tinha a filha morando com ela, as questões com a mãe, não queria ser mais uma preocupação. Iria sim, mas para tomar conta da própria vida e assim ter mais autonomia para decidir que rumo dar à vida sentimental. Queria tanto olhar nos olhos dela e dizer que tudo seria mais fácil. Acreditava piamente nisso, que estando juntas no mesmo território, a história ganharia mais força.

Olhava umas fotos delas juntas no telefone quando ele vibrou e na tela apareceu o nome que lhe provocava as melhores sensações. Sorriu sentindo o coração quente.

            -Meu bem - a voz de Fedra veio quente, quase sem fôlego. - Ainda bem que me atendeste.

            - Oi, meu bem - respondeu Sabrina, macia. - O que foi?

            -Precisei ouvir-te. Estou completamente esgotada - riu-se, mas sem disfarçar os nervos. - Bruxelas está a sugar-me a alma antes mesmo de eu chegar.

Sabrina fechou os olhos por um instante.

-Respira, meu bem. Tu aguentas, lembra que és muito boa no que fazes.

-Às vezes canso-me de aguentar - disse Fedra, sem rodeios. - Mas fala-me de ti. Diz que tens novidades.

Sabrina olhou em volta, o apartamento quase vazio, as malas ali no chão, escancaradas como uma verdade que não ia dizer inteira.

-Vou para a Praia! - disse, de uma vez. - Resolver umas coisas de trabalho.

Do outro lado, um silêncio curto e logo, a explosão.

-O quê?!  -Fedra quase gritou. - A sério? Estás a falar a sério agora?

Sabrina riu, contagiada.

-Estou!

-Sabrina... - a voz de Fedra mudou, ficou aberta, feliz. - Isso é incrível. Eu queria tanto isto, tanto. Esses dias têm sido tão desgastantes que tudo o que eu queria era chegar ao final e ter-te por perto. Sem aeroportos pelo meio, menos despedidas corridas...

-Eu sei - disse Sabrina, com doçura.

-Não sabes o quanto isso me alivia - continuou Fedra, acelerada. - Esta fase está-me a enlouquecer e pensar que tu vens para cá... meu Deus. Eu sei que não será por muito tempo, já que nunca é, mas ver-te, abraçar-te, vai me acalmar e tornar os dias menos desafiadores...

Sabrina sentiu um aperto familiar. Era ali que podia contar tudo, mas não contou. Sabia que Fedra estava cheia demais para segurar mais uma verdade grande. Ela precisava de acolhimento e não de mais um bombardeio de informação.

-Vai ser bom - disse apenas. - Para mim também.

Fedra respirou fundo do outro lado.

-Quando eu voltar de Bruxelas... - fez uma pausa. - Ainda vais estar aqui, não vais?

A pergunta veio nua, quase infantil.

-Diz que sim. Pelo amor de Deus, diz que sim.

Sabrina sorriu. Um sorriso inteiro, mas silencioso.

            -Sim - respondeu. - Não haveria sentido algum nessa conversa se eu não estivesse na Praia no teu regresso de Bruxelas, afinal viajas dentro de poucos dias e eu ainda estou em Mindelo.

            -Ah, desculpa essa minha cabeça agitada e sem coerência.

Riram juntas.

-Então está decidido, eu sobrevivo a Bruxelas e depois... depois nós falamos com calma. Estou tão feliz, Sabrina e com a sensação que tudo ficou mais leve....

-Eu também!

***

Finalmente a mudança tornou-se uma realidade. Numa manhã ensolarada de março, Sabrina desembarcou na capital, não mais para uma viagem pontual para resolver pendências, ou por um fim de semana para relaxar, viera para ficar.

O apartamento que Glória conseguiu era simplesmente maravilhoso. Luz a entrar sem esforço pelos cómodos principais, silêncio bom. Sabrina pousou a mala no chão e ficou alguns segundos parada no meio da sala, respirando.

Pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo raro: a vida estava a tomar forma. E, melhor ainda, ela estava no controlo.

-Isto é enorme - disse. - E é só meu!

-E lindo - completou Glória. - Um T1 como deve ser, não um buraco improvisado.

Foram até à varanda. O toldo filtrava a luz, criando uma sombra perfeita.

-Aqui dá para pintar - disse Sabrina, imediatamente.

-Nem sabias que terias uma varanda - sorriu Glória.

-Nem sabia que podia querer tanto.

Percorreu os espaços devagar, já a pensar nos detalhes que queria introduzir. Um tapete, uma estante ali, algumas plantas. Fotos, coisas com história...

Automaticamente, pensou em Fedra.

Ela ia adorar escolher isto comigo, pensou, sorrindo sozinha.

-A Fedra vai acabar por te puxar para casa dela - comentou Glória, num tom leve.

Sabrina riu, mas foi clara.

-Não agora. Quero cuidar da minha vida sozinha. Depois... depois vê-se.

Glória assentiu, respeitando.

-Ela chega depois de amanhã, não é?

-Sim!

O trabalho vinha-lhe à cabeça com entusiasmo genuíno. O projeto era grande, exigente, cheio de camadas. Ia obrigá-la a pensar, decidir, estruturar. Exatamente o tipo de desafio que a deixava viva. Sabia que ainda precisava integrar um engenheiro ambiental para uma fase específica, mas não havia desespero.

            -Ei, Sabrina, acorda. - Gloria ergueu uma garrafa de vinho. - Precisamos brindar à tua nova vida.

            -Brindemos!

Riram.

            -À tua nova vida!

Sabrina levantou a taça.

Bebeu com a certeza silenciosa de quem, pela primeira vez em muito tempo, escolheu o ritmo da própria história.

***

Sabrina olhava para os detalhes do apartamento que já tinha conseguido deixar um pouco mais com seu estilo, ao mesmo tempo que identificava o que ainda precisava comprar. O apartamento já vinha equipado com o básico para se viver, mas ela queria incrementar com toques que lhe dariam ainda mais conforto.

            -Preciso de uma cadeira confortável para o meu canto de leitura...ah cortinas blackout para o quarto, ou a minha mulher vai reclamar que acorda cedo demais. - Sorriu.

Pensava nela quando o telefone tocou.

            -Cheguei! - Disse Fedra sem preâmbulo. - Estás cá?

            -Claro, eu prometi que estaria...- Sabrina encostou-se à bancada da cozinha sentindo o coração acelerado.

Fedra suspirou de alívio.

-Quero ver-te hoje, mas com calma. Preciso chegar a casa, tomar um banho, beijar a minha filha, ver a minha mãe... e depois quero estar contigo, sem pressa. Para matar as saudades...

Sabrina sentiu o peito aquecer e outras partes também.

-Combinado!

-Jantamos juntas? - perguntou Fedra, já a antecipar o momento.

-Tenho uma ideia - respondeu Sabrina, num tom leve demais para denunciar o plano. - Conheci um restaurante novo, simplesmente maravilhoso.

-Sério? - Fedra riu. - Tu e os teus achados. Manda o endereço.

Sabrina enviou o endereço do seu apartamento.

Alguns minutos depois, o telefone tocou de novo.

-Ei... - disse Fedra, confusa. - Isto é um endereço residencial.

Sabrina riu.

-É...confia em mim.

-Sabrina... - Fedra hesitou. - O que é que tu estás a aprontar?

-Surpresa! Te espero mais tarde no endereço certo.

Riram com os corações aos pulos.

***

No inicio da noite, Fedra subia as escadas com o coração acelerado e a cabeça cheia de interrogações. A porta abriu-se sem que ela tocasse a campainha.

Olhou para a figura linda e tranquila de Sabrina e confirmou o que já sabia, queria aquela mulher na sua vida. Abraçaram-se e permaneceram.

Sabrina puxou-a para dentro e fechou a porta. Fedra observou detalhes particulares demais para aquele ser apenas um apartamento de passagem rápida. Olhou para Sabrina com olhos ansiosos. Ela sorria, calma.

            -Será que estou em delírio? Isto aqui me parece tão teu...o cavalete, aquele quadro do pintor da Etiópia...meu bem? - A ansiedade gritava no corpo de Fedra.

            -É...meu, por um bom tempo, é meu...- sorriu encostando-se na parede.

            -É? - Fedra olhava para tudo como quem procura uma confirmação.

            -É! Minha estada na Praia será mais longa dessa vez...

            -Tu mudaste de vida sem me dizer nada? - Os olhos de Fedra brilhavam.

            -Eu mudei de base. - Corrigiu Sabrina. - E já sabias que meus dias em Mindelo estavam contados...

Fedra percorreu o espaço devagar, tocando nas paredes, olhando os detalhes, absorvendo tudo. Em seguida, voltou-se para Sabrina e abraçou-a com força.

-Estou tão orgulhosa de ti que dói - disse, com a voz embargada. - Já disse que admiro muito a tua coragem? Entre tantas outras coisas...- Afundou o rosto no colo dela.

-Ainda falta pôr a minha cara nisto tudo - disse Sabrina. - E vou precisar de ajuda.

Fedra afastou-se ligeiramente, arqueando a sobrancelha.

-Estás a pedir ajuda ou a convocar?

-As duas coisas.

Riram, enquanto se olhavam cúmplices.

***

O jantar estava simples, mas impecável. Sabrina tinha caprichado tanto nos temperos certos, como na apresentação bonita. Cada detalhe denotava esmero. Fedra percebeu logo.

-Isto está maravilhoso - disse, provando devagar. - E tu ainda dizes que não tens todos os utensílios?

Sabrina riu.

-Ainda não tenho nem a metade do que preciso para dar show na cozinha.

Riram ás gargalhadas.

            -Podíamos comer sentadas no chão - respondeu Fedra, olhando para ela com carinho - que ninguém estaria mais feliz do que eu.

Sabrina riu alto, solta, como há muito não ria.

            -Como foi em Bruxelas, meu bem?

            -Foi desafiador, mas correu tudo bem. Esse trabalho às vezes me atropela...essa viagem, por exemplo, apareceu sem qualquer planeamento e...mas eu não quero falar sobre mim, o assunto mais importante agora é a mudança da minha namorada para a minha ilha, algo que confesso, ainda me deixa atordoada...

            -Por isso que eu não te disse nada...muito concreto. Eu sei que estás num momento mais intenso da vida no trabalho...

Fedra levantou-se, contornou a mesa e por trás abraçou-a, encaixando o rosto no ombro dela.

-Isto não é um sonho, pois não? - murmurou. - Não vais acordar amanhã às pressas para apanhar o próximo voo para Mindelo?

Sabrina virou ligeiramente a cabeça, sorrindo.

-Não. Pelo menos durante um ano, que é a vigência do projeto... vais ter de olhar para a minha cara todos os dias.

Fedra soltou um grito baixo de alegria e praticamente saltou para cima dela, enchendo-a de beijos.

-Tu és muito misteriosa, minha senhora - disse, entre risos. - Contaste tão por alto daquele encontro com a tua amiga e com o marido investidor... eu jamais imaginei que chegaria nisto.

Sabrina deu de ombros, tranquila.

-Eu não gosto de falar das coisas antes de serem fatos.

Fedra estreitou os olhos, provocadora.

-Nem para a tua namorada?

Sabrina sorriu, sem responder diretamente. Lembranças de palavras cuspidas por Lúcia no auge de seu descontrole, de que era um estorvo, um peso na vida das pessoas, fez com que decidisse que nunca mais ficaria com essa dúvida na vida.

-Eu quase morri de stress - continuou Fedra - a imaginar que podia voltar de viagem e não te encontrar aqui... e afinal, a senhora é a mais nova residente da capital.

-Acho que a senhora precisa relaxar. - Sabrina puxou-a para o sofá entre risos e beijos.

Na playlist e tocando em volume baixo, podia-se ouvir Fast like you (Hazlett).

            -Meu bem, precisamos brindar. - Sugeriu Fedra, beijando a boca de Sabrina.

            -Mais? Já quase secamos uma garrafa de vinho e amanhã cedo preciso estar em São Jorge.

Fedra fez uma careta dramática.

-Ai... como eu queria ir contigo. Mas o dever chama-me por aqui. Reunião de integração de dados... que chatice. Mas faz parte.

Riram juntas. Depois, silêncio bom.

Olharam-se.

Sabrina sorria leve, enquanto Fedra a observava demoradamente.

            -Não sei se é a saudade que quase me matou, mas estás ainda mais linda - disse Fedra, baixinho.

Sabrina corou e tentou disfarçar, mas não conseguiu. Fedra encostou-se ainda mais nela.

-É permitido apaixonar-me um pouco mais? - sussurrou. - E não me chames de doida...

Sabrina não respondeu com palavras. Puxou-a num beijo profundo, firme, cheio de saudade acumulada.

            -Eu quero mais...estou doida para te sentir em mim, meu bem...- balbuciou Fedra arrancando-lhe a blusa. - Não tem uma cama nessa casa? Não me convidaste, mas eu me ofereço para passar a noite contigo...se me quiseres...

            -Idiota! - Sabrina beijou-a com sofreguidão ao mesmo tempo que cheirava a sua pele com ansiedade.

            -Sabrina, estou com tanta vontade de fazer amor contigo que nem sei como me mantive tão bem-comportada...preciso honrar minha postura de mulher controlada...ou não?

            -NÃO! O que precisas é fazer o que fazes tão bem e permitir que eu brinque no meu parque de diversões favorito...até me cansar...

Entre risos, tropeços e mãos que se reencontravam, atravessaram para o quarto quase sem perceber. Sabrina ainda conseguiu murmurar, entre beijos:

-Esta cama... é perfeita. Depois quero saber a tua opinião...

A porta do quarto foi fechada devagar, e o resto foram sussurros da entrega de corpos que se queriam tanto...tanto...e cada vez mais.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Olá :)

 

Cuidei muito bem das minhas mãos durante a semana e elas resolveram cooperar :)

Escrevi o capítulo 30 hoje, o que as divas ( maõzinhas da Sam) não devem ter gostado muito, mas sigamos cada vez mais perto do fim dessa aventura. Já estou com saudades rsrsrs, mas preciso respirar para começar a pensar na minha próxima viagem ao mundo das letras.

Abraço a quem passar por aqui e um especial à Mteresa ( acho que é esse o nome) que vinha comentando sempre, parou no 24 e ontem, não só colocou a leitura em dia, como comentou em todos os capítulos. Muito obrigada


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 30 - Capitulo 30:
rebarlow
rebarlow

Em: 09/02/2026

E viva essas mãos que deram uma tregua para que nao nos deixasse orfãs de atualizaçoes sobre Sabrina, rsrs. Consegui recuperar minha senha aqui do site, amem! Agora da para comentar, alem da outra rede. 

E essa reviravolta de Sabrina, tão merecido. Estava ansiosa para o reencontro dessas duas, que quimica incrivel, que escrita que nos transporta... Apaixonada de carteirinha!!!

Beijos autora! :) 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 11/02/2026 Autora da história
Tu és a Regiane do facebook??? Que bom!!!!
Mãos ok e sinusite no ataque, vou te contar...ser fácil para quê mesmo? Kkkk o bom é que dou risada...depois de me stressar kkkk

Bendita terapia e bendita paixão pela Fedra e pela vida ???? nossa Sabrina desabrochou ????
Prometo entregar mais química até o capítulo final ???? ??
Bjs e muito obrigada


Responder

[Faça o login para poder comentar]

NovaAqui
NovaAqui

Em: 09/02/2026

Fedra está assanhadíssima kkkk

Sabrina! Resolva isso o mais rápido possível rsrsrs

Muito bom Vitória ter esse projeto. Empurrou de vez Sabrina para Praia.

Espero que Catarina acompanhe sua Musa. Termine logo esse estágio, menina, e vá logo para Praia

Boa semana nessa sua Terra Linda 

Que bom que você cuidou bem da sua mão!

Beijão procê ;-)

 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 11/02/2026 Autora da história
Kkkkkkk, ainda bem que ela está assanhada ????
Sabrina na Praia uhuuuu, vamos curtir o momento.
Cuidei da mão e a sinusite veio com tudo...essa é a vida, pelo menos a minha kkkkk mas a gente se vira ????
Bjs e muito obrigada


Responder

[Faça o login para poder comentar]

HelOliveira
HelOliveira

Em: 09/02/2026

Estou muito feliz junto com a Sabrina e Fedra, foi um momento contagiante...

Adorei


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 11/02/2026 Autora da história
Muito obrigada. Bjs



Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 11/02/2026 Autora da história
Muito obrigada. Bjs


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web