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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

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Palavras: 4485
Acessos: 450   |  Postado em: 01/02/2026

Capitulo 29

 

A semana decorria sem grandes sobressaltos, o que por si só já era motivo de alívio para Sabrina. Esteve todos os dias no escritório, cumpriu prazos, organizou pastas, deixou tudo alinhado como sempre fazia. Lúcia estafa fora do país numa missão de trabalho e para tranquilidade de Sabrina, nada de mensagens, e-mails ou qualquer outra tentativa de contato. O escritório sem a presença dela era quase um lugar normal. As pessoas pareciam adotar uma postura mais solta, Sabrina com certeza era uma delas.

Num desses dias calmos, Catarina apareceu junto à porta de Sabrina com dois cafés nas mãos e uma vontade intensa de conversar.

            -Musa...

            -Hmmm... - Sabrina continuou o que estava a fazer, sabia que Catarina quando começava a falar não tinha freios, ainda mais sem a presença controladora de Lúcia por perto.

            -Eu queria ser como tu, estou quase com uma leve inveja. - Fez uma careta arrancando risos de Sabrina.

            -Inveja de quê, garota?

            -Queria poder mandar esse lugar para...

            -Olha o vocabulário, estás em ambiente profissional.

Gargalhadas.

            -Olhando de fora parece simples, eu sei.  -Pensou um segundo. - Mas eu demorei anos a ganhar essa coragem.        

            -Imagino...mas o que vale é que foste perfeita e sem perder a classe. Musa, simplesmente, musa.

Sabrina riu com vontade.

            -Se queres mesmo saber, se não fosse a terapia e a minha relação com a Fedra - fez uma pausa breve. - Provavelmente ainda estaria tentando me caber onde não é o meu lugar.

Catarina ficou um pouco mais séria.

            -Tens muitas possibilidades longe daqui.  Podes dar aulas tanto presencial como remotamente, trabalhar noutras empresas de consultoria, abrir a tua própria empresa... - sorriu, ainda mais animada - até ir para o estrangeiro. Bem, isso só se fosses doida. Largar aquela mulher maravilhosa? Nem pensar.

Sabrina riu.

            -A ideia maluca foi tua.

            -Pois foi, mas já sabes que a estagiária às vezes fica com um parafuso a menos.

Gargalhadas.

***

Na quinta feira, aproveitando que Sabrina já não tinha muita coisa para fazer, saíram para almoçar com mais calma.

-Já reparaste -disse a Catarina, mexendo na salada- que quando a Lúcia não está, até a comida sabe melhor?

Sabrina sorriu.

-Reparei! Acho que poucas vezes almocei tão tranquila aqui perto.

Houve um silêncio curto, confortável.

            -Eu acho que ela não está bem...não sou terapeuta, psicanalista, mas é nítido o descontrole...- o tom de Sabrina era neutro.

Catarina passou algum tempo a refletir e quando respondeu fê-lo com cuidado.

            - Eu nunca te disse isto assim... -baixou a voz - mas acho que ela tem uma espécie de paixão doentia por ti.

Sabrina não se alterou.

-Paixão?

-Sim. Não romântica no sentido literal. -Fez um gesto vago. - Mas aquela coisa de querer possuir. De sentir que, estando no controlo, manipulando, diminuindo... é como se te tivesse.

Sabrina respirou fundo.

            - Não me interessa -disse, calma. -Não quero saber de mais nada que venha dela. Nem explicações, nem análises, muito menos jogos emocionais.

            -Então brindemos a isso. - Disse erguendo a taça.

Sorrindo, Sabrina ergueu a dela.

            -À liberdade e sobretudo, à sanidade.

***

Mais um dia em que Sabrina obedeceu à sua nova rotina, correr logo cedo na praia. O ar puro enchendo os pulmões e o corpo todo em movimento, dava-lhe a sensação de clareza e de possibilidades. Muitas vezes não pensava em absolutamente nada, limitava-se a apreciar a natureza no seu esplendor. Correu a praia toda com os pés afundando na areia, sem pressa, presente ao que estava a fazer e sem nenhum pensamento intrusivo das demandas do dia. Alongou-se junto à arrebentação e sem pensar muito, entrou no mar. A água gelada e viva despertou-lhe ainda mais os sentidos. Riu alto. Mergulhou, ficando debaixo de água alguns segundos a mais do que o habitual. De volta à superfície, respirou fundo, como que a libertar-se do que não precisava mais. Na areia, agora mais quente, sentou-se e permitiu que os raios do sol lhe secassem a pele, enquanto observava o quotidiano.

***

Final da tarde, depois da academia, Sabrina decidiu não regressar logo à casa. Não tinha nada de especial para fazer, alem de procurar um novo emprego, mas isso poderia fazer noite adentro. Entrou numa loja, depois noutra e não comprou nada de extraordinário. Uma camisa leve que queria há bastante tempo e nunca tinha tempo para entrar com calma numa loja, seu sabonete com cheiro de limão, que adorava e que deixava Fedra com os sentidos em alerta e um caderno para desenho.

Na loja de roupas, encantou-se com seu reflexo no espelho do provador. Catarina estava certa, seu semblante respirava leveza e consequentemente, ficava mais bonita. Sorriu enquanto pensava que mesmo com todas as incertezas em relação ao seu futuro, não trocava aquela versão de si com aquela que aparentemente tinha a vida sob controle.

Mais tarde, na quietude do seu apartamento, conversava com Fedra por vídeo chamada. Nada de muito especifico, apenas a manutenção do que vinham construindo com muita dedicação.

            -Hoje eu queria estar com essa leveza. Estou num dia caótico - Disse Fedra passando a mão pelo cabelo. - O trabalho exigindo muito de mim e ainda tenho de ir buscar os pratos prontos para o jantar da Malia.  Ufa!

Sabrina riu.

            -Menos mal que não és tu quem vai cozinhar. - Provocou, rindo.

            -Eu? Nem pensar. A ideia foi dela, apenas me ofereci para ajudá-la com a parte logística. -Suspirou. - Ela sempre faz esse jantar ou às vezes almoço, para os amigos que mantém desde a infância. E mais...

            -Hmmm?

            -Queria-te aqui comigo. - Sorriu cansada. - Tu tens esse dom irritante de me acalmar sem fazer nada.

Sabrina sorriu, encostando-se ás almofadas.

            -Eu sempre te faço companhia enquanto reclamas.

            -E isso ajuda tanto- sorriu. - Agora estou a correr de um lado para o outro, e ainda por cima a fingir que está tudo sob controlo.

            -Não precisas fingir comigo.

Fedra parou um pouco respirando fundo.

            -Estou totalmente no piloto automático...ainda bem que existes na minha vida, Sabrina. Só por esses minutos a olhar para a tua figura, minha adrenalina já baixou.

Sabrina sentiu o peito aquecer.

            -Depois me conta como foi o jantar.

            -Sabes que eu vou te ligar antes de dormir...conto sim, especialmente os dramas da minha menina. Ela fica doida quando inventa de fazer esse evento.

            -Eu vou estar aqui...como sempre.

            -Eu queria que esse aqui, fosse ao meu lado...pelo menos na mesma ilha...desculpa, meu bem...eu sei que prometi não ser chata e nem te pressionar, mas é que hoje estou um bocado carente.

Riram e cada uma acariciou a tela do telefone. Sabrina quase contou tudo o que estava a acontecer na sua vida, mas mais uma vez, achou que não era o momento. Fedra já tinha coisas demais na cabeça.

Continuaram a conversa com trivialidades, nada de extraordinário e exatamente por isso, precioso.

***

 A tarde no trabalho corria normal, e Sabrina sorriu ao se lembrar que faltavam apenas exatos dois dias para cumprir o seu contrato e dar um novo rumo à sua vida. E-mails fechados, pastas organizadas, uma lista curta de pendências que já não lhe dizia respeito.

Uma mensagem apareceu no canto da tela e não era apenas rotina. Respirou fundo, leu e releu tentando captar o tom.

Podes vir à minha sala um instante?

Sabrina franziu a testa. Lúcia tinha estado ausente a semana inteira e de alguma forma, já não a sentia por ali. Talvez fosse um erro, afinal, aquela empresa tinha os alicerces todos baseados nas ações dela.

Levantou-se para ir à sala dela e sorriu ao se dar conta que não precisava levar nada em mãos, nem bloco de notas, nem tablet, caneta, nada.

A sala de Lúcia estava igual, tudo em ordem, frio, milimetricamente no lugar. Ela levantou-se quando a viu entrar, forçando um sorriso aparentemente casual.

            -Senta-te! - Apontou a mão para a cadeira à frente da mesa.

Sabrina sentou-se.

            -Estás bem?

Pergunta de circunstância que Sabrina respondeu à altura.

            -Muito bem!

            -Esses dias em que estive ausente, passei a pensar um bocado e...lembrei-me de nós. - Encostou-se na secretária. -Daquela altura em que não passávamos de pirralhas.

Sabrina manteve sua expressão neutra.

            -Lembras-te quando tu andavas sempre de casa em casa? - continuou Lúcia, num tom quase nostálgico. - Nós achávamos aquilo o máximo, liberdade total.

            -Para mim nunca foi assim. - Disse Sabrina, sem dureza.

Lúcia sorriu não dando muita importância à revelação.

            - Pois, cada um sente à sua maneira. -Fez um gesto com as mãos. - Também me lembro das tuas apresentações, em que quase sempre não aparecia ninguém da tua família. Já eu, sempre estava lá...mais duas colegas... às vezes um professor.

Sabrina sentiu o desconforto subir, já conseguia identificar as nuances doentias de Lúcia.

            - Não é essa a memória que eu tenho - disse.

            -A sério? -Lúcia inclinou a cabeça. - Eu lembro-me bem de te acolhermos...de estares sempre um bocado sozinha.

A palavra sozinha foi colocada com cuidado excessivo.

Sabrina respirou fundo. Sua memória era outra, de um professor específico, de um apoio silencioso, firme.

            -Continua. - disse.

Lúcia pareceu encorajada.

            - Sabes o que sempre me intrigou? - disse, agora mais lenta. - Mesmo sem estrutura, mesmo sendo... rejeitada em tantos lugares... tu conseguias grandes feitos. - Sorriu, mas a expressão era vil. - Enquanto nós... eu... que tínhamos tudo, precisávamos de nos esforçar o dobro.

Houve um silêncio pesado.

-A vida não é muito justa - concluiu Lúcia.

A frase caiu como confissão.

Sabrina ouviu tudo como quem escuta uma língua que já não lhe pertence. Não havia raiva e sim distância. E, nessa distância, uma lembrança clara do que a sua amiga Vitória lhe dissera, meses antes, quase em tom de aviso:

Ela sempre quis tudo o que era teu. Mesmo quando parecia que tu não tinhas nada.

Sabrina levantou os olhos.

            - Sabes o que é curioso? - disse, calma. - Tu falas da minha vida como se fosse um privilégio, mas nunca perguntaste como era viver assim.

Lúcia crispou ligeiramente os lábios.

-Eu estava lá!

- Estavas a olhar como quem assiste a um filme -corrigiu Sabrina. - Não é a mesma coisa.

Fez-se silêncio, agora instável.

            - Eu sempre te admirei - disse Lúcia, rápido demais. - Sempre! Só quis ajudar-te a não desperdiçar o que tens.

            -A sério? - Sabrina recuou o corpo para trás como quem duvida.

Lúcia riu nervosa.

            -Sabes que sim...

            -Vejo algum exagero, Lúcia. - Sabrina encarou-a com olhos quase cínicos. - Tu confundiste proximidade com direito, conhecimento com posse, e quando percebeste que eu não era tua... tentaste reduzir-me.

            -Tu não sabes o que dizes. - Lúcia levantou-se de forma brusca.

            -Tanto sei. - Levantou-se devagar. - Que vou-me embora.

            -Calma, criatura. Senta-te e vamos conversar.

Sabrina sentou-se quase em câmera lenta.

                -Tu és forte -disse, agora num tom mais baixo, quase íntimo. - Sempre foste. Uma pessoa assim tem de se ter por perto.

Sabrina manteve-se sentada, as mãos pousadas nas pernas. Não desviou o olhar.

            -Tu não te quebras - continuou Lúcia. -E olha que eu já te vi no fundo do poço muitas vezes. - Sorriu de lado. -Tens até uma certa aptidão para te atirares para lá sozinha.

A frase foi dita como elogio, como se sobreviver fosse um talento exótico.

Sabrina sentiu o alerta apitar. Já reconhecia aquela linguagem...

            -Estive a refletir na minha ausência - prosseguiu Lúcia, animando-se. - Falei com os chefes e encontrei a solução perfeita para esquecermos este... - Revirou os olhos - este estremecimento.

Sabrina levantou ligeiramente o queixo, fingindo curiosidade.

            -O Heitor vai passar a coordenar as consultorias - disse Lúcia, quase triunfante. -E tu vens trabalhar diretamente comigo.

Fez uma pausa calculada.

            -Minha assessora pessoal, o que te parece?

A posse estava explicita demais para ser ignorada por Sabrina.

-Já estamos a preparar uma sala contígua à minha - acrescentou, embalada. - Vais cuidar exclusivamente dos projetos mais importantes. Nós duas, juntas.

Os olhos de Lúcia brilhavam. Não de ambição profissional, mas de posse antecipada.

Sabrina ouviu tudo como se alguém lhe estivesse a contar um sonho estranho. Um desses sonhos em que a lógica falha, mas a intenção é clara.

            -Podes repetir? - perguntou, com educação quase excessiva.

Lúcia repetiu, mais confiante, convencida de que estava a oferecer o mundo.

Sabrina levantou-se devagar, com uma leveza quase cruel.

-A minha decisão não sofreu qualquer alteração -disse. - Estou nos meus últimos dias aqui.

Durante um segundo, Lúcia pareceu não compreender.

-O quê?

            -Não vou ficar - repetiu Sabrina. -Sob nenhuma condição.

Algo estalou.

            - Tu és inconsequente! -gritou Lúcia, a voz já sem controlo. - Não tens noção do que estás a deitar fora!

Levantou-se bruscamente, a cadeira raspando no chão.

            -Sabes quantas pessoas matariam por esta oportunidade? -continuou esbravejando. - Eu estou a oferecer-te tudo! Proteção, poder, estabilidade!

Sabrina manteve-se imóvel.

-Tu vais arrepender-te - berrou Lúcia. - Sempre te arrependes! É assim que funciona!

Algumas vozes no corredor calaram-se. A porta permanecia fechada, mas o tom já não era contido. Não havia ali nada de profissional.

-Tu precisas de mim! - atirou Lúcia, quase sem ar. - Sem mim voltas ao caos!

-Não voltarei! - Soou clara.

Lúcia encarou-a com olhos arregalados. O corpo tenso como o de alguém que acaba de perder algo que julgava garantido.

-Isto não acaba assim - disse, num fio de voz.

Sabrina caminhou até à porta.

-Para mim, acabou há algum tempo.

Com a mão na maçaneta, virou o corpo e falou pela última vez:

            - Tu confundiste força com disponibilidade -disse. - E isso nunca foi amizade, nem liderança. Foi só controle.

Saiu.

Atrás dela, Lúcia ficou sozinha numa sala que, de repente, parecia querer sufocar-lhe.

 

***

Lúcia recompôs-se rápido demais. Alisou a blusa, respirou fundo, endireitou os ombros. Por fora, parecia funcional, mas o barulho na sua mente era ensurdecedor.

Saiu da sala e foi atrás de Sabrina, invadindo a sala dela sem bater.

Sabrina estava a arrumar a secretária. Cada movimento era calmo, preciso, como quem termina um ritual.

-Estás a cometer um erro enorme -gritou Lúcia, a voz a ecoar na sala pequena. -Um erro do qual eu não vou estar cá para te acudir quando tudo correr mal.

Sabrina não respondeu, continuou o que estava a fazer.

-Não penses que desta vez vai ser diferente -continuou Lúcia, agora num tom ainda mais alto. - Eu conheço-te e sei como a tua vida funciona.

Sabrina colocou um livro na mochila, ainda sem olhar na cara de Lúcia.

-Todos acabam por te abandonar -disse Lúcia, com veneno. - Sempre foi assim. Nunca foste prioridade para ninguém. És um estorvo.

A palavra caiu pesada, uma crueldade desnecessária.

-Foste um estorvo para o teu pai - disparou, sem respirar. -Que nunca quis saber de ti. Andaste de casa em casa e ninguém, absolutamente ninguém, se importou contigo.

A maldade era calculada milimetricamente. Lúcia queria ver o impacto, queria a reação dela que sempre se traduzia em quebra.

Sabrina encarou-a. Aquele teatro todo parecia-lhe algo muito distante da sua realidade, pelo menos aquela que começara a construir de forma consciente.

            - Só és boa no que fazes porque é a única coisa que te sobra -continuou Lúcia. - Fora disso, não és nada. Nada! E mesmo no trabalho, se não estiveres no lugar certo, com a orientação certa... metes os pés pelas mãos.

Sabrina pegou no porta retratos sobre a secretária, olhou a foto brevemente e guardou-o na mochila.

            - Lembras-te quando chegaste aqui? -insistiu Lúcia. -Eras uma desorientada, em crise emocional. Abandonada mais uma vez por uma mulher.

Riu-se. Um riso curto, ácido.

-Quantas já fizeram isso contigo, Sabrina? -inclinou a cabeça. - Ah, claro, perdeste a conta.

Sabrina levantou os olhos e dessa vez, não havia lágrimas, nem raiva. Havia distância absoluta. Como se estivesse a ver uma cena a acontecer do outro lado de um vidro grosso.

-Tens mesmo a certeza - disse Lúcia, agora num tom falsamente doce - de que essa relação com a Fedra não vai terminar como todas as outras?

Riu de novo.

-Todos vão embora, Sabrina. Todos! - Aproximou-se um passo. - As pessoas têm mais o que fazer. Ninguém tem paciência para crises emocionais, para dramas e quedas constantes.

Fez um gesto amplo com as mãos, como quem encerra uma verdade absoluta.

-Quem fica sempre sou eu - disse, quase triunfante. - Sempre fui.

Silêncio.

Sabrina fechou a mochila e colocou-a ao ombro. Só então falou.

-Isto que estás a fazer agora - disse, com uma calma que não pedia licença - é exatamente a prova de que eu nunca estive segura aqui.

Lúcia riu, nervosa.

-Estás a fazer-te de vítima.

-Não. - Sabrina encarou-a finalmente de frente. - Estou a sair inteira.

-Vais voltar - disse Lúcia, quase implorando, mas ainda tentando soar ameaçadora. - Sempre voltas.

Sabrina caminhou até à porta. Antes de sair, parou.

-Não, o que eu sempre fiz foi sobreviver. Agora é diferente.

Abriu a porta.

No corredor, algumas pessoas fingiam não ter ouvido nada. Outras tinham ouvido tudo. Catarina estava de pé, imóvel, os olhos arregalados. Sabrina passou por ela e pousou-lhe a mão no braço, um gesto breve, tranquilo.

-Está tudo bem.

E estava.

Atrás dela, Lúcia ficou na sala, respirando mal, rodeada de palavras que já não surtiam qualquer efeito. Pela primeira vez, Sabrina não ficou para tentar provar que valia a pena ser escolhida. E isso era o que Lúcia jamais suportaria perder.

***

Catarina não voltou imediatamente para a sua mesa. Andou pelo corredor como quem procura água, mas parou num ponto onde o vidro da sala de Sabrina fazia um ângulo perfeito. Um reflexo mínimo, invisível para quem estivesse lá dentro. Discretamente, olhou. Lúcia já não gritava palavras, mas contorcia o corpo. Atirou a cadeira contra a parede, varreu a secretária com o braço, pastas, papéis, um porta-canetas a estilhaçar-se no chão. Bateu com a mão no vidro, uma, duas vezes, o rosto desfigurado, irreconhecível. Catarina levou a mão à boca para abafar o grito que lhe subiu do estômago.

De repente, silêncio.

Lúcia passou as mãos pelo cabelo, respirou fundo, endireitou o blazer. Um segundo depois, abriu a porta e saiu altiva. Passo firme, rosto neutro.  Nem olhou em volta.

Catarina encostou-se à parede, o coração aos saltos, a imagem ainda colada aos olhos.

Sabrina, definitivamente tinha tomado a melhor decisão, pensou.

***

            -Se tivesses de resumir a semana em três palavras, o que te ocorreria? - Perguntou a terapeuta, sem tirar os olhos das suas anotações.

Sabrina pensou por alguns instantes.

            -Conclusiva...estranha e com algum barulho.

            -Estranha como?

-Como quando a casa está arrumada demais. Nada fora do lugar... e mesmo assim dá vontade de ir embora.

A terapeuta assentiu, como quem guarda a frase num lugar preciso.

-E quando pensas na Lúcia?

Sabrina encolheu os ombros.

            -Não penso muito. Não me abalou como poderia ter abalado antes.

-Mas?

Sabrina respirou fundo.

-Mas ficou uma espécie de ruído...a certeza de um lugar onde eu sei que não posso mais estar.

-Então não foi exatamente o que ela fez.

-Não. Foi o que eu precisava engolir para continuar ali.

A terapeuta levantou os olhos.

-O que exatamente engolias?

Sabrina demorou a responder.

-A sensação de que eu ocupava espaço demais. De que estava sempre... a mais.

-Um estorvo.

Sabrina sorriu de lado.

            -É, essa é palavra.

-Quando te sentes um estorvo, o que isso diz sobre ti?

-Que eu atrapalho...que exijo demais. Que o problema sou eu.

O silêncio caiu entre as duas, denso, mas não pesado.

-E o que queres fazer com isso agora? - perguntou a terapeuta.

-Ainda não sei. Só sei que preciso recomeçar e longe dali.

            -Recomeçar, para ti, soa mais como fuga ou como escolha?

Sabrina franziu a testa.

-Escolha, pela primeira vez.

-Escolher o quê?

-Um lugar onde eu não precise caber...onde eu seja sem esforço.

A terapeuta fez uma anotação curta.

-Já pensaste em ir para junto da tua namorada?

Sabrina riu, quase defensiva.

-Pensei, claro. Mas isso me assusta...

-Assusta por quê?

-Porque é bom, funciona. Porque não me pede que eu me diminua.

-Então o medo não é dependência - disse a terapeuta, calma. - É legitimidade.

Sabrina ficou em silêncio. Depois assentiu.

-Eu nunca mais quero me sentir um estorvo. Nunca mais quero ter de justificar quem eu sou para continuar num lugar.

-Se ficasses onde estás, o que estaria tentando provar?

-Que eu aguento.

-E indo embora?

-Que eu posso escolher.

A terapeuta fechou o bloco devagar.

-Não me parece que esteja a se sabotar. Me parece que queres viver uma vida que nunca teve espaço para existir.

Sabrina deixou o ar sair dos pulmões, como se só agora percebesse que o estava prendendo.

-É isso!

-E o que vem a seguir?

-Provavelmente outro lugar. Outra cidade, quem sabe outro país. E... - hesitou - talvez eu não possa mais vir às sessões.

-Há sessões online - disse a terapeuta, com um meio sorriso. - Mas, sendo honesta, talvez não precises por muito tempo.

Sabrina riu.

-Está a me dar alta? Nem brinques, eu ainda preciso demais desse suporte.

A terapeuta sorriu de um jeito que Sabrina não conseguiu decifrar.

-Vamos ver - disse apenas. - Algumas pessoas precisam menos do que imaginam quando começam a andar por escolha própria.

Sabrina levantou-se, pegou o casaco.

-Até à próxima semana.

-Até - respondeu a terapeuta.

Saiu com a estranha sensação de que não estava a abandonar nada. Estava, pela primeira vez, a ir em direção a si mesma.

***

Sabrina fechou a porta com cuidado, como se o apartamento pudesse acordar. Deixou a mochila no móvel de apoio e sem pressa, sentou-se à mesa e abriu o computador. Encarou a sua planilha financeira, com recibos, dívidas, extratos.

Somou as entradas, o saldo da conta corrente, mais o da poupança, subtraiu o que devia. Olhou para os meses possíveis. Não muitos, mas suficientes. O bastante para não implorar, o suficiente para não se trair.

-Dá, eu consigo! - murmurou, mais para si do que para os números.

Abriu outra aba, que atribuiu o nome, Praia. Procurou vagas, projetos, consultorias pontuais. Nada concreto, mas possibilidades. E, pela primeira vez em muito tempo, isso bastava.

Pensou em Fedra, não como fuga, mas como direção.

Pegou o telefone, hesitou um segundo. Depois ligou.

-Glória?

-Sabrina! - a voz veio alta, calorosa. - Estava a pensar em ti agora mesmo.

-Preciso de um favor, dos grandes.

-Diz.

-Começa a ver studios na Praia para mim. Pequenos, limpos e funcionais.

Houve um segundo de silêncio. Depois, uma explosão.

-O QUÊ? Mulher, vem já! Ficas comigo, resolvemos isso em dois tempos!

Sabrina sorriu, mesmo sabendo que Glória não a via.

-Não. Muito obrigada, mas não.

-Como assim, não?

-Ainda não sei quando vou, nem nada muito concreto. Só sei que vou e que preciso do meu espaço.

-Mas comigo também terias espaço...

-Teria companhia - disse Sabrina, doce, firme. - E agora eu preciso ficar sozinha. Mesmo estando perto de quem amo.

Do outro lado, Glória respirou fundo.

-Está bem. Entendo...e vejo que estás decidida.

-Estou!

-Fedra deve estar no céu.

Sabrina endireitou-se na cadeira.

-Ainda não disse nada a ela. Por favor, sigilo absoluto.

-Claro, claro. Desculpa. Ela está com a filha, não é?

-E atolada de trabalho. Na hora certa eu falo.

-Amiga...  -Glória baixou a voz - por que não vais morar com ela?

-Porque quero ficar sozinha.

-Sozinha...sozinha?

-Sozinha no meu espaço. Preciso desse tempo, dessa transição.

-Vais terminar com ela?

-Tu estás doida? - Sabrina riu. - Não. Nem pensar.

-Ah, bom. Sendo assim... - Glória sorriu do outro lado da linha, Sabrina sabia - - eu te apoio em tudo.

-Eu sei.

-Então combinamos assim: assim que eu encontrar algo pequeno, limpo e funcional, aviso-te. E acertamos os detalhes.

-Exatamente!

-Já vou começar a procurar agora mesmo. Vou encontrar o melhor studio para ti. À tua altura.

-Cuidado com exageros - Sabrina avisou, divertida.  -Sou uma mulher desempregada.

-Vamos corrigir essa frase: és uma mulher LIVRE! Sair das abas daquela mulher sombria é liberdade. E quanto ao desemprego, é por pouco tempo, anota o que eu digo. - Profetizou Glória.

Riram juntas. O riso que não resolve tudo, mas funciona como alavanca.

Quando desligou, Sabrina ficou alguns segundos a olhar para o telefone pousado na mesa. O medo estava lá, claro que estava, mas havia algo novo por cima dele. Coragem.

Não uma coragem grandiosa, heroica, mas a coragem simples de quem decide não ficar onde já não cabe.

Para celebrar, apertou o play na sua playlist de eleição e com o corpo em movimento e sorriso no rosto, dançou ao som de Starlight, dos Cannons. Noite adentro até cair no sofá cansada e feliz.

 

***

O telefone vibrou sobre a mesa, arrancando Sabrina de seus cálculos de reorganização financeira. Olhou o nome no ecrã e abriu um sorriso imediato.

-Vitória?

-A própria - respondeu a voz, viva como sempre. - Se eu não ligar, a senhora nem para se mover?

-Nem sabia que tu estavas por cá.

-Cheguei há uns dias. Escuta, vou passar a tarde no lounge do meu apartamento. Vem para cá, precisamos atualizar a vida.

Sabrina encostou-se à bancada, animada de um jeito quase juvenil.

-Adorava. Já não te vejo há algum tempo.

-Ótimo! Tenho vinho, uma excelente vista, e tenho tempo.

-Então está combinado.

Desligou ainda sorrindo. Penso na reação de Vitória ao saber que não estava mais sob o jugo de Lúcia. Livrei-me da Lúcia. E só Vitória entenderia o peso exato daquela frase. Tinham estudado juntas. Vitória sempre tivera aquele olhar clínico, aquela capacidade providencial de ver antes.

O telefone voltou a tocar. O sorriso desapareceu...

Era Lúcia.

Ignorou, deixando tocar até parar. Não era a primeira vez, nem a segunda. Havia dias em que Lúcia ligava como se nada tivesse acontecido. Como se ainda houvesse um fio invisível a puxar.

O telefone vibrou de novo. Mensagem. Sabrina nem abriu.

Entrou nas definições com um gesto decidido. Bloqueou o número, depois o WhatsApp e por último o e-mail. Um a um, sem raiva ou discurso interno.

Quando terminou, pousou o telefone na mesa e riu sozinha. Um riso leve, quase incrédulo.

-Já chega!

Foi para o quarto, tirou a roupa com calma, ligou o chuveiro. A água morna foi um carinho na pele. Fechou os olhos e sorriu. Tinha para onde ir, com quem estar e sobretudo, já não tinha quem a puxasse para trás.

Saiu de casa pronta para encarar a tarde e para o que viesse depois.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Boa tarde e boa leitura :)

Se eu não aparecer na próxima semana é porque a tendinite nas mãos que não me atacava há algum tempo, voltou com força total. Concluí esse capítulo na força da imprudência e da teimosia rsrs, enfim...

 

Abraço, Nadine


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Comentários para 29 - Capitulo 29:
mtereza
mtereza

Em: 08/02/2026

Como sempre capítulo intenso e maravilhoso  bjs e melhoras Nadine. 

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NovaAqui
NovaAqui

Em: 02/02/2026

Obrigada pelo carinho 

Seus romances são maravilhosos. Nos traz reflexões importantes.

A leitura flui levar

Obrigada por estar SEMPRE aqui nos presenteando com sua escrita 

Você é minha preferida, musa!

 

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NovaAqui
NovaAqui

Em: 01/02/2026

Não pode ser teimosa! Ai! Ai! Ai! rsrsrs descanse um pouco essas mãos. Ela é 50% da nossa vida kkkkk

Libertador! Ela conseguiu 

Meu coração chegou a disparar com a conversa delas! Foi tensa e revelou o lado sórdido da Lúcia 

Eu tenho medo que Lúcia faça algo contra elas! Trame alguma situação para expôr as duas. Ela é tão má que fico receosa

Fique bem 

Cuide-se 

Boa semana nessa sua Terra Linda 

Beijão 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 02/02/2026 Autora da história
Teimosia é meu segundo nome rsrsrsrs, mas estou a me cuidar. Nada de exageros e se não der para escrever, tudo bem. Quem me acompanha há muito tempo, sabe que eu posso até demorar, mas nenhuma história minha fica sem fim ;)
Que bom que consegui passar toda a loucura da Lúcia nas cenas delas. Sabrina é diferenciada, aliás, modéstia a parte, eu a construi bem e a reação dela mais passiva soou verdadeira. Eu no lugar dela, cruzes...
A história está caminhando para o fim, pelo menos a minha parte nela rsrsrs, mas ainda tem umas coisinhas para acontecer.
Muito obrigada pelo carinho de SEMPRE. Quero que saibas que das muitas vezes que pensei em desistir de postar essa história aqui, só não o fiz por lembrar da tua fidelidade em sempre estar presente e quase sempre ser a primeira a comentar. Muito obrigada.
Fique com Deus


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HelOliveira
HelOliveira

Em: 01/02/2026

Estou orgulhosa e feliz pela Sabrina....

Lucia não desiste fácil hennn..

Melhoras e volte quando estiver bem


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 02/02/2026 Autora da história
Que bom! É Lúcia é dura na queda e louca de pedra rsrsrs, mas acho que a Sabrina já aprendeu a se defender.
Muito obrigada pela atenção com a saúde das minhas mãos e também por sempre estar aqui. Valorizo muito isso :)
Abraço


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