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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

Ver comentários: 4

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Palavras: 4104
Acessos: 535   |  Postado em: 25/01/2026

Capitulo 28

 

Sabrina regressou de seus dias maravilhosos que mesclaram momentos de celebração e algum descanso, com a sensação de leveza nos ombros, calma na alma. No escritório, à exceção de Catarina, os demais colegas pareciam sombras pelas quais passava sem se conectar. Manteve a mesma educação de sempre, mas algo havia mudado, talvez fosse ela...

Tinha a estranha perceção de que o escritório estava menor e não era apenas no espaço. Sua sala, antes acolhedora, agora causava-lhe alguma claustrofobia, mas nada que lhe impedisse de dar o seu melhor.

Lúcia continuava com a estratégia sem sentido de lhe dar trabalhos menores, mas ela não discutia. Fazia tarefas de estagiários com o mesmo empenho que a elevara a uma técnica sénior e seguia o ritmo. Tudo bem feito, no prazo e sem qualquer reclamação.

Por seu lado, Lúcia aguardava um rompante de Sabrina, talvez um pedido de reunião privada para discutir as tarefas, sua forma muito peculiar de demonstrar insatisfação, e nada. Ela seguia concentrada, leve, quase fria. Mas aquela aparente tranquilidade não poderia continuar, precisava testar seu veneno, ou nada faria sentido...

***

            -Sim, Lúcia! - Sabrina entrou na sala de Lúcia atendendo a um chamado.

            -Fecha a porta. - Pediu num tom neutro.

Sabrina manteve-se de pé.

            -Ando tão ocupada que ainda não pude me reunir contigo para alinharmos as expectativas para o novo ano. Aquelas mais nossas, entendes?

            -Hum-hum...- Sabrina não entendia que expectativas eram aquelas, mas não estava com a menor paciência para entrar nos jogos de Lúcia.

            -Apesar da minha correria, notei que estás diferente. - Encostou-se à cadeira, cruzando os dedos perto da boca. - Talvez menos envolvida...

            -Estou bem! - Disse Sabrina ainda de pé e com expressão inalterada.

Lúcia sorriu, aquele sorriso de canto de boca e que nunca chegava aos olhos. Sabrina já o conhecia muito bem...

            -Às vezes, quando a vida pessoal flui muito bem, temos a tendência para desfocar de outras áreas...

Fez-se um breve silêncio.

            -Como sabes, o trabalho aqui exige foco e dedicação exclusiva. - Passeou o olhar como um raio x por toda a figura de Sabrina.

            -Tenho cumprido tudo. - Sabrina era concisa e não dava munição à Lúcia.

            -Sim...mas não é só isso...

A frase ficou a pairar no ar e Sabrina fingiu não entender. De propósito. Queria ver mais do que antes não entendia.

            -Tu sempre foste intensa, lembras-te? - Continuou com a dança do olhar sobre Sabrina.

Sabrina encarou-a.

            -Tens a tendência a levar tudo para dentro...nem toda a gente aguenta a tua profundidade...

Diante do silêncio de Sabrina e fingindo casualidade, Lúcia mirou no seu alvo.

            -Sabes, a Fedra parece ser uma mulher muito equilibrada...

Sabrina agitou-se pela primeira vez, mas disfarçou bem.

            -Falas como se a conhecesses intimamente...

            -Intimamente não, mas sei o que lemos por aí e se analiso por ti, pela tua postura, percebo o efeito...não se pode negar que tens mudado muito...

Fez uma pausa breve e calculada.

            -Ela sabe como te comportas quando não estás bem?

A pergunta feita num tom leve, atingiu Sabrina como lâmina fina na pele.

            -O que queres dizer com isso? - Sabrina ainda se mantinha calma.

Lúcia inclinou ligeiramente a cabeça.

            -Tu sabes... as tuas fases, as dúvidas, a tendência em achar que o mundo está a te atacar...

Sabrina sentiu o corpo enrijecer, não de medo, mas de reconhecimento. O jogo agora era claro...

            -A Fedra me conhece...

            -No início é assim - disse suave. -Depois vem o resto...

Silêncio.

            -Mulheres como ela gostam de relações sem complicação - Continuou. - Leves. Não sei se ela está preparada para a tua complexidade.

            -Mais algum assunto sobre trabalho? - Sabrina fervia por dentro, mas aparentava uma calma irritante.

            -Não...nada. - Desviou o olhar para a enorme tela à sua frente.

Sabrina saiu com o estômago embrulhado e a mente clara.

***

            -Estás com um quê a mais de felicidade na voz. - Sabrina sorriu fechando os olhos.

            -Ah, tu agora me lês até pelo tom de voz...que perigo. - Fedra riu. - Mas, mais uma vez estás certa. Estou ainda mais feliz porque a Malia veio passar uma temporada com a mãe.

Sabrina riu com gosto.

            -Essa tua versão mãe coruja é inédita e encantadora. - Provocou.

            -Ah para...mas sim, sinto falta dela e não nego que às vezes sinto um leve ciúme quando ela chega e corre logo para debaixo das asas da dona Gracelina.

Mais risos.

            -Fedra e suas nuances...

            -Pois...e tu, meu bem? O que contas?

Sabrina pensou na conversa com Lúcia e na sua tentativa de desestabilizá-la, mas decidiu não quebrar aquele clima leve. Precisava resolver seus problemas sozinha...

            -Estou bem...já sabes o trabalho como é e não melhora...

            -Já te disse a minha opinião...

            -Eu sei. Estou a processar minha próxima atitude.

            -No teu tempo, só espero que não demores muito tempo longe de mim...eu sei, eu sei que pareço uma carente e nada condizente com a Fedra chefe de um escritório e...

            -Nada condizente - Sabrina interrompeu-a e riu alto. - Mas eu adoro essa versão...também.

Riram muito.

            -É sério...sinto saudades que às vezes me parecem exageradas...estivemos juntas há bem pouco tempo...

            -Então somos duas exageradas e sem noção. - Riu feliz. - Eu daria tudo para estar agora deitada no teu sofá à espera do momento certo para te atacar com beijos e me perder na tua beleza...

            -Ai Sabrina...se eu começar a falar de saudades...

            -Fale...

Ambas soavam como uma bela melodia...a conversa fluiu noite adentro...

***

Sabrina olhava para Catarina enquanto ela falava sem parar e agradecia pela leveza daquela menina. As histórias dela eram sempre muito engraçadas e a forma como encarava a vida, uma inspiração.

            -E então, qual é a dificuldade? Até agora só vi olhinhos brilhando e um sorriso escancarado. - Brincou Sabrina.

            -Musa, como não vês dificuldades? A moça linda mora na Praia...eu juro que não acreditei quando aquela menina olhou para mim. Estava descabelada, como uma roupa nada a ver e irritada com o meu primo que só fez porcaria nessa bendita viagem...ela me achou interessante...

            -Mas tu és interessante, com roupa bonita ou não, descabelada ou com esse cabelo maravilhoso que estás hoje...tu és muito bonita, sua maluca.

            -Ouvir isso de uma musa é qualquer coisa...

Gargalhadas.

            -A moça bonita estava de férias em Santo Antão?

            -Estava...cinco dias e eu fiz o impossível, que foi me apaixonar. Mas a bandida provocava...meu Deus, eu me dei conta que não sou nada atacante como achava...

            -Atacante?

            -Oh musa, precisas de atualização no vocabulário.

Gargalhadas.

            -Atacante é quem sabe o que quer e não deixa seus créditos em mãos alheias...eu achava que era desse tipo, até conhecer a Kátia...nossa senhora, estou bamba até agora.

Sabrina riu como há muito não fazia.

            -Então a atacante mora na Praia, mas qual é a dificuldade? Praia é logo ali...

            -Sabrina, estou bem longe de ganhar o que tu ganhas e minha atacante não é tão poderosa como a diva com quem a senhora namora. Vocês podem ir e vir quando quiserem. Já eu...viste os preços das passagens?

Sabrina riu tanto que levou a mão à barriga contraída.

A leveza era tanta que não notaram a chegada de Lúcia.

            -Catarina, não tens nada para fazer? - Ela sorria, mas o olhar era gélido.

Sem dizer uma palavra, Catarina deu meia volta e saiu dali.

            -Que animação...engraçado que não te vejo tão espontânea assim com outros colegas e olha que já te conheço há bastante tempo...

Provocação clara que Sabrina já entendia sem que lhe despertasse a vontade de retrucar.

            -Algum projeto novo? Não vi nada na plataforma...- usou de sarcasmo, já que há vários dias não havia demandas desse tipo em seu nome.

            -Trabalho, não...vim cá como tua amiga. Estive a pensar que se a Fedra te conhecer como eu conheço...o que quer que vocês tenham, não vai durar.

Sabrina arregalou os olhos como se a visse pela primeira vez, sem mascaras, com uma nitidez inequívoca.

            -A minha vida pessoa não é para aqui chamada. - Disse num tom baixo, mas assertivo.

Lúcia riu.

            -Estou só a tentar proteger-te. - O tom condescendente beirava o cinismo.

            -Não! Estás a ultrapassar os meus limites.

Houve um silêncio denso.

            -Parece que já não falamos a mesma língua...- o tom de Lúcia agora era de uma ameaça velada.

            -Há muito tempo que essa realidade instalou-se...se é que alguma vez chegamos a falar a mesma língua...

            -Talvez aqui já não seja o teu lugar - Disse num sussurro demonstrando algum descontrole.

Sabrina assentiu colocando-se de pé.

            -Apesar de não falarmos a mesma língua, cheguei à mesma conclusão.

Deslizou a cadeira para trás, pegou a mochila e o telefone, passou por Lúcia e deixou a sala. Sem grandes estardalhaços ou uma discussão mais acalorada.

Atordoada, Lúcia escorou-se na secretária. Depois de respirar fundo algumas vezes, posicionou-se altiva à espera do retorno de Sabrina. A espera foi em vão...alguma coisa tinha quebrado.

***

O consultório da terapeuta que muitas vezes pareceu-lhe uma antessala do inferno, agora era apenas um lugar como outro qualquer. Aguardou a sua vez para ser atendida rabiscando um desenho no bloco de notas que sempre levava na mochila.  Na sala de atendimento, sentou-se ereta na poltrona, sem aquela sensação de fuga iminente.

            -Como estás hoje? - Perguntou a terapeuta.

            -Sinto-me mais lúcida.

A terapeuta anotou algo.

            -Conta-me.

Com calma, Sabrina cruzou as pernas, apoiou as mãos nos joelhos.

            - A Lúcia voltou a testar limites. Quando percebeu que o trabalho já não me desorganizava, foi buscar o que conhece de mim. Não o que observa, mas o que eu lhe contei em intimidade...como desabafo.

            -Isso é importante, explica-me melhor. - A terapeuta pousou a caneta.

            -Conhecemo-nos há muitos anos...desde o tempo da escola - Disse Sabrina sem peso. -Nos perdemos por algum tempo e num período mais sóbrio da minha vida, ela me ajudou. Eu confiei nela e acabei por desabafar...sem contar que ela já conhecia minha dinâmica familiar nada saudável. Recentemente, contei-lhe coisas de uma relação anterior...aquela em que me perdi um bocado de mim. Me expus completamente, todas as minhas fragilidades sobre a mesa...do medo de repetir padrões, da sensação de nunca merecer um lugar importante...- Respirou fundo.

Silêncio.

            -Ela guardou tudo. - Disse a terapeuta.

            -Tudo devidamente catalogado - o tom não era amargo. - Usa quando precisa de vantagem. Na realidade sempre usou, só que antes eu achava que era preocupação.

            -E agora?

            -Agora vejo um padrão...um método.

A terapeuta inclinou-se ligeiramente.

            -E como foi usado desta vez?

            -Trouxe a Fedra para o centro da conversa - Sabrina respirou fundo, sem pressa. - Insinuou que eu sou difícil, paranoica, intensa. Palavras que ela sabe que me tocaram noutras fases. Depois fez referência, velada, à minha relação antiga, como se dissesse: já falhou antes, pode falhar outra vez.

            -Isso ativou o quê em ti?

Sabrina pensou por alguns minutos. Queria ser verdadeira, principalmente com ela mesma.

            -Há algum tempo ativava vergonha, um quase desespero para provar o contrário. - Fez uma curta pausa. - Desta vez, não.

            -O que mudou?

            - Eu percebi que ela não estava a falar comigo. Tentava acordar uma versão minha que já não governa.

A terapeuta assentiu lentamente.

            -E conseguiste evitar?

            -Sim, porque reconheci o padrão - Sabrina ergueu ligeiramente os ombros. - Quando alguém usa a tua história contra ti, não é intimidade...  é perversidade.

Silêncio.

            -Disseste que ela sempre fez isso, que agora és capaz de reconhecer. O que te impede de voltar a cair?

            - Hoje eu sei que conhecer-me não dá a ninguém direito de me controlar. - Sabrina falou com firmeza serena. - O que contei num contexto de confiança não pode ser usado fora dele. Se é, o vínculo acabou.

            -E o trabalho?

            -O trabalho foi apenas o palco - Sabrina sorriu de lado. - O problema nunca foi profissional, foi de relacionamento. E isso, ali, já não tem solução.

A terapeuta pousou a caneta de vez e encarou-a.

            -Então não estamos a falar de resistência?

            -Não. - Sabrina olhou para a janela. - Estamos a falar de saída.

            -O que te faz ter certeza?

            - Porque desta vez não fiquei confusa. Não me martirizei com dúvidas e nem tentei me explicar para quem quer que fosse. Não perdi tempo tentando entender a Lúcia. - Voltou-se. - Apenas observei e tomei nota.

            -Isso é maturidade emocional. - Concluiu a terapeuta.

            -Ou economia de energia. - Disse sorrindo.

No fim da sessão a terapeuta reiterou:

            - Quando alguém usa a tua história como arma, o lugar deixa de ser seguro. Não precisas de provar mais nada.

Sabrina levantou-se para deixar a sala. À porta, parou um instante.

            -Sabe o que mais mudou?

            -O quê?

-Antes eu achava que sair era perder. - Pensou um segundo. - Agora sei que ficar seria repetir.

Chegou à rua com passos normais, sem euforia ou tristeza, apenas com a clareza de quem não confunde passado com destino.

***

A decisão que com certeza mudaria algumas peças no tabuleiro que era a sua vida, não chegou de sobressalto. Veio numa manhã banal, em que nada parece ser muito importante. Analisou a plataforma de projetos e não havia nada de relevante sob sua responsabilidade, em contrapartida, sobre a sua mesa havia mais de 5 trabalhos que conseguiria realizar de olhos fechados e em menos de um dia trabalho. Queria mais, podia muito mais e estava cansada de fingir que aquele jogo não a atingia. Respondeu dois emails mais importantes, fechou um documento e em seguida passou alguns minutos olhando para a tela apagada do computador. Não havia mais voltas a dar, era o fim.

Levantou-se com calma, saiu do seu espaço e entrou na sala de Catarina que ficava quase em frente.

            -Tens um minuto?

Catarina sorriu empurrando a cadeira para trás e já se levantando.

            -Para ti, todos!

Foram até à copa, o espaço pequeno onde se sentiam à vontade para as conversas importantes ou nem tanto. Sabrina encostou-se ao balcão, braços soltos.

            -Não vou renovar o contrato! - o tom era sereno.

Catarina piscou os olhos várias vezes.

            -A sério?

            -A sério!

Não havia drama na voz, nem alívio exagerado. Era apenas um fato.

Catarina respirou fundo, depois sorriu com aquele sorriso que misturava orgulho e preocupação.

-Faz sentido. - Fez uma pausa. - E... o que vais fazer?

Sabrina encolheu os ombros.

            -Ainda não sei ao certo.

            -E isso não te assusta?

Sabrina riu, leve.

            -Não, o que me assusta é passar mais um ano da minha vida nesse manicómio disfarçado de grande empresa...e, de fome eu não morro. - Sorriu aliviada.

            -Isso eu sei, estou para conhecer alguém com mais talento do que tu...e a sagacidade? Tu és muito boa, Sabrina. Esse povo não sabe o que perde...

            -Eles não ligam nenhuma...sempre haverá alguém para fazer exatamente o que querem. Para mim, é o fim da linha.

            -Essa Lúcia...que mulherzinha mais baixo astral.

            -Catarina, a Lúcia é o que é, mas hás de concordar comigo que ela tem validação do sistema. O que ela faz comigo em relação à delegação de tarefas, é visto por mais gente e ninguém disse absolutamente nada. Ou ela é mais poderosa do que sabemos, ou a perversidade é natural por aqui.

            -Posso dizer uma coisa meio parva?

            -Vá lá, garota, faça-me rir.

E riram.

            -Não sei como, mas estás ainda mais bonita. Como é que consegues? Eu se estivesse na tua situação estaria com olheiras, dor no estômago, acabada. - Fez um gesto maluco arrancado risada de Sabrina.

            -Deve ser falta de peso morto!

Abraçaram-se rápido, não era uma despedida. O contrato de Sabrina ainda duraria por mais duas semanas.

Saindo dali, Sabrina dirigiu-se ao departamento de Recursos Humanos. Limitou-se a comunicar a sua decisão de não renovar o contrato, frisando o aviso com alguma antecedência para que pudessem cuidar da transição em tempo útil.

***

Depois do almoço, enquanto organizava alguns dossiers na quietude da sua sala, Sabrina sentiu o ar ficar mais pesado. Respirou fundo, sabia que Lúcia acabara de invadir a sua calma. Virou-se para a porta e lá estava ela com uma expressão de ataque.

            -O que é isso?

Arremessou um pedaço de papel sobre a mesa. Com movimentos lentos, Sabrina percebeu que era um email impresso, a comunicação de sua rescisão.

            -O quê? - Provocou.

            -É isso mesmo? Não vais renovar?

            -Sim, mas eu acredito que apenas adiantei o inevitável. Não sou mais útil para a empresa. - Sabrina estranhou sua própria ironia, mas gostou da expressão que viu nos olhos de Lúcia.

            -Estás a brincar comigo e já adianto que escolheste a pior hora. -  A expressão de incredulidade na face de Lúcia era quase cómica.

            -Lúcia, eu não tenho tempo para brincadeiras.

            -Depois de tudo o que investi em ti? - a voz alterou-se.

A palavra investi caiu pesada demais.

Sabrina respirou fundo.

            -O contrato termina daqui a duas semanas, e eu decidi não continuar.

Lúcia aproximou-se mais do que devia.

            -Isso é por minha causa?

            -Não! - respondeu sem hesitar. - É por mim.

Foi a frase certeira para destruir de vez a postura altiva de Lúcia.

            -Sabes o que estás a fazer? - disse, a voz mais alta. - Sabes quem tu és sem este lugar?

O tom de voz era tão alto que as pessoas do lado de fora passaram a prestar atenção à cena. Catarina ergueu-se ligeiramente na cadeira para acompanhar melhor.

            - Eu conheço-te - continuou Lúcia, gritando. - Conheço as tuas fragilidades. Sabes muito bem como acabas quando achas que és maior do que és.

Sabrina caminhou para perto dela.

            -Isso que estás a fazer agora - disse devagar - é exatamente a razão pela qual eu vou embora.

            -Não sejas ingrata - atirou Lúcia. - Eu estive contigo quando ninguém mais estava.

            -É bastante controverso, mas ainda que tenhas estado, isso não te dá o direito de posse.

A palavra posse caiu como uma bomba.

            - Tu não vais encontrar melhor - disse Lúcia, já sem disfarce. - Vais arrepender-te. Sempre te arrependes e corres para pedir socorro. Foi assim nos tempos de escola quando o teu pai bêbado e descompensado inventava algo novo para fugir da vida e de ti, e não mudou nada todas as vezes que meteste os pés pelas mãos com essa tua forma insana de viver a vida. - Vociferou.

Sabrina pegou sua mochila e com passos decididos parou em frente à Lúcia.

            -Talvez. -Olhou-a com calma. - Mas isso já não te diz respeito.

Virou-se e saiu, deixando atrás de si um silêncio que pesava na cabeça de Lúcia.

Ela ficou parada, respirando mal, os olhos fixos naquele espaço vazio onde Sabrina costumava estar. Não era raiva apenas, era algo mais confuso. Perda misturada com controlo falhado, afeto distorcido com necessidade de domínio. Num impulso doido, arremessou tudo que estava ao seu alcance.

Do outro lado da sala, algumas pessoas que assistiam à cena, retomaram rapidamente seus afazeres com medo daquela versão descontrolada da chefe.

Na sua sala, Catarina deslizou o corpo na cadeira e com um sorriso, pensou alto:

            -Minha musa saiu inteira e de forma triunfal. - Riu esfregando as mãos.

***

Sabrina saiu do edifício como quem atravessa uma porta invisível. Não havia sensação de vitória e sim, leveza. Uma leveza quase suspeita, como se o corpo tivesse desapertado algo que ela nem sabia que estava contraído.

Entrou no carro com a sensação de que se abrisse os braços, levantaria voo. Como se acelerasse um pouco mais, o carro deixasse de tocar o chão. Riu sozinha. Depois ficou em silêncio. De repente riu alto batendo com força as mãos no volante do carro.

Arrancou o carro sem planos. Não os tinha de todo e pela primeira vez isso não vinha acompanhado de um medo atroz.

Foi dirigindo sem destino claro, deixando a cidade passar como se a estivesse a ver pela primeira vez. Em alguns pontos da bonita cidade do Mindelo, ria de novo, do nada. Noutros momentos, apenas respirava, sentindo o próprio corpo inteiro, presente.

Quando percebeu, estava a caminho da praia do Norte. Aquela que quase nunca escolhia porque dava trabalho. O sol já começava a descer, largo, dourado, quase um atentado de tão bonito.

Estacionou e sem pensar muito, tirou os sapatos ainda antes de fechar a porta do carro. A areia estava fria e viva. Havia algumas pessoas por ali, casais, silhuetas dispersas, mas a única que importava era ela mesma. Começou a andar, depois a caminhar mais depressa, até que desatou a correr em direção ao mar.

Entrou no mar vestida, rindo e pulando de alegria. A água gelada arrancou-lhe um grito que não pediu permissão a ninguém. Um grito alto, aberto, de felicidade pura. Mergulhou na onda forte. Deixou-se ficar naquela força da natureza, a roupa colada ao corpo, o cabelo pesado, coração disparado.

Quando saiu, riu como há muito não ria. Riu até ficar sem fôlego. Sentou-se na areia molhada, abraçou os joelhos e ficou ali até o céu começar a escurecer. Observou o horizonte alaranjado como quem pede desculpas por tantas vezes ter passado por ele distraída. A beleza sempre esteve ali, ela é que não.

Já em casa, ainda com cheiro a sal na pele, pensou em ligar para a Fedra. Pegou no telefone, já imaginando a voz e o sorrido dela do outro lado. A vontade de contar tudo era grande. Contudo, decidiu que não era o momento. Precisava estar com a mente mais clara sobre o que fazer dali para a frente e também não era uma conversa para se ter com uma ligação apressada.

Mas precisava extravasar e a pessoa ideal era Glória. Ligou para ela.

            -Fiz uma coisa hoje...- Riu.

            -Pediste a Fedra em casamento?

Gargalhadas altas.

            -Tu estás doida? Mais doida ainda?

            -Ah, mas se não foi isso, foi algo tão bom, quanto. Sinto pelo teu tom de voz.

            -Não vou renovar o contrato.

Houve um segundo de silêncio. Depois, a explosão.

-FINALMENTE! -gritou a Glória. - Eu Sabia! Olha, já sabes, se quiseres vir para cá, tens casa, apoio, plano B, C e D. - O entusiasmo dela era quase palpável.

Sabrina riu.

            -Agradeço, sei que posso sempre contar contigo.

            -Sabes que sim, sempre. Embora hoje em dia, devas preferir o apoio da namorada. - Provocou.

            -Na realidade, quero decidir as coisas por mim, sozinha. Peço-te que não comentes nada com a Fedra. Ela vai saber, claro, mas no momento certo...

            -Claro! Estás coberta de razão. Antes fugias, agora sinto que há uma estratégia estruturada.

Riram juntas. Daquelas risadas que limpam o peito.

Mais tarde ligou para Fedra, não para contar as novidades, apenas para estarem juntas.

            -Estava a pensar em ti. - Disse Fedra com a voz melodiosa.

Sabrina sorriu.

            - Estou com saudades tuas. Daquelas que dão vontade de atravessar o mar.

Houve um pequeno silêncio do outro lado. Um silêncio bom.

            -Continua - Estimulou Fedra. - Adoro quando tens ansiedade na voz...meu corpo se arrepia e dá uma vontade quase doida de correr para a tua ilha.

Sabrina riu, mordendo o lábio.

            - Então vem. -Baixou a voz. - Porque eu estou no melhor lugar da minha casa e queria-te aqui.

            -Que seria...- O tom de Fedra era quase um sussurro.

            -Minha cama...claro. - Sabrina sorriu apertando as pernas.

            -Ah, Sabrina...não vale...não vale...que vontade de estar na tua cama...e nem posso me expressar como gostaria. Minha filha está logo ali preparando uma omelete para o nosso jantar. - Sussurrou.

Sabrina riu alto sentindo a pele da face arder. Não cessou a provocação imaginando as expressões de Fedra e morrendo de vontade de estar perto. Passaram alguns minutos ao telefone a se curtirem como dava, livres e felizes.

Para Sabrina, pela primeira vez em muito tempo, a liberdade não parecia um salto no escuro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do capítulo


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Comentários para 28 - Capitulo 28:
mtereza
mtereza

Em: 08/02/2026

Bravo ! Bravo ! A Sabrina finalmente se libertou das perversidades da cobra Lúcia amei o capítulo 

Responder

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brunafinzicontini
brunafinzicontini

Em: 30/01/2026

ALELUIA!!! Um capítulo para "lavar a alma"!!! Parabéns à Sabrina! Fez a nossa alegria!

E parabéns a você, querida autora, que nos brinda com tudo o que sempre admiramos na sua escrita - uma imaginação rica, descrição muito bem feita de tudo, de situação, de lugares, do enredo - e desta vez ainda dá um show navegando por águas sempre um tanto obscuras da psicologia humana.

Grande abraço!

Bruna


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 02/02/2026 Autora da história
Não é? rsrsrs Sabrina despertando para a vida, nós adoramos.
Muito obrigada pelas tuas palavras. Eu sempre tento melhorar o meu oficio que faço com tanto amor.
Abraço


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HelOliveira
HelOliveira

Em: 26/01/2026

Que coisa maravilhosa, Sabrina finalmente se libertou de tudo que carregava....

Amei essa versão livre, feliz e segura ...

Parabéns por esse capítulo tão esperado


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 02/02/2026 Autora da história
Obrigada. Bjs


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NovaAqui
NovaAqui

Em: 25/01/2026

Aleluia! Ela se liberou da insana da Lúcia

Viva Sabrina

Agora é partiu Praia

Beijos, Musa!


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 02/02/2026 Autora da história
Obrigada. Bjs


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