Capitulo 27
Sabrina abriu os olhos e invadida por uma preguiça gostosa, gem*u. Aos poucos foi percebendo onde estava e mais um gemido espontâneo acompanhado de movimentos lânguidos, despertou-lhe o corpo. O quarto completamente tomado por uma luz dourada, mostrava-lhe que o dia já reinava soberano, e um braço quente ao redor do seu corpo, não deixava dúvidas que estava no lugar certo. Moveu-se devagar e encontrou Fedra dormindo profundamente, numa paz rara, para ela que quase sempre tinha pressa em se levantar e dominar o mundo. Pasmou nela, sem pressa nem medo, completamente entregue. Tocou-lhe a pele suavemente, contornou os detalhes de inegável beleza, beijou-lhe o seio que escapava pela fresta do lençol. O seio que ela tanto escondera, por receio de rejeição e onde Sabrina só via beleza. Não apenas a beleza física que era evidente, mas aquele seio simbolizava confiança, uma entrega que abrira portas que tempestade alguma conseguiria fechar. Uma lágrima involuntária desceu-lhe pela face enquanto o coração se aquecia. Abraçou-a com carinho, depositando beijinhos por onde os lábios alcançavam. Fedra suspirou, contorceu-se e abriu um olho sem muita vontade. Encontrou os olhos doces de Sabrina sobre si. Sorriu.
-Bom dia! - Murmurou com a voz rouca.
-Bom dia! - respondeu Sabrina, beijando-lhe o ombro.
O beijo que começou no ombro, subiu para o pescoço e terminou na boca. Houve mais um e outro e tantos, sem pressa. Um despertar leve de quem não tem nada marcado...até que num rompante, Fedra sentou-se na cama, sobressaltada.
-O que foi, criatura? - Perguntou Sabrina, erguendo-se também.
-Meu Deus, o almoço! - Pulou da cama.
-Calma, é Natal! - Riu Sabrina.
-Justamente por isso - vestiu uma t-shirt que estava ao pé da cama. - A Malia sempre almoça comigo no dia do Natal. Sempre!
Aos tropeções, correram juntas para o banheiro, entre risos e beijos.
-Podemos pedir alguma coisa pronta. - Sugeriu Sabrina encostada à parede do banheiro.
Fedra lançou-lhe um olhar como se ela tivesse cometido um crime. Sabrina riu achando a expressão engraçada.
-No dia de Natal? Impossível!
-Ela gosta de quê? Costumam manter uma tradição? - perguntou Sabrina. - Confessa que, talvez, só dessa vez, estejas a torcer para que ela durma o dia todo e esqueça a tradição. - Brincou Sabrina cutucando as costelas de Fedra.
Fedra se esquivou rindo.
-Para, Sabrina. Ai, para...ai meu bem, não me julgues, mas lá no fundo, eu esperava por um milagre assim...mas conheço a minha filha...ela vem...- Passou a mão pela face.
Um telefone tocou algures pela casa. Fedra correu para atender. Era a filha a comunicar que se atrasaria um pouco, mas que o almoço de Natal estava confirmado.
-Temos tempo, mas precisamos fazer algo bonito. - Piscou para Sabrina que já estava no banho.
***
Sabrina abriu o frigorífico e com um olhar de satisfação, começou a tirar algumas coisas e a colocar sobre o balcão.
-Tens aqui ingredientes para fazer uma refeição respeitável. - Olhou para ela com as mãos na cintura. - Confia em mim. - Piscou.
Encostada à bancada, Fedra observava completamente encantada.
-Desde quanto passaste a ser tão competente em cozinha alheia? - Brincou ainda admirada com a desenvoltura de Sabrina.
-Eu gosto de cozinhar. - Beijou-lhe o ombro de raspão. - Só era um pouco mais tímida e não tinha uma namorada desesperada e perdida por um almoço de Natal com a filha.
Fedra sorriu e passou a ajudar-lhe na tarefa de fazer um almoço maravilhoso.
No meio da azáfama de legumes cortados, beijos roubados e muita cumplicidade, Sabrina comentou com naturalidade:
-Depois do almoço, vou visitar a Glória e a Malú. Se eu não passar na casa delas num dia como hoje, serei deserdada.
Riram.
-Até iria contigo, mas a Malia quando gruda nessa mãe...esquece. Ela tem mais assunto que todos os órgãos de comunicação desse país.
Riram.
Sabrina hesitou um pouco e num tom carregado de timidez, perguntou:
-Como devo me comportar com ela hoje?
Fedra pousou a faca na bancada e com os olhos fixos nela, tom calmo, respondeu:
-Da mesma forma que te comportaste na ceia de Natal, sendo exatamente quem tu és.
Foi suficiente.
***
Fedra arrumava os pratos na mesa quando a campainha tocou. Sobressaltou-se a ponto de quase derrubar uma taça no chão. Conseguiu evitar um desastre e recomposta do susto, foi abrir a porta, acreditando que pudesse ser algum vizinho.
-Feliz Natal, mãe!
A filha abraçou-a forte erguendo-a do chão.
-Para, menina, eu estou pesada.
Risos com muitos beijos.
-Feliz Natal, meu amor. Desde quando precisas usar a campainha? Não me diga que perdeste as chaves?
Com uma careta, a menina balançou as chaves entre os dedos.
-Então?
-Ah, mãe...não estás sozinha, não quis ser invasiva...
-Ah, como fico feliz de ter educado tão bem a minha filha, mas a Sabrina é de casa...uma grande amiga...
-Por falar nela, ainda não voltou?
-Essa mulher saiu para comprar um vinho há meia hora e deve ter ido até ao Fogo.
Gargalhadas.
-Vinho?
-Sim, ela cismou que merecemos um excelente vinho para a ocasião e também precisava comprar um presente de última hora para uma amiga...
-Hoje? Tomara que ela tenha sorte...vinho, tudo bem, mas presente...
Instintivamente, Fedra olhou as horas na tela do telefone.
-Calma, mãe...ela não se perde. Daqui a pouco volta com o nosso vinho especial.
-Claro! - Fedra respondeu rápido demais. - É que estou com fome.
Dirigiram-se à cozinha, Malia Sentou-se na bancada como sempre fazia desde a adolescência, enquanto a mãe decorava uma sobremesa.
-Então - começou casual - e o José Carlos?
Fedra suspirou, sem interromper o que fazia.
-Fim de história!
Malia inclinou a cabeça observando-a com atenção.
-Fim de ponto final mesmo?
-Mesmo!
-Ufa! Nunca gostei muito dele...ou melhor, não gostava muito da pessoa que te transformavas ao lado dele...
Fedra virou-se surpresa.
-Nunca me disseste nada disso.
-A relação era tua mãe - Respondeu Malia com maturidade - Mas posso dizer agora...ele era muito engessado para ti.
Fedra arqueou uma sobrancelha olhando para a filha com curiosidade.
-Engessado, como?
-Formal demais...um quê de controlador, uma postura que não denotava qualquer naturalidade - Fez um gesto vago - Tu mereces alguém com quem possas estar mais solta...viva e livre.
Fedra ficou em silêncio analisando as palavras da filha.
-Diria até...- insistiu Malia - alguém mais jovem. - Sorriu de lado.
Fedra riu batendo a cabeça.
-Filha, eu já tenho cinquenta anos. Não queres que eu me meta com gente de trinta.
-E por que não? - devolveu Malia, sem hesitar. - Se te fizer feliz, qual é o problema?
A mente de Fedra divagou por alguns instantes. Se a filha soubesse que não estava envolvida com alguém de trinta anos, mas sim com uma mulher, o discurso seria o mesmo?
-Estás a pensar em alguém? - Provocou a filha, rindo.
-Não...
-Estás sim, na tua amiga que nunca mais chega. Mãe, não paras de olhar as horas.
-Ela nunca mais chega...- Pensou em voz alta.
-A tua amiga costuma desaparecer assim? -Perguntou Malia, curiosa.
-Como assim?
-Sei lá, parece que estás com receio que ela não volte.
Fedra reagiu rápido, defensiva:
-Não é nada disso, é que vamos almoçar.
Malia cruzou os braços, sorrindo.
-Mãe, para. Até parece que eu sou alguma estranha. E ela também não é, porque senão não estava hospedada cá em casa.
Fedra respirou fundo, depois riu, rendida.
-Filha... acho que dormi pouco. Preciso de uma boa noite de sono.
-Precisavas era de menos stress - brincou Malia, beliscando-lhe o braço.
Riram, cúmplices.
Ainda estavam sob o efeito de uma boa gargalhada, quando a porta se abriu e Sabrina entrou carregando duas garrafas de vinho e um pedido de desculpas no olhar. Num impulso natural, aproximou-se de Fedra e deu-lhe um beijo carinhoso na testa.
Fedra suspirou antes mesmo de se aperceber do ato.
-Desculpa o ligeiro atraso, mas é que não encontrava nada aberto e sabes como sou teimosa. - Sorriu, falou tão perto de Fedra que por instantes elas se perderam no seu mundo particular. Até que Sabrina despertou para a realidade. Rapidamente alcançou Malia, dando-lhe dois beijinhos na bochecha.
-Feliz Natal...de novo!
Riram.
-Feliz Natal! - Malia sorria feliz.
Sentaram-se à mesa sem formalidades. Malia logo elogiou o cardápio e serviu-se com avidez. Fedra e Sabrina seguiram o entusiasmo dela e logo o clima era leve, com uma leve curiosidade no ar.
Enquanto servia-se de mais salada, Malia foi a primeira a puxar conversa.
-A minha mãe fala muito de vocês duas... daquela época em que saíam muito. Das festas, das noites de dança. - Olhou para Sabrina com interesse sincero. - Eu era pequena, mas lembro-me bem. Era uma quase adolescente chata... - riu - mas lembro-me que era bom ver a minha mãe feliz, porque significava que ela era menos chata comigo.
Gargalhadas altas.
-Muitas vezes eu estava exausta - confessou. - Mas a tua mãe não se rendia nunca. Convencia-me sempre a sair...ela tem um poder de persuasão respeitável. - Sorriu.
-Até parece - Interrompeu Fedra rindo. - Como se tu não fosses tão doida por uma pista de dança quanto eu.
As duas trocaram um olhar cúmplice e começaram a rir ao mesmo tempo.
-Vocês eram mesmo uma dupla - comentou Malia. - A minha mãe sempre foi assim... divertida, alegre, cheia de vida. Até que... - travou a frase a meio, percebendo onde ia.
Houve um segundo de silêncio. Fedra pousou o garfo com calma.
- Está tudo bem, filha. Ela sabe!
Sabrina levantou o olhar e pousou-o em Fedra. O que se passou entre elas no instante seguinte foi explícito. Conexão clara, quem sabe algo mais... tranquilo, sem medo.
Malia percebeu e não desgostou do que viu.
-Obrigada por seres tão amiga da minha mãe. - Sorriu sincera.
-Amiga...- Fedra pareceu saborear aquela palavra. - É, e das boas...
Malia, pratica e curiosa como era, logo voltou o foco mais uma vez para Sabrina.
-Sabrina, não tens um amigo alegre como tu? - tinha um sorriso maroto no rosto. - Que goste de dançar, de viver...para apresentar à minha mãe?
Fedra pulou na cadeira, fingindo uma indignação imediata.
-Olha essa menina, toma conta da tua própria vida.
-Estou só a tentar ajudar - insistiu a filha. - Aquela última tentativa... que homem chato. - Concluiu sincera.
Sabrina resolveu entrar no jogo.
-Não conheço muitos homens maravilhosos que estejam à altura da tua mãe. - Fez uma pausa calculada. - Mas conheço algumas mulheres maravilhosas...
Malia arregalou os olhos com uma expressão divertida.
-Espera...tu és gay? - Olhou para a mãe e no segundo seguinte para Sabrina.
-Sou! - respondeu Sabrina, com a naturalidade de quem diz a cor dos olhos.
-Mas não é possível que uma mulher interessante como tu não conheça homens igualmente interessantes. - Insistiu a filha de Fedra.
-Até posso conhecer um ou outro. Mas acho que quem tem de se interessar é a tua mãe.
-Boa Sabrina. - Fedra fez uma expressão teatral. - Essa menina agora resolveu mesmo meter-se na minha vida sentimental.
-Alguém tem de o fazer - disse Malia, rindo. - Mas pronto... desculpa. Talvez tenha exagerado.
-Não se pode acertar sempre. - Fedra abanou a cabeça sorrindo.
A conversa seguiu leve. Histórias engraçadas, comentários espirituosos, nada forçado.
Riam de um comentário de Fedra, quando Sabrina olhou para o relógio.
-Preciso passar na Glória para desejar Feliz Natal... ou perco a amizade. - Levantou-se pegando o casaco.
-A Glória é aquela tua amiga também, mãe?
-Hum-hum...
-Peço desculpas, Malia, mas preciso me desdobrar para ninguém se sentir preterido e há uma criança pelo meio e elas sempre me ganham. - Sorriu.
-Ainda nos vemos? - perguntou Malia com alguma ansiedade na voz. - Vais passar o resto das festas com a minha mãe?
-Filha - Protestou Fedra. - Assim a Sabrina vai se sentir pressionada. O que é isso?
Na porta de saída, Sabrina sorriu voltando a atenção para a mesa.
-Se ela quiser que eu fique... - disse, olhando para Fedra com calma - só tenho compromisso na minha ilha no início de janeiro.
E saiu.
Aquela saída triunfal deixou Fedra com os pés fora do chão. Esforçou-se para aparentar normalidade. Malia observou-a por um segundo e sorriu, satisfeita.
-Mãe...parece que estás em outro planeta. - Sorriu.
-Come - respondeu Fedra disfarçando. - Ainda tens comida no prato.
***
Estavam na cozinha a organizar pratos e utensílios, sobras de comida e o assunto era a ceia da noite anterior.
-A tia Adélia continua igual - comentou Fedra, abanando a cabeça. - Parece que se alimenta do desconforto alheio.
Malia riu.
-Eu achei-a até comportada... talvez porque a avó estava ali, firme. Aliás - disse, com brilho nos olhos - a avó está incrível. Tão lúcida, tão presente. Dá gosto vê-la assim.
-Sim, mas sabes que ela adora receber, esses momentos sempre lhe fazem muito bem. -Concordou Fedra.
Houve um pequeno silêncio confortável, daqueles que não precisam ser preenchidos.
Malia apoiou-se no balcão.
-Mãe... posso fazer uma pergunta mais... particular?
Fedra continuou o que estava a fazer sem desviar a atenção para a filha.
-Desde quando temos esse tipo de protocolo?
-Ok - riu Malia. -Mas não fiques brava comigo.
Fedra pousou a travessa, agora atenta.
-Malia, não me faças perder a paciência. Espera aí... não tens nada cabeludo para me comunicar, ou tens?
As duas riram.
Não, senhora. A tua filha segue uma vida pacata para uma jovem senhora de 21 anos.
-Ainda bem -ironizou Fedra. - Já me basta a minha própria adolescência mal resolvida.
Malia respirou fundo, como quem ganha coragem.
-Então... mãe... não é perigoso conviver com a Sabrina?
-Perigoso? -Fedra franziu o sobrolho. -Perigoso como?
De repente, toda a sua atenção estava focada na filha.
-Não é bem essa palavra... - Malia hesitou. - O que quero dizer é que... ela pode apaixonar-se por ti, não pode?
Fedra riu alto. Um riso genuíno, e que lhe deu tempo para raciocinar.
-Filha... achas que uma lésbica não pode ter amigas sem nenhum interesse?
-Claro que pode - apressou-se Malia. - Eu só acho que ela é interessante, livre. E vocês são tão próximas... e às vezes parece que ela te olha com admiração.
-Que bom, não achas? -respondeu Fedra, rápida. - Amigos devem admirar-se.
-Sim... - Malia inclinou a cabeça. - Mas tu a conheces tão bem assim a ponto de assumir que ela não poderia se apaixonar por ti?
Fedra ergueu uma sobrancelha.
-Tu nem sabes o tipo de mulher que a atrai.
-Ah Dona Fedra... tu és o tipo de mulher por quem qualquer pessoa se apaixonaria. Homem, mulher... qualquer ser humano com bom gosto.
Fedra ficou sem resposta por um segundo. Depois riu, meio sem jeito.
-Obrigada, filha. É bom ouvir isso. Passei por maus bocados... mas a autoestima está de volta. - Soltou o ar.
Malia aproximou-se e abraçou-a com força.
-Que bom!
Mas não se deu por satisfeita.
-E tu?
-Eu o quê?
-Hmmm... -Malia provocou. -Achas pouco provável...
-Pouco provável o quê, Malia?
-Que tu te apaixonasses por ela?
Fedra soltou um suspiro, seguido de uma risada.
-Minha filha... que grande confusão nessa tua cabeça. Que enredo...- fez uma pausa estratégica. - Vamos comer pudim?
-Pudim?
-Acho que o teu problema é falta de açúcar.
Malia caiu na gargalhada.
-Vamos, então.
Saíram da cozinha a rir, lado a lado. A cabeça de Fedra fervilhava e o coração batia num ritmo alucinante.
***
Depois de uma tarde de muitos risos e conversas em vários tons, o apartamento de Fedra agora respirava sob uma aura de silêncio acolhedor. Sentadas no sofá, pernas entrelaçadas, as duas mulheres se sentiam sem a necessidade de palavras ditas.
-Eu gosto do silêncio da tua casa...eu gosto daqui...do cheiro, às cores...do acolhimento...- Sabrina se aconchegou ainda mais em Fedra que a abraçou.
-A Malia esteve bem hoje mais cedo...- Começou Fedra.
Sabrina sorriu.
-Muito bem. Dá para ver que a relação de vocês é bonita, saudável.
-Ela é curiosa -disse Fedra, com um meio sorriso. -Sempre foi...às vezes até demais.
-Notei - Sabrina sorriu. - Mas é uma curiosidade boa...não extrapola o limite do razoável.
Fedra apoiou a cabeça no ombro de Sabrina.
-E tu, como foi com a Glória?
-O bombardeio de sempre. -Suspirou. -Perguntas, teorias, dramatizações... -fez um gesto amplo com a mão. -Mas foi curioso. Eu estava tão calma que ela acabou por diminuir o ritmo. - Riu.
-A Glória a diminuir o ritmo? -Fedra ergueu a cabeça, surpresa. -Isso é praticamente um milagre de Natal.
Sabrina riu com vontade.
-Pois, ela até reparou. Perguntou-me o que se passava, porque é que eu estava tão leve.
-E o que lhe disseste?
Sabrina ficou pensativa por um instante.
-Disse-lhe a verdade. Que apesar de todas as loucuras da minha vida profissional... eu consigo sentir-me bem. Que mesmo sem saber exatamente o que fazer da vida... não me sinto sem rumo.
Encarou Fedra de frente.
-Acho que é uma conversa para ter com a minha terapeuta. Talvez ela consiga entender melhor do que eu...
-Entendo...- Fedra passou-lhe a mão pelo braço.
Houve um breve silêncio.
-Sabes... -começou Fedra - a Malia perguntou-me algumas coisas hoje, muitas coisas, mas uma em específico chamou mais a minha atenção.
Sabrina ergueu o olhar, curiosa.
-Perguntou-me se... e se tu te apaixonasses por mim.
Sabrina abriu um sorriso lento, provocante. Sem avisar, puxou Fedra para si, rindo, e começou a enchê-la de beijos no rosto, no pescoço, na testa.
-E tu não respondeste que eu já sou completamente apaixonada por ti?
Fedra riu, tentando escapar, mas acabou por se render.
-Para, Sabrina. - disse entre risos.
Retribuiu o carinho, mas quando o riso cessou, ficou ali. Um segundo a mais. O olhar um pouco mais sério.
-Eu quase disse...
Sabrina percebeu a alteração no tom de voz e tentou não pressionar.
-Quase?
-Quase... -confessou Fedra. -Mas pensei melhor e talvez não fosse a melhor altura.
Enquanto falava, uma insegurança atravessou-lhe o peito rápida, mas funda e nem era a primeira vez. E se Sabrina estivesse apenas de passagem? E se aquilo fosse intenso demais para durar? E se ela estivesse a sentir mais do que devia?
Sabrina percebeu a mudança e aproximou-se ainda mais.
-Tudo a seu tempo - Disse, suave. - A única certeza que eu preciso ter... é que estás comigo.
Fedra respirou fundo. Olhou-a como quem sabe exatamente o que escolher e sorriu.
-Eu estou, meu bem. -Acariciou-lhe o rosto. - Eu estou!
Beijaram-se sem pressa, se encontrando num lugar onde não havia espaço para dúvidas.
***
O fim de ano chegou e com uma calma pouco comum para a época do ano, pelo menos essa era a perceção compartilhada entre Sabrina e Fedra. Sabrina sentia-se estranha por não fugir, de si mesma e nem de lugares que sempre remetiam a memórias dolorosas. Tinha decidido ficar...ainda era estranho, mas não doía...
Estendida no tapete da sala, observava Fedra sentada no chão e com a atenção virada para o computador. Não conseguia evitar o desenho de um sorriso no seu rosto, era exatamente a calma que precisava e talvez merecesse. Riu baixinho ao perceber que a mesma mulher que lhe transmitia a calma mais perfeita que já experimentara, era a mesma que a incendiava com um simples olhar. Esticou a perna e com a ponta do pé, acariciou-lhe as costas, nuca...
-Depois a tarada por trabalho, sou eu...- Provocou intensificando as caricias com a ponta dos dedos.
Fedra riu se deleitando nos carinhos.
-Não tires conclusões apressadas, dona Sabrina. Estou a ver opções para o nosso réveillon...- Riu.
-Hmmm...que delícia. - Sabrina se animou.
-Temos duas opções: festa glamorosa num hotel chique da cidade. Música alta, gente bonita, vestidos sofisticados, brindes, jantar de gala...
-Hmmm...e a segunda? - perguntou Sabrina fazendo uma careta de quem não se tinha animado com a primeira opção.
-Retiro de dois dias na Cidade Velha - continuou Fedra, sorrindo. - Hotel de charme, chalés individuais, silêncio...essencialmente para quem quer paz.
-Cidade Velha! - Disse Sabrina sem hesitar.
-A sério?
-Sem pensar duas vezes. - Soergueu o tronco abraçando-a. - É exatamente o que eu preciso.
-Ainda bem, é o que eu prefiro também. - Sorriu.
-Mas...não passas a virada com a tua família?
-A minha mãe e os irmãos vão sempre para Santa Catarina, terra deles. Vão á missa e depois celebram juntos no casarão da família e passam pelo menos, dois a três dias por lá. É tradição! - fez uma pausa. - A Malia, esse ano, vai para o Tarrafal com amigos. O que tentamos sempre manter, é a tradição do Natal todos juntos. O fim de ano, cada um faz o que lhe apetece...
Sabrina sorriu, aliviada.
-Gosto disso...sem muitas regras...
-Sem teatro. - Confirmou Fedra.
Riram rolando abraçadas pelo chão.
***
No hotel de charme escolhido por Fedra, tudo parecia conspirar a favor delas. O ritmo lento e peculiar da Cidade Velha, o chalé com varanda virada para o mar escuro e quieto.
Na noite da virada, depois de um jantar a duas num restaurante discreto do hotel, decidiram esperar os fogos na varanda do quarto, sem música alta e nem multidões. Observavam juntas as luzes da cidade ao longe, enquanto eram beijadas por uma brisa fresca que vinha do mar. Entre suspiros de felicidade, Sabrina decidiu quebrar o silêncio.
-Preciso desabafar sobre um assunto que tem martelado a minha cabeça. - Disse baixinho, quase pedindo permissão para interromper o silêncio sagrado.
Fedra virou-se para ela, inteira.
-Conta...
Sabrina respirou fundo, parecendo escolher o melhor tom.
-Está tudo errado no meu trabalho. Eu sinto-me... esgotada, uma carta fora do baralho. Sinto-me idiota por ter dado tanto de mim. E, ao mesmo tempo... presa. Como se não conseguisse sair nem ficar...
Seus olhos mesclavam súplica com vulnerabilidade.
-O que me dizes sobre isso? Gostava mesmo de saber a tua opinião.
Fedra manteve-se em silêncio por um segundo. Depois esboçou um leve sorriso.
-Queres a minha opinião como mulher profissional, com larga experiência... ou como tua namorada?
Sabrina riu, aquele riso que já vinha fácil com ela.
-Quero as duas!
-Então vamos lá: como profissional o que estás a sentir é desgaste. Quando pessoas competentes ficam muito tempo em ambientes onde não são reconhecidas, começam a duvidar de si. Não estás perdida, estás cansada. E ninguém toma boas decisões cansado.
S assentiu, absorvendo.
-Agora... como tua namorada - continuou Fedra, com a voz mais baixa - eu vejo alguém inteligente, sensível, profundamente íntegra, a tentar caber num lugar que já não lhe serve. E vejo alguém que precisa parar, não para desistir, mas para se ouvir.
Sabrina sentiu os olhos a arder e se segurou para não chorar.
- E se eu não souber o que fazer depois?
Fedra estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela.
-Então ficas aí por mais algum tempo. Não ter a resposta não é o fim do mundo, só não pode ser algo definitivo...
Sabrina apertou-lhe a mão.
-Gosto quando falas assim...- Os olhos de Sabrina brilhavam.
Fedra sorriu.
-Eu gosto quando me olhas assim e pareces confiar em mim...
Ao longe, os primeiros fogos começaram a explodir no céu.
-Mas já? - Estranhou Sabrina. - Ainda não é meia noite.
Fedra riu e beijou-lhe rapidamente a boca.
-Não, meu amor...tem um doido por aí que sempre começa a soltar fogos por volta das 23:30...já é tradição da Cidade.
Gargalhadas altas.
***
Um pouco mais tarde, já com o novo ano reinando, brindes e algumas chamadas de amigos e familiares feitos, mais uma conversa voltou a acontecer. O tema agora era outro, mas sem que conscientemente nenhuma delas o tivesse levado para aquele lado.
-Já vivemos tanta coisa num ano...- Disse Fedra mais para si.
Sabrina assentiu batendo a cabeça devagar.
-Demais. -Sorriu. -Este ano foi... marcante. Diria até que foi um ano de resgates.
Fedra ergueu a sobrancelha com uma expressão divertida.
-Resgaste?
-Sim. -Sabrina inclinou-se para ela. - Por exemplo, a senhora foi lá ao fundo do baú buscar-me.
Fedra riu alto.
- Eu? Eu tenho outra opinião.
-Hmmm...- Sabrina provocou. - E qual é?
Sabrina virou-se na cadeira e encarou Fedra de frente com olhos que brilhavam como faíscas.
-Eu fui seduzida...pobre de mim...- Fedra levou a mão ao coração.
-Tu? Eu que fui seduzida de uma forma completamente irrevogável. - Fez uma pausa dramática. - Um pôr do sol inesquecível, uma casa de pedra no meio do nada, perto do paraíso. Fiquei encantada... e perdida, sem saber o que fazer. Com medo de estar doida, de ter entendido tudo errado... e de perder uma amizade preciosa.
Suspirou várias vezes.
-Não conseguia tirar-te da minha cabeça e muitas vezes não fazia o menor sentido...não nos víamos há tanto tempo...
Fedra ouviu tudo em silêncio, com aquele sorriso que misturava surpresa e ternura.
-Posso confessar uma coisa?
-Acho bom que a senhora abra a alma - respondeu Sabrina, rindo. - Afinal, estamos nas primeiras horas do ano, só queremos verdades.
Riram juntas.
-Eu não parei de pensar em ti desde aquele encontro promovido pela Glória. -Fez uma careta. - Aquele em que foste extremamente antipática.
Sabrina abriu a boca, ofendida e rindo ao mesmo tempo.
-Ei! - Fingiu esbravejar.
-Antipática, sim - Insistiu Fedra. - Arrogante, distante... - suspirou - e eu com tanta raiva de mim mesma por não conseguir tirar da cabeça uma mulher tão... arrogante.
Gargalhadas.
-Ah, para, Fedra. Arrogante é pesado. -Sabrina abanou a cabeça. -Eu estava irritada com o trabalho. Com tudo, comigo...
-Pois - disse Fedra, fingindo resignação. -Mas mesmo assim...
Sabrina respirou fundo, agora mais séria.
-Quando te convidei para ires comigo ver a casa da tia Adelaide... eu não sabia o que estava a fazer. - Confessou. - Só queria estar contigo mais um pouco. Ver-te em outro contexto, entender se aquilo que eu sentia... fazia algum sentido.
-Cheguei a pensar que talvez não fosse uma boa ideia...- Disse Sabrina baixinho.
-E ainda assim, foste...- Fedra sorriu.
-Fui...- Sorriu.
-Lembro-me que me sentia completamente fora do eixo, alguma coisa em ti me deixava com a cabeça nas nuvens e eu, de alguma forma, já estava cansada de ser a mulher que sabe tudo, que controla tudo.
Houve um silêncio quente entre elas.
-Sabes o que é curioso? -Continuou Fedra. - Eu passei meses a achar que tu eras livre demais para mim. Que um dia ias acordar e perceber que aquilo era só um intervalo bonito.
Sabrina aproximou-se, tocando-lhe o braço.
-E eu passei meses a achar que tu eras estável demais para mim. Que eu era só uma confusão interessante na tua vida organizada.
Olharam-se devagar, reconhecendo-se.
-E afinal...-Murmurou Sabrina.
-Afinal, estamos aqui. - Completou Fedra.
O céu voltou-se a iluminar com mais uma sequência de fogos.
-Aqui a coisa é intensa...eu gosto...- Sabrina sorriu pousando o olhar na boca de Fedra. - Seja como for, esse ano ensinou-me uma coisa...
-O quê?
-Que às vezes não é preciso saber o destino...apenas ter uma boa companhia...
Fedra sorriu emocionada, e encostou a testa à dela.
-Então brindemos a isso!
E brindaram.
-Fedra...
-Hmmm...eu conheço esse olhar e sempre me perco nele.
Riram com as testas coladas.
-Não gosto de planos...na minha vida, nunca dão certo...é cada cambalhota que me sacode e tira do rumo...mas quero ousar e ainda que quebre a cara...
-Para...se já começas assim...
-Ok...estou emocionada...deve ser coisa de ano novo...mas eu queria que fizéssemos um plano...doido, pode ser...
-Sabrina...- Fedra fingiu impaciência controlando uma vontade doida de beijá-la.
-Eu quero passar mais um ano contigo e celebrar o próximo réveillon juntas...é isso...- A voz dela era tão baixa, mas Fedra ouviu até o que não foi dito.
-Eu também te amo...e sim para o nosso plano de mais um ano juntas.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
brunafinzicontini
Em: 30/01/2026
Fim de capítulo, encerrado com chave de ouro! Maravilha! Tudo correndo melhor do que se poderia esperar...
Beijos, Nadine.
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HelOliveira
Em: 19/01/2026
Por mais um ano juntas...
Acho que Malia tava dando a oportunidade para Fedra conta tudo, ele é muito esperta..
Já estou com medo da Sabrina de volta ao trabalho....torcendo para que ela consiga colocar a Lúcia no lugar que merece
Nadine Helgenberger
Em: 20/01/2026
Autora da história
Por mais um ano juntas e venha o que vier ;)
Quem sabe não era isso mesmo que a Malia tentava fazer...ou não rsrsrs
No próximo capítulo Sabrina já regressa à sua rotina e veremos o que ela vai fazer.
Abraço
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NovaAqui
Em: 18/01/2026
Será que Malia está muito desconfiada delas estarem juntas?
Agora é passar mais um ano ou mais uns anos juntas
Nadine Helgenberger
Em: 20/01/2026
Autora da história
Olá,
A Malia parece conhecer muito bem a mãe, então...
Vamos lá ver o que tempo reserva para essas duas.
Abraço
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