Capitulo 26
Sabrina olhou para o lembrete de reunião e franziu a testa. Desde quando recebia lembretes faltando meia hora para o evento? Ah, provavelmente eram as novas diretrizes de Lúcia e seu consultor génio, ironizou ao mesmo tempo que minimizava a tela dos lembretes. Ultimamente nada fazia sentido naquele lugar...
Aquele breve pensamento causou-lhe um estalo mental, se não fazia sentido, porque permanecer? Suspirou várias vezes enquanto a mente era invadida por pensamentos nem sempre muito claros.
-Vamos trabalhar, Sabrina. Conjeturas a essa hora da manhã não vão te levar a nada...ah, talvez a uma valente dor de cabeça. - Riu de si mesma, ao abrir um dossier novo.
Não demorou muito e Catarina apareceu à sua porta com seu habitual humor diferenciado.
-Musa minha, deveria ser estritamente proibido que pessoas como tu, não aparecessem por aqui. Que seca que é esse lugar quando não posso passar por aqui para desanuviar.
Risos.
-Quem precisava desanuviar era eu...dois dias longe daqui soube tão bem...
-Resoluções de fim de ano?
-Acreditas que eu nem me lembrava que estávamos em dezembro...
-Sim, já me tinhas dito e também que não gostas do meu mês maravilhoso, o que considero um sacrilégio.
Gargalhadas.
-Já gosto...um pouquinho...
Risos.
-Será que é hoje que veremos o senhor às de espadas a reinar? Foste convocada?
-Agora mesmo e não entendi nada...mas quer saber, nem me dou ao trabalho de tentar entender as loucuras desse circo...
-Ah, mas eu te explico: vão apresentar um projeto novo, algo totalmente concebido por ele e que a Lúcia faz questão de dizer que é um trabalho primoroso. Será que foste chamada no ultimo minuto para que faltes? É que não faz muito sentido...
-Nada por aqui tem feito...até nem iria, mas com a informação que trouxeste, faço questão de aprender mais com o às de espadas. Menina onde é que inventas esses nomes?
Gargalhadas soltas.
***
A reunião seguia sem muitos motivos de interesse, até que Lúcia passou a palavra a Heitor. Sabrina controlou-se para não revirar os olhos diante do discurso empolado do colega. Catarina tinha razão, ele se expressava com excesso de termos desnecessários. O que se exigia era praticidade, mas Lúcia parecia em êxtase e os superiores mantinham a expressão de sempre, algo que oscilava entre o tédio e uma conta bancária cada vez mais robusta.
Foi necessária apenas uma frase para captar o interesse de Sabrina. E logo veio outra e mais umas tantas. Sua cabeça girou ao ponto de causar-lhe uma forte tontura, deu graças por estar sentada. O estômago contorceu-se e ele nunca se enganava. Discretamente olhou para Catarina que tinha seus olhos cravados nela. Discretamente ela bateu a cabeça em demonstração de incredulidade. Mas o espetáculo ainda tenderia a piorar.
A apresentação dos gráficos dissolveu qualquer dúvida de aquele absurdo estava realmente a acontecer. Catarina bateu a mão na mesa, não conseguindo controlar o seu ímpeto juvenil. Mas ninguém pareceu notar nada de mais...
Sabrina olhava para o seu trabalho sendo apresentado por outra pessoa como quem assiste a um filme sem entender nada. O mesmo trabalho que Lúcia pedira com urgência máxima para logo em seguida descartar com a desculpa de mudança de diretrizes. O tal do às de espadas nem era tão às assim, porque se enrolava na explicação dos gráficos, mas tinha um discurso tão eloquente que ninguém mais percebia...mas ele tinha seus méritos, soube fechar a apresentação com um toque de mestria que lhe rendeu muitos aplausos.
Não demorou para começar a bajulação da praxe, mas agora havia um ingrediente a mais, as mulheres daquele escritório pareciam ter sido todas contaminadas por algum vírus que as deixava quase patéticas diante do às de espadas. O homem tinha lá seu charme, mas com certeza o excesso de carência justificava aquele cenário.
Sabrina levantou-se quase que a flutuar e chegava na porta de saída quando foi alcançada por Catarina.
-Que descaramento...- Disse entredentes.
-Conversámos na minha sala. - Disse Sabrina, discreta.
***
-Eu não estou doida, Sabrina, eu não estou doida...- Esbravejou Catarina.
Sabrina sentou-se na sua cadeira, ainda processando o que se tinha passado na sala de reuniões.
-Quando eu acho que já vi tudo...- Foi a única coisa que conseguiu verbalizar.
-Musa, aquele trabalho é teu...eu reconheço os teus gráficos até de olhos fechados. Tu permitiste que ele apresentasse e colhesse todos os louros? Sem contar que ele, mais uma vez, escorregou na parte técnica. Não sou nenhuma expert, mas consegui notar a insegurança...claro, o trabalho é teu.
Sabrina olhou de um lado para o outro como quem tenta encontrar uma luz que iluminasse aquela sensação de treva que lhe encolhia a alma. Mais uma vez, sentia-se uma perfeita idiota. Tinha sido tão recorrente e quando acreditava que o pior tinha passado, mais uma rasteira...
-A Lúcia...- respirou fundo batendo com a ponta dos dedos no tampo da mesa. - Ela me pediu esse trabalho com máxima urgência, exigiu que eu me dedicasse exclusivamente a ele e no dia seguinte, depois de horas de muito foco e dedicação, ela simplesmente descartou-o, alegando mudança de diretriz...
-Essa mulher entregou o teu trabalho ao imbecil? Sabrina, isso não pode ficar assim. Se eu percebi que o trabalho era teu, mais gente deve ter notado também...como é que ela teve coragem?
-A Lúcia é bem pior do que parece...sabes que eu nem ligo muito para o roubo descarado do meu trabalho, não é a primeira vez que algo assim me acontece...o que me desanima profundamente é perceber que eu sempre sou uma marionete...cada um faz de mim o que bem entende...sempre...- Um soluço involuntário sacudiu o ambiente.
-Sabrina...
-Preciso sair...depois falamos...
Saiu tão depressa que Catarina não conseguiu dizer mais nada.
***
Depois de uma longa caminhada sem rumo certo, Sabrina decidiu beber alguma coisa no Caravela. Era sempre bom apreciar o por do sol no Monte Cara e ver gente indo e vindo na marginal. Qualquer um parecia mais feliz do que ela...a verdade era que nem sabia definir ao certo o que estava a sentir. Tudo se misturava na sua cabeça, a rasteira de Lúcia, a falta de sentido naquele trabalho, o bendito dezembro em que sempre era preterida...um vazio dilacerante. Bebeu duas garrafas de água com gás e quando o relógio marcava 15 minutos para as sete da tarde, aprumou-se para deslocar-se a mais uma sessão de terapia. Não fosse esse escape, provavelmente já teria desistido...
***
O silêncio do consultor que sempre lhe parecera relaxante, dessa vez quase a assombrava. A quietude do lugar agigantava ainda mais os barulhos da sua mente e a porcaria da sessão que não começava. Finalmente a porta foi aberta e a paciente a quem substituiria saiu. Levantou-se num pulo, alisando as mãos nas calças. Pegou a mochila no braço do sofá e impaciente aguardou que a assistente permitisse a sua entrada. Uma vez na sala, fez o de sempre, sentou-se no sofá, postura alinhada como se ainda estivesse no trabalho, mãos pousadas no colo e um longo suspiro. A terapeuta a observava com um leve sorriso, e como sempre, sem dizer nada nos primeiros minutos. Aquilo mais parecia um código entre elas. Mais um suspiro e Sabrina finalmente conseguiu se expressar.
-Detesto dezembro. - Desabafou se afundando um pouco no sofá.
A terapeuta inclinou a cabeça um pouco para a frente. Mais um sinal que significava que ela deveria desenvolver mais o raciocínio.
-Normalmente dezembro começa a me assombrar ainda em outubro, mas esse ano passou-me ao lado e quando me apercebi a avalanche já tinha ganhado força...
-O que dezembro traz para ti? - O tom dela era calmo.
Sabrina desviou o olhar tentando encontrar o tom certo.
-Sensação de não pertencimento...de que sou sempre preterida, de que há um lugar, mas nunca é o meu...
Fez-se silêncio.
-O que é que esse dezembro em particular te trouxe? - Insistiu a terapeuta.
Sabrina hesitou, mais uma vez tentando encontrar o tom certo.
-Algumas coisas bem questionáveis no meu trabalho...a Lúcia, para variar, mas sinceramente...sinceramente o que está no topo do meu desconforto é a visita da filha da Fedra...ela veio para as festas...- Levou uma mão à garganta sentindo-se mal por admitir esse desconforto.
-E o que isso significa para ti?
Sabrina riu com algum sarcasmo.
-Significa que eu vou desaparecer. Outra vez!
-Desaparecer como? - Insistiu a terapeuta.
-A minha relação com ela...eu nem sei o que nós temos, mas seja o que for, não é explicita. Oficialmente eu não existo, pelo menos não eu como eu gostaria. - Limpou uma lágrima teimosa. - A Fedra vai preferir o mais fácil, ficar em paz com a filha. Não confrontar ninguém impondo a minha presença. - Mais uma lágrima teimosa rolou pela sua face.
A terapeuta inclinou-se ainda mais para a frente.
-Estás a falar de fatos ou de suposições?
Sabrina olhou de um lado para o outro tentando clarear a mente.
-É a minha realidade - respondeu finalmente. - Já é um filme bastante conhecido. As pessoas preferem manter a tranquilidade nas suas vidas...
-Estás a falar da Fedra ou de outras pessoas do teu passado?
Sabrina fechou os olhos por alguns segundos. A pergunta tinha-lhe atingido como uma lâmina afiada.
-No fim...dá no mesmo. - Suspirou com força.
Mais um momento de silêncio.
-O que sabes em concreto sobre a intenção da Fedra? - Perguntou interrompendo o silêncio.
-Nada...só sei que a filha dela chegou...mais nada.
-Então, mais uma vez, estás a sofrer por algo que ainda não aconteceu?
-Estou a proteger-me - Corrigiu Sabrina subindo o tom da voz. - É mais fácil acreditar que serei preterida do que esperar algo diferente e me dececionar...
A terapeuta não discordou, apenas devolveu:
-Isso funcionou no passado?
Sabrina engoliu em seco.
-Funcionou...é assim que tenho sobrevivido...
-Mas e agora?
Sabrina pareceu pensar um pouco mais para responder.
-Estou cansada de sobreviver!
Foi a vez da terapeuta respirar fundo, escolhendo bem as palavras.
-Há uma grande diferença entre proteger-se e condenar-se à repetição.
-Repetição de quê? - A tensão de Sabrina aumentava.
-Da história em que nunca é escolhida. - respondeu a terapeuta sem suavizar. - Está a decidir antes dos fatos falarem por si.
-E se eu estiver certa? -Sabrina cruzou os braços.
-E se não estiver? - Devolveu a terapeuta com firmeza.
Sabrina abanou a cabeça várias vezes.
-Não sei lidar com essa hipótese!
-Porquê?
-Porque se for diferente - A voz falhou. - Eu vou ter de admitir que passei a vida inteira à espera de algo que nunca acreditei que fosse possível...
Silêncio.
-E se, pela primeira vez, alguém escolher ficar mesmo quando não é fácil?
Sabrina já não conseguia respirar direito.
-Isso muda tudo!
-Muda, e exatamente por isso que assusta.
Silêncio denso e mais longo.
-Sabrina, se pensares bem, a Fedra não te deu nenhum sinal de fuga. Quem está a fugir, assombrada pelo dezembro, és tu.
Sabrina abriu a boca para argumentar, mas o som não saiu. Era verdade.
-Eu não sei ficar. - Disse baixinho. - Saio sempre antes que sobre num canto...
-Talvez este Natal não seja sobre ser escolhida, mas sobre permitir que alguém tenha a oportunidade de escolher.
O nó na garganta de Sabrina se adensava.
-E se eu...se eu deixar e doer?
-Vai doer de qualquer forma. A diferença é se a dor vem da realidade ou de uma história antiga que já não precisa ter nenhum poder sobre ti.
Silêncio.
Fim de sessão. Lá fora, dezembro continuava com suas luzes externas e a treva a consumindo por dentro. O medo também.
Mas havia uma pergunta nova, insistente, difícil de ignorar:
E se for diferente?
***
Sabrina entrou no edifício onde se situava a sua empresa e demorou a entender o silêncio que se fazia. A azáfama habitual de executivos subindo e descendo escadas, elevadores quase sempre lotados, tudo fora substituído por uma calmaria, embalada por uma musica ambiente de Natal. Claro, eram as miniférias para as festas e todos tinham ido embora. Ela mesma só estava ali porque esquecera na gaveta, umas tintas e pincéis novos que encomendara do estrangeiro. Pretendia passar as festas hibernada a pintar, desenhar, qualquer coisa que a mantivesse longe do mundo. O andar onde trabalhava encontrava-se no mais absoluto silêncio. Respirou de alívio. Não pretendia iniciar qualquer conversa de circunstância ainda que fosse de corredor. Sobre a sua mesa encontrou um pacote com um bilhete. Era de Catarina, sorriu feliz.
"Musa, queria ter tido a oportunidade de te abraçar e desejar um feliz ano novo, mas apareceu uma oportunidade única para a estagiária e ela não é boba. Já sabes que vou passar as festas e o meu aniversário em Santo Antão e justo agora aconteceu um milagre e um primo meu conseguiu boleia para nós num iate maravilhoso. Imagina se ia perder essa viagem. Não engoli o que a Lúcia fez e espero que estejas a preparar um troco à altura. Seja feliz, minha musa. Quero ver-te mais animada no dia 2 de janeiro. Com amor, Catarina."
Catarina adorou o presente, um livro que ela queria muito ler e uma taça com detalhes dourados. Catarina passava a voda a dizer que ela deveria ter uma taça especial para momentos especiais. Sorriu, mas rapidamente foi estremecida por uma tristeza já velha conhecida.
-Todo mundo tem alguma coisa especial para fazer, alguém com quem brindar...eu só fico com a taça bonita. - Ironizou a situação, mas a verdade era que se sentia sem rumo.
Depois de sair do escritório, ainda pensou em passar num supermercado e comprar alguma coisa para comer à noite e assim inaugurar a taça nova com um bom vinho, mas logo desistiu tamanha era a balbúrdia nos estabelecimentos comercias. Véspera de Natal, normal.
Entrou em casa decidida a se enfiar no sofá e esquecer da vida. Quem sabe mais tarde pudesse desenhar ou ainda usar as tintas novas num esboço de um quadro...quem sabe. Devaneava quando o telefone vibrou alto na mochila que ainda trazia às costas. Quase o ignorou, mas um estalo qualquer na mente fê-la abrir a mochila e sacar de lá dentro o bendito telefone.
"Queres vir passar as festas comigo? Como já sei que vais criar alguns impedimentos, encontre a passagem aérea no teu email. Um beijo e cá te espero com muita saudade."
Sabrina leu três vezes até ter certeza que não era delírio. O coração acelerou a tal ponto que venceu o atropelo que reinava na sua mente. Respirou fundo tantas vezes e imediatamente abriu o email para ter a certeza que não era surto. Não era. A passagem estava lá e o seu voo para a Praia partiria dentro de 3 horas. O primeiro impulso foi apagar a mensagem e desligar o telefone. Seu corpo inteiro tremia de medo. Respirou mais algumas vezes. Poderia inventar uma desculpa plausível...lembrou do sorriso de Fedra quando a via e gritou de angústia. Deu três voltas ao redor do sofá sem se dar conta do que fazia. De repente sua casa parecia-lhe pequena demais, ou seriam seus medos que se agigantavam?
-Eu não sei como agir...eu não sei...eu não sei ocupar esses espaços, eles nunca foram meus...- E continuava a dar voltas sem sentido.
A frase da terapeuta atingiu-a como uma lança certeira: e se for diferente?
Respondeu uma hora depois, quando finalmente voltou a ligar o telefone. Ao lado da porta, com a sua trolley para viagens curtas a postos e o coração aos pulos, decidiu arriscar.
"Vou! Até já."
***
Na área de chegadas do aeroporto da Praia, Sabrina ainda não acreditava no que acabara de fazer. Distraiu-se com as pessoas a de abraçarem, o frenesi habitual da época e com isso seu coração foi se acalmando. Abriu as mensagens e viu que Fedra estaria à sua espera em casa. Ainda estava às voltas com os preparativos para a ceia de logo mais. Respirou fundo enquanto pedia um carro pelo telefone.
À entrada do prédio de Fedra, começou a ensaiar um personagem para exibir á frente da filha dela. O nervosismo só aumentava e a frase (não sei o que fazer) ecoava na sua mente perturbada. Subiu dois lances de escada e no andar de Fedra, lá estava ela á porta. O sorriso de sempre e que acalmava. Largou a mala e sem pressa deixou-se ficar no abraço que a recebia.
-Estás aqui! - Exclamou Fedra como se fosse algo monumental.
Sabrina apertou-lhe contra o seu corpo, cheirando-lhe a pele, o cabelo...que lugar bom...
-Meu bem, para...estou a cheirar a comida...
Fedra tentou esquivar-se, mas Sabrina a prendeu ainda mais forte nos seus braços. Riram alto.
-Estás a cheirar a sorvete...sorvete de manga? - Sabrina beijou-lhe rapidamente a boca.
-Acabei de levar uma sobremesa de manga para o congelador...teu olfato está muito apurado...
Sabrina beijou-a com muita vontade esquecendo completamente que estavam no corredor do andar de Fedra.
-Oohhh...faltou-me ar agora...que delicia, meu bem...que delicia...
Fedra puxou-a para dentro e com a porta de casa fechada, puderam se entregar a beijos cada vez mais ousados. Até que Sabrina se lembrou da filha dela e ficou com o corpo rígido.
-O que foi?
-A tua filha...meu Deus, que loucura...
Fedra sorriu e beijou-lhe uma das mãos com uma ternura que comoveu Sabrina...ainda mais.
-A Malia quando chega de férias vai direto para a casa da minha mãe. Eu já nem discuto...ela e aquela avó são almas gémeas...eu apenas a pari...
Risos.
-Ciumenta!
-Já me incomodou, não vou negar...na adolescência houve momentos de tensão, eu sempre achava que era péssima mãe, por trabalhar demais, por não estar com o pai dela...mas hoje em dia, eu adoro a relação delas. Mas ela vem...não sei quando, mas passa alguns dias no ninho da mãe.
-A ceia vai ser em casa da tua mãe?
-Hum-hum...há sempre revezamento entre as casas, mas quem mais lidera esse ranking é a minha mãe e tia Adélia.
Fedra passou a contar com detalhe e entusiasmo tudo o que acontecia na ceia. Quem levava o quê, a troca de presentes, as confusões que às vezes aconteciam, mas que sempre terminavam em gargalhadas. Apesar da alegria, não lhe passou despercebido o olhar confuso de Sabrina.
-Desculpa...estou aqui a atropelar-te com meu afã Natalino quando eu sei que tu não tens o mesmo animo...confesso que fiquei surpresa quando me disseste que vinhas...eu não tinha muita esperança de ser convincente...
-Devo admitir que me sinto um pouco deslocada...pensei em não vir, porque sinceramente não sei como me portar nesse tipo de confraternização quando na minha vida inteira, Natal quase sempre foi sinónimo de tristeza...descaso...mas acho que a saudade que eu tinha de ti conseguiu superar meu desconforto...- Desabafou esfregando uma mão no punho.
Fedra permaneceu encostada à parede olhando para Sabrina com olhos apaixonados. Respirou fundo, sorriu e pediu com um gesto que ela se aproximasse. Abraçou-a. Encaixaram-se milimetricamente e Sabrina pensou que talvez a ousadia não lhe custasse tanto.
-Eu não sei como me comportar com a tua família...com a tua filha...com tudo...- Sabrina soltou o ar ainda no abraço.
Fedra encarou-a com uma expressão séria e ainda assim, terna.
-Preciso ser honesta contigo. - Pausou. -Eu ainda não falei com a minha família sobre nós...e refiro-me à minha mãe e à Malia que são as pessoas a quem comunico as decisões da minha vida.
Sabrina sentiu o estômago apertar e um medo conhecido querendo se instalar no seu peito.
-Não contei porque ainda não encontrei a melhor forma...não por vergonha ou por querer esconder a nossa relação. Não quero que seja algo atravessado, mal explicado ou empurrado em cima de uma ceia de Natal.
Sabrina engoliu em seco.
-Mas não pretendo que isso seja um segredo por muito tempo. - Continuou Fedra muito segura de si. - Só não quero que seja de uma forma abrupta e que te atire a um lugar desconfortável.
-Então, - Sabrina hesitou. - Quem eu sou aqui? Na ceia?
-Alguém muito importante na minha vida. - Resposta rápida e carregada de verdade. - Não te vou pedir para te esconderes, nem vou te expor antes de eu mesma estar pronta para sustentar isso. Vamos decidir juntas como navegar nessas águas.
O nó na garganta de Sabrina ficou ainda mais apertado.
-Não estou habituada a alguém pensar comigo...- Confessou.
Fedra sorriu e beijou-lhe a testa sem pressa.
-Vais ter de te habituar, meu amor.
***
Ainda que estivesse um pouco mais relaxada, Sabrina desceu do carro em frente á casa da mãe de Fedra com o corpo tenso. A cada passo, soltava o ar com força como quem tenta ganhar fôlego.
-Se quiseres ir embora a qualquer momento, vamos. - Fedra segurou-lhe o braço com ternura. Sabrina sorriu e decidiu que enfrentaria qualquer medo. Tudo o que precisava era olhar para Fedra, a conexão entre os seus olhares funcionava sempre como calmaria.
Fedra abriu a porta com a sua chave e logo foram convidadas a um cenário novo: familiares, brindes, risos, conversas cruzadas, cheiro bom de comida, música, celebração.
-Minha querida, que bom ter-te aqui connosco no Natal. - Gracelina abraçou Sabrina que retribuiu.
-Muito obrigada! - Sabrina agradeceu num tom baixo e carregado de timidez.
-Mãe, a Malia? Queria apresentá-la à Sabrina...- Fedra piscou para Sabrina que tinha o coração aos pulos.
-Há alguns minutos ela estava ao telefone...está por aí. Sabrina, sinta-se em casa, preciso coordenar a cozinha. - Sorriu apertando as mãos de Sabrina.
-Vês? Ninguém morde...- Sussurrou Fedra.
-A tua mãe sempre foi muito simpática comigo...pensei que a casa fosse estar mais cheia...
-Ah, mais da metade da família, dos que cá vivem, foram passar as festas no estrangeiro com os parentes. Isso é mais uma tradição do meu povo...eu não entro nessa conta porque a minha mãe vive cá e a minha filha sempre vem...mas já aconteceu de irmos passar as festas com ela no estrangeiro.
Sabrina sorriu mais calma, ainda mais ao perceber que o objetivo daquele discurso de Fedra era exatamente acalmá-la.
-Malia, filha vem cá!
Malia abraçou e beijou a mãe com muita efusividade.
-Nunca mais chegavas, mas já entendi o motivo: que mulher mais linda, ah mãe, quando eu crescer eu quero ser exatamente igual a ti.
Risos com abraços.
-Exagerada! Muito obrigada. Essa é a Sabrina, uma amiga muito querida.
-Finalmente! - Malia deu dois beijinhos em Sabrina e encarou-a sorrindo. - Se bem que eu me lembro de ti...vagamente. Tu e a minha mãe decidiram competir quem será a mais bela da noite?
Gargalhadas altas.
-De tanto que a minha mãe fala de ti, eu já estava doida para associar um rosto às histórias. Sabes que eu lembro de vocês virem me buscar aqui na avó quando eu era uma pirralha? Eu me lembro de uma noite em que eu estava muito irritada com a minha mãe e tu me deste um pirulito...lembras?
-Sim...- A voz de Sabrina saiu meio rouca. - Sim, eu me lembro. Querias ficar aqui e ela não deixou...- Sorriu.
-Exatamente! Minha avó fazia todas as minhas vontades e a dona Fedra é o que é.
Gargalhadas.
-E parece que mesmo adulta, tu ainda preferes os mimos da avó...- Fedra fingiu indignação.
-Sabrina, tu ainda não foste vítima do ciúme peculiar dela?
Sabrina e Fedra se olharam e demoraram. A troca de sorrisos foi tão intensa que não passou despercebida à Malia.
-Hmmm, se entendi bem, tu já conheces os truques da dona Fedra para disfarçar o ciúme. - Riu.
-Malia, para. Eu não sou ciumenta!
-Tu disfarças muito bem...ah, não precisas ficar emburrada, nosso almoço de Natal está garantido. - Piscou para deleite de Sabrina.
-Ai de ti se não apareceres lá em casa...ai de ti.
***
A confraternização seguia no clima alegre de sempre e mais uma vez, Fedra, a mãe, e mais algumas parentes, se enfiaram na cozinha, onde o melhor acontecia.
-Adélia que nunca mais chega com aquele cabrito divino que só ela sabe fazer...
-A tia Adélia nunca se atrasa...terá acontecido alguma coisa? - Perguntou uma prima de Fedra.
-Nada, ela inventou de colocar algumas especiarias e de última hora percebeu que faltavam alguns e o resto todo mundo já sabe.
Risos.
-Mas ela já está a chegar...com o cabrito.
Risos.
Na sala, Sabrina conversava com Djaiss, primo de Fedra. Ele era muito simpático e espirituoso, e também se lembrava dela de outros tempos. A conversa oscilou entre trabalho, viagens e assuntos banais e leves. Riam tanto que qualquer um poderia facilmente achar que já eram amigos de longa data.
Tia Adélia chegou e como sempre, fez-se notar. Rapidamente dirigiu-se à cozinha onde foi muito bem-recebida. Ela e o bendito cabrito assado.
-Adélia, por pouco não chegavas para a ceia de 2026.
Gargalhadas.
-Sabes que ou entrego tudo, ou fico em casa. Meu cabrito está dos céus. Gracelina, fizeste o cuscuz com passas?
-Claro! E o Bernardo trouxe uma caixa de um vinho, que segundo ele, é de causar delírio no paladar e, obviamente, casa bem com o teu cabrito.
-Ah, então, para tristeza de todas, mais uma vez, ganharei o troféu de chef natalina.
Risos.
-Tia Adélia, lá na sala, todos estão ávidos pela tua iguaria e pelo bacalhau da minha avó. Queremos comer e não se esqueçam que tem gente nova na ceia...- Disse Malia entrando na cozinha de rompante.
-Gente nova? Ah esses meus sobrinhos que a cada ceia, trazem um par diferente...os solteiros, claro. Malia e tu?
-Eu o quê, tia?
-Namorado turco, claro!
-Turco? - Malia abraçou a mãe rindo.
-Tu não estudas na Turquia?
-Hungria e não tem húngaro, nem turco, nem nada...adoro a minha vida solta. - Piscou o olho.
-Bom, pelo menos tu ainda és jovem...podes tudo. - Desviou o olhar para Fedra. - Minha sobrinha, passei como um raio pela sala, mas pude ver que uma das novidades da ceia, é aquela...aquela moça tua amiga com quem estiveste em Rui Vaz.
Fedra percebeu o tom e limitou-se a sorrir. A tia não desistia...
-Ah, sim, a Sabrina. Eu que insisti para que ela viesse. Grande amiga da minha filha e minha também. - Gracelina lançou um olhar intenso para a irmã e Fedra notou, ainda que sem saber ao certo o que significava. - Vamos levar esse banquete logo para a sala? - Mudou de assunto.
-Vamos!
***
O jantar decorreu sem obedecer a protocolos definidos, onde cada um se serviu e comeu onde havia lugar para se sentar. Todos rasgaram elogios aos sabores dos pratos, cabendo unanimidade ao assado da tia Adélia. Fato mais do que suficiente para ela passar o resto da noite a se gabar e deixar Fedra em paz.
Malia e Fedra se deliciavam na sobremesa quando a menina fez uma observação que deixou a mãe um pouco intrigada.
-Mãe, já viste como o Djaiss está todo encantado com a tua amiga? - Sorriu levando mais um pedaço de bolo à boca. - Eles passaram grande parte da noite juntos e tu sabes como o Djaiss sabe ser galanteador.
-Achas mesmo que ele está interessado? - A pergunta veio num impulso que Fedra gostaria de ter controlado.
-Oh mãe, ela é linda, ele muito charmoso...olha como ele baba nela...a tua amiga é muito bonita, apesar do olhar triste...se bem que isso pode ser um charme e tanto...
-Tu tens cada uma, Malia...a cabeça sempre em contos de fada.
A menina riu alto batendo a cabeça negativamente.
-Nada disso, ninguém ali vai casar e viver feliz para sempre...mas que o Djaiss está doido para mergulhar naqueles olhos tristes, ah isso está.
Fedra riu mordendo o lábio, seus olhos fixos na cena que decorria perto dali.
-O Djaiss merece ser feliz depois daquela mulher doida. Ele está solteiro, logo, tua amiga tem livre transito.
-Mas...acho que ela não...- Mais uma vez Fedra falou mais do que queria e quase mordeu a língua.
-Ela não o quê?
-Não está solteira! - O tom saiu mais alto do que o habitual.
-Ok...- Malia levantou uma sobrancelha.
Alguém a puxou pelo braço e Fedra respirou fundo tentando recuperar o bom senso. Olhou para a cena que se desenrolava um pouco além e não teve dúvidas. Com passos tranquilos, caminhou para junto de Sabrina e do primo. Sabrina levantou os olhos e seus olhares de cruzaram. Ela sorriu de leve e seus olhos brilharam. Fedra quase voou para junto dela. Encostou-se sem pressa, um toque leve no braço de Sabrina que se inclinou discretamente e sussurrou-lhe ao ouvido:
-Não fiques tão longe de mim...
Fedra sorriu.
-Não vou. - Respondeu baixinho com o olhar num vaivém entre os olhos e a boca de Sabrina.
E ficaram juntas, pelo resto da ceia de Natal.
***
Entraram em casa já era madrugada. Sabrina respirou fundo e sentiu que podia relaxar. O silêncio e o cheiro da casa de Fedra eram sempre acolhedores. Tirou o sapato devagar e sentou-se no banco que ficava perto da porta. Com as costas encostadas na parede, deliciou-se com os movimentos de Fedra entre a sala e a cozinha. Ela ofereceu-lhe um copo de água que Sabrina aceitou sorrindo.
-Estás cansada?
-Um pouco...foi muito...
-Muito bom, ou muito intenso?
-Acho que as duas coisas - Respirou fundo. -Houve momentos em que só queria sair dali contigo.
Fedra levantou uma sobrancelha e apertou levemente o olho.
-Sair porquê?
Sabrina relaxou as costas ainda mais contra a parede, cruzou os braços sobre o abdómen tentando disfarçar a vergonha.
-Porque tive vontade de te beijar várias vezes - Riu - E não sei como me controlei e muito menos se um olhar mais atento não percebeu...
Fedra riu alto com a sensação de ser a mulher mais feliz do mundo.
-Ah... se fosses apenas tu - Aproximou-se um pouco mais dela. - Eu tive de me policiar o tempo todo para não me perder presa na tua figura. Criatura tu és bonita, mas hoje, o que se via ao olhar para ti era um absoluto exagero...só eu e meus guias sabemos o quão heroína eu fui.
Sabrina sorriu sentindo a face aquecer.
-Será que alguém percebeu alguma coisa?
-Não faço a mínima ideia...os mais velhos provavelmente não, estavam ocupados demais com as panelas e o ponto certo dos pratos...os mais jovens, quem sabe...minha filha, por exemplo, é muito atenta...
-Achas que ela percebeu alguma coisa? - perguntou Sabrina, pensativa.
-Peguei-a várias vezes a observar-me, mas acho que não deu para concluir nada. Ela estava encantada contigo e concluiu que o Djaiss está apaixonado por ti.
Sabrina riu, surpresa.
-O quê? Não!
Fedra hesitou. Houve um momento de insegurança real, quase infantil. Olhou para o chão antes de perguntar:
-Isso não existe...pois não?
Sabrina levantou-se sem pressa, caminhou até ela e levantou-lhe o queixo com dois dedos, com uma delicadeza que desarmou Fedra.
-Não! - respondeu com firmeza. - E se ele estivesse, não seria problema meu.
Seus olhares se cruzaram e a magia de sempre se instalou.
-Eu não sinto qualquer atração por homens, e estou completamente apaixonada pela mulher mais incrível que alguma vez conheci.
Fedra ficou com as pernas bambas, mas Sabrina a segurava com força. Ficou sem palavras e a respiração falhou seu curso normal por alguns segundos.
-Eu sei...eu sei que pareço uma idiota, mas repete...por favor, repete. - Pediu quase num sussurro.
-Faço melhor...
Puxou-a para si e se abraçaram. Forte. Tão apertado, como se uma quisesse literalmente entrar na outra. O beijo arrebatador, deixou Fedra com as pernas bambas e uma vontade de eternizar aquele instante para sempre. As bocas exploraram todos os sabores, dos lábios, das peles, numa intensidade que arrancava gemidos que vinham do âmago. Fedra usava um vestido que de repente estava aos seus pés. Sorriu ao se ver quase nua num rompante. Mas as mãos e a boca de Sabrina não lhe permitiam pensar, queria apenas senti-la, sentir-se viva. Chutou o vestido para longe com um dos pés, enquanto os lábios de Sabrina deixavam um rasto de calor pela sua barriga e as mãos deslizavam quentes e sábias por recantos do seu corpo que a deixavam ávida por mais. Explodiu de prazer ali mesmo, no meio da sala de casa. Uma entrega sem qualquer reserva, consequência de uma confiança construída e sustentada num sentimento que crescia e se sedimentava a cada dia, cada encontro.
Seu corpo ainda tremia de prazer quando sentiu-se deslizar até sentar-se nas pernas de Sabrina que a beijou com calma. Na boca, no colo, no lóbulo da orelha...descendo para os ombros. Sem pressa, quase uma tortura de prazer...que delicia. Abraçaram-se e ficaram.
-Meu bem...acho que estou com frio. - Sabrina sorriu escondendo a face nos cabelos de Fedra. - Tu estás toda arrepiada...- Deslizou a ponta dos dedos na pele dela.
-Hum-hum...estamos com frio, porque é dezembro, a porta da varanda está aberta e a temperatura resolveu descer nessa cidade.
Riram alto.
-Estou com frio! -Sabrina apertou-se ainda mais contra o corpo de Fedra que a acolheu.
-Vamos para cama, meu bem. O quarto está numa temperatura boa e temos cobertores...
Sorriram. Riram e se beijaram mais uma vez. O calor e a dança dos corpos já anteviam mais uma sessão de prazer, quando Sabrina, num rompante, levantou-se e puxou Fedra para o quarto.
-Ahhhhhhh...não...também não sei como tens tanto autocontrole. - Reclamou Fedra abraçada às costas de Sabrina.
A cama foi testemunha de mais uma entrega intensa de corpos que se desejavam e se entendiam nas minúcias.
Sabrina adormeceu nos braços de Fedra com o corpo em repouso. A alma estava tranquila, sem necessidade de se moldar ou de fugir. Ela estava inteira.
Fim do capítulo
Feliz Ano Novo a quem passar por aqui.
Abraço
Nadine H.
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HelOliveira
Em: 12/01/2026
Feliz 2026...
Sabrina se permitiu....no final deu tudo certo...
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