Capitulo 27
Capítulo 27
A verdade não é filha da autoridade, mas do tempo." - Francis Bacon
Diana levantou da cama após a noite mal dormida, o corpo cansado pedia repouso, mas a mente não permitia descanso. A imagem de Ana Carolina, o olhar de decepção, o gosto amargo da perda estava ali para lembra-la.
Ainda cedo, levantou-se em silêncio. Liz, desperta, a acompanhava com os olhos pelo quarto, esperando que a amiga dissesse algo. Mas Diana não falou nada. Após fazer sua higiene matinal, apenas abriu a porta e saiu.
Desceu as escadas com passos firmes, atravessou o corredor e foi direto para o escritório. Lá, espalhou sobre a mesa todos os papéis que tinha guardado: documentos entregues por sua mãe, registros recolhidos durante anos de investigação solitária, anotações rabiscadas em sua agenda. Cada folha parecia pesar toneladas, mas ela não hesitou.
Se já tinha perdido Carol, então iria se agarrar ao que lhe restava: limpar o nome de seu pai.
Diana não acreditava que Carol lhe daria qualquer oportunidade de explicar, muito menos de conversar. Diante disso, só havia um caminho - a verdade.
Ela se debruçou sobre os papéis, os olhos fixos, o coração apertado.
- Eu não vou deixar que a memória dele continue sendo enlameada... - murmurou para si mesma.
Poucos minutos depois, Liz apareceu à porta do escritório. Parou, observando a amiga mergulhada em meio aos documentos, os cabelos caindo sobre o rosto, as mãos trêmulas folheando páginas antigas.
- Di... - chamou, suavemente.
Diana não levantou os olhos. Continuou a vasculhar cada anotação, cada detalhe, como se buscasse respostas escondidas nas entrelinhas. Liz entrou devagar, aproximou-se da mesa e ficou em silêncio por alguns instantes, apenas olhando a amiga debruçada sobre o passado.
- O que você está procurando Di?
- O que eu devia ter feito desde o momento em que coloquei os pés nessa cidade.
- Você não pode carregar isso sozinha. - Disse, finalmente. - Se continuar assim, vai se perder antes mesmo de encontrar qualquer verdade.
Diana ergueu o olhar, cansado, mas firme.
- Eu já perdi, Liz. Perdi a Carol. Agora só me resta lutar pelo meu pai.
- Será que perdeu mesmo? Você não vai nem tentar conversa com ela?
- Para que? Acredita que ela vai me ouvir? Ela já deve ter ido falar para o avô dela quem sou eu, e como a filha do inimigo da família a usou....
- Diana! Você acredita mesmo que ela possa fazer isso?
Diana simplesmente fechou os olhos. Baixou a cabeça e fez sinal negativo.
- Di, dê um tempo a ela e a procure. Vocês precisam conversar seriamente.
Diana abaixou os olhos para os papéis, mas sabia que nenhuma verdade seria completa sem Carol. E isso a aterrorizava.
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Carol acordou com os olhos pesados, a cabeça latejando. O remédio que Alice lhe dera na noite anterior havia lhe arrancado algumas horas de sono, mas não trouxera descanso. A dor da traição batia forte na manhã seguinte, como se cada lembrança fosse uma ferida aberta.
No apartamento da amiga, o silêncio da manhã parecia sufocar. Alice preparava café na cozinha, tentando dar algum ar de normalidade, mas sabia que Carol não estava bem, para que ela pudesse descansar um pouco acabou administrando um calmante.
- Merda! Que viagem mais doida é essa.... Uma porr* de cicatriz! Sapatão complica demais a vida!
- O que você está falando aí Alice? Quem complica o que?
- Vocês !
- O que?
- A vida de sapatão é muito complexa, amiga! Sério, ainda tô impactada que você lembrou de uma cicatriz de infância! Uma cicatriz! E a outra é filha do homem que matou o teu pai, que por acaso do destino foi o médico responsável pela cicatriz!
Carol apenas olhava a amiga sem conseguir reagir.
- É sério! Isso cinema absoluto, essas coisas só acontecem com lésbica!
- Alice... eu não acredito no que estou ouvindo!
- Então somos duas. Porque eu ainda não acredito em tudo o que está acontecendo!
- Isso é hora de brincadeira Alice!
- Quem disse que eu estou brincando? Estou falando sério! É a maior viagem essa história toda! É Romeu e Julieta as avessas! Na verdade Julieta e Julieta!
Carol balançou a cabeça, lágrimas surgindo nos olhos.
- Dá pra falar sério?
- Eu estou falando sério! E de verdade não sei como acreditar numa história dessa!
Carol se sentou à mesa, os olhos baixos, a voz fraca.
- Eu não sei o que fazer, Alice...
Alice se aproximou, colocando a xícara diante dela.
- Você não precisa decidir tudo agora. Mas esconder não vai ajudar. Eu sei que posso parecer insensível ou que estou levando tudo isso na brincadeira, não estou! É que é algo tão estranho e diferente, que é impossível não se sentir impactada!
Carol balançou a cabeça, lágrimas surgindo nos olhos.
- Eu sei... Só que como vai ser quando meu irmão e minha mãe chegarem? Como vou falar isso pro meu avô?
Alice segurou sua mão com firmeza.
- Ele confiou em mim, sempre. Como vou olhar pra ele e dizer que me apaixonei pela filha do homem que destruiu nossa família?
- Você não escolheu se apaixonar, Carol. Isso aconteceu. O que você pode escolher agora é como enfrentar.
Carol respirou fundo, mas a voz saiu embargada.
- Eu me sinto fraca. Como se tivesse sido enganada, usada... e agora não sei se tenho forças pra encarar tudo isso.
Alice acariciou seus cabelos, tentando transmitir segurança.
- Você tem forças, sim. Só precisa acreditar. E quando chegar a hora, vai saber o que dizer.
Carol fechou os olhos, o coração apertado.
- Eu só queria que fosse diferente...
Alice a abraçou, apertando-a contra o peito.
- Eu sei. Mas fugir não vai mudar nada.
Carol sabia que não poderia esconder para sempre. Mais cedo ou mais tarde, teria que encarar não apenas Diana, mas também o avô - e isso a apavorava.
O relógio marcava pouco depois das oito quando Carol e Alice chegaram ao hospital. O corpo de Carol ainda carregava o peso da noite anterior, mas o dever chamava, não podia simplesmente se esconder - mesmo que a alma estivesse em pedaços.
No corredor principal, o movimento era intenso: pacientes, médicos, funcionários. Nesse momento Júlio, enfermeiro e amigo delas chegou com certa pressa.
- Carol, o Vereador Décio e a Secretária de Saúde estão no hospital.
- Puta merd*! Esses dois logo hoje? - Alice respondeu.
- A Secretária até entendo, mas, o que o digníssimo vereador veio fazer?
- Encher nossa paciência. - Alice murmurou.
Foi então que a voz áspera ecoou atrás delas:
- Ora, se não são as duas heroínas da moralidade pública... Bom saber o quanto o erário público está sendo bem aproveitado, as médicas ficam na porta do hospital fofocando, no lugar de atender o povo que as espera.
Carol se virou, o olhar imediatamente endurecido. Alice cruzou os braços, pronta para o embate.
- Fofocando? Acredito que o nobre vereador deva estar enganado. E quanto ao uso o mau uso erário público, o senhor entende bem, não é?
- Cuidado Dra Medeiros de Alcântara, não esqueça que você é uma servidora pública, e como tal posso enquadrá-la nos rigores da lei, prevaricação pode muito bem ser atribuída as duas. - Décio disse entredentes.
- E por que estou prevaricando? Estou apenas conversando com o nobre vereador que por acaso é um servidor público também, eleito pelo povo e que também pode ser enquadrado nos rigores da lei.
Décio se aproxima de Ana Carolina que não se mexe. Alice então separa os dois e se coloca a frente da amiga.
- Por favor, vereador, se afaste. Isso pode ser considerado assedio a um servidor público.
- Ora sua....
- O que está acontecendo aqui Décio? Dras. Ana Carolina e Alice? - A Secretária de Saúde chega dizendo ao lado dos três que se olhavam com raiva. - Vamos até a sala ao lado, agora os três.
Todos seguem até a sala enquanto são observados por todos que estavam observando a pequena confusão na entrada do hospital.
Ao fechar a porta, Ângela Camargo, secretária de saúde da cidade e esposa de Décio, se vira para os três e pergunta: - Vocês enlouqueceram? Bater boca na frente da população e no hospital da cidade? Um vereador e duas médicas?
- Ângela, essas duas que começaram. Estavam falando de mim enquanto chegaram atrasadas, se acham mais do que o que são, uma por ser neta de quem é, e a outra por ser a amante dela!
- É que? Eu deixei de ser médica, pra virar amante? Quem você acha que é pra falar assim comigo?
- Olha como fala comigo e com a Alice!
- Décio! Pelo amor de Deus!
- O quê? Só falei o que todos falam e ninguém tem coragem de falar!
- Olha aqui, seu hipócrita de merd*, não sou amante nem da Carol e nem de ninguém, ralei pra caramba pra ser médica e não vou deixar um nepo baby do interior tirar onda com a minha cara, não.
- Nepo o que? Olha o que essa daí ta me chamando Ângela!
- Quer parar Décio! Você está errado aqui. A vida pessoal das pessoas não está em discussão. E elas não estão atrasadas, chegaram até mais cedo, sei bem dos horários dos meus médicos.
- Pode esperar vereador que isso não vai ficar assim, não. E quanto a senhora secretária, acho melhor andar melhor acompanhada, o seu digníssimo esposo antes da sua chegada estava ameaçando a mim e a Dra Alice.
- Já que estão os três aqui, essa não é a primeira vez que vocês têm uma discussão pública, isso aqui é um hospital, não um ringue, a briga tola das famílias de vocês dois fica da porta para fora deste hospital. Isso fique muito claro para ambos!
- Deveria falar isso para o seu marido, Ângela, é ele que vem importunar aqui e pode ter certeza que ou ele pede desculpas a mim e a Alice, ou vai ser processado e isso não vai cair bem para quem tem tantas pretensões políticas.
- Não me ameace sua... Você não sabe do que sou capaz!
- Meça suas palavras Camargo! Você pode gritar com seus capachos, ou com quem tem medo de você, e eu não sou eles.
Décio ficou vermelho, os dentes trincados, o olhar faiscando de raiva.
Ângela respirou fundo, encarando o marido com firmeza.
- Chega, Décio! Você não pode ameaçar duas médicas, ainda mais as melhores cirurgiãs que este hospital tem. Se for para dar espetáculo, faça isso sozinho, porque eu não vou compactuar com esse tipo de show.
- Ângela... Essas duas e você não sabem...
- Nem termine essa frase Décio, sei muito bem quem é você. - Ela rebateu, sem hesitar. -E no momento, estou lidando com um vereador que insiste em transformar política em perseguição pessoal. E não vou permitir que isso aconteça dentro do hospital.
Décio estava de mãos fechadas e dentes trincados. O silêncio que se seguiu foi pesado. Carol e Alice se entreolharam, ainda tensas, mas aliviadas por ver Ângela se posicionar.
Ângela virou-se para elas.
- Podem voltar ao trabalho. Eu me encarrego de resolver isso. Peço que não levem adiante nenhum processo ou boletim, vamos deixar as coisas quietas, por favor!
- Um pedido de desculpas em frente a todos que ouviram, é o mínimo.
- Se você acha que vou pedir desculpas a essas duas aí, está muito enganada Ângela.
- Então espere pelo processo administrativo vereador. - Alice disse e saiu, sendo seguida por Ana Carolina.
- Chega Décio! Chega! Não quero ouvir mais nada. Espero um pedido de desculpas formal as duas médicas, se não quiser ser processado, e não pense você que vou omitir alguma coisa ou mentir para te proteger. Se bem que o show que você deu lá fora, não será preciso mais nada.
Sem esperar resposta, Ângela saiu da sala com passos firmes. Décio permaneceu por alguns segundos, respirando fundo, como se tentasse conter a fúria. Depois, saiu também, mas com o olhar sombrio, remoendo cada palavra.
Enquanto caminhava pelo corredor, murmurava para si mesmo:
- Elas vão pagar por me enfrentar. Vão pagar caro, muito caro!
Fim do capítulo
Olá pessoal!
Desculpem pela demora, vou postar dois capítulos hoje!!!!
Gente, se tiver algum erro, perdoem... não tive tempo de corrigir...
E comentem... comentem... comentem... quero saber o que voces estão pensando sobre a história....
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Dinha Lins Em: 22/03/2026 Autora da história
O Décio é uma figura complicada...
Mas, ele é importante pra história....