Capitulo 4 - Janis é testada
Capítulo 4 – Janis é testada.
Moisés não gritou com Rebeca.
Ele preferiu agir.
Antes de ir ao trabalho, Moisés passou na casa de Rute, sua filha mais velha.
— Tenho uma missão para você. — Não era pedido. Era ordem. — Quero que vá buscar sua irmã na escola. Acompanhe-a até a casa de Janis. Quero que teste o conhecimento musical daquela menina. — falou a palavra se disfarçar o desdém. – Quero ter certeza de as aulas estão no caminho certo.
Rute entende o que está em jogo.
Não era sobre música.
Era sobre vigilância.
***
Rebeca se assustou ao ver Rute esperando por ela na saída da escola.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou.
Rute era irmã de Rebeca. Cinco anos mais velha. Era professora de música, tocava na igreja e era casada com Josué, pastor assistente da Comunidade.
- Depende. – Rute cruzou os braços e deu um meio sorriso. – Se você for uma boa professora de música... Vai ficar tudo bem!
Janis se aproximou e encarou Rute com curiosidade.
-Mas se não for. – Rute examinou Janis com cuidado. – As duas estarão encrencadas.
- De que está falando? – Janis perguntou.
- Papai me pediu para testar você. – Rute descruzou os braços e ajeitou os longos cabelos com as mãos. – Quer ter certeza de que as aulas de Rebeca estão dando resultado.
Rebeca sentiu como seu um buraco tivesse se aberto embaixo de seus pés.
- Bora lá! – Janis falou com naturalidade – Na minha casa ou na sua?
- Na sua. – Rute respondeu.
- Ótimo. – Janis começou a andar. – Assim você pode fazer o serviço completo e revistar o lugar.
- Engraçadinha. – Rute seguiu Janis e Rebeca ficou para trás.
Não havia dado uma única aula para Janis. Ela não sabia nada sobre escalas, exercícios e
método.
- Vem logo, fedorentinha. – Rute gritou por ela.
Rebeca sentiu o estômago apertar. E seguiu com passos vacilantes.
Janis abriu a porta como se estivesse recebendo uma visita real.
— Bem-vinda ao meu humilde lar.
- Você não é nada debochada, não é? – Rute resmungou.
- Faz parte do meu charme. – Janis largou a mochila de qualquer jeito e foi direto para o quarto.
— Fique aqui — Rute disse para Rebeca, apontando para o sofá.
Rebeca abriu a boca para argumentar, mas Rute a calou com o olhar.
- Conhece o procedimento tão bem quanto eu. – falou.
Não era grosseria.
Mas para Rebeca soou como sentença.
Rute rumou pelo corredor.
Rebeca ouviu a porta do quarto fechar.
O som do teclado começou.
Escalas.
Rebeca sentiu o estômago afundar.
“Se Janis errar…
Se Rute perceber…”
O coração acelerou. Ela levantou, andou pela sala.
Parou.
Sentou.
Levantou de novo.
O som do teclado continuava.
Uma escala.
Outra.
Silêncio.
Depois um hino.
Rebeca fechou os olhos.
“Ela não vai conseguir.”
Mas as notas vieram firmes.
Não perfeitas.
Mas seguras.
Isso a confundiu ainda mais.
Ela precisava fazer alguma coisa com a energia que crescia dentro dela.
Olhou em volta.
Na estante da sala, entre livros e revistas em quadrinhos antigas, estava um caderno.
Capa simples, decorada com adesivos de bandas. As mesmas bandas que Rebeca aprendera a admirar por causa de Ester.
Aquele caderno havia sido feito para Rebeca. Um presente de Janis, para ser usado na escola.
Rebeca sabia que Moisés nunca aprovaria um caderno mundano como aquele. Então, ela o deixou ali. Na casa de Janis, para que pudesse ficar seguro.
Rebeca folheou. Nada tinha sido escrito nele ainda.
Era só papel em branco.
Rebeca pegou uma caneta.
As mãos tremeram um pouco.
Sentou no chão.
Encostou as costas no sofá.
Abriu na primeira página em branco.
A caneta falhou na primeira tentativa.
Ela respirou fundo.
E escreveu.
“Estávamos assistindo Tubarão. Mas eu só conseguia pensar no mar. Como uma coisa tão grande podia caber num mundo tão pequeno como o meu?”
Parou.
Escutou as notas lá em cima.
“Eu sempre achei que o mar fosse exagerado.”
Continuou.
“Ele nunca é metade. Nunca é contido. Nunca é prudente.”
O coração começou a desacelerar.
“Ou ele avança, ou recua. Ou invade, ou espera. Mas mesmo esperando, ele continua sendo mar.”
Ela parou.
Mordeu a tampa da caneta.
“Talvez eu seja assim.”
Mais um acorde ecoou do quarto.
Ela escreveu mais rápido agora.
“Meu pai quer que eu seja poça. Pequena. Quietinha. Transparente. Fácil de atravessar.”
A letra ficou mais firme.
“Mas eu não sou poça.”
Respirou.
O hino terminou.
Silêncio lá em cima.
Ela escreveu a última linha antes que alguém aparecesse:
“Se eu for mar, que eu aprenda a escolher quando ser onda e quando ser profundidade.”
Fechou o caderno no exato momento em que Rute voltou para a sala.
Guardou o caderno de volta na estante e voltou para o sofá como se nada tivesse acontecido.
Rute a encarou com uma expressão neutra.
— Sua aluna está indo bem. — disse.
Rebeca assente.
Mas por dentro, algo mudou.
Não porque Janis passou.
Mas pelo que ela tinha acabado de escrever.
***
Rute fechou a porta do quarto atrás de si e indica o teclado.
Janis tomou posição.
Rute sentou na cama e cruzou as mãos no colo.
— Pode começar com escalas.
Janis começou.
Não perfeitas.
Mas consistentes.
Depois vieram os exercícios de coordenação.
Leitura simples.
Troca de acordes.
Janis errou pouco.
Rute pediu:
— Agora um hino.
Janis respirou.
E tocou.
Não com técnica refinada.
Mas com segurança suficiente para convencer.
Rute observou.
Não era boba.
Ela intuía que os encontros de Rebeca e Janis tinham pouco a ver com música.
Mas também sabia de outra coisa:
Janis não estava brincando.
O hino terminou. O silêncio substitui a melodia.
— Para uma iniciante… está bem — Rute disse.
Janis cruza os braços.
- Se tem alguma coisa a dizer. – falou- É melhor dizer logo.
Rute inclina levemente a cabeça.
— Pra que tudo isso?
Não era acusação.
Era pergunta real.
Janis finge não entender.
— Tudo o quê?
— Aulas. Postura. Hinos decorados.
Pausa.
— Você não faz nada pela metade.
Janis sustentou o olhar.
Ali não havia deboche.
— Seu pai te mandou fazer interrogatório também?
Rute quase sorriu.
— Não.
Pausa.
— Mas ela é minha irmã. E eu quero garantir que esteja segura.
Isso mudou o ar do ambiente.
Janis relaxou um pouco.
— Segura de quem?
Rute não respondeu de imediato.
Ela saiba a resposta.
— De tudo.
Janis pensou.
Olhou para o teclado.
— Eu não estou brincando com ela.
Rute observou a firmeza.
— Eu sei.
— Eu não estou tentando destruir a família de vocês.
— Eu sei disso também.
Silêncio.
Mais pesado agora.
Rute respirou fundo.
— Você entende que o mundo dela não é o seu?
— Eu entendo que o que seu pai quer que ela viva é menor do que ela.
A resposta veio rápida.
Sem ensaio.
Rute absorveu.
Janis continuou:
— Eu não quero que ela fuja. Eu quero que ela cresça.
Rute estudou aquela frase.
Não havia arrogância.
Havia convicção.
— E se crescer significar um caminho que não inclui você?
Essa pergunta ecoou a conversa de Ester.
Janis demorou um segundo.
Mas respondeu:
— Então eu vou saber que ela teve chance de fazer uma escolha por conta própria.
Silêncio.
Rute levantou.
Foi até a porta.
Antes de sair:
— Se você machucar minha irmã…
Janis completou, tranquila:
— Eu não vou.
Rute encara.
Avaliou.
E percebe algo que talvez Moisés nunca consiga perceber:
Isso não era rebeldia.
Era escolha.
Ela abriu a porta.
— Continue praticando.
Janis sorriu de canto.
— Sempre.
***
Rute e Rebeca caminharam lado a lado.
O silêncio entre as duas não era confortável — mas também não era hostil.
Rebeca sabia que a irmã queria dizer algo.
— Eu preciso que você seja honesta.
Rebeca cruzou os braços, defensiva.
— Eu estou sendo.
— Não. Não está.
Isso atingiu Rebeca.
Rute continua:
— Você acha que eu não vejo o jeito que você olha pra ela?
Silêncio.
— É o mesmo jeito que eu olho para o Josué.
Não havia acusação. Só reconhecimento.
Rebeca tentou desviar.
— Eu escolhi o meu caminho. - Rute continuou, calma. - E eu sempre coube nele.
Pausa.
— Você não cabe no que papai quer pra você.
Rebeca a encarou.
— O que eu não quero, é ver você acordar com trinta anos, casada, com filhos e perceber que passou metade da vida tentando ser alguém que não era.
Rebeca engoliu seco.
— Você está lutando em uma guerra sem escolher um lado.
Pausa.
— E não dá pra vencer uma guerra sem escolher de lado se quer ficar.
Rebeca tentou desviar.
— Eu não estou em guerra com ninguém.
Rute se aproximou um passo.
— Está sim. E você sabe.
O ar pesou.
— Se você continuar tentando agradar o pai enquanto vive o que vive com a Janis… você vai se partir no meio.
Essa era a ameaça real.
Não era o castigo.
Não era o escândalo.
Era a fragmentação.
— Então decide.
As palavras caíram como pedras.
— Decide se você quer ser a filha que ele imagina. Ou a pessoa que você é quando ele não está olhando.
Rebeca sentiu o coração acelerar.
Rute suavizou um pouco:
— Vai ter consequência de qualquer jeito.
Verdade crua.
— Ele não vai aceitar fácil. Talvez nunca aceite.
Pausa.
— Mas você precisa saber se está pronta para pagar o preço.
Silêncio.
Rebeca olhou para a própria casa.
Depois para a rua.
Depois para o céu começando a escurecer.
— E se eu escolher errado?
Rute respondeu com honestidade brutal:
— Escolher errado é escolher pelo medo.
— Eu não quero ser pequena — ela disse, quase num sussurro.
Rute sustentou o olhar.
— Então para de fingir que cabe.
E entrou na casa.
Fim do capítulo
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menteincerta
Em: 14/04/2026
Achei que a Rute seria uma megera, que obedeceria o pai de cabeça baixa e puniria a irmã. Me surpreendeu que seja uma mulher forte e convicta das próprias escolhas, que se sente bem consigo mesma no mundo que faz parte
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Elin Varen Em: 15/04/2026 Autora da história
Confesso que adorei ler isso!
A Rute realmente pode passar uma impressão no começo… mas tem muito mais ali do que parece à primeira vista.
Fico muito feliz que você tenha percebido a força e a convicção dela — ela é uma personagem que eu gosto muito de escrever.
Obrigada por ler com tanta atenção!