Capitulo 3 - Pequenos prazeres
Capítulo 3 – Pequenos prazeres
Elas caminharam lado a lado.
Janis com o fone pendurado.
Rebeca com a mochila ajustada demais nas costas.
— Castigo estendido — Rebeca disse, como quem comenta o clima.
Janis parou de andar por meio segundo.
— Por quê?
— Não cumprimentei a Dalila com entusiasmo suficiente.
Janis abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo e despejou uma torrente de palavrões.
— Eu odeio essa rua.
— Ele tirou o frango do meu prato. — Rebeca deu um meio sorriso. — Outra vez.
Janis olhou para ela como se tivesse ouvido um crime federal.
— Você tá brincando.
— Arroz e feijão.
— Isso é desproporcional.
— É pedagógico — Rebeca responde, seca.
Janis mastiga a indignação.
— Tá bem. No intervalo eu resolvo isso.
Rebeca franziu a testa.
— Resolve como?
Janis apenas sorriu.
— Confia em mim.
***
Janis atravessou o pátio em linha reta.
Rebeca estava sentada em um canto, com uma expressão tão aborrecida que os colegas da igreja preferiram manter distância.
Ester estava organizando papéis na sala dos professores.
Janis apareceu na porta.
— Mãe.
Ester nem levantou os olhos.
— Já gastou a mesada?
— Não é pra mim.
Agora ela olha para a filha.
— Tenho cara de caixa eletrônico?
Janis entrou e se encostou na mesa.
— Rebeca está impossibilitada de desfrutar os prazeres da vida.
Ester cruzou os braços.
— Tradução.
— Apenas o básico para ela não cair morta de fome.
Silêncio.
Ester avaliou a filha.
— O que aconteceu agora?
— Irmã Dalila.
Ester fechou os olhos por meio segundo.
Entendeu tudo.
Abriu a carteira e tirou algumas notas.
— Um salgado e um suco.
Janis sorriu.
— Dois salgados.
— Um e meio.
— Dois.
Ester segurou o olhar dela.
Depois acrescentou mais uma nota.
— Dois.
Pausa.
— Mas eu quero o troco.
Janis já estava saindo.
— A senhora não confia em mim?
— Não completamente.
— Sábia decisão. – A menina falou com um sorriso torto.
Janis entregou o salgado para Rebeca como se fosse um prêmio.
— Presunto e queijo.
Rebeca segurou o papel ainda quente.
— Você não precisava.
— Precisava sim.
Ela deu uma mordida grande.
Queijo derrete.
Massa crocante.
Rebeca fechou os olhos por um segundo.
— Obrigada.
Janis deu de ombros.
— Eu não vou deixar ninguém lhe punir por não ter cumprimentado aquela velha ridícula.
Rebeca ri.
E pela primeira vez naquele dia, comeu sem culpa.
***
No final das aulas, as duas deixaram a sala de aula apressadas e correram para a casa de Janis.
Naquele dia, Ester as seguiu. Geralmente, a mulher gostava de dar privacidade para as meninas, por isso, se demorava um pouco mais na escola.
Porém, por conta do castigo de Rebeca, Ester tinha uma missão a cumprir.
A porta estava destrancada.
Ester entra devagar.
Janis estava estirada no chão da sala, concentrada demais.
No papel, uma caricatura inconfundível:
Cabelo exagerado.
Olhos minúsculos.
Boca torta em desaprovação eterna.
— Quem é essa? — Ester perguntou, cruzando os braços.
Janis nem se assusta.
— Não se preocupa. – falou. Não vou pendurar o desenho no portão da Dalila como fiz nas vezes anteriores.
No sofá, Rebeca estava com o violão de Ester no colo.
Tentando.
Errando.
Recomeçando.
“Patience”
Os dedos ainda não obedeciam direito.
Mas a melodia era reconhecível.
Ester observou a cena inteira antes de dizer qualquer coisa.
— Vocês almoçaram?
Janis respondeu sem levantar a cabeça:
— Emoções fortes substituem nutrientes.
Ester sorriu e foi para a cozinha, assoviando a música que Rebeca tentava tirar no instrumento.
Abriu a geladeira.
— Não vou permitir que teu pai estrague toda a diversão da sua vida por conta de uma mulher mal-amada.
A frase saiu alta o suficiente para as duas ouvirem.
Rebeca ergueu os olhos.
— Que bom que alguém pensa assim.
Janis se ofendeu.
- Eu sou ninguém? – Perguntou.
- Você e minha prima e minha amiga. – Rebeca se defendeu. – É sua obrigação estar do meu lado.
Ester parou por meio segundo e apareceu na porta com a colher de pau na mão.
Observou a menina por alguns segundos.
— Você me lembra alguém.
Rebeca a encarou outra vez.
— Quem?
Ester encostou no batente.
— Madalena.
O nome caiu diferente.
Mais pesado.
Janis levantou a cabeça discretamente.
Rebeca não sabia muito sobre a mãe biológica de Rute e dela. Só fragmentos. Silêncios. Um retrato antigo guardado.
— Eu não sou nada parecida com ela — respondeu, quase defensiva.
— Não na conduta — Ester concordou. — Na intensidade.
Rebeca ficou quieta.
Ester continuou:
— Minha irmã sentia tudo em volume máximo. Amor, fé, culpa, esperança. Tudo grande demais para o próprio corpo.
Silêncio.
O molho borbulhava baixo.
— Ela amava seu pai como se amar fosse missão divina — Ester disse, sem rancor, mas sem romantizar. — E acreditava que precisava dar a ele um filho homem. Como se isso fosse prova de valor.
Janis parou de desenhar.
Rebeca apertou os dedos nas cordas do violão.
— E foi até às últimas consequências por isso.
A frase não veio acusatória.
Veio cansada.
— O que quer dizer? — Rebeca perguntou, embora soubesse.
Ester sustentou o olhar.
— Ela forçou o próprio corpo além do que devia. Gravidez atrás de gravidez. Promessas. Sacrifícios. Jejuns. Remédios que não precisava tomar. Tudo para cumprir uma expectativa que não era dela.
O ar ficou mais denso.
— E morreu.
Rebeca respirou fundo.
— Eu não vou chegar até às últimas consequências por um homem.
Saiu quase como desprezo.
Ester inclinou levemente a cabeça.
— Eu não disse isso.
A menina olhou para ela.
Desafiadora.
Ester atravessou a sala devagar.
Sentou na poltrona em frente.
— Mas acredito que você irá até às últimas consequências por você mesma.
Aquilo não era crítica.
Nem elogio.
Era constatação.
Rebeca sustentou o olhar por um segundo inteiro.
Depois respondeu, quase murmurando:
— Pelo menos isso é escolha minha.
Janis observava as duas como quem assiste a algo sagrado.
Ester sorriu, pequeno.
— Intensidade não é defeito, Rebeca. Só precisa de direção. Sua mãe se perdeu tentando caber na expectativa de outro. Você… — ela fez um gesto vago com a mão — parece incapaz de caber.
Silêncio.
Rebeca voltou os dedos às cordas.
Tocou duas notas longas.
— Eu não quero morrer tentando ser suficiente pra alguém.
Ester levantou-se.
— Então não morra.
Pausa.
— Viva sendo suficiente pra você.
A frase ficou suspensa no ar.
Janis foi a primeira a respirar de novo.
Rebeca não respondeu.
Mas tocou mais uma sequência de notas.
Mais firme.
Como se algo tivesse se alinhado.
***
Rebeca voltou para casa no fim da tarde.
O sol já estava descendo.
Ela ajeitou a mochila, respirou fundo e entrou.
Débora percebeu antes de qualquer palavra.
A pequena mancha vermelha no lado esquerdo da blusa.
Molho.
E o cheiro.
Não era da casa.
Era de fora.
— Rebeca… — a voz saiu baixa.
A menina olhou para baixo e viu a mancha.
Não se justificou.
Não mentiu.
Débora puxou a filha pelo braço, quase em desespero.
— Tira isso. Agora.
Rebeca obedeceu sem discutir.
Débora esfregou a mancha na pia da área de serviço como se estivesse apagando um crime.
— Ele vai perceber — murmurou.
— É só molho.
— Pra você é só molho.
Para Moisés, era desobediência.
Era afronta.
Era ingratidão.
Rebeca pegou uma blusa no varal e vestiu. Encostou na parede e observou a mãe lutando contra um pedaço de tomate.
Sentiu algo estranho no peito.
Não era culpa.
era pena.
— Mãe.
Débora não parou de esfregar.
— Eu não fiz nada errado.
A frase não era defensiva.
Era constatação.
Débora fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
Mas saber não protegeria Rebeca.
O portão bateu.
As duas congelaram.
Moisés.
O som dos passos dele era reconhecível.
Ritmo firme.
Sem pressa.
Sem hesitação.
Ele entrou pela cozinha.
Olhou primeiro para a mesa.
Depois para a pia.
Depois para as duas.
— Cheguei.
Débora forçou um sorriso.
— O jantar está quase pronto.
Ele observou Rebeca.
— Último dia de castigo — ele disse.
Rebeca assentiu com a cabeça.
Silêncio.
Ele se aproximou um pouco mais.
O nariz contrai levemente.
— Que cheiro é esse?
O mundo prendeu a respiração.
Débora respondeu rápido demais:
— Fiz molho mais cedo.
Ele a encarou.
Depois olhou para a blusa pendurada na torneira.
A pequena mancha ainda úmida.
Rebeca sustentou o olhar.
Não desafiou.
Mas não baixou.
Moisés entendeu.
Não precisava de explicação.
— Interessante — ele diz.
A palavra era fria.
Ele foi para o quarto trocar de roupa.
A tensão permaneceu na cozinha como fumaça invisível.
Débora encostou na pia.
— Por que você faz isso?
Rebeca respondeu baixo:
— Eu só almocei.
A simplicidade da frase dóia mais do que qualquer grito.
À mesa, ele anunciou:
— O castigo continua.
Débora ergueu o rosto.
— Mas hoje era o último dia.
— Era.
Ele olhou para Rebeca.
— Desrespeito não tem prazo fixo.
A menina segurou o olhar.
Tempo demais.
Ele percebeu.
— Se continuar olhando assim, fica sem jantar.
Ela baixou os olhos.
Um meio sorriso quase imperceptível.
Colocou uma garfada de arroz e feijão na boca.
Devagar.
Débora mastigou sem sentir gosto.
Moisés não explodiu.
Mas a guerra continuava.
Agora era silenciosa.
***
A noite caiu devagar na casa de Ester.
A lasanha já havia sido guardada.
A louça, lavada.
A televisão ligada em volume baixo só para preencher o silêncio.
Ester percebeu que Janis está quieta demais.
Não estava desenhando caricaturas.
Não estava falando alto.
Não estava implicando com ninguém.
Ela foi até o quarto da filha.
A porta estava entreaberta.
Ester empurrou devagar.
Janis estava sentada no chão, encostada na cama.
Lápis espalhados ao redor.
No colo, um desenho.
Rebeca.
Não caricatura.
Não exagero.
Rebeca séria.
Olhar fixo.
Intenso.
Havia outros papéis espalhados.
Outras versões dela.
Rindo.
Pensativa.
De perfil.
Ester encostou no batente.
— Quantas já são?
Janis não se assustou.
— Não contei.
Ester entrou e sentou na beirada da cama.
Observou o desenho mais recente.
— Você a desenha como se estivesse tentando entender alguma coisa.
Janis suspirou.
— Talvez eu esteja.
Silêncio.
Ester pegou um dos papéis do chão.
— Você sabe que ela pode não escolher você.
A frase não era dura.
Era serena.
Janis apertou o lápis entre os dedos.
— Eu sei.
— O caminho mais fácil para ela é o da Rute.
Casar.
Organizar.
Apaziguar.
Janis olhou para a mãe.
— Rebeca não é a Rute.
— Não é — Ester concordou. — Mas cansa lutar o tempo todo.
A menina ficou quieta.
O lápis riscou o papel sem formar nada.
Ester continuou:
— E se essa fase passar? Se ela acordar um dia e decidir que é mais simples obedecer?
Janis respondeu rápido demais:
— Ela não vai.
Ester sustentou o olhar.
— Você consegue viver com isso se acontecer?
A pergunta ficou suspensa.
Janis engole seco.
— Eu não quero pensar nisso.
— Mas precisa.
Ester não estava interrogando.
Estava preparando.
— Amar alguém é também aceitar que essa pessoa pode escolher um caminho que não inclui você.
Janis fechou os olhos por um instante.
— Eu não estou brincando, mãe.
— Eu sei.
— Eu não estou defendendo a Rebeca só porque é divertido irritar o pai dela.
Ester sorriu de leve.
— Eu sei.
Silêncio de novo.
Janis olhou para o desenho.
Passou o dedo pelo traço do rosto de Rebeca.
— Eu me apaixonei por ela antes dessa fase rebelde.
— Eu sei.
— E eu sei que ela pode voltar atrás.
A voz falhou um pouco, mas não quebrou.
— Mas eu não vou voltar atrás.
Ester observou a filha com atenção.
Ali não havia impulso adolescente.
Havia decisão.
— E se você perder?
Janis respirou fundo.
— Então eu vou saber que não foi porque eu não tentei.
Ester se levantou.
Ajoelhou na frente da filha.
— Amar alguém que está aprendendo a se encontrar é perigoso.
Janis deu um meio sorriso triste.
— Eu gosto de perigo.
Ester segurou o queixo da filha com delicadeza.
— Não é sobre perigo.
Pausa.
— É sobre dignidade.
Janis franziu a testa.
— Você não pode amar alguém se anulando. Se um dia ela escolher outro caminho, você precisa continuar sendo inteira.
A menina encarou a mãe.
— Você conseguiu?
A pergunta atingiu.
Ester demora um segundo.
— Eu aprendi.
Janis encostou a testa no ombro da mãe.
— Eu não quero que ela vire a Rute.
Ester passou a mão pelos cabelos da filha.
— Talvez ela não vire ninguém que você já conheça.
Silêncio.
Lá fora, um carro passou na rua.
A noite seguiu.
Janis olhou de novo para o desenho.
— Ela não está tentando ser rebelde.
— Não?
— Ela está tentando existir.
Ester sorriu, orgulhosa.
— Então ame a Rebeca por isso. Mas ame você também.
A frase ficou no quarto.
Suspensa.
Janis voltou ao desenho.
E pela primeira vez, acrescentou algo novo:
Não desenhou Rebeca olhando para frente.
Desenhou ela caminhando.
Como quem vai para algum lugar.
Mesmo que esse lugar ainda não incluísse Janis.
Fim do capítulo
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menteincerta
Em: 14/04/2026
Gostei da Ester e estou curiosa para entender a história da Madalena e da Debora
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Elin Varen Em: 15/04/2026 Autora da história
Fico muito feliz que você tenha gostado da Ester
E pode confiar: tanto a história da Madalena quanto a da Débora ainda vão aparecer com mais calma ao longo da trama.
Tem bastante coisa guardada aí…
Obrigada por acompanhar e por comentar!