Entre o Medo e o Batimento
Após muita insistência de Elisa, elas foram à uma clínica obstétrica, para que pudessem ser feitos os exames e averiguar se estava tudo bem com o bebê.
Ao entrar no ambiente, observou rapidamente os detalhes. O piso em porcelanato branco refletia o teto com uma perfeição quase cínica. Havia uma tela na recepção mostrando imagens relaxantes de florestas, mas o som ambiente era o tique-taque do relógio ao fundo, junto com um leve ronronar de ar-condicionado.
Após a bateria de exames, sentou na ponta de uma cadeira estofada na recepção, as pernas balançando como se tentassem fugir. Usava calça moletom, camiseta preta e tênis, o casaco jogado no colo. Elisa, ao lado, folheava distraidamente um documento digital em um tablet, como se estivesse numa reunião. Mas ela não estava calma, Lia sentia a tensão no jeito que ela segurava o aparelho.
— Você está com medo? — Lia questionou baixinho. Elisa a olhou surpresa por um momento. — Você está muito tensa.
— Só estou preocupada com o bebê. — Ela confessou com certo peso na voz.
— Tá tudo bem com o bebê, eu sinto que tá. Tenta ficar um pouco tranquila. Logo vamos ter certeza.
— Não acredito que ainda temos que esperar. Deveria ser mais rápido. — Elisa resmungou, balançando o pé impacientemente.
Antes que Lia pudesse responder mais alguma coisa, uma mulher surgiu na porta interna. Usava jaleco branco com detalhes em cobre nas mangas, cabelo preso em coque apertado e uma expressão que alternava entre maternal e pragmática.
— Liana Galenia? Pode entrar. — Disse com um sorriso acolhedor.
Lia respirou fundo, levantou e segurou o casaco com a mão como se fosse uma proteção simbólica contra o ambiente. Elisa a acompanhou em silêncio, após cumprimentar a médica com um aceno leve de cabeça.
O consultório era asséptico, mas havia um tom bege nas paredes e um aquário silencioso no canto, que tentava trazer um tom acolhedor.
— Fiquem à vontade para sentar. — Dra. Marilda falou sentando em sua poltrona. Lia e Elisa sentaram a sua frente.
— Então, doutora? Estamos muito apreensivas. O que os exames dizem? — Elisa questionou, inquieta.
— Os resultados dos exames mostram uma queda significativa de algumas vitaminas, principalmente B12, D, ferro e magnésio. Nada alarmante, mas o bastante pra justificar seu cansaço, suas alterações de humor e até essa insônia que você mencionou. — Respondeu, direcionando o olhar para Lia no final da fala.
Lia assentiu, ouvindo atentamente. Antes da médica continuar, trocou um rápido olhar com Elisa.
— Também houve alterações hormonais coerentes com o início da gestação, claro, mas alguns níveis estão mais baixos do que deveriam. A perda súbita da magia impactou o metabolismo de formas que o corpo ainda está tentando compensar. Seu corpo não funciona exatamente como o corpo humano. Mesmo sem a magia funcionar, seu corpo é mágico e por isso responde de formas diferentes e isso tem ajudado bastante. Você estaria bem mais afetada, se não fosse por isso. Para que possa se sentir melhor, vamos iniciar uma suplementação reforçada.
— Claro, vamos sim. — Elisa falou, enquanto Lia permanecia em silêncio. — Doutora, sobre o remédio que ela está tomando? Pode continuar? Está considerando ele nessa suplementação?
— Sim, e pode. Melhor minimizar os danos nesse momento. As visões e alucinações vinculadas ao mundo prisão podem piorar o seu quadro. Não tem contraindicação, mas caso identifique sintomas adversos na utilização contínua não deixe de me informar.
— Claro… E o bebê, Dra. Marilda? Está saudável? — Elisa questionou, ansiosa.
— Sim, está tudo bem com o bebê. Está crescendo como esperado e está forte, não se preocupem.
Lia suspirou e assentiu, aliviada. Elisa acompanhou a reação ao seu lado. Dessa vez, Lia pareceu que ia falar algo, mas exitou.
— Tem alguma dúvida, Lia? Sei que é um momento difícil, mas seu bebê está bem e você também, precisam apenas de alguns cuidados comuns para uma gestação. — A doutora a tranquilizou.
— Só fico com medo de tudo dar errado e acabar machucando o bebê. Ele não tem culpa de ter uma mãe quebrada. — Lia falou, olhando um ponto qualquer no chão, entre os pés.
— Entendo seu medo, é natural. Você está grávida, sem magia, lidando com uma carga emocional intensa e ainda tentando ser a mesma pessoa de antes. Mas você não está quebrada, está só mais humana do que nunca foi antes e isso te assusta. Além disso, está grávida é natural e seu corpo está mais do que preparado para isso. Com magia ou sem. — A médica falou com firmeza, mas sem dureza. — No entanto, isso é temporário. A questão da sua magia, logo vai retornar, mas você tá indo bem sem ela e tenho certeza que vai continuar.
As palavras da médica pegaram Lia desprevenida. Foram um choque de realidade que não esperava receber naquele momento. Ela deixou o corpo cair um pouco pra trás.
— Você tem razão… — Lia constatou, olhando nos olhos da médica. — Mas você me perguntou se tenho dúvidas, então… Quando passei pelo problema da corrupção do meu sangue… Ainda não sabia que estava grávida quando aconteceu, fiquei alguns dias daquele jeito. Toda aquela magia negra não afetou o bebê de alguma forma?
— Lia, de acordo com os exames e a análise, tudo está dentro da normalidade, com exceção da deficiência de vitaminas. Não foi identificado nenhuma alteração visível. Os batimentos estão estáveis. O útero está respondendo bem. Não se preocupe, estaremos acompanhando de perto, por isso é importante que compareça a todas as consultas. — A médica fez uma pausa, tirando os óculos e os segurando com as duas mãos antes de continuar. — Mas o emocional da gestante interfere mais do que se imagina. Cuidar de você é cuidar do bebê também. Certo?
— Certo. — Lia falou, tentando alcançar a mão de Elisa ao seu lado, como um instinto.
A médica deu mais algumas orientações, receitas e recomendou que ela voltasse em duas semanas. Quando saíram do consultório, Elisa não falou nada por alguns minutos. Caminhavam lado a lado, Lia com os olhos fixos nos próprios pés, até que, já no elevador, a Fênix soltou um suspiro aliviado.
— Me sinto mais leve depois dessa consulta.
— Eu também me sinto. — Elisa compartilhou o sentimento. — E me sinto ainda mais aliviada por te ver mais tranquila em relação a isso.
Lia se virou para ela, o olhar um pouco mais quente.
— Obrigada por cuidar de mim.
— Não tem do que agradecer. Inclusive, eu gosto muito quando você me deixa cuidar de você. É sempre um prazer.
— Mesmo quando eu tô um porre?
— Especialmente quando você tá um porre. — Elisa sorriu de canto. — Eu amo um desafio, lembra?
Lia não respondeu, apenas sorriu, enquanto andavam em direção ao carro para sair dali.
Fim do capítulo
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